Friday, April 24, 2026

   


                                                                       Ionia,

uma comunidade macrobiótica no Alasca

https://ionia.org/
por Florence Wenker, 2000

resumo

O texto descreve a comunidade macrobiótica de Ionia, no Alasca, fundada por várias famílias que, nos anos 80, decidiram abandonar a vida convencional para ir viver em comunidade segundo os princípios da macrobiótica.

Depois de passarem por vários locais nos Estados Unidos, instalaram-se na península de Kenai, onde vivem de forma quase autossuficiente. Praticam agricultura, seguem uma alimentação vegana e partilham recursos, rendimentos e decisões, num modelo semelhante a um kibbutz. Não há hierarquias formais e tudo é decidido em grupo através da discussão.

As crianças são educadas dentro da comunidade e crescem com os valores macrobióticos. O estilo de vida privilegia a saúde, o contacto com a natureza e a simplicidade, rejeitando a sociedade de consumo.

O texto defende que a macrobiótica só atinge o seu verdadeiro sentido quando vivida em comunidade. Segundo os membros de Ionia, o “espírito macrobiótico” nasce da convivência, da partilha e da proximidade entre as pessoas. Viver em conjunto é visto como essencial não só para o bem-estar individual, mas também como uma forma de transformação social mais ampla.

texto

Existe no Alasca uma comunidade macrobiótica chamada Ionia. Há cerca de 12 anos, várias famílias de estudantes deixaram a sua casa em Boston e decidiram aventurar-se a viver em comunidade. O seu percurso levou-os primeiro à Califórnia e, depois, pelos “acasos da vida”, acabaram por se reunir quatro famílias no Alasca, escolhendo o nome Ionia.

Eis a história desta pequena comunidade.

Porquê Ionia?

Ionia era o nome de uma região da Ásia Menor (actual Turquia), que incluía parte das ilhas do mar Egeu. Há 2500 anos, os habitantes de Ionia tiveram a revelação de que o universo não era o caos, mas que tinha uma ordem; que a doença não era causada por demónios ou deuses; que a natureza não era totalmente imprevisível, mas obedecia a leis. Porque é que estas ideias se desenvolveram ali e não nas grandes cidades da Índia, do Egipto, da China ou da América Central? A explicação é que essas grandes cidades eram centros de impérios, geralmente hostis a ideias novas. Mas em Ionia, pelo contrário, existia uma multiplicidade de ilhas que tornava impossível qualquer hegemonia. O isolamento dos habitantes deste arquipélago favorecia a diversidade de pensamento. Mercadores, viajantes e marinheiros da Ásia encontravam-se nos portos de Ionia para trocar mercadorias, histórias e ideias. Essas discussões levaram à crítica das tradições, dos preconceitos, dos discursos e dos deuses. Essas pessoas estavam dispostas a fazer experiências. E, uma vez iniciado o hábito de questionar, cada questão levava a uma outra… (Adaptado de Cosmos, de Carl Sagan)

Para nós, tudo começou com a leitura de uma mensagem na Internet que despertou a nossa curiosidade. Homens e mulheres macrobióticos decidiram viver juntos, com tudo o que isso implica em termos de desafios, sacrifícios e espírito de aventura.

Em 1983, vários estudantes partilhavam uma grande casa nos arredores de Boston e estudavam o modo de vida macrobiótico com Michio e Aveline Kushi. Foi o início de uma vida em comunidade que os levou sucessivamente à costa oeste dos Estados Unidos — Califórnia, estado de Washington — e, finalmente, ao Alasca. Durante este percurso, alguns abandonaram o grupo, ficando no fim quatro famílias que se reuniram em Anchorage, no Alasca.

Um ano depois, em 1987, Ted e Eliza, Barry e Cathy, Michael e Vicki, e Bill instalaram-se com os seus filhos na península de Kenai, num terreno de 42 hectares. Este local situa-se no paralelo 60 (aproximadamente à mesma latitude de Estocolmo). Ali, os dias variam de 4 a 5 horas em Dezembro até 22 horas em Junho, com mudanças diárias muito rápidas. A temperatura média varia entre cerca de -5°C no inverno e +16°C no verão.

