Thursday, September 10, 2026

 

A NUTRIÇÃO NAS CULTURAS TRADICIONAIS

Dr. Martín Macedo

Os maiores mestres da nutrição não se encontram nas grandes universidades nem nas faculdades de Medicina. A sabedoria encontra-se disseminada aqui e ali. Se observarmos atentamente, constataremos que certas culturas muito antigas mantiveram, basicamente, a mesma forma de alimentação durante milhares de anos. E não se aborrecem? Sempre a mesma coisa? Em todas as refeições?

Estas culturas aprenderam, ao longo dos séculos, através de uma observação paciente e de tentativas e erros, como produzir corpos fortes como o bronze e belos como diamantes. Fizeram da cultura física a base do seu desenvolvimento e do seu êxito. Êxito em manter níveis de saúde sem paralelo noutras culturas, noutras partes do mundo.

As civilizações espirituais são aquelas que utilizaram mais o seu hemisfério direito. As civilizações «femininas». Do Oriente e do Ocidente nativo. Porque o Ocidente nativo é o Oriente do Oriente. De ambos os lados do oceano Pacífico. De um lado, as civilizações antiquíssimas dos povos nativos americanos, com milhares de anos, e, do outro, as civilizações asiáticas, também antiquíssimas, como a Índia, a China, a Coreia e o Japão.

Mas existem outras culturas altamente desenvolvidas espiritualmente em África, na Europa Oriental e no Médio Oriente. Se observarmos os seus hábitos alimentares, encontraremos vários elementos em comum, que nos darão pistas para «descobrir» a alimentação que produz um funcionamento perfeito, uma saúde formidável.

A primeira coisa que nos chama a atenção é a clara compreensão de que o ser humano e a terra são inseparáveis. Se algo acontecer à terra, também acontecerá ao corpo do homem. Por isso, amam a terra e veneram-na como uma mãe. A Pacha Mama dos povos nativos americanos e o princípio Shin Do Fu Ni dos japoneses rurais e tradicionais.

Shin Do Fu Ni significa: homem, terra, não dois. São um, não são dois. A saúde da terra é a saúde do homem. A doença da terra é a doença do homem. Não existe separação. A ligação é íntima.

Por isso amam a terra. Por isso os índios amam as suas terras e desejam viver eternamente nelas. E é aí que têm enterrados os seus antepassados. Porque se alimentaram e viveram com os produtos dessa terra. E essa terra deu-lhes a vida, a saúde, a força, a coragem e a alegria de viver. Tudo provém da terra e dos alimentos da terra.

Essa veneração pela terra e pela agricultura tradicional é o primeiro elemento que nos chama a atenção.

No Ocidente, a terra é vista de uma forma académica. Define-se, observa-se ao microscópio, determinam-se os seus níveis de sais minerais, o seu nível de humidade, o seu conteúdo em insetos e bactérias fixadoras de azoto e fósforo. Todo este estudo requer especialistas que se formam durante anos.

Mas o objetivo, o propósito destes estudos, é criar estratégias PRODUTIVAS. Ou seja, estuda-se como explorar a terra ao máximo, para que os agronegócios sejam mais lucrativos e, assim, a economia de um país possa prosperar. E, dessa forma, «todos viveremos melhor». Porque haverá mais negócios e mais dinheiro para comprar coisas para viver melhor. Mais eletrodomésticos, mais automóveis, mais aviões, mais fábricas e mais emprego.

Muitos empregos para que todos possam ter salários elevados. Enfim… o sonho americano transformou-se no sonho da humanidade terrestre.

E, para realizar o tão desejado sonho americano, fazem-se esforços imensos e recorre-se à tecnologia através do método científico. E assim vemos que aqueles que alcançaram o sonho americano, ou que estão em vias de o alcançar, acabam com excesso de peso e com todas as consequências derivadas do aumento do perímetro abdominal.

Quando as pessoas começam a prosperar, começam a celebrar com grandes banquetes, a beber whisky de marca, a comer em restaurantes de luxo, a usufruir das comodidades dos transportes, com um ou vários automóveis de marca e motoristas que tratam dos pormenores do trabalho. E a fumar charutos cubanos. E o Rolex.

De um modo geral, quando as pessoas começam a alcançar o sonho americano, começam simultaneamente a abusar dos luxos e dos prazeres. E a saúde começa a declinar. Começam a perda de controlo e a queda. São simultâneas.

A história repete-se.

Isto faz-me lembrar os romanos no auge do seu esplendor militar e económico. Quando começaram a dispor de mais recursos de todos os tipos, começaram os banquetes, as ânforas de vinho. E mulheres fáceis, bailes e noites sem dormir.

A história volta a repetir-se.

Por isso, a nutrição baseada numa visão exploradora da terra não está orientada para a intuição, mas para a procura da rentabilidade. Os povos tradicionais amam a terra e veem essa ligação.

O paradigma ocidental erudito-académico-tecnológico separa tudo e não possui a sensibilidade do paradigma das culturas tradicionais. Por isso, para descobrir a nutrição ótima, é necessário aprender com essas culturas que amam a terra como os seus próprios corpos.

Porque compreendem que somos uma extensão da terra. Dela provêm os componentes biológicos que formam os nossos ossos, músculos, sangue e hormonas. E, se a terra estiver contaminada, o nosso corpo adoecerá.

Outra característica das culturas antigas é valorizarem os alimentos da terra, os vegetais, num grau superior aos alimentos provenientes dos corpos dos animais. Isto é, a alimentação das culturas tradicionais tende para o vegetarianismo.

A sua sensibilidade, a sua intuição, a sua clara compreensão da misteriosa ligação homem-solo deve-se à sua prática constante e tradicional de um baixo consumo de proteína animal.

Os povos do Oriente consomem pouca proteína animal, em comparação com os elevadíssimos consumos das nações ocidentais, sobretudo das outrora chamadas «potências» ocidentais.

Nas nações com elevado consumo de proteína animal, onde a carne, o frango ou o peixe constituem a base da alimentação, não é habitual encontrar esta delicada sensibilidade, esta visão. Encontra-se antes frieza, insensibilidade e uma visão mais «tecnológica» da atividade agropecuária.

