O QUE SIGNIFICA CONSUMO LOCAL?
Patrícia Restrepo
· Resumo
O texto defende que o consumo
de alimentos locais é um princípio fundamental da macrobiótica, não apenas por
razões ecológicas, mas também porque favorece uma maior harmonia entre o ser
humano e o ambiente onde vive.
Segundo a autora, os alimentos
mais ricos em água — como frutas, legumes, ervas e raízes — devem ser
consumidos preferencialmente na região onde crescem, pois transportam as
características biológicas e energéticas do ecossistema local. A ideia central
é que o organismo humano está adaptado ao clima, à flora e aos microrganismos
do seu meio envolvente, pelo que os alimentos locais facilitam essa adaptação e
ajudam a manter o equilíbrio e a vitalidade.
O texto argumenta que o consumo
frequente de alimentos provenientes de regiões muito distantes, especialmente
frutas tropicais consumidas fora do seu contexto natural, pode exigir um maior
esforço de adaptação por parte do organismo e ter também um impacto ambiental
significativo devido ao transporte e à conservação.
Em contrapartida, alimentos com
baixo teor de água, como cereais integrais, leguminosas, algas e alguns frutos
secos, podem ser transportados e consumidos em áreas geográficas mais amplas
sem perderem as suas características essenciais. Por essa razão, alimentos como
o miso, apesar de não serem produzidos localmente em muitos países, podem
integrar uma alimentação equilibrada quando combinados com ingredientes locais.
A autora valoriza especialmente
os vegetais locais, considerando-os promotores de saúde, equilíbrio,
flexibilidade e paz interior. Defende também o consumo de cereais integrais e
leguminosas, criticando a alimentação industrializada, o refinamento dos
cereais, os alimentos excessivamente processados e os sistemas agrícolas
dependentes de químicos e sementes transgénicas.
A mensagem final é que a
natureza possui uma sabedoria própria e oferece, em cada estação do ano, os
alimentos mais adequados às necessidades do organismo. Assim, viver em harmonia
implica adaptar a alimentação aos ciclos naturais e privilegiar os alimentos
locais e sazonais.
Ideia central: quanto mais próximo da origem, da estação e do
ecossistema onde vivemos for o alimento, maior será a sua capacidade de nos
ajudar a manter o equilíbrio com a natureza e connosco próprios, segundo a
perspetiva macrobiótica apresentada no texto.
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· texto
“Nunca se consegue ter o suficiente daquilo que não é
necessário.” — Eric Hoffer
O que significa o consumo de alimentos locais?
Quando, na macrobiótica,
enfatizamos o consumo de alimentos locais como uma parte fundamental da
prática, não nos referimos apenas à ecologia, que é naturalmente inerente a um
estilo de vida macrob+iótico, nem apenas ao respeito pelos outros seres vivos,
igualmente inerente a uma visão MACRO da vida. Compreender o que significa
“consumo local” no que diz respeito à alimentação dá-nos uma perspetiva clara
sobre quando um alimento é ou não local, libertando-nos de preconceitos e
julgamentos relativamente à comida.
Para considerar um alimento
como local, valorizamos a quantidade de água que contém, pois os produtos
locais são diretamente proporcionais ao teor de líquido que possuem. Ou seja,
qualquer alimento ou substância que eu não consiga transportar numa mala de
viagem durante mais de 24 horas sem que se deteriore ou decomponha — a menos
que tenha sido tratado com químicos, ceras ou conservantes artificiais — não
pode ser considerado um alimento local no local de destino, embora o seja no
local onde nasceu e cresceu.
Assim, consideram-se alimentos
locais todos os legumes, frutas, raízes, especiarias e ervas constituídos
principalmente por água e que contêm o bioma vegetal de uma determinada região.
Isto conduz-nos a uma simbiose equilibrada entre flora, fauna e condições
climáticas. Em outras palavras, é aquilo que nos faz vibrar em sintonia uns com
os outros numa determinada localização geográfica, incluindo as microbactérias
que vivem nas nossas raízes — os intestinos — análogas às microbactérias
presentes na terra, no ar, na água, no céu e em todo o universo onde vivemos,
com os quais naturalmente deveríamos estar em harmonia.
A palavra “pessoa” está
associada à ideia de ressoar: ressoar com o ar, a água, a terra, a vegetação, o
sol e a lua. É precisamente essa ressonância que ajuda a manter o sistema
imunitário forte, pois consumir alimentos locais (água local, entre outras coisas)
foi uma das formas inteligentes encontradas pela natureza para nos ajudar a
adaptarmo-nos e a integrarmo-nos no meio envolvente. Ressoamos com o ambiente
de que somos fruto e, assim, estabelecemos com ele um equilíbrio dinâmico.