O grupo passou um ano a viver em tipis e, no ano seguinte, começou a construir cabanas familiares em troncos. Um dos objectivos da comunidade é pôr em prática o modo de vida macrobiótico e educar os filhos fora dos circuitos habituais da sociedade. Todos os verões, regressam aos tipis para aproveitar melhor o curto verão do Alasca. Actualmente, Ionia conta com cerca de 40 membros, dos quais cerca de 30 são crianças e adolescentes, além de visitantes ocasionais.

Organização e modo de vida

A organização interna assemelha-se à de um kibbutz. As principais receitas e despesas são partilhadas; por exemplo, a comunidade possui apenas um veículo. Os recursos provêm sobretudo de um subsídio atribuído a todos os cidadãos americanos residentes no Alasca (cerca de 1.800 dólares por pessoa por ano). Isto permite-lhes viver quase em autarcia (de forma autossuficiente), mantendo independência financeira sem necessidade de trabalho remunerado — mesmo se é por vezes difícil e exija disciplina e contenção de gastos. Mas a luta contra a sociedade de consumo faz parte da sua filosofia.

A agricultura é uma actividade importante em Ionia e todos participam. O verão do Alasca permite cultivar diversos legumes de raiz: bardanas, cenouras, daikon, nabos, rutabagas e todas as variedades de couves. Estes legumes são colhidos no outono e armazenados para o inverno ou transformados em pickles (chucrute). No final do verão, colhem também bagas silvestres, que transformam em purés de fruta. Há dois anos, uma parte do terreno foi reservado para cultivar cereais, como trigo, cevada e aveia. O mar, muito próximo, oferece uma grande variedade de algas comestíveis e deliciosas. Os poucos produtos não disponíveis localmente são comprados na cidade vizinha ou enviados dos Estados Unidos. Todos os membros da comunidade seguem uma alimentação estritamente vegetaliana: não consomem peixe, ovos nem produtos lácteos.

Educação e decisões

Nenhuma das cerca de 30 crianças e adolescentes frequentou o sistema escolar convencional; todos foram educados dentro da comunidade. Quando alguns saem temporariamente para estudar fora, o ideal macrobiótico já está profundamente enraizado neles e o seu futuro traçado - desejam perpetuar o sonho comunitário.

Não existe nenhuma organização hierárquica em Ionia. Tal como na Antiguidade, há cerca de 2.500 anos, as decisões são sempre tomadas em debates comunitários. As discussões são o verdadeiro pivot da vida da comunidade, abrangendo desde a agricultura até aos problemas relacionais e familiares. Para eles, o pensamento é tão importante como a alimentação, e partilhar ideias é tão essencial como partilhar refeições. Tudo é analisado e nessas reuniões, tanto os grandes projectos como os pequenos detalhes do quotidiano. Para eles, a progressão da macrobiótica, acreditam, não depende apenas do ensino, mas da partilha diária. Numa comunidade, os pensamentos, as emoções devem ser minuciosamente estudadas.

Saúde e filosofia

Segundo Eliza, é difícil não estar de boa saúde no Alasca: o ar é perfeitamente puro, as actividades ao ar livre são abundantes e a alimentação é saudável e deliciosa e as tentações de ir fora ao café ou ao restaurante é impossível. Os raros casos de pequenos acidentes são tratados no hospital mais próximo, cujos médicos respeitaram sempre o modo de vida da comunidade. Aprender a macrobiótica é apenas o primeiro passo; integrá-la na vida é o segundo. Depois, naturalmente, surge a criação de uma família macrobiótica. Vários o fizeram, mas parar aí é insuficiente — as comunidades macrobióticas são uma etapa necessária para continuar a implantar o nosso sonho no mundo inteiro. Pequenos grupos ou famílias, isolados e disseminados pelo mundo, não têm nem energia nem força suficientes para perpetuar o movimento. Só podemos esperar que outros sigam o exemplo de Ionia. Viver juntos é o próximo passo a dar. Se nos recusarmos a fazê-lo — por medo, desconfiança, indiferença ou egoísmo — a macrobiótica deixará de nos fazer bem e poderá até tornar-se o nosso pior inimigo.

