OS DESEJOS NÃO SÃO SIMPLES
CAPRICHOS, SÃO
MENSAGENS BIOLÓGICAS
Patrícia
Restrepo
Quando decidimos mudar para uma alimentação
respeitosa, ecológica, macrobiótica, vegana ou vegetariana, e eliminamos da
nossa alimentação diária produtos químicos, alimentos cárneos, açucarados ou derivados
de laticínios, todo o sistema psicofísico entra num processo de transformação e
o conteúdo acumulado é descarregado do organismo por diferentes vias, uma das
quais pode ser os desejos.
Não devemos sentir nenhuma culpa quando temos
desejos intensos por alimentos do passado, alimentos inadequados ou
prejudiciais, pois os desejos são reações essencialmente biológicas. Os desejos
podem ser nossos melhores amigos, pois vêem para nos dizer que algo na nossa
alimentação ou no nosso estilo de vida não está em equilíbrio. Se soubermos
interpretá-los com um pequeno ajuste, criaremos harmonia e prazer.
Não importa o quão forte seja a
nossa disciplina, rigor ou força de vontade com a dieta, a inteligência
somática do corpo, quando estamos a entrar em desequilíbrio, dá-nos um sinal através
de desejos viscerais para comer certos alimentos. É contraproducente não
atendermos a esses desejos inesperados. Isso não significa que devemos dar-lhes
rédea solta, mas devemos investigar o significado desses anseios. Há três
perguntas-chave:
·
O que querem
dizer esses desejos?
·
Que
carência temos a nível bioquímico ou na nossa vida?
·
O que
está em desequilíbrio, a alimentação ou a nossa vida emocional?
Por detrás dos desejos pode
haver uma longa e prejudicial relação com a comida e, precisamente, atender
conscientemente a esses aparentes caprichos dá-nos uma oportunidade clara para
nos reconciliarmos com ela.
Quando fazemos a mudança para uma alimentação
natural e, no passado, os hábitos alimentares não só eram caóticos, como também
estavam ligados a antigos estados emocionais, padrões que estão profundamente
estabelecidos no inconsciente, esses desejos refletem pistas importantes. Por
exemplo, se em pequenos éramos recompensados com doces açucarados, crescemos
encontrando satisfação imediata em bolos, gelados e chocolate açucarado. Se as festas
eram celebradas com grandes quantidades de carne e laticínios, supervalorizamos
as proteínas animais, pensando que nelas encontraremos a força e as tornamos
sagradas. Portanto, não são apenas desejos biológicos, mas também desejos
espirituais supersticiosos.
Há dois aspetos fundamentais
nos desejos, o primeiro vamos chamá-lo de
«ajustamentos de transição» e o
segundo «desejos derivados de hábitos caóticos».
Desejos no período de
transição:
Transição não significa 25
anos, a transição ocorre nos primeiros anos da mudança alimentar, quando as
pessoas deixam de comer queijos, laticínios, iogurtes, açúcares simples,
gelados açucarados, alimentos refinados, pastelaria, chocolates, frutas
tropicais, enchidos, presunto, carnes, aves, ovos. E quando se começa a comer
uma dieta equilibrada e natural, esses alimentos automaticamente vêem à tona.
Para poder eliminá-los, o corpo utiliza
diferentes formas, às vezes com erupções cutâneas, mau humor, nas mulheres
corrimento vaginal, fezes, às vezes com sonhos, até sonhamos com alimentos do passado.
Cheiramos alimentos do passado e, nesses momentos, a inteligência do corpo fica
muito grata por se livrar desses tóxicos que estiveram lá por anos, mas
dependendo da natureza (consistência yang ou yin) do que acumulamos no corpo no
passado, esses alimentos serão eliminados durante mais ou menos tempo, é
importante para acelerar o processo de eliminação incorporar a atividade
física.
Mas enquanto estamos a eliminar
esses alimentos que vêem à superfície, eles estão muito presentes e uma parte
do nosso corpo tem um forte desejo de consumi-los novamente, a «síndrome de
abstinência» ou o que coloquialmente se chama «mono». Todo alimento que cria
dependência e se acumula desordenadamente no corpo gera mono (desejo intenso).
Mas para eliminar de forma
inteligente essas substâncias desequilibradoras, além da atividade física, é
crucial entender o que cada uma significa, para dar um substituto que satisfaça
e não prejudique ou perpetue a disfunção. Portanto, se uma pessoa em transição
desejar comer carne ou alimentos à base de carne, vamos sugerir que coma
proteína vegetal consistente, como tempeh refogado, seitan frito na
frigideira ou assado, tofu frito, leguminosas como feijão pinto, soja
preta ou azukis (os azukis têm menos gorduras do que os restantes legumes, e se
o desejo por carne for muito forte, escolha outro legume com mais gordura).
