COMO
PLANEAR UMA EMENTA EQUILIBRADA
Elena Corrales
Muitas vezes
decidimos o que vamos preparar para o almoço ou para o jantar sem outro
critério além do paladar, isto é, escolhendo aquilo de que mais gostamos.
Outras vezes, decidimos em função da rapidez de preparação ou da «moda» de
consumir determinados alimentos considerados milagrosos, etc. Descubra os
requisitos que uma ementa saudável deve cumprir.
As ementas
convencionais são compostas por primeiro prato, segundo prato e sobremesa e, em
muitos casos, são desequilibradas relativamente às quantidades de proteínas,
gorduras e açúcar. Para que uma ementa seja uma fonte de saúde, deve cumprir
alguns critérios básicos, tais como a escolha dos alimentos, a proporção
entre os diferentes grupos de nutrientes, a forma de preparação, entre outros.
A investigação
médica demonstrou a influência da alimentação moderna no desenvolvimento de
muitas doenças: a carne e a falta de fibras estão implicadas no cancro do
cólon; os alimentos ricos em gorduras saturadas contribuem para as doenças
cardiovasculares; o açúcar e os alimentos doces favorecem o aparecimento da
diabetes; os produtos lácteos podem provocar alergias…
Por outro
lado, a nossa experiência clínica permitiu-nos verificar que milhares de
pessoas que seguiram os princípios apresentados neste texto melhoraram
consideravelmente a sua saúde. É por isso que propomos esta nova visão
alternativa.
PLANEAR UMA EMENTA EQUILIBRADA
Além de
considerarmos que aquilo que comemos deve estar adaptado ao nosso clima,
constituição, sexo, tipo de atividade e estado de saúde, para prepararmos uma
ementa equilibrada devemos ter em conta os seguintes aspetos:
- A escolha
dos alimentos: daremos preferência aos alimentos
biológicos, consumindo regularmente cereais integrais, leguminosas e
hortícolas. Os frutos secos, a fruta e o peixe serão sempre alimentos
complementares.
- Os
sabores: o ácido, o amargo, o doce, o salgado e o picante devem estar
presentes, de uma forma ou de outra, em todas as ementas.
- Os
métodos de confeção: devemos utilizar diferentes métodos de
preparação, indo além dos extremos representados pela salada crua e pela
carne grelhada.
- As
texturas: a variedade e a complementaridade das formas e das texturas dos
alimentos são muito importantes para que a refeição seja satisfatória,
tanto à vista como ao paladar.
- As cores: a
natureza colocou à nossa disposição uma grande variedade de cores nos
alimentos. Devemos utilizá-las como um pintor utiliza a sua paleta,
criando composições harmoniosas e atraentes, para que a comida nos
desperte o apetite e estimule os órgãos digestivos.
- A água, o
fogo e o sal: a utilização destes três elementos permite-nos transformar os
alimentos originais noutros mais saborosos e fáceis de digerir,
facilitando um melhor aproveitamento dos nutrientes.
Nas próximas
publicações desenvolveremos cada um destes pontos, apresentando exemplos
concretos que permitam pôr estes conselhos em prática.
OS NUTRIENTES
Dispomos de
uma grande variedade de alimentos para obter os nutrientes de que necessitamos.
No entanto, dependendo das escolhas que fizermos, a nossa alimentação poderá
ser uma fonte de saúde ou, pelo contrário, contribuir para adoecermos, pois nem
todos os alimentos se comportam da mesma maneira no metabolismo.
Uma ementa
equilibrada deve conter, nas proporções adequadas, os seguintes nutrientes:
hidratos de carbono, proteínas, gorduras, vitaminas, sais minerais e água.
OS HIDRATOS DE CARBONO
São o
principal nutriente e desempenham uma função energética. Devem representar
entre 50% e 75% do volume total ingerido e ser, na sua quase totalidade, de
absorção lenta.
Os alimentos
ideais como fonte deste importante nutriente são os cereais integrais e os
pseudocereais, apresentados sob diferentes formas: grãos, flocos, sêmolas e
farinhas. Quando a nossa saúde não for a melhor, daremos preferência aos
cereais em grão.
AS PROTEÍNAS
São materiais
de construção do organismo e intervêm tanto na formação da massa muscular como
na síntese de hormonas.
