DERIVADOS
DE SOJA
Drª Elena Corrales
O valor nutricional deste
humilde legume é extraordinário, tanto que tem o dobro das proteínas da carne,
as gorduras que contém são insaturadas e é também rico em vitaminas e minerais.
No entanto, a soja no seu estado natural é não comestível, indigesta e até
tóxica.
Por isso, a tradição
oriental submeteu a soja a múltiplas transformações, quase sempre com a ajuda
de microrganismos, com o objetivo de obter produtos que, além de saborosos e
fáceis de digerir, têm mais valor nutricional do que a soja original. Estamos a
falar do miso, do tamari, do tempeh, do natto, etc.
O
MISO
É composto
basicamente por soja, água, sal e é fermentado através do Aspergillus oryzae.
No Oriente, existem tantas variedades de miso com diferentes sabores, texturas
e aromas como nos queijos ou vinhos do Ocidente.
Na sua
elaboração, muitas vezes são adicionados alguns cereais, como arroz ou cevada,
dando origem a misos mais suaves e muito equilibrados nutricionalmente pela
combinação cereal/leguminosa.
Para obter
essa pasta de cor castanha que todos conhecemos, são necessários pelo menos 24
meses de fermentação anaeróbica, que é realizada em talhas (de madeira ou aço
inox - RDT) onde se colocam os ingredientes e se deixa que o tempo, o sal e a
pressão permitam a fermentação.
Embora seja um
produto estranho à nossa cultura, devemos saber que as nossas condições
climáticas de humidade, temperatura e latitude permitem que a soja seja
cultivada e processada no nosso ambiente, sem qualquer problema. Neste momento,
já existem empresas no nosso país que produzem miso e tamari.
Por ser um
alimento naturalmente «curado» pelo sal, não necessita de refrigeração para a
sua conservação. Pensemos que o miso, sendo um alimento tradicional, é muito
mais antigo do que os frigoríficos modernos. Basta guardá-lo num local fresco
depois de aberto. De qualquer forma, podemos guardá-lo no frigorífico sem
qualquer problema.
O miso
favorece a longevidade devido aos probióticos que contém e, como restaura as
mucosas do aparelho digestivo, é adequado para melhorar a pele, as unhas e o
cabelo, bem como para aumentar as defesas. Pelo seu teor em minerais, é
indicado para o fortalecimento dos dentes e dos ossos, sendo de grande ajuda na
osteoporose.
Além disso,
como é rico em fibra, ajuda a normalizar o trânsito intestinal. Quanto ao seu
teor de sal, que oscila entre 10 e 12 %, não tem efeito endurecedor das
artérias, graças ao facto de ter sido vegetalizado durante a fermentação.
Graças ao seu
teor de zybicolina, um fator de proteção descoberto no Japão em 1972, é
especialmente indicado durante a radioterapia ou em condições de fuga
radioativa.
É um alimento que não pode
faltar na nossa casa e pode ser introduzido na alimentação dos bebés a partir
do primeiro ano de vida. É o ingrediente fundamental das sopas de miso.
O
TAMARI
Também
conhecido como molho de soja, é um líquido Escuro, salgado, o seu sabor lembra
o concentrado de carne que era comercializado nos anos 60. Além de ser usado
para realçar o sabor dos alimentos, incluí-lo-emos na nossa dieta devido ao seu
caráter redutor, ou seja, antioxidante. Tem as mesmas aplicações que o miso, do
qual é primo irmão.
Neste caso, a
fermentação é aeróbica e é feita em grandes cubas. Também aqui atuam o tempo,
que oscila entre 12 e 24 meses, e o sal. Durante o período de fermentação, as
cubas são mexidas com grandes pás para oxigenar a mistura, a elaboração é
semelhante à do miso, com um resultado líquido neste caso.
É altamente
remineralizante, tonificante, fortalecedor do sistema nervoso e digestivo. A
qualidade mais importante do tamari é um poderoso efeito redutor, mas com
energia yang, aquecedora. Os restantes alimentos com caráter antioxidante são
os vegetais e as frutas que têm energia yin refrescante; isto vai permitir-nos
regular o equilíbrio oxidação/redução aplicando o yin e o yang, facto que é
essencial no tratamento de qualquer patologia.
Devemos utilizá-lo sempre
nos alimentos no final da cozedura, nunca à mesa. Devemos ser muito moderados
no seu consumo, pois se abusarmos deste condimento podemos sentir desejos
irreprimíveis por doces. Lembremo-nos de uma lei universal que diz: yang (tamari)
atrai yin (doce).
O
SHOYU
É um derivado
fermentado da soja ao qual tradicionalmente se adiciona trigo e é mais leve que
o tamari. Tal como no miso, algumas variedades contêm apenas soja (tamari),
água e sal, enquanto outras têm cereais adicionados (shoyu).
