Saturday, April 4, 2026

 Reflexão: Afinal, o que é saudável?

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Está definitivamente – e cada vez mais – na moda uma alimentação e estilo de vida saudáveis. O que é bom, em teoria, mas que é mau, na prática. Isto porque é uma moda e quase tudo o que não passa de uma moda, não tem profundidade, nem é analisado por cada indivíduo, segundo a sua experiência e discernimento. Tudo o que é moda é, normalmente, seguido. Apenas seguido. Sem existir uma real compreensão, observação, análise, formação de juízo e tomada de consciência. E sem ser questionado.

Um dos grandes problemas, é que o que é hoje apontado como saudável, amanhã já não é bem assim. São publicados todos os dias estudos e artigos contraditórios entre si. Mais do que isso: o que é saudável para uns, não é para outros. É só ir ao  feed de notícias do Facebook e começam aparecer milhares e milhares de publicações com estudos disto e estudos daquilo, notícias contraditórias, pessoas a afirmar que este ou aquele alimento faz bem a isto e àquilo, etc etc. Acho até que um Ser Vivo com algum grau de consciência, que não da nossa espécie, tivesse acesso a isto, pensava que somos todos uma espécie de doidos (estou a imaginar um E.T a aterrar no nosso planeta e a pensar “mas que gente é esta que se contradiz minuto a minuto?!”)

Isto, aliado ao facto das marcas publicitarem produtos que não são saudáveis como o sendo – de forma mais ou menos explicita -, apenas com fins comerciais e aproveitando-se de tendências e estudos faccioso, é grave. Sempre foi assim nesta sociedade, mas não deixa de ser grave. Muita gente não tem acesso a mais, e se os meios de comunicação dizem, não questionam.

Já para não falar nas inúmeras dietas que surgem todos os dias. É a dieta paleolítica, a raw food, a dieta dos 22 dias de não sei o quê, a dieta do DNA, low-carb, dieta macrobiótica, dieta vegetariana, dieta das sopas, dieta disto e daquilo. Qual escolher? É um bicho de sete cabeças.

A somar, há empresas que comercializam dietas e suplementos com produtos adulterados e cheios de químicos e coisas esquisitas, ditas saudáveis. É só ler os rótulos para perceber que é impossível ser saudável.

Há ainda nutricionistas com opiniões completamente dispares entre si. A Drª X diz isto, mas o Dr. Y diz precisamente o oposto.

Para além disso, ainda há milhares e milhares de gente a mostrar o que come nas redes sociais e ainda por cima ondas conjuntas – são as papas de aveia com milhares de coisas que qualquer pessoa, aprofundando a questão, percebe que não pode ser saudável; é o óleo de coco (que falei ontem aqui, mas APENAS para uso cosmético, não para alimentação); são as panquecas e as tapiocas todos os dias; são os ovos cheios de hormonas diariamente, ao pequeno-almoço; são as proteínas extra; são os frutos secos em grandes quantidades; é o salmão e outros peixes de aquacultura; as carnes brancas de animais que foram criados à base de hormonas, antibióticos etc; são as frutas fora de época e não biológicas cheias de pesticidas e não adequados para o nosso clima; é o abacate que também não é adequado para o nosso clima e que está a provocar um grande impacto ambiental com a excessiva procura; é o queijo quark; são tantas, tantas coisas que era impossível mencionar todas. É até a hashtag #eucorroeuposso revela que não há uma real busca de informação, tem piada, claro, em ambiente digital, mas mostra uma sociedade bastante superficial.

Não posso também deixar de colocar aqui esta pergunta: as pessoas querem realmente ser saudáveis, ter uma vida plena de saúde, ou é a estética que fala mais alto? Não sei, mas parece-me que a moda da alimentação saudável está mais ligada com aparência do que com saúde, o que na verdade também justifica todas estas questões antagónicas.

Antes que seja crucificada virtualmente pela maioria das pessoas, esta é apenas uma reflexão pessoal, ok? Vale o que vale. Não estou a criticar ninguém porque sei que a maioria das pessoas tenta fazer o melhor que sabe. Existindo um culpado é sem dúvida para dúvidas o conjunto de interesses económicos que infelizmente estão por trás de tudo. Não passa disso. O que estou a tentar dizer é que o Ser Humano está cada vez mais superficial, mas que está sempre a tempo de uma busca mais profunda.