É importante
que a sua proporção seja entre cinco e sete vezes inferior à dos hidratos de
carbono. Os alimentos que nos fornecem as proteínas mais saudáveis são as
leguminosas, seguidas do peixe e dos produtos do mar e, mais afastados, das
aves e dos ovos. As carnes vermelhas estarão presentes na alimentação apenas
ocasionalmente.
AS GORDURAS
Os alimentos
de eleição como fontes de gordura são as sementes oleaginosas, seguidas dos
frutos secos e dos óleos obtidos por primeira pressão a frio.
A grande
diferença entre os óleos e as sementes reside no facto de estas últimas serem
alimentos integrais e, por conseguinte, mais completos do que os óleos, que são
apenas o sumo extraído da respetiva semente.
A proporção de
gorduras será entre cinco e sete vezes superior à de proteínas.
AS VITAMINAS
Pertencem ao
grupo dos micronutrientes e já estão presentes nos cereais, leguminosas e
sementes quando os consumimos na forma integral. No entanto, aumentamos ainda
mais o seu aporte através da inclusão de hortícolas e fruta.
Estes dois
grupos de alimentos, que farão sempre parte do acompanhamento, nunca
constituirão o prato principal. Consumiremos dois terços cozinhados e um terço
crus, tendo em conta, em cada caso, a estação do ano e a condição da pessoa.
OS MINERAIS
Também
pertencem ao grupo dos micronutrientes e encontram-se igualmente presentes nos
cereais, leguminosas e sementes. Contudo, aumentamos ainda mais o seu aporte
quando incluímos algas marinhas na nossa alimentação.
Estes
alimentos serão sempre utilizados como acompanhamento e podem ser incluídos
três ou quatro vezes por semana.
A ÁGUA
A água é um
nutriente essencial e está presente nos alimentos em quantidades consideráveis.
A título
informativo, se o nosso corpo é constituído por 70% de água, podemos dizer que
o arroz integral cozido contém aproximadamente a mesma proporção; as lentilhas
cozidas, sem caldo, contêm 90% de água; e a quantidade de água presente nos
hortícolas e na fruta varia entre 90% e 98%.
Posto isto,
compreendemos que uma parte muito importante da água de que necessitamos é
fornecida pelos alimentos. Se começarmos a refeição com uma sopa e terminarmos
com uma bebida quente, não necessitamos de beber durante a refeição para
satisfazer as nossas necessidades de água.
Todos os
alimentos devem ser integrais e provenientes de agricultura biológica, pois são
mais ricos em nutrientes do que os de agricultura convencional, além de estarem
livres de produtos químicos.
A água deverá
ser de nascente. Quando isso não for possível, utilizaremos um filtro de osmose
inversa, que permite eliminar não só os contaminantes em suspensão, mas também
aqueles que se encontram dissolvidos na água.
OS CINCO SABORES
A escolha dos
alimentos não deve ser feita apenas com base no seu conteúdo nutricional.
Devemos também ter em conta a sua cor, sabor e textura.
Estes aspetos
vão além da estética, pois determinam efeitos harmonizadores sobre os nossos
órgãos internos, conforme explicaremos em seguida.
A visão
energética da alimentação abrange muito mais do que a composição química dos
alimentos e mostra-nos a importância da utilização de diferentes formas, cores
e texturas, assim como da combinação dos diversos sabores.
OS CINCO SABORES UNIVERSAIS
As nossas
papilas gustativas reconhecem cinco sabores básicos: salgado, ácido, amargo,
doce e picante.
Desde tempos
remotos, a Medicina Tradicional Chinesa associa os diferentes sabores dos
alimentos ao bom funcionamento de determinados órgãos. Apresentamos, em
seguida, alguns exemplos.
O sabor salgado
É um sabor
universal que não deve faltar nos nossos pratos, sobretudo se tivermos em conta
que o sal está na origem da vida e que o nosso plasma sanguíneo é alcalino,
isto é, salgado.
O sal era tão
importante que, no passado, o trabalho das pessoas era pago com sal. Daí terá
surgido a palavra «salário».
O sal que
utilizamos deverá ser sempre marinho e não refinado, não sendo relevante se é
fino ou grosso. Deverá ser adicionado aos alimentos durante a confeção e não no
final, já à mesa.