A combinação
de cereais e leguminosas é sempre interessante do ponto de vista nutricional,
mas é necessário ter em conta a composição destes preparados quando contêm
trigo ou cevada, no caso dos celíacos.
Tanto o tamari como o shoyu
são pasteurizados a 82 °C para travar a fermentação, porque, ao terem um teor
de água superior ao do miso, são mais instáveis. Por isso, as propriedades
terapêuticas do tamari em termos de enzimas e lactobacilos ficariam comprometidas
em consequência da pasteurização. Atualmente, no nosso país, está a ser
comercializado tamari não pasteurizado, pelo que estamos com sorte.
OS
MOLHOS DE SOJA COMERCIAIS
São produzidos por
fermentação química e contêm glutamato monossódico, xaropes artificiais,
proteínas hidrolisadas, soda cáustica... e a fermentação química é feita em
poucas horas. São o exemplo do «comestível» a descartar da nossa mesa.
Existem outros dois
derivados fermentados da soja que são utilizados como alimentos, ao contrário
do miso e do tamari, que são condimentos.
O
TEMPEH
É um alimento
tradicional da Indonésia, onde é consumido diariamente. Há alguns anos, começou
a ser consumido também no Ocidente.
Modo de
preparação
Colocamos a
soja de molho durante 10 a 12 horas, depois descartamos a água do molho e,
sobre um pano estendido, esfregamos os grãos uns nos outros e observamos como a
casca se solta facilmente.
Em seguida,
espalhamos os grãos em uma camada fina sobre uma bandeja e polvilhamos por cima
um fungo chamado Rhizopus oligosporus, o fermento. Podemos usar um
coador para espalhar o fungo uniformemente. Deixamos a bandeja a 30 °C entre 24
e 48 horas. Nesse tempo, a soja fica coberta por um micélio branco que lembra o
do queijo Camembert e forma uma espécie de «bolo» compacto. Já está pronto para
cozinhar e comer.
Valor
nutricional
O tempeh é
muito interessante do ponto de vista nutricional, as suas propriedades
nutritivas aumentam após a fermentação, porque esta destrói o efeito inibidor
da tripsina, tornando-o mais digestível e permitindo aproveitar melhor as suas
proteínas. Além disso, os hidratos de carbono são parcialmente hidrolisados,
uma parte dos ácidos gordos das suas gorduras é libertada e também é destruída
uma parte do ácido fítico que contém. O fungo durante a fermentação favorece a
síntese de antioxidantes e substâncias antibióticas.
Quando o
tempeh é produzido de forma tradicional, sintetizam-se vitaminas do grupo B e
particularmente a B12, uma vez que quem colabora nesta síntese é uma bactéria
que se encontra no ambiente, a Klebsiella pneumoniae.
No entanto,
quando o tempeh é produzido em condições assépticas com o fungo puro, não há
síntese de vitamina B12. Essas questões sutis, que são a «letra miúda» da
informação, devem ser conhecidas para sabermos realmente o que os alimentos que
comemos nos proporcionam.
O tempeh é uma
excelente alternativa à carne, uma vez que a sua assimilação proteica líquida é
semelhante à desta, mas o seu teor de gorduras isentas de colesterol é de 4 %
contra 20 % da carne.
O sabor é um pouco
particular, mas fácil de se habituar.
O
NATTO
É outro
produto fermentado derivado da soja, semelhante ao tempeh, só que a fermentação
é produzida por um microrganismo diferente, uma bactéria chamada Bacillus
subtilis. É um dos poucos produtos fermentados da soja em que não
participam fungos nem leveduras.
Modo de
elaboração
Para a sua
preparação, selecionam-se os grãos de soja mais pequenos e de cor branca ou
amarela. São cozidos no vapor e deixados arrefecer até atingirem
aproximadamente 45 °C. Em seguida, adiciona-se a bactéria que produz a
fermentação dos grãos.
Em seguida,
são armazenados em câmaras de fermentação em determinadas condições de
temperatura e humidade durante cerca de 20 horas. Depois, essa mistura é
amadurecida em refrigeração durante mais 24 horas, após as quais se obtém uma
espécie de pasta que é conhecida como natto. O resultado é um alimento viscoso
com um odor e sabor característicos.
Valor
nutricional
É rico em probióticos, como o resto dos fermentados tradicionais de soja, e contém vitaminas e enzimas, bem como aminoácidos essenciais, mas talvez a sua principal virtude seja um extrato do mesmo, chamado nattokinase, que, conforme mencionado em estudos científicos no seu país de origem, atua como um potente agente anticoagulante capaz de dissolver coágulos sanguíneos (trombos).
A
BEBIDA DE SOJA
É uma bebida
refrescante de aspecto leitoso semelhante a uma orxata que muitas pessoas
chamam, de forma inadequada, de «leite de soja». É uma bebida rica em
proteínas, que combina bem com cereais. Fornece ácidos gordos polinsaturados e
lecitina, além de uma proporção interessante de vitaminas e minerais. É pobre
em hidratos de carbono e não contém lactose. Pode ser consumida sozinha ou
utilizada na preparação de molhos e sobremesas.