É aí que florescem os agronegócios. A terra, tal como os animais da quinta, são «coisas», «produtos para venda», «mercadorias» e fontes de riqueza, na medida em que possam ser trocados por dólares.

Para mim, é perfeitamente claro que consumir muita proteína animal nos torna frios, brutais e insensíveis. Assim eram os romanos, assim eram os bárbaros, assim eram as nações belicosas que faziam um culto da guerra e adoravam a «águia», carnívora e poderosa.

Estas nações acreditam, a nível inconsciente, que o predador carnívoro é o forte, aquele que domina. E que o herbívoro é o perdedor, o subjugado, o explorado, o fraco.

E glorificam-se o leão, o tigre, o falcão e a águia. E aquele que se alimenta de «erva» acaba estúpido como a vaca e torna-se alvo de troça e brincadeiras por parte dos amigos e familiares.

Recordo os meus tempos de universidade, quando os meus colegas de turma se divertiam a rotular-me de «vegetariano». «Ele é vegetariano», diziam a algum professor em plena aula, ou apresentavam-me a outros estudantes de Medicina como «ele é vegetariano».

Estranho, quase estúpido, com uma certa debilidade mental. E, claro, falta-lhe a «força» da carne. Não é um leão como nós.

Quando alguém nos quer elogiar, diz-nos: «és um tigre». Como quem diz: és um vencedor, és forte.

São crenças coletivas, enraizadas em séculos de programação e repetição. A carne dá força. Os vegetais são muito saudáveis, mas só vegetais tornar-te-ão anémico e ficarás extremamente magro.

As culturas sensíveis do Oriente ou os povos nativos do mundo sempre consideraram os alimentos de origem animal como algo que deve ser consumido com moderação. Porque têm o potencial de matar a sensibilidade e a sabedoria.

As culturas tradicionais veneram a terra e valorizam ao mais alto grau os alimentos de origem vegetal. É o contrário do Ocidente.

Consideram os alimentos vegetais «sátvicos» (*). Elevam o nível de consciência. Aumentam o nível de força vital. Embelezam, rejuvenescem, limpam e purificam o corpo. Produzem longevidade e fertilidade. Estimulam um pensamento elevado, o desenvolvimento da mente e do espírito. Fazem emergir o que há de mais nobre em nós.

Mas não se trata de qualquer vegetal. Trata-se de um tipo particular de vegetais que as culturas de elevada sensibilidade espiritual sempre tiveram em grande estima: os grãos de cereais.

O arroz, o trigo, o milho, o centeio, o millet, a cevada, a quinoa.

Não são simples sementes. Constituem os alimentos sagrados dos homens. Assim tem sido durante centenas de milhares de anos.

A associação entre cereal-divindade, cereal-saúde perfeita, cereal-pensamento elevado e agudo, cereal-vitalidade ilimitada esteve e continua a estar presente no inconsciente coletivo das nações do Extremo Oriente, de África e da América nativa.

No Ocidente também se venerou, durante milhares de anos, o cereal, o pão, o trigo. O «corpo de Cristo».

Até que, no século XVII, começou a Revolução Industrial, os cereais começaram a ser refinados e passou a produzir-se comida comercial.

E surgiram outras teorias, diferentes, científicas, que dividiram os alimentos em proteínas, vitaminas, gorduras e hidratos de carbono.

Hemisfério esquerdo.

O valor já não estava na alma do alimento, mas nos seus componentes bioquímicos. O valor estava no seu teor de ferro ou de vitamina A.

E assim fomos perdendo a intuição.

E, por isso, criámos ambientes antinaturais onde o HPV encontra a fetidez e a acidificação perfeitas para se multiplicar e replicar. Porque existem muitas células debilitadas e alteradas.

Chegaram os tubarões.

Começa a debandada.

«Salve-se quem puder.»

E os vírus começam a «carnificina». Começam a fazer aquilo que lhes foi confiado. Estão a prestar um serviço. E são altamente eficientes. São infalíveis. São mestres da predação celular.

São perfeitos.

São predadores temíveis.

E os fracos tremem. E procuram refúgio. Mas não há onde esconder-se. Porque os vírus são tão pequenos que estão em toda a parte.

Vieram fazer o seu trabalho e fá-lo-ão magistralmente. Não o farão por um estímulo económico. Não o farão por dinheiro. Fá-lo-ão porque essa é a sua «elevada» missão.

Exterminar células inviáveis. Tóxicas. Não funcionais.

E, se houver demasiadas destas células, pode começar um cancro dos órgãos reprodutores. Tanto no homem como na mulher.

O que fazemos?

Controlos, exames, extirpar a mais pequena verruga venérea ou a mais pequena mancha «suspeita» no colo do útero. E vacinar. Todos.

E começar o mais cedo possível. Com as meninas de 9 anos. E também com os meninos.

No futuro, possivelmente, os especialistas recomendarão também vacinar os bebés contra o HPV, para os preparar contra este «flagelo», contra este poderoso inimigo.

E essa é a estratégia ocidental.

Mas o cancro nunca esteve em níveis tão elevados. Nunca o ser humano esteve tão doente. Nunca se venderam tantos medicamentos como agora. Nunca se gastou tanto em serviços de assistência médica.

E, apesar dos elevados gastos, das múltiplas vacinas, das toneladas de antibióticos e dos exames rigorosos e «obrigatórios», a situação sanitária não melhora.

Piora, e o ser humano não é feliz. É mais infeliz do que nunca. Há mais pessoas deprimidas do que nunca. E mais psiquiatras e psicólogos do que nunca.

Teremos de experimentar outras estratégias.

Voltar a começar.

À origem.

Ao princípio.

 

(*)- O alimento SÁTVICO estimula o desenvolvimento de uma mente elevada, de um pensamento elevado, de sentimentos e propósitos nobres. O alimento sátvico é utilizado, fundamentalmente, pelos indivíduos espiritualmente avançados. E a carne e o leite não são sátvicos, com exceção de um pouco de leite de iaque, um bovino de raça asiática muito diferente da vaca holandesa da indústria e do negócio da Europa e da América.