Além do sal
marinho, temos ao nosso alcance quatro condimentos da cozinha oriental que nos
fornecem uma pequena quantidade de sal «vegetalizado» e, por isso, facilmente
assimilável: o miso, o tamari, o gomásio e a ameixa umeboshi.
Podemos também
incluir algas marinhas que, embora não sejam necessariamente ricas em sódio,
são ricas noutros minerais, como o cálcio, o ferro e o magnésio.
O sabor
salgado deve estar presente nos nossos pratos para tonificar os rins, órgãos
que regem os ossos e o equilíbrio dos sais minerais no organismo.
Quando falamos
do sabor salgado na Medicina Oriental, não nos referimos apenas ao sódio, mas
aos sais minerais na sua totalidade. Deste modo, compreendemos a relação entre
o bom funcionamento dos rins e o equilíbrio mineral do organismo, quer falemos
de cálcio, ferro, sódio ou potássio.
A recomendação
generalizada na sociedade atual de seguir regimes alimentares pobres em sódio
pode ser perigosa, pois tanto o excesso como a carência de sal são prejudiciais
para a saúde.
Conclusão
Ao planearmos
uma ementa, devemos pensar nos condimentos salgados e/ou nas algas que iremos
incluir para que os nossos rins funcionem corretamente.
Tudo isto sem
esquecermos que os alimentos integrais são mais ricos em sais minerais do que
os alimentos refinados e que estes últimos têm um efeito desmineralizante.
DO SALGADO AO ÁCIDO
Continuamos a
explicar o comportamento dos diferentes sabores relativamente ao funcionamento
dos órgãos internos e de que forma tanto o desejo exagerado por determinado
sabor como a aversão a esse sabor podem ser indicadores de desequilíbrios
internos.
Há muitas
pessoas que sentem uma grande apetência por pepinos em conserva e por temperos
com vinagre em geral. Algumas chegam a beber o líquido que fica no fundo da
saladeira depois de terminarem a alface. Pelo contrário, outras detestam tudo o
que é ácido e/ou não o toleram.
O sabor ácido
O sabor ácido
está naturalmente presente em alguns alimentos, como o tomate, a laranja, o
limão, a toranja, etc. São também ácidos todos os alimentos submetidos a fermentação
láctica, como o kefir, o iogurte, o chucrute, o miso, o tamari e a ameixa
umeboshi.
A fermentação
alcoólica também nos proporciona um sabor ácido, que pode ser mais ou menos
pronunciado conforme o tipo de vinho. Por último, temos os alimentos obtidos
através de fermentação acética, isto é, os vinagres.
O sabor ácido
deve estar presente nos nossos pratos para harmonizar o funcionamento do fígado
e da vesícula biliar, órgãos responsáveis pelo metabolismo das gorduras.
Daí provém a
expressão segundo a qual um copo de vinho «ajuda a fazer a digestão», algo que
seria verdadeiro quando a ementa é rica em gorduras.
Nem tudo o que é ácido é saudável
Devemos saber
que a fermentação láctica é a mais suave e respeitadora da saúde; a fermentação
alcoólica é tóxica e a fermentação acética sê-lo-á ainda mais. Por
isso, devemos prescindir do vinho nas refeições quotidianas e dos vinagres,
reservando estes ingredientes para um consumo ocasional.
Numa cozinha
equilibrada, obtemos o sabor ácido através dos picles em geral, do chucrute, de
um pouco de vinagre de baixa acidez e/ou de limão.
Estes
ingredientes deverão ser sempre utilizados em quantidades moderadas, como se
fossem apenas uma pincelada no sabor geral do prato.
Excluiremos os
fermentados lácticos derivados do leite, como o iogurte e o kefir, sempre que a
nossa saúde não seja a melhor, pois o leite de vaca não vaca é considerado uma
fonte de saúde.
Pelo
contrário, em muitas cozinhas tradicionais e/ou de vanguarda, o álcool é
incluído em quantidades consideráveis, como acontece quando se faz uma
harmonização com um tipo de vinho diferente para cada prato.
Quanto mais o
nosso fígado tiver sido sobrecarregado no passado por um excesso de gorduras,
sobretudo provenientes de alimentos de origem animal, como os enchidos e os
queijos, maior será a nossa apetência por sabores ácidos.
Por isso, as
pessoas com dependência do álcool deverão reduzir drasticamente o consumo de
gorduras e de alimentos pesados.
