Thursday, May 7, 2026

 

O método para desfrutar da felicidade completa

na velhice

Relato pessoal de Luigi Cornaro (1464–1566)

gérard Wenker, 2019

https://alertevotrecorpsvousparle.blogspot.com/2019/04/la-sante-cette-inconnue.html

terceiro discurso:

IVª PARTE

resumo

O autor, já com 91 anos, afirma viver com excelente saúde física e mental graças a uma vida de moderação alimentar e disciplina. Defende que o homem pode alcançar uma velhice feliz e saudável — um verdadeiro “paraíso terrestre” — mesmo depois dos 80 anos, desde que adopte hábitos sóbrios e equilibrados.

Segundo ele, a partir dos 40 anos torna-se necessário mudar o modo de vida, reduzindo excessos na comida e na bebida e passando a agir mais segundo a razão do que segundo os desejos. Acredita que muitos males da velhice resultam da falta de moderação.

Embora reconheça que viver com sobriedade exige esforço, considera essa tarefa nobre e possível para qualquer pessoa. Afirma ainda que, na velhice, o homem pode libertar-se das paixões e viver em paz consigo mesmo, chegando ao fim da vida serenamente e sem medo da morte.

Por fim, rejeita as críticas de quem considera impossível seguir esse estilo de vida e insiste que a sua experiência prova que qualquer homem pode beneficiar da temperança e alcançar uma vida longa, saudável e virtuosa.

------------------------------

texto

Para começar, devo dizer-vos que, tendo atingido a idade de 91 anos, estou mais saudável e vigoroso do que nunca, para grande espanto de todos os que me conhecem.

E, uma vez que conheço a razão disso, considero ser meu dever mostrar que o homem pode desfrutar do paraíso terrestre depois dos 80 anos; mas que isso só pode ser alcançado através de uma rigorosa moderação alimentar.

Devo também dizer-vos que, nos últimos dias, recebi a visita de vários doutos académicos da universidade, médicos e filósofos, que estavam bem informados acerca da minha idade, do meu modo de vida, das minhas ocupações e também do facto de eu ser robusto, saudável, enérgico e de os meus sentidos, a minha voz, os meus dentes, a minha memória e o meu discernimento se encontrarem em perfeito estado.

Sabiam que trabalho 8 horas por dia a escrever, pela minha própria mão, tratados sobre temas úteis à humanidade, e que passo ainda muito mais tempo a caminhar e a cantar.

Na verdade, esses médicos e filósofos disseram-me que era quase milagroso que, na minha idade, eu ainda fosse capaz de escrever sobre assuntos que exigem simultaneamente discernimento e espírito.

Acrescentaram que eu não deveria ser considerado um homem idoso, uma vez que todas as minhas actividades são as de um jovem, e que sou completamente diferente das pessoas de 70 ou 80 anos cuja vida está arruinada por diversos males e doenças.

Se, por feliz acaso, essas pessoas escaparam a esses problemas, muitas vezes os seus sentidos enfraqueceram: a visão, a audição ou então a memória apresentam falhas, e todas as suas faculdades estão consideravelmente deterioradas. Não são fortes nem alegres como eu.

Disseram ainda que me consideravam como alguém que beneficia de uma graça especial.

Disseram-me muitas outras coisas eloquentes e excelentes.

Expliquei-lhes que toda a humanidade poderia igualmente desfrutar dessa mesma felicidade e que eu não sou senão um simples mortal como todos os outros, excepto pelo facto de ter nascido mais frágil e de não possuir aquilo a que se chama uma constituição forte.

A partir dos 40 anos, torna-se necessário mudar o modo de vida

Na juventude, o homem tende mais a obedecer aos sentidos do que à razão. Mas, quando chega aos quarenta anos, ou até antes, deveria lembrar-se de que acaba de atingir o cume da colina e que deve agora iniciar a descida, carregando consigo o peso dos anos.

Deveria tomar consciência de que a velhice é o contrário da juventude, tal como a ordem é o contrário da desordem.