Wednesday, September 9, 2026

 

MELHORAR O ESTADO NUTRICIONAL

Dr. Martín Macedo

Tal como Hipócrates ensinou há mais de 2.500 anos, o pai da medicina moderna, a nutrição é crucial enquanto procedimento médico. Sem nutrição não há medicina. São inseparáveis. Se a medicina não tiver em consideração a nutrição, não é uma verdadeira medicina. Não é aquilo que Hipócrates sonhou e vislumbrou como um futuro glorioso para a medicina.

As considerações higiénico-dietéticas que figuram na história clínica são «encaminhadas» para o nutricionista. E este, por sua vez, recebe uma educação tendenciosa, financiada pelas multinacionais dos lacticínios, das bebidas de cola e pela indústria frigorífica. Assim, ensinam aos estudantes de nutrição que a carne vermelha é a que fornece a melhor proteína e que o cálcio do leite apresenta uma excelente biodisponibilidade.

E os estudantes acreditam, porque é isso que lhes é ensinado. E, quando se formam, tornam-se «crentes». E os médicos encaminham os seus pacientes para os nutricionistas «crentes», que não leem outra coisa senão a abundante informação científica que lhes é fornecida nos cursos universitários.

Dão-lhes quantidades extenuantes de informação para aprender e memorizar, avaliações e exames. Não lhes dão tempo para pensar noutras opiniões ou noutras abordagens. De manhã à noite: aulas, oficinas, aulas práticas, até os deixarem extenuados. Se tiverem tempo livre, talvez se «contaminem» com outras opiniões, ou talvez caiam em posições extremas, como o vegetarianismo.

Quase não há nutricionistas vegetarianos. Ensinasse-lhes que as pessoas vegetarianas têm deficiência de vitamina B12 e também anemia por falta de ferro. E que a proteína vegetal é mal assimilada e não forma massa muscular. E repete-se a mesma ladainha, como o Pai-Nosso ou a Avé-Maria. Centenas de vezes, até que as jovens mentes acabam por aceitá-la. E assim se tornam «fiéis crentes».

Investigadores de grande calibre, como o Dr. Colin Campbell, mostram nos seus trabalhos científicos e vídeos que a proteína animal e, em particular, a proteína dos lacticínios está implicada na maior parte das doenças degenerativas típicas dos ocidentais, como o cancro da mama, o cancro da próstata, o cancro colorretal, a hipertensão, as cardiopatias, a diabetes e a osteoporose.

Na China, onde Campbell realizou um trabalho de investigação heroico, um marco na investigação nutricional, que durou 40 anos e que foi apoiado e financiado por quatro grandes universidades (Cornell, dos EUA, Oxford, de Inglaterra, e duas universidades chinesas), confirmou-se que, quanto mais proteína animal era consumida, maior era a incidência das doenças «ocidentais». E quanto menor era o consumo de proteína animal e maior o consumo de proteína vegetal, menores eram as taxas destas doenças degenerativas.

Campbell, juntamente com o seu filho, que também é médico, percorreu toda a zona rural da China entre 1970 e 2010, tomando notas sobre aquilo que as pessoas comiam, o tipo de proteína, a qualidade biológica das mesmas, as quantidades e o baixo ou elevado consumo de lacticínios.

Em determinados distritos das zonas rurais chinesas, Campbell sugeriu a alguns voluntários que incorporassem um pouco de leite de vaca, como parte da sua investigação. Tradicionalmente, os chineses evitam o leite de vaca. Acreditam que «somos aquilo que comemos»; têm isso muito mais claro do que nós, ocidentais.

Assim, durante milhares de anos, os chineses acreditaram que, se alguém beber leite de vaca, terá uma atitude de bebé crescido, que segue a multidão e entra em pânico perante a possibilidade de ficar isolado do rebanho. Não terá capacidade crítica e será grande de corpo e de mente inocente, como um bezerro.

Os japoneses gostam muito de peixe e de produtos do mar. Consomem muitas algas e peixe. Mas não qualquer peixe. Preferem o tubarão e o peixe-balão. Evitam a sardinha e outros peixes «tolos», fáceis de apanhar. Também têm muito presente o adágio «somos aquilo que comemos». Se comer peixes tolos, como a sardinha, absorverei a «alma» do animal e tenderei a ser atordoado e presa fácil dos astutos «tubarões».

Os japoneses também não bebem leite de vaca. E muito menos estragariam o seu sagrado chá medicinal acrescentando-lhe leite e açúcar. O chá com leite, tão consumido no Ocidente, é, para um japonês, uma aberração. Uma adulteração imperdoável. Uma degradação da bebida tradicional que «eleva o pensamento e a sensibilidade espiritual».

Eles sempre se consideraram uma nação «elevada» espiritualmente e, por isso, o samurai não é considerado apenas um guerreiro ou um habilidíssimo espadachim.

O valor do samurai está no seu espírito. O espírito samurai está em cada japonês. Em cada idoso, em cada criança, em cada menina, em cada mulher, em cada homem, independentemente da sua profissão ou nível social. A grandeza do Japão é espiritual. O seu espírito torna-os invencíveis.

E acreditam que o espírito é alimentado com «alimentos» como o chá tradicional, o chá da cerimónia do chá. E existem casas de chá para cultivar o espírito de sensibilidade e grandeza do povo japonês. E os seus alimentos tradicionais nutrem o «espírito samurai», a «alma do Japão».

Quando um japonês começa a comer como os ocidentais — carne, café com leite e pão branco com açúcar e compota —, os outros consideram-no uma espécie de irmão «desgarrado», que perdeu o contacto com a sua força espiritual tradicional. Um corpo japonês com uma alma ocidental. Um japonês de segunda categoria. A sua alma está degradada por se alimentar da comida dos «bárbaros ocidentais».

É muito interessante este tipo de considerações asiáticas, que poderão chocar-nos, a nós, ocidentais, mas que são muito respeitáveis, porque têm alguma lógica e uma permanência no tempo de milhares de anos.

Os hindus também mantiveram a sua clara convicção da relação entre alimentação superior e pensamento superior. O hinduísmo classifica os alimentos em sátvicos, tamásicos e rajásicos. Ayurveda.

O alimento SÁTVICO estimula o desenvolvimento de uma mente elevada, de um pensamento elevado, de sentimentos e propósitos nobres. O alimento sátvico é utilizado, fundamentalmente, pelos indivíduos espiritualmente avançados. E a carne e o leite não são sátvicos, com exceção de um pouco de leite de iaque, um bovino de raça asiática muito diferente da vaca holandesa da indústria e do negócio da Europa e da América.

