O método para desfrutar da
felicidade completa
na velhice
Relato pessoal de Luigi Cornaro (1464–1566)
gérard Wenker, 2019
https://alertevotrecorpsvousparle.blogspot.com/2019/04/la-sante-cette-inconnue.html
terceiro discurso:
IVª PARTE
resumo
O autor, já com 91 anos, afirma viver com excelente
saúde física e mental graças a uma vida de moderação alimentar e disciplina.
Defende que o homem pode alcançar uma velhice feliz e saudável — um verdadeiro
“paraíso terrestre” — mesmo depois dos 80 anos, desde que adopte hábitos
sóbrios e equilibrados.
Segundo ele, a partir dos 40
anos torna-se necessário mudar o modo de vida, reduzindo excessos na comida e
na bebida e passando a agir mais segundo a razão do que segundo os desejos.
Acredita que muitos males da velhice resultam da falta de moderação.
Embora reconheça que viver
com sobriedade exige esforço, considera essa tarefa nobre e possível para
qualquer pessoa. Afirma ainda que, na velhice, o homem pode libertar-se das
paixões e viver em paz consigo mesmo, chegando ao fim da vida serenamente e sem
medo da morte.
Por fim, rejeita as críticas de quem considera
impossível seguir esse estilo de vida e insiste que a sua experiência prova que
qualquer homem pode beneficiar da temperança e alcançar uma vida longa,
saudável e virtuosa.
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texto
Para começar, devo dizer-vos que, tendo atingido a idade de 91 anos, estou
mais saudável e vigoroso do que nunca, para grande espanto de todos os que me
conhecem.
E, uma vez que
conheço a razão disso, considero ser meu dever mostrar que o homem pode
desfrutar do paraíso terrestre depois dos 80 anos; mas que isso só pode ser
alcançado através de uma rigorosa moderação alimentar.
Devo também dizer-vos que, nos últimos dias,
recebi a visita de vários doutos académicos da universidade, médicos e
filósofos, que estavam bem informados acerca da minha idade, do meu modo de
vida, das minhas ocupações e também do facto de eu ser robusto, saudável,
enérgico e de os meus sentidos, a minha voz, os meus dentes, a minha memória e
o meu discernimento se encontrarem em perfeito estado.
Sabiam que
trabalho 8 horas por dia a escrever, pela minha própria mão, tratados sobre
temas úteis à humanidade, e que passo ainda muito mais tempo a caminhar e a
cantar.
Na verdade, esses médicos e filósofos disseram-me que era quase milagroso
que, na minha idade, eu ainda fosse capaz de escrever sobre assuntos que exigem
simultaneamente discernimento e espírito.
Acrescentaram que eu não deveria ser considerado um homem idoso, uma vez
que todas as minhas actividades são as de um jovem, e que sou completamente
diferente das pessoas de 70 ou 80 anos cuja vida está arruinada por diversos
males e doenças.
Se, por feliz acaso, essas pessoas escaparam a esses problemas, muitas
vezes os seus sentidos enfraqueceram: a visão, a audição ou então a memória
apresentam falhas, e todas as suas faculdades estão consideravelmente
deterioradas. Não são fortes nem alegres como eu.
Disseram ainda que me consideravam como alguém que beneficia de uma graça
especial.
Disseram-me
muitas outras coisas eloquentes e excelentes.
Expliquei-lhes que toda a humanidade poderia igualmente desfrutar dessa
mesma felicidade e que eu não sou senão um simples mortal como todos os outros,
excepto pelo facto de ter nascido mais frágil e de não possuir aquilo a que se
chama uma constituição forte.
A partir dos 40 anos, torna-se necessário mudar o
modo de vida
Na juventude, o homem tende mais a obedecer aos sentidos do que à razão.
Mas, quando chega aos quarenta anos, ou até antes, deveria lembrar-se de que
acaba de atingir o cume da colina e que deve agora iniciar a descida,
carregando consigo o peso dos anos.
Deveria tomar consciência de que a velhice é o contrário da juventude, tal
como a ordem é o contrário da desordem.