Algo se perde completamente quando a macrobiótica é praticada isoladamente: perde-se o espírito macrobiótico. Esse espírito não pode ser ensinado — deve ser sentido e vivido. Para que possa continuar a expandir-se, todos os macrobióticos deverão fazer a experiência de viver em conjunto, partilhar os alimentos, o dinheiro, o trabalho, e se possível viver fora dos circuitos habituais.  O planeta oferece muitos lugares onde se pode viver com muito pouco dinheiro; basta querer fazê-lo: pôr em comum os bens e os rendimentos, encontrar uma terra cultivável, construir ou contentar-se com o que já existe; viver em conjunto, comer em conjunto e falar, trocar ideias, comunicar todos os dias diretamente, sem o intermédio de um computador. Como Cathy e Eliza diziam muito justamente, este é o caminho para relançar o movimento macrobiótico. Esperemos que, na Europa, alguns sigam este exemplo.

Demos a palavra a Cathy e Eliza para terminar:

A doença é a civilização e o cancro é o medicamento! Pode muito bem existir um “medicamento” macrobiótico para o cancro que não é nem o arroz cozido na panela de pressão nem o arroz tostado e depois cozido. O remédio macrobiótico para o cancro é um modo de vida macrobiótico comunitário. Talvez nós, macrobióticos, tenhamos tanta necessidade dos outros como um homem tem de uma mulher. Um macrobiótico sozinho tende a ficar estagnado com os seus sonhos e projetos; a sua solidão impede qualquer florescimento. Num casal macrobiótico há dois polos que geram um movimento perpétuo de energia, mas essa energia permanece no interior, não irradia. Uma comunidade macrobiótica, com homens, mulheres e crianças, acrescenta esse terceiro ponto necessário para a criação de uma espiral. Essa espiral de energia macrobiótica gera um espírito macrobiótico que é a expressão de “um grão, dez mil grãos”. O espírito macrobiótico existirá então por si mesmo, para além das nossas personalidades. Quando esse espírito está presente, sintomas como o cancro, a bulimia e a angústia desaparecem. A solução para o movimento macrobiótico é o encontro com o outro.

Todos os nossos estados de alma são importantes e necessários para a comunidade: a frustração de alguns em relação à macrobiótica moderna, a sua raiva perante aqueles que morreram ou ficaram doentes ao tentando acomodar-se a essa macrobiótica solitária, os esforços de alguns professores para tornar a macrobiótica acessível a toda a gente: todas estas atitudes devem ser levadas em conta. No entanto, os macrobióticos só podem utilizar estes diferentes componentes se estiverem próximos uns dos outros, de forma a influenciarem-se mutuamente. Esta aproximação não pode ser feita através de um computador, de um fax, de uma carta ou do telefone; não se podem compreender as mudanças que acontecem em nós ao ler mensagens na Internet, nem experimentar a vida de uma comunidade ao ler relatos. A comunidade macrobiótica precisa de uma proximidade física entre os seus membros, que permita trocas diretas e palpáveis. Nós somos os grãos; trocar entre nós é “mastigar”, e o resultado desta alquimia é a suavidade de viver o modo de vida macrobiótico. A vida em conjunto é uma terapia não só para o cancro, mas para a própria civilização.

Infelizmente, a experiência ensinou-nos que podemos aniquilar qualquer coisa pelo pensamento conceptual, incluindo o sonho macrobiótico. Ao fazer acreditar que a macrobiótica é apenas “o Bem”, tornamo-la dualista e matamo-la. Mas, apesar de tudo, o sonho continuará a sustentar e a alimentar a macrobiótica, até que, um dia, o tempo nos dê energia suficiente para nos tornarmos espírito universal.

http://www.ionia.org


Florence Wenker - junho de 2000

Community

Food

Environment

Getting in Touch

Partnerships

 

 









No comments:

Post a Comment

                                                                            Ionia, uma comunidade macrobiótica no Alasca https://ionia.org/...