Quando consumimos alimentos
ricos em água provenientes de locais muito distantes do planeta — plantas,
frutas, raízes ou especiarias — a nossa flora intestinal não entra facilmente
em sintonia com as substâncias contidas nesses vegetais, e o nosso sistema
imunitário faz um grande esforço para se adaptar.
Por exemplo, quando comemos um
ananás havaiano no norte da Europa durante o inverno, e considerando que tudo
está interligado e que não estamos separados de nada nem de ninguém, não é
apenas o nosso sistema imunitário que faz um grande esforço. Também a Terra
necessita de despender enormes recursos para que esse ananás sobreviva à longa
viagem, recorrendo a recursos naturais adicionais e à transformação de recursos
naturais em materiais sintéticos para o transporte e conservação.
Assim, muitas frutas e plantas
tropicais podem ser saudáveis no seu local de crescimento, mas menos adequadas
fora do seu contexto. Isto deve-se não apenas ao impacto ambiental associado ao
seu transporte, mas também ao facto de exigirem ao organismo substâncias
adicionais para a sua correta metabolização e assimilação.
Quando pensamos, por exemplo,
que o ananás contém bromelaína ou que a papaia contém papaína, isso é verdade e
pode ser útil quando estas frutas são consumidas no seu local de origem, em
quantidades adequadas e integradas numa alimentação equilibrada, numa
determinada época ou região. No entanto, não devem ser encaradas como alimentos
milagrosos. Mais importante do que os benefícios dos seus componentes isolados
é a sua qualidade expansiva e refrescante. Quando consumidas fora do seu
ambiente natural, surge uma nova questão: o que me dão estes alimentos e o que
me retiram? Porque nem sempre o balanço é positivo?
No caso das frutas tropicais, o
excesso de potássio presente nessas frutas e vegetais, quando consumidos
noutras latitudes, pode favorecer a perda de minerais como magnésio e cálcio,
retirados dos tecidos duros, como os ossos e os dentes.
Para decidir quais os vegetais
ou frutas mais adequados, deveríamos considerar primeiro aquilo que nos retiram
e só depois aquilo que nos fornecem. Em suma, o consumo de alimentos
provenientes de ecossistemas muito diferentes pode contribuir para o enfraquecimento
do sistema imunitário da sociedade atual, caracterizada por uma crescente
incidência de alergias e doenças raras.
“A natureza é sábia” e contém, na sua sabedoria,
tudo aquilo de que cada espécie necessita no local onde vive. É a nossa ideia
de que a natureza é imperfeita que nos leva a interferir através da tecnologia
e da ciência.
Contudo, os alimentos com menor
teor de água — como os cereais integrais em grão, as leguminosas, alguns frutos
secos e as algas marinhas — quando produzidos no mesmo meridiano terrestre,
podem ser consumidos numa área geográfica muito mais ampla. Podemos transportar
grão-de-bico, lentilhas, arroz, cevada, millet e outros cereais durante vários
dias e armazená-los durante meses. Como contêm pouca água (100 g de
grão-de-bico seco contêm apenas cerca de 7,6 g de água), não se deterioram
facilmente nem necessitam de conservantes químicos.
Por isso, quando recomendamos a
sopa de miso, feita a partir de soja, algumas pessoas questionam: “Mas isso não
é um alimento local.” Na realidade, importa considerar que, em primeiro lugar,
se trata de uma leguminosa e, em segundo, que a sopa de miso é uma preparação
culinária à qual podem ser adicionados vegetais locais, tornando-a mais
adequada ao contexto local.
Em conclusão, os alimentos
secos, com menor teor de água, podem ser consumidos em áreas geográficas mais
extensas sem provocarem alterações imediatas no organismo ou perturbarem
significativamente a delicada barreira de microrganismos intestinais. Ainda assim,
existe uma ordem e um conhecimento profundo da natureza que favorecem a ligação
e a interligação entre todos os elementos.
Por exemplo,
os cereais mais expansivos contêm mais potássio, como o milho (10 partes de
potássio para 1 de sódio), típico do verão, dos países tropicais e das
Caraíbas, ou adequado para equilibrar condições muito contraídas. Costuma ser
consumido com cereais mais equilibrados, como o arroz, e com leguminosas
maiores, como os feijões vermelhos, constituindo um prato tradicional em países
como o México e a Colômbia.
