OS ALIMENTOS
ESTRUTURA E
FUNÇÃO
Drª Elena Corrales
https://www.elenacorrales.com/blogelenacorrales/alimentos-algo-mas-que-nutrientes-ii/
Para utilizar os alimentos como agentes de
cura, contemplamos a sua estrutura e a sua função: falamos da composição
química, determinada pela origem (estrutura), e do seu comportamento, definido
pelas características bioenergéticas (função).
Em termos gerais, falamos de química e
física, anatomia e fisiologia, software e hardware, etc. Do mesmo modo, no caso
dos alimentos, referimo-nos a estrutura e função, uma vez que são compostos por
matéria (estrutura), dada pela sua composição química, e energia (função), que
determina o seu comportamento no nosso meio interno. É aquilo a que os
orientais chamam yin e yang, conceitos perfeitamente traduzíveis para a nossa
linguagem ocidental.
Tabela
1- Características dos alimentos
|
OS ALIMENTOS
|
ESTRUTURA MATÉRIA
|
FUNÇÃO ENERGIA
|
|
muito mais do que uma soma de nutrientes
|
química
|
física
|
|
|
naturais
|
aquecedores arrefecedores
|
|
|
integrais
|
contrativos expansivos
|
|
|
biológicos
|
equilibrados sódio potássio
|
Para compreender o poder curativo dos
alimentos, devemos avaliar não só os aspetos nutricionais, isto é, se são
naturais, integrais e biológicos. É ainda imprescindível considerar os aspetos
funcionais: se aquecem ou arrefecem, se contraem ou dilatam e se apresentam
equilíbrio na relação sódio/potássio.
De seguida, fazemos uma breve
descrição dos alimentos atendendo à sua origem, isto é, à sua composição
química. Esta classificação permite-nos saber se alcalinizam ou acidificam,
oxidam ou reduzem, desmineralizam ou remineralizam, etc., aspetos relacionados
com a química e a matéria.
Muitas vezes, prestamos mais atenção aos
nutrientes do que ao alimento em si, e essa perspetiva desvirtua completamente
a sua utilidade como ferramenta para manter e/ou recuperar a saúde. Por isso, é
imprescindível aprofundar a abordagem que fazemos de seguida.
Os alimentos segundo a sua origem
1.1 Alimento natural
É aquele que a natureza
oferece em cada lugar e estação. Quando falamos da biocompatibilidade do
alimento natural connosco, referimo-nos à sua utilização ótima pelo organismo.
Embora o ser humano seja hoje capaz de
imitar a natureza, fabricando compostos artificiais quimicamente idênticos aos
que ela produz, devemos saber que, do ponto de vista bioenergético, não são
iguais. De facto, os níveis de absorção das substâncias de síntese são muito
inferiores aos das substâncias orgânicas, isto é, naturais.
Atualmente, a oferta
alimentar é tão elevada que, muitas vezes, consumimos apenas produtos
comestíveis. Assim designamos os produtos processados pela indústria
alimentar que podem ser consumidos: sopas instantâneas, refrigerantes, produtos
de pastelaria, refeições pré-cozinhadas, etc.
Para recuperares a saúde, é
imprescindível eliminares todos esses produtos comestíveis e substituí-los por
verdadeiros alimentos, produzidos pela natureza, tanto de origem vegetal
(cereais, leguminosas, hortaliças, etc.) como animal (peixe, ovos, aves, etc.).
Do mesmo modo, deves rejeitar
qualquer alimento com conservantes, espessantes, antioxidantes, etc., porque
são substâncias artificiais adicionadas. Deves igualmente eliminar os
refrigerantes, que são um cocktail químico e não contêm qualquer ingrediente natural.
Os alimentos naturais são imprescindíveis
para o desenvolvimento da vida, e a saúde é a sua máxima expressão.
1.2 Alimento integral
Tradicionalmente, os
alimentos eram consumidos na forma integral, isto é, inteiros ou completos.
Apenas se desperdiçavam as partes demasiado fibrosas, indigestas ou duras, no
caso dos vegetais. Por isso se descascam as laranjas ou se partem as cascas das
nozes, por exemplo. No caso dos alimentos de origem animal, também se
aproveitavam todas as partes: vísceras, sangue, ossos, etc.