Na Ásia e na América indígena, assim como no Egito espiritual e noutras tradições, como a Cabala, a compreensão da relação entre alimento e espírito é absolutamente clara. O espírito é o espírito do alimento. O alimento tem alma.

Os xamãs dos grupos nativos da América acreditam que tudo tem espírito. A aranha tem espírito e a montanha tem espírito. O veado tem espírito e a águia tem espírito. E, ao ingerir um alimento, absorve-se a «alma» do animal ou do vegetal.

E o alimento de origem vegetal é aquele que mais eleva espiritualmente. São os cereais. Por isso, Jesus partiu o pão e ensinou: «Este é o meu corpo».

E os budistas zen tomam a sua sopa de genmai, a sua comida tradicional para os retiros espirituais com muitas horas de prática de meditação. O genmai é uma sopa de arroz com vegetais que encarna o espírito de Buda. O arroz é o espírito de Buda, acreditam muitos budistas.

Se um budista for obrigado a comer carne de vaca, recusará, porque acredita que esse tipo de comida o rebaixará espiritualmente.

Creio que é bom considerar as coisas a partir da perspetiva destas culturas antigas, tanto do Oriente como do Ocidente, tanto da América como da Ásia, porque nos podem ajudar a ver as coisas sob outra perspetiva.

A América nativa adora, endeusa, diviniza o milho. Falam do espírito do milho como falam do espírito dos deuses. Sem milho, nenhuma grandeza espiritual.

O homem branco, que mata e destrói, alimenta-se de corpos de animais sacrificados com violência. Por isso é violento e destruidor. Por isso sempre foi um predador-conquistador-açambarcador.

E despojou as culturas nativas do seu ouro, prata e diamantes, para construir luxuosas catedrais e palácios na Europa. Espanha, Portugal, França, Inglaterra, Alemanha, Itália e Holanda, entre outras antigas potências militares, tiveram, em tempos, este espírito «felino» de glorificar a carne e o leite como os alimentos destinados a produzir nações fortes e poderosas.

E consideravam as nações «indígenas», como a Índia e os povos nativos da América do Sul e da América Central, fracas e facilmente subjugáveis devido à natureza da sua alimentação, baseada em sementes.

Como a nossa ciência tem uma forte influência do Ocidente científico e académico, os nossos médicos e nutricionistas, os nossos profissionais da área da saúde, têm uma convicção profunda, quase visceral, da superioridade da proteína animal.

É algo invariável. Todos sentem nas suas entranhas que, quando faltam a carne e o leite, se corre o risco de desnutrição. E essa forma de alimentação é aquela que pratica a maior parte dos ocidentais. E fazem-no há centenas de anos. Já faz parte do inconsciente coletivo.

Apesar de as taxas de doenças degenerativas no Ocidente serem muito mais elevadas. Apesar de existirem «evidências científicas» de que as dietas japonesas e indianas tradicionais são muito mais convenientes, continuam a arrastar esses hábitos dos «assados» e do pequeno-almoço com leite, manteiga e queijo.

«Não somos chineses», não vamos tomar sopa ao pequeno-almoço. E os próprios especialistas recomendam aos seus pacientes uma dieta baseada em lacticínios e proteínas animais.

E esse tipo de alimentação é precisamente aquele que acidifica o sangue e convida à proliferação de todo o tipo de vírus, porque toda a componente hídrica do corpo se acidifica devido à decomposição da proteína animal, numa fisiologia basicamente herbívora.

Assim, não podemos ter um bom estado nutricional com esse tipo de crenças e convicções. Com essa obstinação em alimentarmo-nos com elevados níveis de proteína, é muito difícil criar sistemas imunitários poderosos.

As leis fisiológicas dão razão aos «nativos». Os povos nativos procuraram sempre os alimentos que engrandecem o espírito e, consequentemente, o corpo, que é o templo onde habita um deus.

E a história dá-lhes razão. E continua a dar-lhes razão.

Aprenderemos, então, com eles e criaremos um templo transbordante de saúde e beleza.


                                                           COMO NUTRIR-SE?

Dr. Martín Macedo

Trata-se de uma questão de extrema importância. Há uma grande variedade de opiniões divergentes e contraditórias no que diz respeito ao que é «uma alimentação adequada». Na minha opinião, nunca descobriremos esta forma ideal de alimentação, saudável, alcalina, que assegure um funcionamento ótimo, através do caminho do intelecto. Através do caminho da teorização.

O ser humano tem dois hemisférios cerebrais. Como tudo o que existe, um é complementar do outro. O dia e a noite. O norte e o sul. O jovem e o idoso. Yin e yang. Os dois hemisférios são «masculino e feminino». Um é intuitivo, sensível, conciliador, integrador e unificador. O outro é analítico, classificador, separador, categórico e orgulhoso da sua força lógica.

O direito é o hemisfério feminino e o esquerdo é o hemisfério masculino. Ao nível da higiene e da medicina, o predomínio do hemisfério esquerdo é absoluto. Classificam-se os alimentos, estudam-se analiticamente, quantificam-se os seus níveis de vitaminas, enzimas e proteínas. Estas são subdivididas em essenciais e não essenciais, em termolábeis e termorresistentes. E assim ad infinitum. Milhares de páginas escritas sobre as vitaminas e as proteínas. Teses de doutoramento sobre a «indispensabilidade» da proteína animal.

No entanto, esse é o caminho que os seres humanos têm seguido nos últimos 100 anos. E as doenças degenerativas e a infelicidade humana não diminuem, antes aumentam. Este não é o caminho para descobrir a «forma correta». Temos de recorrer ao outro hemisfério. Ao hemisfério direito. Ao hemisfério feminino.

Agora é necessário dar o comando ao polo feminino. Elas foram dotadas para isso. São especialistas em nutrição. Já nascem equipadas com duas mamas nutridoras. Nascem com um equipamento que nós, homens, nunca poderemos igualar. Trata-se das Deusas. A característica de Deus é a criação. A Deusa é criadora. Cria um ser humano. Os homens apenas contribuímos com uma sementinha.

