Saturday, July 4, 2026

 

TRUQUES PARA COZINHAR LEGUMINOSAS E

EVITAR A FLATULÊNCIA

Agnès Pérez

https://www.agnesperezmacrobiotica.com/cocinar-conservas.../

resumo

As leguminosas são uma excelente fonte de proteína vegetal, sobretudo quando combinadas com cereais integrais, mas podem ser difíceis de digerir e provocar flatulência em algumas pessoas.

Para melhorar a digestibilidade, recomenda-se:

  • Consumir porções moderadas.
  • Demolhar as leguminosas durante, pelo menos, 10 horas com um pedaço de alga kombu e rejeitar a água da demolha.
  • Cozinhá-las lentamente durante o tempo adequado, retirando a espuma que se forma no início da fervura.
  • Adicionar sal apenas no final da cozedura.

Existem muitas variedades de leguminosas, como grão-de-bico, lentilhas, feijão, feijão-azuki, soja, ervilhas e favas, bem como outros alimentos ricos em proteína vegetal, como tofu, tempeh, seitan e frutos secos.

Como a preparação das leguminosas exige tempo, uma boa estratégia é cozinhar uma quantidade maior de uma só vez, conservando-as em frascos de vidro esterilizados no frigorífico durante duas a três semanas, ou mais tempo se forem posteriormente esterilizadas em banho-maria.

Depois de cozidas, podem ser utilizadas em diversas preparações, como sopas, estufados, guisados, patês ou saladas, facilitando uma alimentação saudável, prática e rica em proteína vegetal.

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texto

As leguminosas costumam ser um alimento difícil de digerir para muitas pessoas com o sistema digestivo debilitado. O hábito tradicional é servir um prato de sopa bem cheio ou comer uma grande quantidade e, naturalmente, isso pode provocar sensação de peso e flatulência. Se forem combinadas com cereais integrais, conseguem fornecer proteínas de elevado valor biológico, algo que as nossas avós já sabiam muito bem, preparando aqueles deliciosos e nutritivos "pratos de colher", como arroz com lentilhas ou arroz de panela com grão-de-bico.

Costumo consumir pequenas quantidades, porque um prato demasiado abundante pode provocar flatulência. Atualmente, faço sempre a germinação das leguminosas antes de as cozinhar durante bastante tempo. Assim, considero-as muito mais digestivas.

Existem muitos tipos de leguminosas e de proteínas vegetais. Se quiser saber mais sobre todas as leguminosas de que podemos desfrutar, como cozinhá-las e conservá-las de forma simples para poupar tempo e dinheiro, recomendo a leitura deste artigo no meu site: https://www.agnesperezmacrobiotica.com/cocinar-conservas.../

Como, na macrobiótica, consumimos uma maior variedade de cereais integrais, também podemos fazer combinações mais diversificadas, por exemplo:

  • cevada com feijão-azuki;
  • cevada com lentilhas;
  • cevada com soja preta;
  • arroz com feijão-azuki;
  • millet com lentilhas vermelhas;
  • quinoa com ervilhas;
  • trigo-sarraceno com favas (consumidas apenas ocasionalmente, frescas e na época própria).

Tipos de leguminosas e proteínas vegetais

·       Feijão-azuki – Pequena leguminosa de cor vermelha escura e brilhante, com elevado teor de proteína.

·       Lentilhas – Existem diversas variedades: Dupuy, Amicia, pardina, verde (ou Rubia Castellana), castanha, vermelha, Beluga, entre outras.

·       Soja preta

·       Grão-de-bico – Variedades como Pedrosillano, Branco Leitoso, Castellano, Venenoso Andaluz, Chamad, etc.

·       Feijão – Feijão catarino, feijão-frade, feijão branco, feijão-vermelho, feijão manteiga, entre outros.

·       Favas – Frescas ou secas.

·       Soja verde (feijão mungo)

·       Ervilhas – Frescas ou secas.

·       Tofu – Derivado da soja vendido fresco. É importante temperá-lo e dar-lhe sabor durante a confeção, pois, por si só, é bastante neutro. Com um pouco de criatividade torna-se delicioso, muito saudável e de fácil digestão, além de ser pobre em gordura. É uma boa fonte de cálcio e adequado para pessoas com doença celíaca e diabetes.

·       Tempeh – Produto obtido a partir da fermentação da soja. É muito rico em vitamina B12.