Nos últimos 200 anos, em consequência da
mecanização da agricultura e da introdução dos adubos químicos, começaram a
existir excedentes na produção agrícola, pela primeira vez na história da
humanidade. Este facto permitiu que se começassem a refinar os alimentos, com o
consequente desperdício de elementos vitais.
Ao refinar o trigo e o arroz,
observa-se que:
·
Diminui a quantidade de minerais, oligoelementos e
vitaminas.
·
Elimina-se a fibra, essencial para o bom
funcionamento intestinal.
·
Desaparecem os ácidos gordos essenciais presentes
no gérmen.
·
Destrói-se a energia vital ou capacidade de
germinação dos grãos.
Tabela 2 - Riqueza nutricional dos alimentos integrais
|
CONTEÚDO POR 100 G
|
VITAMINAS
|
MINERAIS
|
PROTEÍNAS
|
|
arroz branco
|
1,7 mg
|
215,8 mg
|
6,7 g
|
|
arroz integral
|
5,09 mg
|
476,6 mg
|
7,5 g
|
A refinação dos cereais
deixa-nos um alimento morto e nutricionalmente desequilibrado, que nos nutre,
mas não nos vitaliza. Hoje, todos sabemos que uma alimentação baseada em
produtos refinados apresenta carências e, por isso, recorre-se ao enriquecimento
ou à suplementação de todo o tipo de alimentos com vitaminas, cálcio, magnésio,
etc.
Os alimentos integrais, graças à sua
riqueza em minerais, neutralizam a acidose do meio interno, isto é, são
alcalinizantes.
1.3 Alimento biológico ou ecológico
Desde que os nossos
antepassados descobriram a agricultura até praticamente ao início do século XX,
o adubo utilizado foi sempre o estrume, isto é, um produto orgânico e natural.
Porém, no final do século XIX, paralelamente à mecanização da agricultura, desenvolveram-se
os adubos químicos.
Esta invenção proporcionou um
aumento considerável do rendimento das colheitas e, consequentemente, a
produção de alimentos multiplicou-se. Por isso, há mais de 60 anos que os
adubos químicos, vulgarmente conhecidos como nitratos ou adubos minerais, são usados
de forma intensiva. Isto significa que se adicionam aos solos substâncias
químicas, concretamente azoto, fósforo e enxofre, para obter colheitas maiores.
Ao adicionar nitratos ao
solo, observa-se que:
· Diminui
sensivelmente o teor de magnésio dos alimentos.
· Aumenta
desproporcionadamente o teor de potássio, o que conduz a uma forte retenção de
água.
Tabela
3 - Equilíbrio mineral dos alimentos biológicos
|
ESPINAFRES MG/100 G
|
ADUBO QUÍMICO
|
CULTIVO BIOLÓGICO
|
|
cálcio CaO
|
372
|
357
|
|
magnésio MgO
|
60
|
429
|
|
potássio K₂O
|
969
|
313
|
Assim, concluímos que um
alimento cultivado com adubos químicos contém menos elementos nutritivos e mais
água. Obtêm-se, por exemplo, tomates maiores, mas com menos sabor.
Em todos os casos, devemos escolher
alimentos cultivados com adubos orgânicos e naturais, como o estrume ou o
composto. Os alimentos produzidos sem adição de adubos químicos designam-se
biológicos ou ecológicos e devem ser acompanhados das respetivas certificações
de garantia, que comprovam a sua proveniência.
Tabela
4 - Riqueza em vitaminas dos alimentos biológicos
|
AVEIA MG/100 G
|
ADUBO QUÍMICO
|
CULTIVO BIOLÓGICO
|
GANHO BIOQUÍMICO
|
|
vitamina B₁
|
317
|
610
|
92%
|
|
vitamina B₂
|
56
|
152
|
141%
|
|
vitamina B₃
|
9,5
|
19
|
100%
|
|
proteínas
|
12,8
|
16,4
|
28%
|
O ideal é que os alimentos,
além de serem provenientes da agricultura biológica, sejam integrais em todos
os casos. Referimo-nos ao pão, aos sumos e a muitos produtos apresentados com
certificação biológica, mas que são alimentos refinados.
Os alimentos biológicos, graças ao seu
elevado teor de vitaminas, atuam como poderosos antioxidantes, isto é, são
revitalizantes.