Elas são as mestras da nutrição. Utilizam mais o hemisfério direito. E este é o aspeto intuitivo que a ciência despreza. Do qual desconfia. Intuição? Isso não é rigor científico. Baseamo-nos em evidências.

O aspeto racional e lógico é muito importante. Não se pode negar nenhum dos dois aspetos da realidade paradoxal e contraditória. Mas, se durante 100 anos temos tentado nutrir-nos segundo o hemisfério lógico e erudito e nos temos afastado cada vez mais da felicidade, somos obrigados a dar a primazia, a oportunidade, ao hemisfério direito. À intuição.

As mães dizem geralmente aos filhos: «Eu tenho intuição de mãe, escuta-me». Quase todos os homens respeitamos a «intuição» feminina. Mas as mulheres modernas voltaram-se para o mundo masculino e desejam competir e destacar-se nele. No campo do hemisfério esquerdo. E a espécie humana está a enfraquecer. Porque o lado intuitivo é vital.

Os animais nutrem-se segundo a sua intuição. Devemos imitá-los. Aprender com o passarinho e com o bisonte, com a águia e com o veado. A sabedoria é intuitiva, espiritual. A sabedoria não é lógica nem enciclopédica. O conhecimento é o conhecimento. E a sabedoria é a sabedoria.

Os animais possuem a sabedoria necessária para se nutrirem. Por isso escolhem bem e desfrutam de um funcionamento perfeito. A sua «inteligência» é essencialmente intuitiva. Cem por cento de sabedoria intuitiva. Também aprendem por imitação e repetição, como os macacos e outros mamíferos evolutivamente mais avançados. Mas a base é a intuição.

O bebé humano é intuitivo. Deseja apenas a nutrição da sua mãe. A mama. Nutrição ótima. Funcionamento ótimo. Saúde perfeita. Beleza sublime e felicidade no instante presente. O único lugar onde podemos encontrá-la.

O bebé é sábio porque é cem por cento intuitivo. Se lhe dermos leite de vaca ou um pedaço de carne, cospe-o. A menos que esteja com muita fome e não lhe reste outra opção. «Ou como esta abominação ou morro de inanição.» E, novamente, a intuição salva a vida do bebé. E este opta pelo leite de vaca. Apesar das reações alérgicas e das diarreias. Apesar das infeções respiratórias que resultam desta alimentação anormal, proveniente de outra espécie muito diferente.

E, se o leite provier de uma lata de preparado comercial para bebés, afastamo-nos cada vez mais da intuição e da felicidade do bebé. Um leite fabricado por hemisférios esquerdos. Com «validação científica».

Para descobrir a alimentação perfeita, que produz um funcionamento perfeito e uma alegria perfeita, é necessário regressar à intuição. A intuição está relacionada com o coração. Ter um «coração intuitivo». O coração da mãe. O amor da mãe.

Segundo a medicina oriental, o coração rege a intuição e está ligado ao pensamento do hemisfério esquerdo. A nutrição ótima é o leite humano até ao primeiro ano de idade. E, posteriormente, a introdução dos alimentos biologicamente ótimos.

Para podermos explicar esta alimentação biologicamente perfeita, que produz um funcionamento perfeito e uma saúde perfeita, é necessário utilizar um pouco — apenas um pouco — o hemisfério esquerdo. Utilizando os dois, como para caminhar ou voar. Para voar são necessárias duas asas. A direita e a esquerda. Para governar um país com êxito também. Para avançar pela vida a bom ritmo, são necessários os dois pés.

No entanto, há sempre um que pisa com mais força. O lado principal. O lado dominante. Mas o facto de ser dominante ou predominante não significa que o outro não seja imprescindível e vital. Os dois são vitais, embora um seja sempre mais ativo e predominante.

Para conseguirmos descobrir a nutrição perfeita, é necessário fazê-lo a partir da intuição — hemisfério direito — como força dominante e da razão — hemisfério esquerdo — como força complementar.

O ser humano é um mamífero. Durante o primeiro ano deve beber leite materno. Enquanto dura este primeiro ano, a nutrição é simples. Tudo num único produto. Um produto completo. Simples. Fácil. Perfeito. Delicioso. E inclui afetividade. Tudo no mesmo ato. Proteínas, vitaminas, anticorpos, enzimas, gorduras e quantidades abundantes de amor.

Isto em condições ideais. Se a mãe estiver debilitada, não produzirá um bom leite e não terá energia suficiente para cuidar amorosamente do bebé, porque estará exausta. Mas, em geral, as mães são jovens, belas e vigorosas. E produzem um leite excelente.

Depois chega o primeiro ano de idade. E é aí que começam as dúvidas. Carne? Leite de vaca? Qualquer fruta? E as mães recorrem ao pediatra — hemisfério esquerdo — para que as aconselhe acerca da nutrição. Por vezes, as avós contribuem com a sua experiência e sabedoria — hemisfério direito.

Assim, entre a avó e o pediatra, a jovem mãe começa, através de tentativas e erros, a percorrer a sua experiência de alimentar e cuidar com êxito do jovem rebento humano.

Na natureza não há pediatra. Nem avó. O passarinho sabe o que deve dar às suas crias. E, em geral, acerta cem por cento. O animal é simples. Não tem ego. Não possui uma forte consciência da sua individualidade. E nutre-se de acordo com a sua especialização fisiológica.

Assim, o búfalo alimenta-se apenas de erva e o falcão persegue pequenos coelhos ou ratos nas florestas. O animal sabe qual é o alimento perfeito para o seu género particular. E não falha. Acerta sempre. A sua mãe ensinou-lhe. O ensinamento mais importante: o que comer e como obtê-lo.

Se for caçador, ensinar-lhe-á a caçar. Se for recoletor, ensinar-lhe-á a recolher os frutos saudáveis e a evitar os venenosos. Se for pescador, ensinar-lhe-á a pescar.

No início, o ser humano era tudo isso. Era recoletor, caçador e pescador. Depois, tudo se tornou mais complexo quando quis acumular alimentos e criou a troca e o comércio. Começou também a criar animais, a semear e a colher, para acumular os seus meios de sobrevivência.

Por isso, é um pouco difícil saber, com uma clareza meridiana, quais são os alimentos que proporcionam uma nutrição ótima aos seres humanos. Nutrição ótima e funcionamento ótimo. Mas podemos perguntar às culturas mais antigas. Àquelas que possuem muita experiência e que alcançaram o êxito. Mesmo nos nossos dias.