·       Seitan – Obtido a partir do glúten do trigo. Contém cerca de 24,7% de proteína, embora não seja uma leguminosa.

·       Frutos secos – Nozes, amêndoas, avelãs, amendoins, entre outros.

Cozinhar leguminosas

A confeção da maioria das leguminosas (grão-de-bico, feijão, soja preta, etc.) requer pelo menos duas horas de cozedura, sem contar com as oito a dez horas de demolha.

Como normalmente consumimos pequenas quantidades — uma vez que grandes porções tendem a provocar mais flatulência — e, segundo as recomendações padrão da alimentação macrobiótica, as leguminosas representam cerca de 15 a 20% do prato, cozinhá-las diariamente para uma ou duas pessoas torna-se pouco prático, sobretudo para quem trabalha fora de casa.

Por isso, uma solução simples consiste em cozinhar uma quantidade maior de uma só vez, suficiente para encher três ou quatro frascos de vidro, guardando-os no frigorífico para utilizar conforme necessário.

·       Passo 1: demolha - É aconselhável demolhar as leguminosas durante, pelo menos, 10 horas, juntamente com um pequeno pedaço de alga kombu.

A água da demolha deve ser sempre rejeitada.

·       Passo 2: cozedura - Coloque a alga kombu no fundo da panela.

Junte as leguminosas e a água.

Leve ao lume até levantar fervura e deixe ferver durante cerca de cinco minutos com a panela destapada e em lume forte.

Depois, utilize um difusor de calor entre a panela e a fonte de calor.

A espuma que se forma durante a fervura deve ser retirada, pois acredita-se que contribui para a flatulência e contém impurezas.

Tape a panela, reduza o lume para o mínimo e cozinhe:

·       Grão-de-bico, feijão e soja preta: cerca de 2 horas.

·       Feijão-azuki e lentilhas: entre 1h15 e 1h30.

·       Lentilhas vermelhas e ervilhas secas: entre 45 minutos e 1 hora.

Porque cozinhar durante tanto tempo?

Na minha experiência, estes tempos de confeção tornam as leguminosas mais digestivas do que quando são preparadas em panelas de pressão rápidas. No entanto, cada organismo é diferente; observe como reage o seu sistema digestivo.

Se utilizar uma panela de pressão, deixe o vapor sair lentamente antes de a abrir.

Depois de destapar, adicione uma pitada de sal e deixe cozinhar mais alguns minutos.

·       Passo 3: conservação - Enquanto ainda estiverem bem quentes, coloque as leguminosas em frascos de vidro reutilizados (por exemplo, de tahini, ervilhas ou pepinos em conserva).

Encha bem os frascos e cubra as leguminosas com o respetivo caldo de cozedura.

Feche imediatamente e vire os frascos ao contrário.

Depois de arrefecerem, podem ser guardados no frigorífico.

Desta forma conservam-se durante cerca de duas a três semanas.

Se pretender prolongar a conservação, esterilize os frascos em banho-maria durante cerca de 30 minutos.

·       Passo 4: dar nova vida às leguminosas - Depois de cozidas e conservadas, podem ser utilizadas em inúmeras receitas, por exemplo:

·       sopas;

·       patês;

·       guisados;

·       estufados;

·       ou qualquer outro prato que beneficie do seu sabor e valor nutritivo.

 

 

A doença tem sempre origem no sangue;

Dr. Martín Macedo

 

resumo

O sangue é a base da vida e da saúde. A sua qualidade determina o funcionamento de todos os órgãos, a clareza mental, a estabilidade emocional e a capacidade do organismo para resistir à doença. A qualidade do sangue depende diretamente da alimentação e da forma como os alimentos são preparados e consumidos.

Os hábitos alimentares modernos são caracterizados por refeições rápidas, alimentos industrializados e pela perda do valor espiritual e cultural associado ao ato de comer. Devemos respeitar as práticas tradicionais de preparar os alimentos em casa, mastigar cuidadosamente e encarar a alimentação como um momento de respeito e gratidão.

A alimentação não influencia apenas a saúde individual, mas também o desenvolvimento moral, intelectual e espiritual da humanidade. Cada refeição contribui para moldar a sociedade, tornando a escolha dos alimentos uma responsabilidade pessoal com impacto coletivo.