Preparação
Utilizaremos
200 gramas de feijão de soja amarelo. Lavamo-lo em várias águas e escorremo-lo num
coador. Deixamo-lo de molho em água filtrada ou engarrafada durante pelo menos
24 horas.
No dia
seguinte, lavamo-lo novamente e trituramo-lo cru, adicionando aproximadamente
meio litro de água. Podemos usar uma batedeira ou um picador de carne,
procurando obter uma textura muito cremosa.
Se desejarmos
uma bebida mais fina e menos amarga, convém descascar a soja antes de
triturá-la. Para isso, espalhe a soja embebida numa camada fina sobre uma
toalha e esfregue com outra por cima; as cascas irão soltar-se facilmente.
Em qualquer
dos casos, colocamos aproximadamente um litro de água a ferver e, quando
atingir o ponto de ebulição, adicionamos o puré. É importante mexer
constantemente para evitar que grude no fundo da panela.
Mantemos a
fervura em fogo médio durante 30 a 40 minutos. Dessa forma, o resultado será
mais digestível, pois o fator antitripsina presente na soja crua é inativado.
Durante a cozedura, irá formar-se espuma, tal como acontece com o leite de
vaca; devemos removê-la e ter cuidado para que não se derrame.
Em seguida,
deixamos arrefecer e filtramos o conteúdo colocando um coador coberto com uma
gaze sobre o recipiente escolhido. O líquido filtrado é a bebida de soja; o
resíduo sólido recebe o nome de okara.
Interesse
deste alimento
Não se trata
de um alimento integral, uma vez que apenas aproveitamos os nutrientes que
passam para a água durante a cozedura; por isso, convém consumi-lo com
moderação. Além disso, ao não ser fermentado com sal durante muito tempo, do
ponto de vista energético mantém qualidades mais yin, com efeito refrescante.
Não
desaconselhamos a bebida de soja, apenas lembramos que ela não deve se tornar
um alimento de consumo diário como simples substituto do leite de vaca.
A sua popularização —
favorecida em parte pela reconversão de algumas indústrias leiteiras para
produtos alternativos — convida-nos a considerar também o seu efeito
refrescante e o seu teor em fitoestrogénios. A questão não é substituir o leite
pela bebida de soja, mas repensar toda a nossa alimentação. Se quisermos
beneficiar da soja, pode ser mais interessante incorporar preparações
tradicionais fermentadas, como o miso e o tamari.
O
TOFU OU «QUEIJO» DE SOJA
Da mesma forma
que a partir do leite de vaca se obtém o queijo fresco, a partir da bebida de
soja obtém-se o tofu, cuja textura lembra o requeijão. É rico em proteínas,
baixo em gorduras, sem colesterol, branco, de sabor suave e praticamente sem
cheiro. Em japonês, tofu significa «carne sem osso».
Preparação
Preparamos a
bebida de soja como indicado anteriormente. Quando estiver pronta, fervemos
durante cinco minutos e adicionamos nigari, que é o cloreto de magnésio
obtido naturalmente da água do mar durante o processo de obtenção do sal
marinho.
Formar-se-ão
coágulos semelhantes a «nuvens», como no requeijão. Nesse momento, vertemos a
mistura num coador coberto com uma gaze limpa. O coalho resultante pode ser
prensado num molde para lhe dar forma (quadrada, retangular, etc.). Depois de
arrefecer, adquire a consistência sólida característica do tofu.
Efeitos
energéticos
Do ponto de
vista energético, o tofu tem um efeito refrescante e dispersante. É conveniente
ter isso em conta para moderar o seu consumo no inverno, ou quando nos sentimos
fracos, sem energia ou decaídos.
Em determinados contextos
macrobióticos, tem sido utilizado estrategicamente nos menus para suavizar
tensões derivadas de dinâmicas muito estruturadas, aproveitando precisamente
esse efeito relaxante e refrescante. O seu efeito refrescante é tão marcante
que uma das suas aplicações tradicionais tem sido o uso tópico na forma de
cataplasma para ajudar a baixar a febre.
O
ÓLEO DE SOJA
Outro derivado não
fermentado é o óleo de soja. Do ponto de vista alimentar, apresenta pouco
interesse quando obtido através de processos industriais que utilizam solventes
químicos e altas temperaturas. É um óleo muito insaturado e com um ponto de
fumo baixo, o que limita a sua adequação para cozinhar em altas temperaturas.
CONCLUSÃO
Gostaria de partilhar informações rigorosas que nos permitam compreender melhor a soja e os seus diferentes derivados. Cada um ocupa um lugar diferente e deve ser integrado com critério numa alimentação consciente e equilibrada.
BIBLIOGRAFIA
· https://www.elenacorrales.com/blogelenacorrales/category/alimentos/