Num prato
equilibrado, o sabor ácido pode ser representado por uma pequena quantidade de
chucrute ou de rabanetes fermentados, em contraste com o sal, que estará
presente nos diferentes elementos da ementa.
O SABOR AMARGO
Os diferentes
sabores não representam apenas um prazer sensorial no momento de comer: também
harmonizam o funcionamento dos diversos órgãos internos.
Falamos agora
do sabor amargo e dos alimentos que o proporcionam.
Em muitas
culturas, este sabor é interpretado como desagradável. Trata-se de um mecanismo
de defesa relacionado com o facto de muitas substâncias venenosas serem
amargas.
Na nossa
sociedade, o sabor amargo não é tão apreciado como o doce. No entanto, deverá
estar presente nos nossos pratos para tonificar o intestino delgado e o órgão
que lhe está associado, o coração.
O sabor amargo
Muitos
hortícolas são amargos: espargos, agrião, chicória, escarola, endívias, aipo,
salsa, etc. Também o são as alcachofras, as beringelas e as azeitonas.
Outros
alimentos amargos são o pepino, a curgete e a toranja. Noutro grupo,
encontramos o café, o chá, o cacau e a cerveja.
O sabor amargo
surge também quando os alimentos são torrados. Encontramo-lo no pão torrado;
nas sementes de sésamo, girassol, abóbora e linhaça; nos frutos secos, como
amêndoas, avelãs e amendoins; e ainda na cevada, sob a forma de malte, na
chicória e no café, quando são torrados.
Os princípios
amargos dos alimentos abrem o apetite e favorecem a digestão, porque estimulam
a produção de gastrina e aumentam o peristaltismo intestinal. Favorecem
igualmente a produção de bílis.
Os sabores
amargos tonificam o organismo nos planos físico e mental. As pessoas que
consomem mais princípios amargos são psicologicamente mais fortes, mais felizes
e têm maior vontade de desfrutar da vida e de conquistar o mundo.
Nem tudo o que é amargo é saudável
Tal como
referimos relativamente ao sabor ácido, existem muitas substâncias amargas
tóxicas que não são saudáveis, como os alcaloides presentes no café, no chá e
no cacau.
Os princípios
amargos que deverão estar presentes nas nossas ementas serão, em primeiro
lugar, os provenientes das sementes e dos cereais torrados; algum pão torrado;
um pouco de salsa como tempero; e pequenas quantidades de hortícolas, como
agrião, endívias e algumas azeitonas.
Não estamos a
falar de comer um grande prato de acelgas, que poderão provocar diarreia e
cólicas ao estimular excessivamente o peristaltismo.
As pessoas que
toleram melhor os hortícolas amargos são aquelas cujo aparelho digestivo é mais
resistente ou mais yang. Todos aqueles que têm pouca força digestiva
toleram mal este tipo de hortícolas, assim como o café.
As pessoas que
sentem necessidade de consumir café e bebidas amargas, como o Campari, devem
reduzir drasticamente o consumo de alimentos pesados: carnes, queijos e
enchidos.
Desse modo,
para se equilibrarem, será suficiente consumirem malte em vez de café e cerveja
em vez de Campari.
O SABOR DOCE
Na sequência
das publicações anteriores, explicamos agora tudo aquilo que é necessário saber
sobre o sabor doce — que não é o mesmo que açucarado — e a sua relação com o
funcionamento dos nossos órgãos internos.
O sabor doce
deverá predominar na nossa ementa. Não nos referimos ao que sabe imediatamente
a doce na boca, como o mel, o açúcar, o leite ou a fruta, mas ao sabor doce
neutro que surge na boca depois de mastigarmos os cereais e que também está
presente em muitos hortícolas cozinhados, como a cenoura e a cebola.
O sabor doce
Podemos
distinguir três tipos de sabor doce, com efeitos muito diferentes sobre o nosso
equilíbrio interno:
O doce neutro
O doce neutro,
considerado uma fonte de saúde, é aquele que está presente em todos os cereais
integrais depois de cozinhados e mastigados.
Tanto o fogo
como a mastigação desdobram as cadeias dos hidratos de carbono complexos até à
obtenção de maltose, um açúcar de absorção rápida e, por conseguinte, de sabor
intensamente doce.
Também possuem
um sabor doce neutro hortícolas como as couves, a couve-flor, o feijão-verde, a
cenoura, a abóbora, a cebola, o alho-francês, etc.