2.1 Alimentos aquecedores e arrefecedores
Uma análise laboratorial nada nos diz sobre
o efeito aquecedor ou arrefecedor dos alimentos, mas milhares de anos de
experiência de todos os povos e culturas do planeta dizem-nos muito. Todas as
medicinas tradicionais consideram estes aspetos quando utilizam os alimentos
com fins curativos. Devemos ter em conta que o frio é um agente causador de
muitas patologias, quer seja de origem externa, como o frio provocado pelo
clima, quer interna, como o produzido pelos alimentos arrefecedores.
São
alimentos aquecedores:
Todos os alimentos
reconstituintes e tónicos fortes, como as carnes vermelhas, os enchidos, os
alimentos salgados e conservados em sal, os queijos curados, as empadas, os
fumados, a carne de caça, etc.
Do mesmo modo, o sal e os
alimentos salgados têm efeito aquecedor, tal como os métodos de confeção que
utilizam temperaturas elevadas: forno, grelhador, brasas, etc.
Podemos ter problemas de
excesso de calor, mesmo sem consumirmos demasiados alimentos de origem animal,
se tivermos o hábito de comer tudo muito temperado e cozinhado. O consumo
excessivo destes alimentos pode provocar demasiado calor no corpo.
Estes alimentos tornam mais lenta a
circulação da energia e têm um efeito de estagnação, favorecendo depósitos de
toxinas sob a forma de quistos e tumores. Esta situação provoca problemas de
congestão, bloqueio, sobrecarga e excesso em todos os sistemas, podendo dar
origem a doenças de prognóstico desfavorável.
São
alimentos arrefecedores:
O açúcar e todos os doces, o
mel, os produtos lácteos, os gelados, o chá, o chocolate e o café, bem como
todos os alimentos crus, batidos ou refrigerados. Também são arrefecedores as
especiarias, os molhos vinagrete, as frutas tropicais, as infusões, etc.
O consumo excessivo de alimentos
arrefecedores favorece todas as doenças de deficiência que resultam numa má
qualidade de vida: problemas de garganta, nariz e ouvidos, asma brônquica,
eczema, sinusite, fraqueza generalizada, má circulação, falta de força
digestiva, sensação de frio mesmo quando está calor, dores lombares e
articulares, diarreias, cólicas, alterações hormonais, etc.
2.2 Alimentos contrativos e expansivos
Consoante sejam de origem vegetal ou
animal, ricos em potássio ou sódio, o seu teor de água, a velocidade e o local
de crescimento, etc., os alimentos têm um efeito contrativo/endurecedor ou
expansivo/dilatador.
São
alimentos de natureza contrativa:
Todos os alimentos de origem animal, ricos
em proteínas e gorduras, salgados e secos, como os queijos curados, os
alimentos conservados em sal, a mojama (peixe seco e salgado), os fumados, etc.
Pertencem igualmente a esta categoria os ovos e todos os alimentos tostados e
assados no forno.
O
consumo excessivo de alimentos contrativos favorece:
· No plano
físico: tensão muscular, contraturas e roturas musculares, estrias,
endurecimento das artérias, formação de cálculos renais e hepáticos e depósitos
sob a forma de tumores benignos e malignos. Os alimentos de natureza contrativa
também são definidos como construtores, devido à sua riqueza em proteínas.
· No plano
psicológico: introversão, bloqueio emocional, dificuldade em expressar
sentimentos, ressentimento, incapacidade de adaptação, ira, comportamento
irritável e mau humor, autocontrolo excessivo, etc.
São
alimentos de natureza expansiva:
Todos os alimentos refinados, incluindo o
açúcar, os refrigerantes e o álcool, bem como os produtos lácteos de
consistência mole. Também favorecem a inflamação as hortaliças e frutas
tropicais, os edulcorantes, os sumos e as farinhas. São alimentos com elevado
teor de água em comparação com os restantes nutrientes.
O
consumo excessivo de alimentos expansivos favorece:
· No plano
físico: anemia, cansaço, diminuição das defesas, obesidade, flacidez, varizes,
falta de memória, irritações da pele e das mucosas e infeções por bactérias,
fungos e vírus. Os alimentos de natureza expansiva também são definidos como
desintegradores, devido à sua pobreza em nutrientes. São igualmente
impulsionadores, favorecendo processos de eliminação sob a forma de inflamação.
· No plano
psicológico: extroversão, falta de controlo das emoções, choro fácil,
dependência emocional, medo, depressão, falta de autoestima, ansiedade, stresse
e angústia.