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texto

A doença tem sempre origem no sangue; o sangue é yang porque possui características yang, como a cor vermelha, o movimento constante e o calor. Comparados com o sangue, os outros líquidos ou humores do corpo são yin, como a linfa, a urina, a saliva, as lágrimas e o líquido cefalorraquidiano.

Na verdade, estes são derivados do sangue, porque é o sangue que tudo cria.

O sangue transporta os materiais de construção para as células e para os tecidos; é o grande fornecedor que leva a saúde, a energia, o oxigénio e a própria vida aos 50 biliões de células do organismo. Governa também o pensamento e a atividade mental, uma vez que cerca de 100 mil milhões de neurónios aguardam avidamente a chegada do sangue, que lhes fornece vida e nutrição indispensáveis ao funcionamento do cérebro.

A qualidade dos ossos, dos músculos, da pele e das hormonas, tudo é determinado pela qualidade do sangue.

O sangue é yang, é a vida, é a essência da nossa vida biológica e, por isso, é sagrado. Antigamente, algumas pessoas faziam um pacto de sangue quando tomavam uma decisão importante.

O sangue é o oceano do corpo; a sua composição plasmática é semelhante à da água do mar, embora seja um pouco menos salgada.

Um sangue forte gera um pensamento claro e firme, emoções estáveis e respostas biológicas vigorosas, aumentando as probabilidades de alcançar os objetivos e os sonhos da vida.

Um sangue de má qualidade gera instabilidade mental e emocional e um funcionamento deficiente de todos os órgãos e sistemas, porque todos recebem a influência medíocre de um sangue pobre e degradado.

O brilho dos olhos, a beleza do cabelo, a capacidade do sistema imunitário para responder aos milhões de vírus e bactérias e a serenidade do caráter são produtos diretos do tipo de sangue que circula incessantemente, como um mar que leva a vida ao nosso maravilhoso templo biológico.

Contudo, a ciência médica moderna vê o sangue como um líquido complexo e não encontra inconveniente em realizar transfusões de sangue provenientes de qualquer dador, sem considerar o seu caráter, personalidade, visão da vida, diligência ou passividade. A ciência vê apenas moléculas e substâncias, porque é tudo aquilo que o equipamento tecnológico, ainda limitado e rudimentar, consegue mostrar.

A alma do sangue não pode ser vista, mas pode ser intuída.

Se o sangue for forte, a saúde será forte.

Se o sangue for tóxico, pobre ou tiver um elevado teor de acidez, o indivíduo sofrerá de uma doença após outra ao longo de toda a vida, mesmo que tome milhares de medicamentos e suplementos alimentares ou farmacêuticos, com todas as vitaminas produzidas pela indústria alimentar, muitas vezes obtidas a partir de subprodutos de origem animal ou vegetal.

O sangue é criado pelos alimentos. Tomio Kikuchi dizia que «uma dentada de alimento, cuidadosamente mastigada, cria uma gota de sangue».

Muitas dentadas criarão litros de sangue.

A qualidade do sangue depende da qualidade da alimentação e do respeito que se deve ter pelo momento das refeições.

No entanto, as pessoas escolhem os alimentos apenas pelo sabor, pelo aspeto ou pelo preço conveniente e consomem-nos preparados através das técnicas mais rápidas e cómodas. Pior ainda, compram refeições confeccionadas por cozinheiros desconhecidos que as preparam em troca de um salário.

Antigamente, a comida era preparada em casa, no seio da família. A sua preparação era considerada algo de extrema importância e os alimentos eram abençoados antes de serem consumidos.

Mas as mudanças levaram à perda destes valores. A organização do trabalho faz com que as pessoas comam à pressa, em vinte minutos, qualquer alimento saboroso e macio que possa ser engolido rapidamente, nos breves intervalos concedidos pelos locais de trabalho. No final, acaba por se aceitar que comer representa uma perda de produtividade, porque é tempo retirado ao trabalho.

Mas comer também é trabalho, e é o trabalho mais importante, porque cria a saúde, a lucidez, o brilho intelectual e permite o pleno desenvolvimento do talento e da genialidade de cada indivíduo. É através dos alimentos que recebemos a vida infinita, para depois criar, trabalhar, produzir e gerar bens e serviços que tornam este mundo um lugar maravilhoso.

Quando a alimentação se transforma em algo sem alma, sem valor espiritual, puramente técnico, químico, comercial e baseado apenas no sabor, como se este fosse o valor supremo, teremos uma humanidade decadente, confusa, sem visão espiritual, sem amor, sem sensibilidade e sem sabedoria.