 

FINAL DO VERÃO ELEMENTO TERRA:

ORIENTAÇÕES ALIMENTARES

ECODIETA

Clara Castellotti

Orientações alimentares:

Esta estação pede-nos que mantenhamos os pés assentes na terra. Por conseguinte, a nossa alimentação deve tornar-se um pouco mais yang: um pouco mais de sal, confeções um pouco mais prolongadas e uma maior quantidade de legumes cozidos ou preparados a vapor, estufados, sopas e cremes de cereais.

As cores do final do verão refletem-se nos cereais maduros, em vegetais como os cogumelos e a abóbora, e em frutos como as peras e as maçãs. Os cogumelos silvestres, em particular, harmonizam-nos com o elemento Terra.

Entre os alimentos que mais enfraquecem os órgãos relacionados com esta estação, encontra-se, em primeiro lugar, o açúcar refinado. Todas as sobremesas muito doces, sobretudo aquelas que combinam açúcar refinado, leite e natas ou outros adoçantes refinados — agave, frutose, etc. —, bem como os cereais refinados, comprometem o sistema digestivo.

Assim como o sabor doce artificial o prejudica, o sabor doce natural cura-o. Entre os cereais, o millet, assim como os legumes de forma redonda ou de sabor doce, que crescem ao nível do solo — como a abóbora, as couves, as curgetes, as cebolas e a batata-doce —, constituem um medicamento para o sistema digestivo, sendo aconselhável consumi-los abundantemente no outono, para o fortalecer.

Além do millet, que podemos utilizar em cremes, sopas, croquetes e sobremesas, outro cereal adequado ao final do verão é o mochi, ou arroz glutinoso.

As algas arame, de sabor doce e delicado, são indicadas para perturbações digestivas e ginecológicas — o baço, órgão do final do verão, controla o sistema reprodutor feminino.

Uma cura com argila, realizada durante o mês de setembro, fortalece os órgãos do sistema digestivo, desintoxica e regenera a flora intestinal, além de nos fornecer oligoelementos e de nos ligar ao elemento Terra.



Tuesday, September 8, 2026

 Durante o jejum, o organismo utiliza as reservas e, depois, os tecidos menos vitais.

Na sua infinita sabedoria, a nossa biologia utiliza primeiro aquilo que é menos vital e deixa para o fim os tecidos mais necessários à vida.

Assim, se existir um tumor ou vários tumores, o organismo utilizá-los-á como combustível, uma vez que se trata de tecidos não vitais.

É por isso que insisto tanto que o jejum é tão importante como a quebra do jejum.

Primeiro, a gordura.

Quando a gordura se esgota, o organismo utiliza os tecidos doentes. Utiliza as suas proteínas, gorduras, vitaminas e outros nutrientes para manter a vida durante o jejum.

Por isso, uma medicina que despreza o jejum, ou que até o desaconselha, não compreende a sabedoria infinita e atua com base no medo.

Tem tanto medo da desnutrição que intoxica o organismo com proteínas.

Tem tanto medo da desidratação que sobrecarrega o sistema circulatório e excretor com água.

Tem tanto medo das infeções que prescreve antibióticos «pelo sim, pelo não» em muitos procedimentos, como forma de «prevenção».

É como sair todos os dias para a rua com uma pistola de calibre 45, por receio de nos cruzarmos com um ladrão.

E, como o imaginamos com uma forte carga emocional, criamos a situação em que teremos de utilizar a nossa arma, para depois acabarmos na prisão ou, na melhor das hipóteses, sujeitos a um processo judicial.

E responsabilizamos o Governo por não haver agentes policiais suficientes nas ruas.

Não é possível nem prático jejuar durante 24 ou 48 horas, ou durante mais dias, sempre que temos algum problema de saúde.

No entanto, podemos fazer diariamente um pequeno jejum, saltando uma refeição e fazendo duas ou três refeições, em vez de quatro.

Inclusivamente, se tivermos um peso adequado, podemos fazer apenas uma refeição por dia durante vários dias, regressando depois a uma alimentação completa.

Deste modo, um pequeno jejum diário, deixando o organismo sem alimentos durante 8 ou 10 horas por dia, será mais eficaz do que fazer jejuns penosos e extenuantes de sete ou mais dias.

Temos tendência para comer em excesso.

E é por isso que somos a espécie mais doente da natureza.

Reflexão do dia17 de  novembro de 2017

Dr. Martín Macedo, Uruguai

                                                                   


 CALANDIVA 

                                                                                                                          Miguel Boieiro

Leitor amigo enviou-me o interessante texto “Las plantas medicinales olvidadas” da autoria de José Luís Berdonces, médico naturista e fitoterapeuta, considerado um dos principais especialistas espanhóis. O Dr. Berdonces, que leciona na Universidade de Barcelona, é autor de valiosas obras sobre fitoterapia, entre as quais, destacamos um volumoso dicionário ilustrado sobre mais de 1300 plantas com propriedades medicinais comprovadas.

No texto acima referido a minha atenção concentrou-se na parte que aborda o género Kalanchoe, abrangendo cerca de 170 espécies detendo singulares qualidades causadoras de admiração. Menciono, por exemplo, que o seu desenvolvimento vegetativo não necessita de sementes para a reprodução. De facto, nos bordos das folhas surgem botões adventícios que originam pequenas plântulas. Estes bolbilhos, providos de raízes, caules e folhas, ao caírem no solo, rapidamente dão lugar a novas plantas adultas. A curiosa particularidade ilustra bem a versatilidade do reino vegetal. Conta-se que o poeta Goethe ao observar as plantinhas que brotavam nos bordos da folhagem da planta-mãe, ficou de tal maneira fascinado que passou a referenciar o facto em alguns dos seus escritos.

