INSÔNIA YIN E YANG SEGUNDO A MACROBIÓTICA
Por: Agnès Pérez
De acordo com a
macrobiótica, a insônia pode ser classificada como yin ou yang. A macrobiótica
e a medicina oriental reconhecem várias das causas também apontadas pela
medicina convencional, mas consideram ainda a energia vital, o estilo de vida e
os fatores emocionais e mentais. Ao ampliar o olhar para esses aspectos,
procuram compreender melhor os casos em que não existe uma causa aparente e
atuar sobre o problema de forma mais abrangente.
A insônia não
se resume à dificuldade de adormecer. Também inclui acordar durante a noite e
não conseguir voltar a dormir, despertar cedo demais ou ter um sono pouco
profundo e não reparador.
Grande parte da
população passa por episódios de insônia em algum momento da vida. A falta de
descanso reduz consideravelmente a qualidade de vida. Muitas vezes, porém, quem
sofre desse problema não percebe que o próprio estado interno, os hábitos
cotidianos ou a atitude perante a vida podem dificultar o relaxamento e impedir
um sono profundo e reparador.
O risco de insônia tende a
aumentar entre pessoas submetidas a estresse, horários irregulares, situações
adversas ou fragilidade emocional. Ansiedade, depressão, alterações hormonais,
luto e consumo de álcool, drogas, cafeína ou tabaco também podem interferir no
sono.
INSÔNIA YIN E INSÔNIA YANG
Na perspectiva macrobiótica, o
nosso estado energético condiciona o tipo de insônia. A constituição pessoal —
mais yin ou mais yang desde o nascimento — também pode favorecer determinados
desequilíbrios.
Insônia yang
Uma pessoa
excessivamente yang tende a viver em estado de tensão. Pode ser muito exigente
consigo mesma, impor-se uma rotina cheia de pressões e obrigações e reservar
pouco tempo para descansar ou desfrutar a vida. Mesmo durante as horas de
repouso, a mente continua ativa, planejando as tarefas do dia seguinte. Como
consequência, torna-se difícil relaxar e entrar num sono profundo.
Do ponto de
vista alimentar macrobiótico, a tensão e a rigidez do organismo são associadas
ao consumo excessivo de proteína animal — como carne, embutidos, peixe defumado
ou enlatado, ovos, queijos curados e frutos do mar —, bem como de sal,
condimentos salgados e alimentos secos, assados ou crocantes. O uso frequente
da panela de pressão e o consumo exagerado de produtos de panificação também
são considerados fatores contrativos, capazes de dificultar o relaxamento.
O corpo pode
ainda acumular calor yang quando predominam métodos de preparo intensos e
prolongados, como fritar, grelhar, assar ou cozinhar repetidamente. Nessa
situação, recomenda-se moderar o consumo de pão integral, cereais integrais e
oleaginosas, sobretudo quando causam sensação de calor, ativação ou sobrecarga.
Na visão
macrobiótica, a combinação de alimentos muito contrativos com preparações que
geram calor pode favorecer desconforto, transpiração e agitação. Para
compensar, sugerem-se preparações mais leves e refrescantes: folhas e talos
escaldados ou cozidos no vapor, legumes prensados com pouco sal e alimentos de
sabor naturalmente doce. Quando bem preparados, esses alimentos tendem a ser
considerados mais relaxantes.
O jantar deve
ser suficiente para proporcionar saciedade e tranquilidade, mas sem excesso. Em
casos de insônia yang, recomenda-se evitar à noite proteína animal, sopa de miso
e condimentos muito salgados.
O exercício físico pode ajudar a
liberar a tensão acumulada, mas sua intensidade e seu horário precisam ser
observados. Uma atividade demasiado vigorosa, especialmente perto da hora de
dormir, pode deixar o organismo ainda mais ativado.
Insônia yin
Uma pessoa
excessivamente yin, sobretudo no plano mental, pode ficar presa a pensamentos
recorrentes, preocupações e emoções das quais não consegue se distanciar. Essa
atividade mental intensa dificulta o adormecer.
Também pode
existir falta de enraizamento: a pessoa sente pouca conexão com o corpo,
respira de forma superficial, percebe fraqueza nas pernas e nos pés e concentra
a maior parte da atenção acima do diafragma. Nessa condição, a mente parece
mais rápida e dispersa.
Segundo a
abordagem macrobiótica, convém evitar açúcar, excesso de melaço e frutas secas,
bebidas alcoólicas, cannabis, opiáceos, estimulantes e sucos de fruta. Pode ser
útil reduzir temporariamente o consumo de frutas, sobretudo cruas, até que a
energia esteja mais concentrada.
Para favorecer
o enraizamento, recomenda-se incluir diariamente pratos preparados com raízes,
como ensopados, kimpira ou nishime. Cereais integrais e leguminosas bem cozidos
também podem ajudar. Em alguns casos, admite-se temporariamente uma pequena
quantidade de proteína animal, como ovo ou peixe.
Quem segue uma
alimentação vegana e se sente excessivamente yin deve rever cuidadosamente a
composição da dieta e dar preferência a alimentos vegetais bem cozidos,
preparados de modo a proporcionar maior concentração e estabilidade.
Essas orientações são temporárias
e devem ser adaptadas à evolução do quadro e às necessidades individuais.
Horário do jantar e ritmo circadiano
É importante
não jantar imediatamente antes de dormir. O ideal é terminar a refeição pelo
menos três horas antes de se deitar, permitindo uma digestão adequada e
reduzindo a possibilidade de desconforto intestinal, refluxo ou azia durante a
noite.