Consequentemente, deveria mudar absolutamente o seu modo de vida no que diz
respeito à qualidade e à quantidade dos alimentos e das bebidas, pois é
impossível que aquele que cede sem restrições ao seu apetite permaneça saudável
e livre de doenças.
Foi precisamente para evitar esse vício e os seus maus efeitos que decidi
adoptar uma vida regrada e sóbria.
Agi como um homem prestes a empreender algo
importante, que sabe poder realizá-lo apesar das dificuldades. E sabe que pode
facilitar consideravelmente a sua tarefa mantendo-se concentrado no seu
objectivo.
Abandonei pouco a pouco a vida desregrada para me conformar às regras
rigorosas da temperança. Pouco tempo depois, descobri que uma vida sóbria e
moderada já não me era desagradável, ainda que, devido à minha fragilidade
natural, tenha sido obrigado a seguir um regime alimentar muito restrito.
Outros, que têm a sorte de possuir uma constituição robusta, poderiam
variar os alimentos e comer um pouco mais.
Cada homem é o seu próprio guia nesta matéria; deve consultar sempre o seu
discernimento e a sua razão, mais do que os seus desejos ou o seu apetite, e
respeitar firmemente as regras que estabeleceu para si mesmo, pois terá pouca
vantagem se voltar ocasionalmente aos excessos.
Viver com sobriedade é uma
tarefa difícil, mas gloriosa e realizável
Depois de ouvirem estes argumentos e de
examinarem as razões em que se fundamentavam, os médicos e os filósofos
reconheceram que tudo o que eu dizia era inteiramente verdadeiro.
Um dos mais jovens disse-me que eu parecia beneficiar de uma graça
especial, pois conseguira abandonar facilmente um modo de vida para adoptar
outro — algo teoricamente possível, mas difícil de pôr em prática. A prova
disso era que, para ele, tinha sido difícil, mas para mim fácil.
Respondi-lhe que, sendo eu um ser humano como
ele, também achei a tarefa difícil; mas disse para comigo mesmo que um homem
não deve recuar perante uma tarefa gloriosa e realizável por causa das
dificuldades que ela apresenta.
Quanto maiores forem os
obstáculos a superar, maiores serão a honra e os benefícios.
Depois dos 70 anos, o homem pode libertar-se das suas inclinações sensuais
e conformar-se inteiramente aos preceitos da razão. O vício e a imoralidade
abandonam-no então, e ele deveria viver plenamente na maturidade da sua idade.
Todos aqueles que atingem o seu limite natural deveriam terminar os seus
dias sem doença e morrer apenas por dissolução natural: as rodas da vida
parando suavemente de girar, e o homem deixando este mundo em paz — como
acontecerá comigo, pois estou certo de que morrerei dessa forma.
Assim, os pensamentos da morte não me perturbam minimamente, nem qualquer
outro pensamento que deles decorra. Que bela é a minha vida! Que fim feliz
terei!
O jovem doutor nada teve a responder a isto,
excepto que seguiria o meu exemplo.
O meu modo de vida está ao alcance de qualquer
homem
Alguns sensualistas dizem que perdi o meu tempo ao escrever um tratado
sobre a moderação e outros discursos sobre o mesmo tema, alegando que é
impossível conformar-se a tais princípios.
Para eles, o meu tratado serve tão pouco o seu propósito como o de Platão
sobre o Governo, porque ele se deu a muito trabalho para recomendar algo
impraticável.
Isto espanta-me bastante, dado que podem ver que adoptei uma vida sóbria
durante muitos anos antes de escrever este tratado. Nunca o teria redigido se
não estivesse convencido de que este modo de vida estava ao alcance de qualquer
homem.
Além disso, sendo o objectivo alcançar uma vida virtuosa, isso deveria
prestar-lhes pois um grande serviço.
Felizmente, tenho a satisfação de ouvir que muitos decidiram adoptar o meu
modo de vida depois de terem lido o meu tratado.
Assim, a objecção feita ao tratado de Platão sobre o governo nada tem a ver
com o meu. Mas o sensualista é inimigo da razão e escravo das suas paixões.
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