Porque somos aquilo que comemos e somos o resultado do sangue que transporta a vida ou a doença, a sabedoria ou uma visão limitada da realidade, a paz ou a violência. Tudo se decide na próxima dentada, que criará uma única gota de sangue. E, quando esse processo se repetir vezes suficientes, durante tempo suficiente, criará o tipo de humanidade que habitará este mundo e construirá um futuro feliz para todos os seres humanos.

Todos temos a responsabilidade de acrescentar ou retirar beleza a este mundo ao criar, com as nossas bocas, o sangue do planeta.

— Martín Macedo

 

 

 

Thursday, July 2, 2026

 


A REDENÇÃO PELA ARTE CULINÁRIA

Alan Watts

Resumo

Neste texto, Alan Watts reflete sobre a relação entre a vida, a morte e a alimentação. O autor explica que todos os seres vivos dependem da morte de outros para sobreviver, o que faz da existência um ciclo inevitável de sacrifício e transformação.

Watts questiona se este sistema é justo e se existe uma forma de escapar ao sofrimento que ele provoca. Considera que o vegetarianismo não resolve completamente o problema, pois também as plantas são seres vivos. Assim, conclui que viver implica sempre causar a morte de outros seres.

Perante esta realidade, o autor apresenta três princípios: aceitar a responsabilidade de matar para viver e fazê-lo com o mínimo de sofrimento possível; tratar os animais e as plantas destinados à alimentação com respeito e amor; e honrar os seres que morreram para nos alimentar, preparando e apreciando a comida da melhor forma possível.

Por fim, critica a agroindústria moderna por tratar os animais sem dignidade e defende que a verdadeira demonstração de respeito pela vida se manifesta na arte culinária. Para Watts, cozinhar bem e valorizar os alimentos é uma forma de homenagear os seres que tornaram possível a nossa sobrevivência.

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texto

 

Só a arte culinária nos redime do fardo de vivermos à custa de outras vidas.

O corpo biológico não é uma coisa fixa, mas um processo em permanente curso, como uma chama ou um redemoinho: apenas a forma é estável, porque a substância é um fluxo de energia que entra por uma extremidade e sai pela outra. Somos oscilações temporariamente identificáveis no seio de uma corrente de energia que entra em nós sob a forma de luz, calor, ar, água, leite, pão, fruta, cerveja, strogonoff, caviar ou foie gras. E sai de nós sob a forma de gases e excrementos, mas também de sémen, bebés, conversas, política, comércio, guerra, poesia, música... ou filosofia.

Um filósofo — título que suponho merecer — é uma espécie de intelectual ingénuo que se espanta com aquilo que as pessoas mais sensatas consideram normal; é alguém incapaz de deixar de se maravilhar com os factos mais banais da vida quotidiana. Como afirmava Aristóteles, o espanto é o princípio da filosofia. A mim fascina-me saber que vivo sobre uma enorme esfera rochosa que gira em torno de uma gigantesca bola de fogo. Fascina-me ainda mais o facto de eu próprio ser um labirinto, um intricado arabesco de tubos, filamentos, células, fibras e membranas que constituem diferentes espécies de pulsações imersas na pulsação maior: essa corrente incessante de energia.

Contudo, o que verdadeiramente me inquieta é que quase todas as substâncias que compõem esse labirinto, à excepção da água, foram outrora corpos vivos — corpos de animais e de plantas. E que, por falta de alternativa, tive de me apropriar deles através da morte. Não somos mais do que o rearranjo de outras criaturas, pois a existência biológica apenas se perpetua graças ao sacrifício mútuo e à digestão mútua entre as diversas espécies. Só existo enquanto membro desta comunidade de seres que florescem devorando-se uns aos outros.

É evidente que ser devorado é algo extremamente doloroso, e não desejo semelhante destino para mim. Só de o imaginar fico horrorizado. Se os responsáveis por um crematório não me apanharem primeiro, o facto de um dia vir a servir de alimento a micróbios e vermes compensará, de algum modo, as vacas, os cordeiros, as aves e os peixes de que me alimentei ao longo da vida? Pergunto-me então: não será este gigantesco sistema biológico de mutilação recíproca uma máquina insana e diabólica que caminha rapidamente para um beco sem saída?

