DESTAQUE PARA OS HIDRATOS DE CARBONO
por Florence Wenker, 2001
Em princípio, o regime macrobiótico é composto
por
30 a 70% de cereais integrais, que são hidratos de carbono.
Embora seja
adequado para a maioria das pessoas, em todos os casos é necessário tomar
algumas precauções, sobretudo para quem está a iniciar-se na macrobiótica ou
para aqueles cuja saúde é frágil. Nestes últimos casos, um regime rico em
hidratos de carbono e pobre em gorduras pode ser prejudicial para a saúde.
Ao comer
demasiados alimentos que contêm hidratos de carbono, impedimos o organismo de
utilizar os lípidos, o que diminui a nossa resistência e aumenta as reservas de
gordura.
A capacidade
do corpo para armazenar hidratos de carbono é limitada e, quando esse limite é
ultrapassado, os excessos são facilmente convertidos em tecido adiposo.
Comer menos não significa necessariamente perder gordura. Regimes pobres em
calorias e ricos em hidratos de carbono geram uma série de sinais bioquímicos
precursores que são sinais de desequilíbrio e tornam difícil o acesso às
gorduras armazenadas.
O que é um hidrato de carbono?
Um hidrato de
carbono é um glícido, um açúcar. Encontra-se nos cereais sob a forma de amido,
em alguns legumes — sobretudo os legumes de raiz — e nas frutas, nos “açúcares”
habituais: açúcar branco ou açúcar de cana, malte de cereais, xarope de ácer,
birnel (concentrado de pera), etc.
Os glícidos
(ou hidratos de carbono) são digeridos no intestino delgado e transportados até
ao fígado, onde são transformados em glicogénio. O glicogénio é libertado
conforme a necessidade do organismo para assegurar a glicemia (nível de açúcar
no sangue, que deveria situar-se à volta de 1%).
O corpo
necessita de um fornecimento regular de glícidos para alimentar o cérebro, que
monopoliza uma grande parte do glicogénio, consumindo dois terços dos hidratos
de carbono em circulação no fluxo sanguíneo durante o sono. Para este processo,
o organismo deve ingerir regularmente hidratos de carbono e transformá-los em
glicogénio.
Contudo, este
processo pode complicar-se ligeiramente. A capacidade do fígado para armazenar
glicogénio é limitada e pode esgotar-se facilmente em dez ou doze horas. É por
isso que precisamos de ingerir hidratos de carbono em cada refeição.
O que acontece se comermos
demasiados hidratos de carbono?
A capacidade
do fígado para armazenar hidratos de carbono é limitada.
No fígado,
onde os hidratos de carbono são armazenados para serem transformados em
glucose, só é possível guardar cerca de 60 a 90 gramas de hidratos de carbono
(peso dos alimentos cozinhados). Isto equivale, por exemplo, a duas chávenas de
cereais ou a um bolo seco e uma fruta, representando a capacidade total
de reserva necessária para o funcionamento do cérebro.
Os músculos
também são grandes consumidores de glicogénio. Uma vez atingido o nível de
glicogénio no fígado, nos músculos e no cérebro, o único destino dos hidratos
de carbono em excesso é serem convertidos em tecido adiposo.
Assim, embora
os hidratos de carbono não contenham gordura, podem acabar por se transformar
em gordura se forem consumidos em excesso.
Além disso,
qualquer refeição rica em hidratos de carbono provoca uma rápida elevação do
nível de glicogénio no sangue. Para corrigir esta subida rápida do açúcar e
manter o nível por volta de 1%, o pâncreas secreta uma hormona chamada
insulina, que reduz o açúcar no sangue.
A insulina é
essencialmente uma hormona de armazenamento, destinada a guardar hidratos de
carbono sob a forma de gordura em caso de fome ou escassez. Assim, a insulina
estimulada pelo excesso de hidratos de carbono produz uma acumulação de gordura
no corpo.
Se comermos
demasiados hidratos de carbono, enviamos ao organismo uma mensagem através da
insulina: “armazena gordura!”
Não só a
insulina diz ao corpo para armazenar os hidratos de carbono como gordura, como
também impede a libertação das gorduras já armazenadas. Assim, não consegue
utilizar o excesso de gordura.
Este processo
leva igualmente o corpo a utilizar mais hidratos de carbono e menos gordura
como combustível. Se quiser usar a gordura em excesso como energia, a resposta
da insulina deve ser moderada. Regimes ricos em hidratos de carbono libertam
mais energia imediata e, assim, impedem a queima de gordura.
Após uma
refeição rica em hidratos de carbono, o nível de açúcar no sangue aumenta,
levando a insulina a reduzi-lo, o que provoca sensação de fome — muitas vezes
uma ou duas horas depois da refeição — e desejo por açúcar.
Se quiser
queimar gordura, é necessário diminuir a secreção de insulina ingerindo menos
hidratos de carbono. Os açúcares simples (açúcar branco ou açúcar de cana
integral, extrato de pera — birnel —, xarope de ácer) devem ser eliminados, e
os outros hidratos de carbono mantidos em cerca de 40% da alimentação.
As fibras
presentes nos cereais também minimizam a resposta da insulina.
Muitas pessoas
perderam a capacidade de transformar eficazmente os hidratos de carbono. Isto
chama-se resistência à insulina (IR).
Numa pessoa
normal (sem resistência à insulina), cerca de 40% dos hidratos de carbono
consumidos são transformados em gordura. Numa pessoa com IR, este valor é muito
mais elevado.
Se formos
incapazes de utilizar os hidratos de carbono ingeridos, podem surgir alguns
sintomas:
- Fadiga: de
manhã, à tarde ou durante todo o dia
- “Névoa” mental: cansaço mental, dificuldade de
concentração, falta de criatividade, má memória, insucesso escolar e
incapacidade de aprender
- Hipoglicemia: breves períodos de hipoglicemia são normais
ao longo do dia, sobretudo se as refeições não forem feitas a horas
regulares. Mas períodos repetidos e prolongados não são normais. As
tonturas são frequentes.
- Intestinos inchados: a maioria dos gases intestinais é produzida
pelos hidratos de carbono e pode evoluir até colite
- Sonolência: sobretudo após refeições com muitos
hidratos de carbono
- Aumento de peso
- Aumento da pressão arterial
- Depressão: como os hidratos de carbono são produtos
“calmantes”, “abrandam” o cérebro ao alterar a sua química. Aumentam a
serotonina, produzindo sensação de sonolência.
- Tendência para dependência de álcool, cafeína, tabaco ou outras drogas
Se estiver nesta situação, a quantidade de hidratos de carbono (ou seja, de
cereais) não deverá ultrapassar 50% da refeição, em todas as refeições.
A aplicação da yin-yologia (yin/yang) à
alimentação é uma arte exigente. A intuição deveria ser o nosso único guia, mas
nem sempre é fácil recorrer a ela. Se não nos sentimos muito bem, convém
procurar as causas — e esperamos que estas linhas tenham contribuído para isso.

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