Mas chegando ao cerne da questão, há então afinal alguma forma de saber o que é ou não é saudável? Como é possível sobreviver a toda esta informação contraditória?

Pois… Eu não sei a fórmula mágica, nem a resposta sobre o que é saudável ou não é saudável. Tenho, sim, as minhas convicções, mas cada um deve encontrar as suas, questionando. Andarmos todos ao sabor da corrente é que não é de todo positivo. Eu tive a sorte de crescer numa família que tinha mudado de alimentação há algum tempo, seguindo a filosofia macrobiótica (não é uma dieta, é uma filosofia, para quem quiser aprofundar, que abrange todo o estilo de vida e que teve origem nos mosteiros budistas Zen, no Japão há muito, muito tempo, sem interesses económicos à mistura – não é uma moda, embora esteja na moda hoje em dia).

Independentemente de tudo, deixo aqui algumas dicas que penso que podem ajudar quem está em busca de uma vida mais equilibrada, a nível de alimentação:

  • Basear a sua alimentação diária em produtos integrais (ou seja, no seu estado natural, antes de serem processados), tais como: cereais integrais, leguminosas, algas, legumes e frutas;
  • Não consumir de forma regular produtos em embalagens com rótulos com mais do que o ingrediente principal;
  • Consumir exclusivamente produtos biológicos (incluindo carne e peixe, se for o caso) e da época e local onde nos encontramos;
  • Ler os rótulos e analisar cada componente;
  • Não julgar a componente saudável de um prato, só pelos ingredientes ou aspecto (é saudável se os ingredientes forem de boa qualidade e origem);
  • Cozinhar os alimentos com tampa fechada para não perderem nutrientes;
  • Não utilizar micro-ondas, cozinhar em lume;
  • Não usar muitos electrodomésticos eléctricos;
  • Privilegiar materiais nos utensílios de cozinha que não libertem substancias nocivas (usar vidro, inox, ferro fundido);
  • Aprofundar o estudo do tubo digestivo, estômago, intestinos e dentição das diferentes espécies para compreender quais as proporções mais adequadas de cada grupo de alimentos;
  • Adaptar a alimentação ao verão e inverno, assim como às diferentes condições de saúde, idade, estilo de vida e sexo;
  • Perceber o que os mais antigos comiam no clima onde moramos e o que usavam quando estavam doentes;
  • Tentar saber mais sobre o impacto ambiental e humano das escolhas que fazemos em termos de produtos alimentares;
  • Comer menos em vez de a mais;
  • Estudar os alimentos, a nível de equilíbrio Yin / Yang;
  • Observar os efeitos físicos e mentais dos alimentos. Ir experimentando e adequando.

Sobre a parte de comer menos em vez de a mais, ouvi uma explicação que adorei do Francisco Varatojo, numa palestra. Foi mais ou menos assim (com algumas partes, no final, acrescentadas por mim): Atualmente o Homem toma o pequeno-almoço como se fosse para a guerra ou para o campo (por exemplo ovos, sumos, panquecas, leite, fruta). A seguir levanta-se, toca no botão do elevador e desce para a garagem. Entra no carro, senta-se e conduz. A seguir, chega ao escritório, estaciona na garagem, carrega no botão do elevador e senta-se na secretária a teclar. Ao fim do dia, volta a fazer o processo inverso, vai para o ginásio, sobe de elevador, vai correr num tapete, fazer máquinas para definir os abdominais, pernas, glúteos, etc. No final, desce de elevador, entra no carro, estaciona na garagem de casa, sobe de elevador e senta-se a vegetar no sofá, cansado, agarrado ao comando da televisão. Posto isto: precisamos realmente de tanta quantidade de comida diariamente? E faz algum sentido, a título de exemplo, pagar para nos fazerem as tarefas domésticas, quando depois voltamos a pagar num ginásio para exercitarmos o corpo?

E é isto.

Depois deste texto enorme, se ainda estiverem por aí, concordem ou não com o que escrevi, acho que vale a pena nem que seja alguns minutos de reflexão. 🙂



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