Analisemos então a Kalanchoe pinnata, ou Bryophyllum pinnatum, pertencente à família das Crassulaceae,  talvez a kalanchoe mais conhecida, mormente como planta ornamental. Ela tem sido demoradamente estudada por especialistas da botânica e de outras áreas científicas mas, as investigações, devido à sua complexidade, não se encontram ainda concluídas. Julga-se que a planta é oriunda da África Tropical, sendo nativa na ilha de Madagáscar. Popularmente é conhecida por variados nomes: folha-da-fortuna, folha-do-ar, mãe-de-muitos, saião, coirama, bruxa, capim-tartaruga, silaba, folha-viva, sempreviva, calandiva (este último termo foi o escolhido para  título da presente croniqueta).

É uma herbácea perene que gosta de terrenos soltos bem drenados e muita luz mas, não se desenvolve face a temperaturas inferiores a 10 graus. Por ser uma espécie suculenta acumula água, não necessitando de regas frequentes.

Possui caule cilíndrico, oco e carnudo que nas regiões tropicais chega a ultrapassar 1 metro de altura. As folhas, de um verde escuro, são grossas e opostas, tendo margens dentadas donde brotam os tais propágulos. A inflorescência terminal fica disposta em panículas com bastantes flores hermafroditas pendentes, geralmente vermelhas.

Na composição química foram apurados ácidos orgânicos (málicos, oxálicos, cítricos e outros), flavonoides, glicosídeos, alcaloides, taninos, etc.

Os estudos clínicos comprovaram várias propriedades medicinais com efeitos analgésicos, anti-bacterianos, antibióticos, antissépticos, anti-alérgicos, anti-inflamatórios, anti-histamínicos …

Berdonces refere que a planta  é amplamente utilizada na medicina tradicional das diversas regiões tropicais para tratar dores de cabeça, resfriados, tosse, febres, asma, cicatrização de feridas e demais transtornos cutâneos. Em uso tópico aplicam-se cataplasmas ou suco das folhas para queimaduras, úlceras e dores musculares. Adverte contudo que, devido a alguns componentes algo tóxicos, não convém usar doses concentradas ou consumos contínuos para grávidas, doentes cardíacos e hepáticos, sem supervisão médica.

                                                                                     Setembro de 2026, Miguel Boieiro

Monday, September 7, 2026

 

NUTRIÇÃO PERFEITA

Só é possível encontrar a nutrição perfeita através da intuição. Do hemisfério cerebral direito. O hemisfério feminino. Mas também podemos apoiar-nos na clareza conceptual proporcionada pelo hemisfério esquerdo. Contudo, a intuição deve ser a influência principal.

Nas culturas tradicionais, os cereais são a base. Arroz, milho, milet ou quinoa. Cada cultura utiliza preferencialmente um deles ou uma mistura de vários. O famosíssimo gastroenterologista japonês Hiromi Shinya prepara todos os dias, para as suas refeições, uma mistura de cinco cereais, como explica no seu livro A Enzima Prodigiosa. Tratou os seus doentes com cancros do cólon e do reto através de cirurgia e, depois, com uma mudança permanente da alimentação. Os que a seguem têm 0% de recidiva do cancro. E limitou-se a aplicar aquilo que no Japão se aplica há mais de 3000 anos. A alimentação tradicional. Baseada em alimentos vegetais, arroz e peixe.

Talvez essa seja a alimentação perfeita. A melhor alimentação do mundo. A alimentação dos chineses e dos indianos é muito semelhante. Existem algumas variações, mas a base é a mesma. Arroz, alimentação predominantemente vegetal e muito pouca proteína animal. E actividade física.

Talvez os chineses tenham a alimentação perfeita. Ou os indianos tradicionais. E a alimentação dos esquimós também é perfeita. É basicamente de origem animal. Mas é perfeita. Basicamente peixe. Algumas renas. Algumas bagas e raízes. Também algas. Uma alimentação essencialmente rica em gordura animal. É perfeita.

São povos muito saudáveis. São cerca de 70 000. Há cerca de 30 000 no Canadá e outros vivem na Gronelândia e na Sibéria. Suportam temperaturas de 50 graus abaixo de zero. E fazem-no há séculos.

Temos a prova de que a sua alimentação é perfeita. Têm uma função perfeita. E uma saúde perfeita. Vivem pouco, talvez devido à quantidade de gordura que comem e à ferocidade do clima. Mas, durante o tempo que vivem, desfrutam de uma excelente saúde.

São conhecidos como inuítes (*). Acreditam na reencarnação. E acreditam que as crianças são as pessoas mais importantes, mais elevadas, porque acabaram de reencarnar. Acreditam em seres espirituais superiores, mas não lhes prestam culto. São um povo fantástico.

Não há cáries dentárias. Não há doenças degenerativas. Nem cancro do colo do útero. Nem esquizofrenia. Gozam de uma excelente saúde. Alimentam-se de acordo com a sua intuição. As suas crianças são bonitas. As suas mulheres são bonitas. Os homens são robustos e pacíficos. Possuem a beleza indescritível dos seres que vivem respeitando a ordem natural.

Não há lugar para vegetarianos no Alasca. Ou se vive ao estilo inuíte ou se perece. É a ordem natural. A mesma lei que rege nos trópicos rege o inuíte. Mas a alimentação muda. Porque o clima é diferente.

Por isso, não existe uma alimentação perfeita e padronizada. A alimentação perfeita de um inuíte é diferente da alimentação perfeita de um japonês rural ou de um habitante do deserto.

Mas, se o esquimó for levado a viver no Nordeste brasileiro e continuar a comer exatamente o mesmo que come no Alasca, em poucos meses sofrerá uma embolia e terá um acidente vascular cerebral ou uma trombose venosa profunda. Ou uma hipertensão arterial que poderá deixar-lhe sequelas neurológicas incapacitantes.

Algumas pessoas que gostam de comer proteína e gordura animal utilizam este argumento para se justificarem. Os esquimós comem muito peixe rico em ómega-3 e carne de rena. É carne de mamífero, é carne vermelha. E estão muito bem. Não têm colesterol elevado nem hipertensão. E procuram obter krill e alimentos típicos das regiões polares, com elevado teor de ácidos gordos essenciais ómega-3.

Mas adoecem em pouco tempo. Porque não é uma alimentação perfeita para alguém que vive numa zona temperada.

A alimentação perfeita é ditada pelo ambiente geográfico e pela tradição. Se for viver para o Alasca, fará muito bem em imitar a tradição dos inuítes e comer com eles os seus pratos tradicionais. E terá uma saúde perfeita e uma função perfeita. Mas terá de permanecer a viver lá, com 50 graus abaixo de zero, durante anos.

