MEDITAÇÃO
Dr. Martín Macedo (IN: “Bono Meditación”).
Iª PARTE
PREFÁCIO
A IMPORTÂNCIA DA MEDITAÇÃO
PREFÁCIO
Há mais de 20 anos, juntei-me a um grupo de
meditação zen-budista, liderado por um monge que era também mestre de Aikido
e Tai Chi. Havia muito entusiasmo nesse grupo e todos os domingos à tarde havia
cada vez mais pessoas. Deixei-me atrair por aquele grupo, como uma folha é
atraída para o centro de um ciclone. Todos os domingos esperava ansiosamente
por essa hora de energia intensa e bem-estar. E, como disse uma vez ao meu
instrutor, tornei-me "viciado" em Zazen, ou seja, na prática
da Meditação Zen. Sentávamo-nos em almofadas chamadas zafu e de
frente para a parede. Éramos encorajados a manter uma postura elegante e
correcta. Se a postura for correcta, a mente será correcta. Existe uma relação
mente-corpo muito clara nos círculos onde se pratica a meditação, seja qual for
o estilo. A partir desse momento compreendi que iria continuar a meditar para o
resto da minha vida. E agora continuo a meditar e recomendo a sua prática.
Tentarei partilhar com o leitor as conquistas maravilhosas desta prática. Comprometi-me
a continuar esta prática e a encorajar outros a experimentarem os seus
benefícios. Estes votos não foram feitos em nenhum templo ou grupo. É
simplesmente uma decisão que tomei do meu coração, como uma contribuição para
elevar o nível de consciência dos meus irmãos e irmãs humanos, que vivem juntos
nestes tempos de grandes e profundas mudanças tecnológicas e espirituais.
A IMPORTÂNCIA DA MEDITAÇÃO
A meditação é vista na nossa cultura como
algo “oriental”. É uma prática espiritual oriental e, por isso, não é
importante para nós, porque temos a nossa própria tradição espiritual. Aqui
temos uma forte influência do cristianismo e, em geral, os cristãos dão mais
ênfase à oração e ao estudo das escrituras do que à meditação. Entre os
círculos cristãos, quem pratica “meditação” não é visto com bons olhos”. É
visto como alguém que é perigosamente atraído pelo “oriental”, como se o
oriental fosse algo pecaminoso. Em alguns grupos cristãos contemplativos, a
prática da meditação é uma coisa quotidiana. Com excepção dos contemplativos,
em geral, nos círculos cristãos, tanto católicos como protestantes, a meditação
é coisa rara.
Estou plenamente convencido de que a
meditação deveria ser uma prática universal. É uma grande descoberta, feita por
um oriental chamado Siddhartha Gautama. Este homem descobriu algo muito
importante para o bem-estar e a qualidade de vida de toda a humanidade. Por
isso, não deveria ser um benefício apenas para hindus ou chineses. Quando
Newton descobriu como iluminar casas e cidades com a sua pequena lâmpada
eléctrica, toda a humanidade abraçou esse progresso em direção a uma vida mais
elevada. A iluminação ocidental foi acolhida com a mesma alegria tanto pelo
Oriente como pelo Ocidente. Mas a iluminação oriental de Siddhartha Gautama,
nem por isso. No Oriente amam esta prática, mas no Ocidente este tipo de “iluminação”
espiritual ainda há resistência nos círculos religiosos tradicionais.
Na nossa mente há sempre uma
atividade, um ruído, uma espécie de conversa, a que alguns chamam o EGO. Ego ou
mente. Aqui vamos usá-los como sinónimos. O diálogo interior nunca pára, nem sequer
quando dormimos. O nosso ego está sempre na defensiva, procurando vantagens,
antecipando-se aos problemas e querendo controlar tudo (até usa apólices de
seguro). O ego é o reino do medo, da preocupação e da especulação. O ego ou a
mente está sempre à espreita, procurando ansiosamente por proteção. Esta atividade
frenética da mente é incompatível com a verdadeira paz. Quando há paz, há silêncio
interior. A única forma de encontrar o silêncio interior é a meditação.