Já vi plantas infestadas por pulgões: num dia encontram-se cobertas de pequenos corpos rechonchudos e viçosos; no dia seguinte, não passam de um pó acinzentado preso a caules secos. A vida parece um sistema que se devora até à morte, onde a vitória acaba por equivaler à derrota.

O ser humano pode facilmente seguir o exemplo do pulgão. Quando se torna especialista em tecnologia, revela-se mais predador do que a piranha ou o gafanhoto. Devasta, destrói e contamina toda a superfície do planeta: minerais, florestas, aves, peixes, insectos, água doce — tudo é transformado em subúrbios, esgotos, ferrugem e poluição. O domínio quase absoluto sobre os seus inimigos naturais, desde o tigre até às bactérias, permitiu-lhe multiplicar-se sem controlo sobre a Terra; e, receando a própria ganância, desperdiça fortunas na produção de armas cada vez mais destrutivas.

Muitos animais pré-históricos extinguiram-se devido ao desenvolvimento excessivo das suas defesas naturais. Desapareceram, por exemplo, o tigre-dentes-de-sabre e o titanotério: o primeiro porque as suas enormes presas se tornaram um obstáculo, o segundo devido ao peso insustentável dos seus chifres.

Pode alguém aceitar a morte da espécie da mesma forma que aceita a morte do indivíduo. A energia do universo adoptará novos padrões e novas formas, e o universo continuará a dançar ritmos até então desconhecidos. O espectáculo, naturalmente, prosseguirá. Mas por que razão há-de envolver tamanha agonia? Nervos e carne sensível a contorcerem-se sob o ataque implacável de dentes afiados — será esta a condição indispensável para a continuidade da vida? Se assim for, então o único problema filosoficamente sério, como dizia Camus, é saber se devemos ou não suicidar-nos.

Assim, o filósofo pergunta: para além do suicídio, haverá outra forma de escapar a este círculo vicioso de matança recíproca, que não deixa de ser uma espécie de suicídio cósmico? Existirá algum modo de evitar, atenuar ou suavizar este sistema de morte e sofrimento implícito até mesmo na existência do mais espiritual dos seres humanos?

O vegetarianismo não constitui uma solução. Há muito tempo, o botânico indiano Jagadish Chandra Bose conseguiu medir as reacções das plantas quando eram arrancadas ou cortadas. Pode argumentar-se que as plantas não têm consciência do seu sofrimento; mas será mais sensato reconhecer que simplesmente não conseguem expressar, de forma perceptível para nós, a dor que sentem.

Quando mencionei as investigações de Bose ao budista rigorosamente vegetariano Reginald H. Blyth, autor do clássico Zen in English Literature, respondeu-me: «Sim, eu sei. Mas os vegetais, quando os matamos, gritam muito baixinho.»

Por outras palavras, Blyth mostrava indulgência para com os seus próprios sentimentos. Monges hindus e budistas levam ao extremo o princípio da ahimsa, ou da não-violência, chegando ao ponto de caminhar sempre de olhos postos no chão — não, como poderíamos imaginar, para evitar a tentação provocada por uma bela mulher que passe; mas para não esmagarem inadvertidamente besouros, caracóis ou minhocas. Ainda assim, essa atitude não deixa de ser um subterfúgio, um gesto ritual de respeito pela vida que em nada altera o facto de vivermos graças à morte de outros seres.

Ao recorrer à minha própria consciência em busca de alguma luz sobre esta questão tão espinhosa, encontrei três respostas.

A primeira consiste em admitir que decidir viver implica decidir matar. E, se estou verdadeiramente disposto a matar, devo fazê-lo da forma mais eficiente possível. Pense-se na agonia de ser decapitado por um carrasco incompetente. A morte deve ser tão rápida quanto possível, e a mão que segura a espingarda ou maneja a faca deve manter-se firme.

A segunda consiste em reconhecer que toda a forma de vida destinada a servir de alimento deve ser tratada segundo o princípio: «Amo tanto esta manifestação da vida que a vou comer», o que também significa: «Como tanto esta manifestação da vida que a vou amar.»

Este princípio tem sido impiedosamente ignorado pela agro-indústria e pela indústria piscatória modernas. Basta pensar em dois exemplos: as actuais técnicas de caça à baleia ameaçam a espécie de extinção, e a criação intensiva de aves inunda o mercado com falsos frangos e falsos ovos. Confinados em gaiolas metálicas e alimentados com rações artificiais, esses infelizes animais nunca esgravatam a terra nem sentem o calor do Sol; por isso, a sua carne é insípida. Tudo aquilo que não proporciona prazer à mesa é sinal de que também não foi tratado com respeito nem na exploração agrícola nem na cozinha.