No extremo
oposto encontra-se o trigo-sarraceno (4 partes de potássio para 1 de sódio),
associado ao inverno e a países de clima muito frio, como a Rússia, a Polónia e
a Ucrânia. É também utilizado para equilibrar condições excessivamente
expansivas, baixa vitalidade ou reduzida energia sexual, como acontece com a
tradicional “grechka” russa (trigo sarraceno).
“Uma nação que destrói o seu solo destrói-se a si própria. As florestas e
as plantas são os pulmões da Terra; purificam o ar e dão força ao nosso povo.” — Franklin D. Roosevelt
Quando nos alimentamos com produtos locais, quando “comemos a paisagem”,
mergulhamos no presente da natureza. Recebemos a frescura e a flexibilidade
proporcionadas pelas plantas, agentes naturais de luz produzidos pela vida na
Terra com a ajuda do sol e da água. A sua estrutura cristalina nutre e desperta
nas nossas células a autoconsciência e a paz.
Contudo, quando nos entregamos a um consumo excessivo de conceitos
analíticos e nos desligamos da analogia viva que representa a mensagem direta
da planta para a nossa anatomia holográfica, perdemos literalmente as nossas
raízes. Vivemos hipotecados a um futuro cujo desfecho é frequentemente a doença
e a desesperança, tanto a nível individual como planetário. Como já referi
noutros artigos: “Aquilo que não é adequado para o planeta não é adequado
para ti.”
Na consulta de
orientação macrobiótica, ao aconselhar as pessoas de forma personalizada,
recomendo frequentemente que evitem determinados alimentos e incluam alimentos
vivos com capacidade de germinação, como os cereais integrais em grão, que são
simultaneamente fruto e semente. Sendo constituídos por nutrientes orgânicos
essenciais, concentram a energia necessária para nos dar foco e direção.
As leguminosas, quando combinadas com cereais
integrais cozinhados, proporcionam estabilidade, serenidade e uma sensação de
fortalecimento interior. São também, segundo esta perspetiva, promotoras do
amor, pois nutrem os rins; e quando os rins não estão enfraquecidos, o medo —
considerado o oposto do amor — diminui.
No entanto, aquilo em que mais
insisto é no consumo de vegetais locais, bem cozinhados e preparados de
diversas formas.
Os vegetais são agentes de paz,
flexibilidade e compaixão. Se desejamos uma sociedade mais pacífica, num mundo
marcado pela avidez de poder e pela obsessão com a rentabilidade do tempo,
devemos comer vegetais, ensinar a comê-los, cultivá-los, observar o seu
crescimento paciente e luminoso, incentivar o contacto com uma horta e
regressar à valorização dos vegetais locais que vivem no presente.
A natureza tem o seu próprio
ritmo cíclico, mas o ego humano tenta impor-lhe o ritmo dos seus desejos e
conceitos. Daqui resulta a tentativa de controlar a matéria sem considerar a
sua dimensão energética e somática. A natureza vive no presente; tudo aquilo
que criamos para acelerar processos (futuro), conservar artificialmente
colheitas (passado) ou alterar de forma antinatural os ciclos da matéria gera
confusão orgânica e social.
Quando acreditamos que estamos
a combater a fome através de monoculturas intensivas, carregadas de químicos e
sementes estéreis (transgénicas), acabamos por produzir infertilidade do solo,
fome futura e uma matéria cada vez mais inerte e “plastificada”.
Para conservar os cereais
durante longos períodos, o ser humano refinou-os. Observemos o caso do arroz.
No processo de descasque, o arroz passa entre cilindros para produzir o arroz
integral. Em seguida, é polido por fricção entre cilindros verticais, removendo-se
o pericarpo (a camada exterior), a camada proteica e o gérmen (a parte mais
nutritiva). Após estas operações obtém-se o arroz branco, que perde cerca de
30% do peso inicial, 80% das gorduras lipossolúveis, 60% dos sais minerais e
praticamente todas as vitaminas, incluindo a valiosa vitamina B1.
Ao refinar os cereais, não
apenas desrespeitamos o seu valor natural, como também nos afastamos
implicitamente daquilo que é local e daquilo que a natureza nos oferece em cada
momento. O cereal refinado mantém-nos presos ao passado, pois não flui adequadamente
através dos intestinos, favorecendo obstipação, alergias, problemas de pele,
descalcificação, diabetes, perturbações nervosas, problemas mentais e muitas
outras condições.
A mensagem da
natureza é clara: mudança, constante mudança. Se queremos viver em harmonia,
devemos adaptar-nos a essa mudança, consumindo aquilo que a Terra nos oferece
amorosamente em cada estação.