Siddhartha Gautama descobriu a fórmula. E nós temos para com ele uma imensa
dívida de gratidão pela sua descoberta. A paz interior é tão necessária como o
ar ou a água. A mente não pára nunca, nunca há silêncio, nunca há paz, o medo
está sempre presente, querendo “proteger-nos”. Quando começamos a investigar o
tema da meditação, apercebemo-nos de que a natureza humana tem dois aspectos. Um
aspeto pessoal-individual, o ego que se debate entre o passado e o futuro. E um
aspeto divino, que vive agora, que está presente agora. Que está em paz agora.
E que tem todas as potencialidades infinitas, presentes, passadas e futuras,
disponíveis para o praticante aceder. No entanto, para a maioria das pessoas é
muito difícil estar no “agora”. O agora é um momento, um instante, muito
pequeno e fugaz. Temos um grande passado, uma história e também um grande
futuro com muitos projectos e possibilidades. A imensa maioria das pessoas está
“mentalmente” no passado e no futuro, porque é mais fácil estar em esferas
muito maiores e também por estar emocionalmente envolvidas com experiências
passadas ou sonhos grandiosos do futuro. No entanto, o nosso verdadeiro poder
só vive no presente. O nosso gigante adormecido só desperta e mostra a sua
imensa força nesse lugar fugaz, efémero e esquivo chamado “agora”. Podemos
viajar ao passado e ao futuro quantas vezes quisermos, mas sempre a partir do
presente. Agora estou a fazer planos para o futuro. Agora estou a avaliar estas
acções que realizei há 10 anos. Mas, em geral, há uma fuga do presente e a maioria
das pessoas está a revolver os escombros do passado, recordando as suas dores,
ofensas, abusos, maus tratos e situações trágicas. Ninguém escapa a isso. Todos
têm de carregar a sua “cruz”. Mas se olharmos para trás e nos detivermos na
contemplação, isso que contemplamos, isso que vemos, torna-se cada vez mais
poderoso. E habituamo-nos a viver de recordações e parece-nos que a vida de
antes era “melhor”. E é uma ilusão, porque não existe vida “antes”. Há vida
“agora” e só “agora”. Quem vive de recordações não vive. Está a desperdiçar a
sua vida, contemplando ilusões, quimeras. A meditação ajuda-nos a escapar a
este “vício” da mente. Não existe método mais eficaz. Por isso amo a meditação.
Ninguém inventou nada que a iguale ou supere. Como temos de agradecer ao ser
humano que trabalhou durante nove anos, dia e noite, para descobrir esta
técnica.
Também há pessoas que vivem no
“futuro”. Estão numa reunião em família, a saborear um delicioso almoço e falam
de como vai ser a próxima refeição, do que vão levar, porque se trata de algo
que vai ser fabuloso. E não saboreiam o que têm entre os dentes. Estão a
imaginar as refeições que vão comer daqui a duas semanas. E vivem imaginando e vivendo
num futuro enquanto a vida está a acontecendo agora. São hábitos mentais. O ego
gosta de estar nesses âmbitos. O ego não quer que estejamos conectados com o
agora. Porque durante essa conexão, o ego é reduzido a nada..... e o ego
abomina o “nada”.
O ego cria a ilusão da separação. Toda a vida
está conectada. Toda a vida é sagrada e todas as formas de vida fazem parte
dessa “teia” sagrada. Mas o ego só consegue ver separação. Aqui estou eu e ali
estás tu. Aqui estou eu e ali estão as montanhas. Contemplando a sua pequenez,
o ego procura segurança e proteção. Depois compete com outras formas para se
antecipar aos problemas que possam surgir. As relações com outras formas de
vida são contaminadas por esta ilusão de separação. Divisão, separação, luta de
interesses, conflitos, amor e ódio, serve-me ou não me serve, amigos ou
inimigos. Então o ego está sempre na defensiva, procurando vantagens e
privilégios. E gosta de se sentir superior. Mas esta aparente segurança, no
fundo, está a mascarar um profundo medo e sentimento de insignificância.
Superar a ilusão da separação e despertar para a conecção infinita da vida é o
trabalho que o estudante do caminho espiritual deve realizar. Essa consciência
plena requer uma preparação que pode levar uma vida ou várias vidas. E a
meditação é uma ferramenta essencial para alcançar esse imenso objetivo.