A terceira resposta foi formulada de forma brilhante por Lin Yutang:

«A galinha sacrificada e mal cozinhada morreu em vão.»

O mínimo que posso fazer por uma criatura que morreu para meu benefício é honrá-la — não através de um ritual vazio de significado, mas cozinhando-a na perfeição e saboreando-a plenamente.

O amor pelas plantas e pelos animais que tornam possível a nossa vida deve manifestar-se, acima de tudo, na cozinha.

 

Wednesday, July 1, 2026

 

O que NÃO sabe sobre a diabetes

Dra. Elena Corrales
https://www.elenacorrales.com/blogelenacorrales/lo-que-no-sabes-sobre-la-diabetes/

resumo

O texto explica a diabetes, as suas consequências e apresenta uma perspetiva da Medicina Tradicional Chinesa sobre a prevenção e o tratamento da doença.

A diabetes é descrita como uma doença que pode permanecer sem diagnóstico durante muitos anos, sendo frequente que as pessoas não saibam que a têm. Antes do seu aparecimento podem surgir sinais como sede excessiva, fome constante e perda de peso inexplicável, pelo que é importante vigiar os níveis de glicose no sangue.

O texto explica que a glicose é a principal fonte de energia das células e que necessita da insulina, produzida pelo pâncreas, para entrar nas células. Quando a produção de insulina é insuficiente, a glicose acumula-se no sangue, aumentando o risco de várias complicações.

Entre as principais consequências da diabetes destacam-se os danos nos rins, a arteriosclerose, problemas de circulação, alterações da visão que podem levar à cegueira, neuropatia diabética (com formigueiro, dormência e perda de sensibilidade), diminuição da memória e do desempenho intelectual, maior risco de infeções, incluindo periodontite, e dificuldade na cicatrização de feridas.

Relativamente às causas e à alimentação, a autora apresenta uma interpretação baseada na Medicina Tradicional Chinesa. Defende que alguns alimentos considerados de natureza yin, como o leite, os produtos lácteos e a fruta, enfraquecem o pâncreas e dificultam a sua recuperação, enquanto o consumo regular de cereais integrais poderá favorecer a sua regeneração e reduzir a necessidade de insulina. O texto conclui que a prevenção e o tratamento da diabetes devem passar por uma alimentação orientada segundo esta perspetiva energética.

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texto

Um dia, um médico amigo meu dizia-me que a diabetes é uma doença que, muitas vezes, quando é diagnosticada, o doente já é diabético há mais de dez anos. De facto, quase metade das pessoas que têm diabetes não sabe que a tem.

A Organização Mundial da Saúde (OMS) incluiu a diabetes entre as dez doenças responsáveis pelas principais causas de morte, pelo que vale a pena prestar atenção ao que explicamos de seguida.

O meu objetivo vai para além de fazer um diagnóstico precoce da doença; a intenção é preveni-la, uma vez que, antes de se desenvolver, já existem sinais que nos alertam para níveis elevados de glicose.

Se sente muita fome, uma sede excessiva que não resulta do consumo exagerado de sal, ou se perde peso sem causa aparente, deve verificar os seus níveis de glicose.

A glicose

A glicose é a moeda energética da célula; é o combustível a partir do qual obtemos a energia necessária para todas as funções vitais. É, por isso, indispensável. Provém dos alimentos que contêm hidratos de carbono e é obtida através da digestão. Depois de a glicose entrar na corrente sanguínea, necessita da insulina produzida pelo pâncreas para conseguir entrar nas células.

A diabetes

Sem entrar na descrição dos diferentes tipos de diabetes, podemos dizer, de forma genérica, que a diabetes é uma doença de deficiência, ou seja, o pâncreas deixa de produzir insulina. Nesse caso, os níveis de glicose no sangue aumentam, o que representa um perigo para a saúde.

As causas

Há quem pense que, se não comer doces, não corre risco de desenvolver diabetes. No entanto, veremos que não é o açúcar de mesa a principal causa de o pâncreas deixar de produzir insulina.