Consequentemente, deveria mudar absolutamente o seu modo de vida no que diz respeito à qualidade e à quantidade dos alimentos e das bebidas, pois é impossível que aquele que cede sem restrições ao seu apetite permaneça saudável e livre de doenças.

Foi precisamente para evitar esse vício e os seus maus efeitos que decidi adoptar uma vida regrada e sóbria.

Agi como um homem prestes a empreender algo importante, que sabe poder realizá-lo apesar das dificuldades. E sabe que pode facilitar consideravelmente a sua tarefa mantendo-se concentrado no seu objectivo.

Abandonei pouco a pouco a vida desregrada para me conformar às regras rigorosas da temperança. Pouco tempo depois, descobri que uma vida sóbria e moderada já não me era desagradável, ainda que, devido à minha fragilidade natural, tenha sido obrigado a seguir um regime alimentar muito restrito.

Outros, que têm a sorte de possuir uma constituição robusta, poderiam variar os alimentos e comer um pouco mais.

Cada homem é o seu próprio guia nesta matéria; deve consultar sempre o seu discernimento e a sua razão, mais do que os seus desejos ou o seu apetite, e respeitar firmemente as regras que estabeleceu para si mesmo, pois terá pouca vantagem se voltar ocasionalmente aos excessos.

Viver com sobriedade é uma tarefa difícil, mas gloriosa e realizável

Depois de ouvirem estes argumentos e de examinarem as razões em que se fundamentavam, os médicos e os filósofos reconheceram que tudo o que eu dizia era inteiramente verdadeiro.

Um dos mais jovens disse-me que eu parecia beneficiar de uma graça especial, pois conseguira abandonar facilmente um modo de vida para adoptar outro — algo teoricamente possível, mas difícil de pôr em prática. A prova disso era que, para ele, tinha sido difícil, mas para mim fácil.

Respondi-lhe que, sendo eu um ser humano como ele, também achei a tarefa difícil; mas disse para comigo mesmo que um homem não deve recuar perante uma tarefa gloriosa e realizável por causa das dificuldades que ela apresenta.

Quanto maiores forem os obstáculos a superar, maiores serão a honra e os benefícios.

Depois dos 70 anos, o homem pode libertar-se das suas inclinações sensuais e conformar-se inteiramente aos preceitos da razão. O vício e a imoralidade abandonam-no então, e ele deveria viver plenamente na maturidade da sua idade.

Todos aqueles que atingem o seu limite natural deveriam terminar os seus dias sem doença e morrer apenas por dissolução natural: as rodas da vida parando suavemente de girar, e o homem deixando este mundo em paz — como acontecerá comigo, pois estou certo de que morrerei dessa forma.

Assim, os pensamentos da morte não me perturbam minimamente, nem qualquer outro pensamento que deles decorra. Que bela é a minha vida! Que fim feliz terei!

O jovem doutor nada teve a responder a isto, excepto que seguiria o meu exemplo.

O meu modo de vida está ao alcance de qualquer homem

Alguns sensualistas dizem que perdi o meu tempo ao escrever um tratado sobre a moderação e outros discursos sobre o mesmo tema, alegando que é impossível conformar-se a tais princípios.

Para eles, o meu tratado serve tão pouco o seu propósito como o de Platão sobre o Governo, porque ele se deu a muito trabalho para recomendar algo impraticável.

Isto espanta-me bastante, dado que podem ver que adoptei uma vida sóbria durante muitos anos antes de escrever este tratado. Nunca o teria redigido se não estivesse convencido de que este modo de vida estava ao alcance de qualquer homem.

Além disso, sendo o objectivo alcançar uma vida virtuosa, isso deveria prestar-lhes pois um grande serviço.

Felizmente, tenho a satisfação de ouvir que muitos decidiram adoptar o meu modo de vida depois de terem lido o meu tratado.

Assim, a objecção feita ao tratado de Platão sobre o governo nada tem a ver com o meu. Mas o sensualista é inimigo da razão e escravo das suas paixões.

 

 CONTINUA...

 

No comments:

Post a Comment

  O método para desfrutar da felicidade completa na velhice Relato pessoal de Luigi Cornaro (1464–1566) gérard Wenker, 2019 https:/...