No Alasca, na Sibéria e na Gronelândia não crescem milho nem maçãs. Seria antinatural ir viver para a Sibéria e mandar vir maçãs da Europa ou da América para obter um aporte adequado de vitaminas C e A.

O passarinho acorda ao amanhecer e come aquilo que cresce na sua região. Num raio de algumas centenas de metros encontrará os produtos adequados à sua saúde e função. Come de acordo com a sua fisiologia particular e dentro da sua geografia específica.

Na minha opinião, a alimentação perfeita para o ser humano é aquela que se baseia nos cereais. Tem sido assim desde tempos imemoriais. Desde os relatos do Antigo Testamento até ao Popol Vuh, os cereais são apresentados como alimentos sagrados. Porque crescem nas regiões mais densamente povoadas do mundo.

Se alguém vive nessas regiões, a melhor opção será o milho, o trigo ou o arroz como base da alimentação, tal como fizeram as pessoas que aí viveram com sucesso e saúde durante séculos ou milénios.

Mas, se alguém for viver para um clima muito YIN, com temperaturas brutalmente frias, deverá comer uma alimentação muito YANG para aquecer o corpo e suportar essa situação extrema. Se levar consigo os seus cereais, não conseguirá resistir e ficará debilitado.

Por isso, na filosofia macrobiótica baseamo-nos no YIN e no YANG. É um critério desprezado pela ciência da nutrição e pela higiene. É um critério não valorizado pela chamada medicina alopática. Mas é fundamental na medicina tradicional chinesa.

Estes princípios são fundamentais no Ayurveda e nas medicinas tradicionais das comunidades indígenas, do Egito e de outras culturas ancestrais. Este critério filosófico é crucial para se poder encontrar a alimentação perfeita e a função perfeita.

Os animais aplicam-no intuitivamente. Quando um animal adoece, procura determinadas ervas ou determinadas plantas para se curar. E jejua. E espera que a doença se resolva, que as impurezas ou toxinas sejam eliminadas. E curam-se sozinhos. Autocura.

Às vezes morrem. Mas não têm medo. De qualquer forma, algum dia temos de morrer. É algo inevitável. Se não me puder curar, então morro em paz. E continuarei noutros níveis de existência. É algo que eu sinto.

Mas o ser humano tem o YIN e o YANG. Isso permite-lhe modificar a energia dos alimentos e a sua composição químico-física.

Por isso, pode viver em qualquer clima, a qualquer altitude e em qualquer região do mundo. A vantagem do ser humano em relação aos animais chama-se arte culinária. E, com esta arte, potencia a sua capacidade de adaptação às mudanças climáticas ou geográficas.

Portanto, o ser humano está capacitado para desfrutar de uma função melhor do que a do pássaro ou do búfalo. Tem o fogo. O sal. O óleo. As especiarias. E a tradição.

Mas esqueceu-se.

Agora não quer cozinhar. As mulheres não querem ocupar-se da alimentação da família como antes. Agora procura-se a igualdade. Todos a trabalhar no mundo masculino.

Então, a humanidade está a sofrer. Está a perder a sua saúde. Não obtém o alimento perfeito porque este não se pode comprar. O alimento superior é uma produção artística. Deve ser criado com amor. Como qualquer criação artística de elevadíssimo valor.

A cozinha quotidiana. E a sabedoria tradicional. A cozinha tradicional.

Que o teu alimento seja o teu medicamento. Disse-o Hipócrates. Um dos maiores e mais eminentes médicos que a humanidade conheceu.

A função perfeita requer uma nutrição perfeita. E a nutrição perfeita é algo subtil, especial. Algo único. Cada família é única e cada ser humano é único.

É necessário criar em casa o alimento superior, de elevada qualidade. É aí que está a fonte da saúde. No lar.

A origem etimológica da palavra lar é o lugar onde a família se reúne para se aquecer e alimentar. O fogo. A cozinha. Alquimia doméstica.

A nutrição é um assunto da família. Não das instituições. Nem das escolas. Nem é um assunto académico. Nem político. Pode teorizar-se e criar Escolas de Nutrição. Mas será algo sem alma. Sem vida. Sem valor para criar corpos perfeitos, com função perfeita e saúde perfeita.

Aplicando o critério transformador do YIN e do YANG, os povos da Ásia encontraram a sua forma tradicional e praticam-na ainda hoje. Assim conseguiram alcançar a saúde individual, a saúde familiar e a saúde nacional.

E não são nações perfeitas. Mas o seu nível de saúde e de função é muito superior ao do decadente Ocidente. Acidificado. Drogado. Lactificado. Afastado dos ciclos naturais. Indiferente às leis naturais.

O Oriente ocidentalizou-se no último século. Mas ainda se agarra à sua cultura e à sua cozinha tradicional. Embora a sua elevada qualidade biológica tenha diminuído devido ao contacto com o Ocidente, continua a ser incomparavelmente mais saudável e forte do que a civilização ocidental.

Isto é particularmente notório nas pessoas com mais de 40 anos. O ocidental médio, geralmente, já envelheceu e consome permanentemente um ou vários medicamentos. Já está doente. Crónico.

Aos 60 anos, já é um peso para a família e para a nação. Gera muitas despesas médicas e problemas para o país. E conformam-se com a explicação «médica» de que isso é normal para «a sua idade».

Mas, no Oriente tradicional, os grandes mestres das artes tradicionais, aos 60 e 70 anos, possuem uma condição física e mental equivalente à de um ocidental de 30 anos.

Isso deve-se à diferente forma de alimentação. Uma baseia-se na proteína animal e a outra na proteína vegetal. Uma acidifica e a outra alcaliniza. Uma cria um meio propício para os vírus e a outra produz um ambiente saudável onde os vírus estão controlados.

É a magia da macrobiótica. Uma sabedoria que dá poder ao corpo e à mente. E às emoções. É a cura contra qualquer vírus ou bactéria que ultrapasse os «limites».

(*)- Os inuítes são povos indígenas do Ártico, tradicionalmente adaptados a algumas das regiões habitadas mais frias do planeta. Vivem sobretudo na Gronelândia, no norte do Canadá e no Alasca



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