Como explicamos frequentemente, os alimentos não são apenas matéria, ou seja, uma soma de nutrientes; são também energia. Assim, alguns alimentos aquecem e outros arrefecem; uns dilatam e outros contraem; uns tonificam e outros inibem. Estas características correspondem ao que a Medicina Tradicional Chinesa define como yang e yin.

Devemos saber que o leite e os seus derivados, bem como a fruta, são atualmente dos alimentos mais consumidos nos lares. O leite e a fruta são alimentos perecíveis que necessitam de refrigeração e, quando estudamos a antropologia da alimentação, verificamos que eram alimentos de consumo ocasional. Este facto deve levar-nos a refletir sobre a adequação destes alimentos ao consumo diário, pois, se fossem tão indispensáveis como a publicidade nos faz acreditar, as gerações que nasceram antes da existência do frigorífico apresentariam alguma sequela dessa ausência.

Trata-se de dois grupos de alimentos yin, ou seja, alimentos doces (devido à lactose e à frutose) e com efeito refrescante, sendo, por isso, considerados inibidores e promotores das chamadas doenças de deficiência.

Embora o leite, os produtos lácteos e a maioria das frutas não aumentem os níveis de glicose no sangue, por possuírem uma energia fortemente yin (refrescante), enfraquecem todos os órgãos, como já explicámos noutras ocasiões. Se uma pessoa tiver o pâncreas como o seu órgão mais vulnerável, este poderá simplesmente deixar de funcionar. Por isso, quando os doentes diabéticos apenas evitam alimentos doces com índice glicémico elevado, mas continuam a consumir regularmente leite e derivados, bem como fruta, considera-se que o pâncreas não consegue regenerar-se.

Os cereais integrais são alimentos ricos em hidratos de carbono de absorção lenta, ou seja, com baixo índice glicémico, e o seu consumo regular permite, em muitos casos, a regeneração do pâncreas e a redução progressiva da necessidade de insulina.

O que comemos, depois de digerido (aminoácidos, glicose e ácidos gordos), passa para a corrente sanguínea e daí é distribuído por todas as células do organismo. No caso da glicose, se não produzirmos insulina suficiente, esta não consegue entrar nas células, permanecendo no sangue e prejudicando vários órgãos do corpo, como veremos de seguida.

Os rins

A glicose acumulada no sangue atua sobre os tecidos como uma substância tóxica, provocando uma acidose metabólica que conduz a alterações da função renal, fazendo com que os rins filtrem cada vez menos e com menor eficácia.

A arteriosclerose

Outro aspeto pouco conhecido por muitas pessoas é o papel da glicose no sangue na arteriosclerose. A glicose comporta-se de forma semelhante ao colesterol, dificultando a irrigação do coração, provocando problemas na retina dos olhos que podem levar à cegueira e originando problemas circulatórios generalizados.

A neuropatia diabética

Quando a diabetes afeta os nervos, pode provocar aquilo a que se chama neuropatia diabética, caracterizada por uma deficiente transmissão dos impulsos nervosos, causando formigueiros, dormência, perda de sensibilidade, entre outros sintomas.

A memória

A diabetes pode igualmente provocar perda de memória e diminuição do desempenho intelectual. O cérebro é o órgão que mais glicose e oxigénio consome em proporção ao seu peso. Quando as células não recebem um fornecimento suficiente de glicose, a função cerebral fica comprometida e, consequentemente, a memória pode ser afetada.

A periodontite

Foi demonstrado que a periodontite (infeção das gengivas) é três vezes mais frequente em pessoas com diabetes do que no restante da população. Isto acontece porque, quando os níveis de glicose estão elevados, aumenta o risco de infeções. Por outras palavras, o excesso de açúcar enfraquece o sistema imunitário.

A lista de possíveis complicações é muito mais extensa: má cicatrização das feridas, maior predisposição para infeções de todo o tipo, entre outras.

Com tudo isto, convidamo-lo a refletir sobre este tema. O problema não é tão simples como pensar que, se tenho diabetes, basta administrar insulina e nada mais acontece. Dentro do possível, devemos procurar prevenir a doença e, se esta já se tiver desenvolvido, tentar evitar que o pâncreas continue a enfraquecer progressivamente, como, segundo o autor, acontece na maioria dos diabéticos insulinodependentes, que, apesar de seguirem as indicações do seu médico, acabam por necessitar de doses cada vez maiores de insulina. Para isso, o autor defende que a alimentação deve ser abordada segundo uma perspetiva energética.

 

 

 

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