O ritmo
circadiano também oferece pistas importantes sobre o sono. Respeitar os ciclos
naturais — dormir à noite, manter o quarto silencioso e confortável, receber
luz natural durante o dia e seguir horários regulares para as refeições —
favorece o equilíbrio do organismo.
O principal
relógio circadiano encontra-se no núcleo supraquiasmático, uma região do
hipotálamo. Ele coordena vários relógios biológicos do corpo e participa da
organização dos ciclos de sono e vigília.
Na tradição da
medicina oriental, cada período da noite é associado à atividade predominante
de determinados órgãos. Entre as 23h e a 1h, a vesícula biliar estaria em sua
fase de maior atividade. O coração, por sua vez, é associado ao *Shen* — o
espírito ou a consciência — e às atividades mentais. Quando a mente permanece
excessivamente ativa nesse período, surge o padrão de insônia considerado yin.
Entre a 1h e as 3h, o fígado
estaria mais ativo. Se houver muita tensão acumulada, pode ser difícil alcançar
o relaxamento necessário para dormir profundamente. Quando o *ki*, ou energia
do fígado, é excessivamente intenso, podem ocorrer rigidez muscular,
irritabilidade e perturbações do sono. Esse padrão é associado à insônia yang.
Pesadelos e sonhos recorrentes
Michio Kushi
descreveu diferentes tipos de sonhos e relacionou-os aos órgãos e aos cinco
elementos da medicina oriental.
Sonhos com
discussões, lutas, multidões ou ambientes barulhentos seriam associados a
desequilíbrios do elemento Árvore, ligado ao fígado e à vesícula biliar. O
mesmo se aplicaria a sonhos marcados por preocupação, inquietação ou vento
forte.
Desequilíbrios
relacionados ao coração e ao intestino delgado poderiam manifestar-se em sonhos
nos quais a pessoa é empurrada, vê monstros ou fogo ou sente que derrete ao
sol.
Alterações
ligadas ao baço-pâncreas e ao estômago apareceriam em sonhos com problemas
difíceis de resolver, labirintos, corredores estreitos ou exames para os quais
não se encontra a resposta correta. Também poderiam surgir sentimentos de
solidão ou afastamento da família e dos amigos.
Desequilíbrios
dos pulmões e do intestino grosso seriam associados a sonhos confusos,
fragmentados ou pouco definidos, assim como a viagens por caminhos e estradas
solitárias.
Sonhos
relacionados aos rins e à bexiga teriam como tema a água: inundações, chuva,
natação ou afogamento. Também poderiam envolver sexualidade ou pessoas por quem
se sente atração.
Na leitura macrobiótica, o
conteúdo dos sonhos e a qualidade do sono também podem sugerir excessos
alimentares. Especiarias muito picantes, por exemplo, poderiam perturbar o
elemento fogo. Já a proteína animal, considerada extremamente yang e
contrativa, tenderia a estimular a atividade em vez do repouso. Por isso, seria
desaconselhada em casos de insônia yang acompanhada de irritabilidade ou sonhos
agressivos.
Recursos naturais para a insônia
Nos casos de
insônia yang, em que o principal objetivo é relaxar o corpo, a macrobiótica
sugere preparações como suco de maçã com kuzu, *ame-kuzu*, amazake morno ou,
para pessoas muito yang, suco de maçã aquecido antes de dormir ou ao despertar
durante a noite.
Também são
tradicionalmente usadas infusões ou tinturas de plantas relaxantes, como
valeriana, erva-cidreira, lúpulo, papoula, maracujá e flor de laranjeira.
Para a insônia
yin, recomenda-se eliminar álcool, drogas e estimulantes como café, chá com
cafeína, açúcar e bebidas açucaradas. Dentro da prática macrobiótica, podem ser
utilizados *ume-kuzu*, pequenas quantidades de tempero de nori adicionadas aos
cereais e outros preparados de caráter yang.
Além da
alimentação, é importante reduzir tudo o que dispersa ou enfraquece a mente. Um
trabalho mental disciplinado e a prática regular de exercício físico podem
ajudar, sobretudo atividades que envolvam braços e pernas, presença mental,
coordenação e contato consciente com o corpo.
Sentar-se em silêncio e
concentrar a atenção na respiração também pode ser útil. A respiração
consciente favorece uma mente mais calma e estável. Perceber como o *prana*, o
*ki* ou a energia
Prática, desapego e paz interior
Seja yin ou
yang, a insônia pode estar associada a uma mente inquieta, incapaz de repousar.
Nos *Yoga Sutras*, Patañjali descreve cinco modalidades da atividade da
consciência:
- percepção
correta;
- percepção
errônea;
- imaginação ou
interpretação sem base real;
- sono;
- memória.
Segundo esse
ensinamento, a serenidade interior desenvolve-se por meio de *abhyasa* —
prática constante — e *vairagya* — desapego ou renúncia. A prática direciona e
fortalece a energia; o desapego evita que ela se perca na busca incessante de
estímulos e ajuda a conduzi-la ao centro do ser.
Assim, a
insônia, como outros desequilíbrios e adversidades, pode ser entendida como um
convite para cuidar do corpo e da mente, recuperar a paz interior, reencontrar
o próprio centro e restabelecer uma relação mais natural com o ambiente e com
os ritmos da vida.
Obrigado.