Estes
alimentos tonificam o estômago, o baço e o pâncreas, sendo, portanto,
indispensáveis na nossa alimentação.
É importante
saber que este sabor provém de alimentos que contêm hidratos de carbono
complexos.
O doce açucarado
É aquele que
predomina na fruta, no mel, na rapadura, nos xaropes de cereais, no açúcar
branco ou integral e no leite.
Estes
alimentos são ricos em glicose, frutose e galactose, que, por serem hidratos de
carbono de absorção rápida, são considerados responsáveis por desequilíbrios do
pâncreas e por várias perturbações digestivas.
O doce químico
É aquele que
está presente nos adoçantes, como a sacarina, o aspartame, o sorbitol, etc., os
quais deverão ser excluídos da nossa alimentação devido aos perigos que
comportam.
Os alimentos
do primeiro grupo estarão presentes diariamente na alimentação; os do segundo
grupo serão consumidos ocasionalmente ou com pouca frequência; e os do terceiro
grupo deverão ser evitados em todos os casos.
O doce cria dependência
Quando as
pessoas consomem muitos doces, levam o pâncreas a produzir uma grande
quantidade de insulina para regular os níveis de glicose no sangue. Como
consequência, poderá ocorrer uma hipoglicemia reativa.
Esta descida
da glicemia faz com que o organismo volte a pedir alimentos doces e inicia-se o
círculo vicioso que muitas pessoas definem como dependência.
Os alimentos
ricos em hidratos de carbono de absorção rápida são considerados responsáveis
por várias alterações digestivas ao nível do estômago, enfraquecem o sangue,
tanto o vermelho como o branco, e provocam alterações hormonais.
No plano
emocional, são considerados responsáveis por desequilíbrios do estado de
espírito, levando-nos a passar da euforia à depressão, como se estivéssemos
numa montanha-russa, e favorecendo a falta de autoestima e o sentimento de
vitimização.
Os cereais
integrais são a opção saudável em todos os casos.
O SABOR PICANTE
Falamos agora
do quinto sabor universal: o picante.
Descubra
quando é necessário consumir alimentos picantes e quais os alimentos que nos
podem proporcionar este sabor para conservarmos a saúde, pois alguns alimentos
picantes arrefecem e outros aquecem.
É um sabor
associado a muitas especiarias exóticas, às malaguetas e aos pimentos de
Padrón.
O picante é
aquilo que nos provoca uma sensação intensa de ardor na língua e no palato. A
palavra também pode estar relacionada com o sexo e com aquilo que é considerado
obsceno, como as anedotas picantes.
Por isso,
podemos compreender que o sabor picante ativa a circulação e tonifica,
essencialmente, os pulmões.
O sabor picante
O picante
comporta-se de maneira diferente conforme a planta da qual provém. Vejamos
alguns exemplos.
Alguns
hortícolas de raiz são picantes, como os nabos, os rabanetes, a raiz de lótus,
o gengibre e a curcuma.
Este grupo de
alimentos possui um efeito aquecedor e tonificante dos pulmões e do intestino
grosso. Está, portanto, indicado sempre que exista fraqueza digestiva ou
tendência para constipações.
Existe outro
grupo de hortícolas que também possui sabor picante e que é representado por
hortícolas de fruto: as malaguetas, os pimentos, os chilli, a
pimenta-de-caiena e o Tabasco, pertencentes à família das solanáceas.
Este grupo de
hortícolas tem um efeito refrescante e tonificante da circulação. São
habitualmente consumidos como acompanhamento de vários tipos de carne e de
pratos fortes, como feijões com toucinho e morcela, quando servidos com
malaguetas.
No mundo das
especiarias, encontramos as pimentas, das quais se utiliza o fruto das plantas
de onde provêm e que, do ponto de vista botânico, não estão relacionadas com as
anteriores.
Todas crescem
em climas tropicais húmidos. Devemos conhecer o efeito dispersante da energia e
o efeito refrescante destes condimentos. Não é por acaso que se desenvolvem em
climas tropicais.
Devemos ser
muito moderados na sua utilização em climas temperados e frios como o nosso,
pois podem enfraquecer-nos, sobretudo quando seguimos uma alimentação
essencialmente vegetariana.