A Medicina Oriental define como yin os
alimentos doces, moles, aquosos, cremosos e suaves, que são também
arrefecedores, de natureza expansiva e ricos em potássio. Pelo contrário,
classifica como yang os alimentos salgados, duros, secos e pesados, com efeito
aquecedor, de natureza contrativa e ricos em sódio.
Nas sociedades modernas, aumentou tanto o
consumo de alimentos yang como o de alimentos yin. Ao mesmo tempo,
desapareceram das nossas mesas os alimentos equilibradores, descritos de
seguida. Esta mudança está na origem das chamadas doenças da civilização.
Figura 1 Visão energética e funcional dos alimentos
2.3 Alimentos equilibradores e equilíbrio na relação sódio
potássio
O equilíbrio sódio/potássio constitui uma
aproximação quantitativa ao equilíbrio yin/yang da Medicina Oriental. Os
conceitos de yin e yang são muito mais profundos e complexos do que aquilo que
aqui explicamos. São atributos do yin e do yang a natureza animal ou vegetal, o
local de crescimento, o teor de água, a cor, a forma, etc. A relação
sódio/potássio permite-nos, contudo, uma aproximação mais científica, objetiva
e próxima da química.
Quando temos saúde, no interior das
células, o sódio e o potássio encontram-se numa proporção de 1 para 7. Por
isso, a introdução de alimentos com uma relação sódio/potássio tão próxima
quanto possível de 1/7 é fundamental para uma abordagem bem-sucedida na
recuperação do equilíbrio interno.
Aos cereais integrais, às leguminosas e às
oleaginosas, que são simultaneamente fruto e semente, chamaremos alimentos
terapêuticos, porque tendem a restabelecer o desequilíbrio energético que
produziu a doença.
Também
são alimentos equilibradores as hortaliças e frutas de clima temperado, os
frutos secos, bem como as algas marinhas e os alimentos fermentados durante
longos períodos com adição de sal, como o miso e o tamari.
Tabela
5 - Relação sódio potássio nos alimentos
|
ALIMENTO MG/100 G
|
SÓDIO
|
POTÁSSIO
|
Na/K
|
|
salsichas
|
1427
|
113
|
13/1
|
|
chouriço
|
900
|
160
|
6/1
|
|
arroz integral
|
4
|
112
|
1/28
|
|
milho
|
4
|
23
|
1/6
|
|
feijão
|
62
|
999
|
1/16
|
|
favas
|
35
|
1005
|
1/29
|
|
nozes
|
12
|
500
|
1/42
|
|
batatas
|
7
|
570
|
1/81
|
|
curgete
|
1
|
400
|
1/400
|
|
laranjas
|
0
|
84
|
0
|
|
cerejas
|
0
|
224
|
0
|
Na tabela anterior, observamos que os
alimentos de origem vegetal são mais ricos em potássio do que os de origem
animal. Por isso, numa dieta em que predominam os vegetais, a utilização de sal
marinho é imprescindível para equilibrar os alimentos, razão pela qual tem sido
utilizado na cozinha desde a mais remota Antiguidade.
Após mais de 30 anos de experiência, com
mais de 20 000 casos clínicos registados, posso afirmar que o consumo regular
de alimentos equilibradores é um requisito imprescindível para a recuperação de
qualquer doença, seja ela aguda, crónica ou mesmo degenerativa.
Contudo, para que um alimento adquira a
dimensão de medicamento, é essencial considerar, em todos os casos, a
frequência de consumo, a proporção em que deve ser ingerido e a forma de
preparação.
Depois de conhecermos as características
dos alimentos, tanto pela sua origem como pelas suas propriedades
bioenergéticas, podemos começar a fazer pequenos ajustes na alimentação diária
para melhorar a saúde.
3 A dieta terapêutica
A
terapêutica baseada na alimentação não é uma invenção moderna, muito pelo
contrário. Na história da medicina, tanto no Oriente como no Ocidente, todos os
grandes médicos da Antiguidade prescreviam medidas dietéticas aos seus
pacientes e atribuíam uma importância fundamental à alimentação. Assim,
Hipócrates, considerado por muitos o pai da medicina, já dizia:
«Que o teu alimento seja o teu
medicamento e que o teu medicamento seja o teu alimento.»