O picante na nossa ementa
Quando a nossa
alimentação se baseia nos cereais integrais e é essencialmente vegetariana,
podemos incluir na preparação dos pratos um pouco de sumo de gengibre, alguns
rabanetes ralados e macerados em vinagre de umeboshi ou um pouco de nabo daikon
ralado.
OS CINCO SABORES NO PRATO
Chegados a
este ponto, devemos recapitular e observar a importância de cada um dos cinco
sabores na harmonização do bom funcionamento dos nossos órgãos: salgado, ácido,
amargo, doce e picante.
Se
necessitarmos de fortalecer os rins, a bexiga e o aparelho reprodutor, teremos
em conta o sabor salgado, representado pelo sal, pelos condimentos como o miso
e o tamari e pelas algas marinhas.
Se for o
fígado a pedir a nossa atenção, oferecer-lhe-emos algum alimento sujeito a
fermentação láctica, como os picles, ou um pouco de vinagre.
Se for o
coração que necessita de ser ativado, poderemos reconfortá-lo comendo algum
hortícola amargo ou bebendo café de cereais, ou ainda através do consumo de um
pouco de tekka, etc.
O doce neutro
não pode faltar como elemento harmonizador do funcionamento do estômago, do
baço e do pâncreas: os cereais integrais, sob todas as suas formas.
Por último,
para tonificar os pulmões, os alimentos picantes de eleição seriam o gengibre,
os rabanetes, etc.
Tal como
fizemos um percurso pelos cinco sabores, também deveriam estar presentes no
nosso prato as cinco cores — preto, verde, vermelho, amarelo e branco —, as
cinco formas básicas de confeção e as cinco texturas principais.
COMENTÁRIO (IA)
O texto
apresenta uma visão macrobiótica coerente e útil naquilo que incentiva:
variedade de cores, sabores, texturas e métodos culinários; predominância de
alimentos pouco processados; consumo regular de cereais integrais, leguminosas
e hortícolas; redução de carnes vermelhas, enchidos, açúcares e álcool; e
atenção à mastigação e à apresentação das refeições.
Contudo,
várias afirmações são demasiado absolutas ou pertencem à interpretação
energética da Medicina Tradicional Chinesa, não devendo ser confundidas com
conclusões científicas comprovadas. É o caso da associação direta de cada sabor
a determinados órgãos, da ideia de que os alimentos amargos tornam as pessoas
psicologicamente mais fortes e felizes, ou de que certas preferências
alimentares revelam necessariamente um desequilíbrio específico.
Também merecem
correção ou prudência os seguintes pontos:
- O plasma
sanguíneo é ligeiramente alcalino, mas isso não significa que seja
«salgado» no mesmo sentido alimentar, nem justifica aumentar o consumo de
sal.
- Miso,
tamari, gomásio e umeboshi podem conter bastante sódio. Nos casos de hipertensão
arterial e edema, devem ser utilizados em pequenas quantidades e
contabilizados como fontes de sal.
- As algas
podem fornecer minerais, mas algumas contêm quantidades excessivas de
iodo. A sua ingestão deve ser pequena e não necessariamente diária.
- Não é
correto afirmar que todos os vinagres são mais tóxicos do que as bebidas
alcoólicas. O álcool apresenta riscos bem estabelecidos; o vinagre, usado
moderadamente, é geralmente seguro.
- O café, o
chá e o cacau contêm compostos bioativos, mas não devem ser genericamente
classificados como tóxicos. A tolerância e a quantidade consumida são
importantes.
- Os
adoçantes autorizados não devem ser todos considerados perigosos. Alguns
podem causar desconforto intestinal, sobretudo os polióis como o sorbitol,
mas a segurança depende do tipo e da quantidade.
- A
indicação de que não é necessário beber água durante a refeição não pode
ser transformada numa regra geral. A água dos alimentos contribui para a
hidratação, mas não substitui necessariamente os líquidos. Perante boca e
olhos secos, diminuição do volume de urina, calor, uso de anti-hipertensor
ou consumo de infusões diuréticas, restringir a água pode ser perigoso.
Em síntese, o
texto oferece bons princípios culinários e uma estrutura interessante para
compor refeições variadas. Deve, porém, ser utilizado como orientação alimentar
macrobiótica, e não como substituto das necessidades individuais de hidratação,
proteína, sódio e energia ou das recomendações médicas aplicáveis a cada estado
de saúde.