Se a transição for feita
diretamente de uma alimentação à base de carne para uma vegana, temos de
aumentar o tempeh, o tofu e o seitan cozinhados com óleo. Se o desejo surgir
por laticínios, que é o mais comum, porque os laticínios são os alimentos que
criam mais dependência e são difíceis de erradicar da dieta. Mas é muito
importante deixá-los devido aos graves e, por vezes, irreversíveis danos à
saúde, pois obstruem o sistema linfático, enfraquecem os intestinos, obstruem as
vias respiratórias, obstruem os seios paranasais, gerando alergias, sinusite,
contribuem para a formação de muitos tipos de cancro, especialmente o cancro da
mama. É um dos fatores subjacentes, juntamente com a gordura animal, da doença
celíaca. O corpo descarrega-os na forma de mucosidades.
Para satisfazer o desejo por laticínios,
vamos centrar-nos novamente em proteínas como o tempeh e, especialmente, em
frutos secos e sementes, purés de frutos secos como tahin (puré de sésamo),
puré de amêndoas, puré de amendoim, que devem ser cozidos para serem melhor
digeridos. Na verdade, os purés de sementes e frutos secos têm as qualidades
dos queijos vegetais e, embora não sejam o centro de uma dieta equilibrada, são
substâncias transitórias que contribuem para um equilíbrio futuro e, de certa forma,
são um passo em frente em relação aos laticínios.
É típico, no início da mudança,
que as pessoas comam puré de amendoim, ou tahin ou puré de amêndoas diretamente
do pote, pois o corpo está a habituar-se a viver sem a caseína (proteína
pegajosa e pesada dos laticínios), substituindo-a provisoriamente por estas
novas gorduras.
Uma forma harmoniosa de
compensar esta nova tendência do corpo é utilizar óleo na cozinha, porque o
abuso destes purés de frutos secos pode levar a uma disfunção nas vias
hepáticas.
O uso moderado de óleo na hora
de cozinhar produz saciedade e satisfação orgânica.
Quando as pessoas deixam de consumir
óleo por um longo período, correm o risco de comer demais porque
instintivamente o corpo está à procura de gordura.
«Encontrar o ponto certo de
óleo para cozinhar gera grande satisfação».
É claro que quando uma pessoa está a
recuperar de uma disfunção importante através de uma dieta terapêutica, é
fundamental seguir as instruções de um consultor em nutrição e, muitas vezes, o
óleo é suprimido por um curto período de tempo. As bebidas vegetais, chamadas «leites»,
ajudam a desabituar-se emocionalmente dos laticínios (mas temos de dar-lhes o
lugar que lhes corresponde), são líquidos brancos, que podem enriquecer a
cozinha na hora de preparar sobremesas ou molhos.
Se os desejos viscerais são por
alimentos açucarados, então vamos concentrar-nos em alimentos com um sabor que
intensifique o doce. Os adoçantes são sempre reduções de outros alimentos, mas
aqui vamos escolher aqueles que provêm de cereais integrais, polissacarídeos,
como geleias/maltes de cereais que, no seu processo de redução, não perderam as
vitaminas e conservam enzimas e parte dos nutrientes originais.
Como, por exemplo, geleia de
arroz, cevada, quinoa, milho (com este último é importante fazer a diferença
com o xarope de milho que vem camuflado em muitos dos bolos «naturais») são
igualmente úteis na transição, alimentos cremosos doces, como pudins e cremes.
A transformação estável e
duradoura para nos livrarmos dos açúcares simples é conseguida colocando mais
ênfase nos vegetais doces (abóbora, repolho, cenoura, cebola, todos os tipos de
couves, beterraba, etc.). Sei que quando fomos muito viciados em açúcar no
passado, achamos os vegetais doces insípidos, mas quando as nossas papilas
gustativas se limpam dessas substâncias viciantes, «deleitamo-nos e celebramos
com o doce natural».
É importante compreender que muitas vezes
esses desejos por doces ou chocolate também são o reflexo de uma vida com falta
de doçura e afectividade. Esquecemo-nos «da carícia, do beijo, do abraço».
O outro aspeto fundamental dos
desejos tem a ver com os nossos hábitos alimentares e estilo de vida. «Desejos
derivados de hábitos caóticos». «Os nossos hábitos criam o nosso apetite».
É importante programarmos com
antecedência o que vamos comer, como vamos comer e a que horas vamos comer.
O nosso sistema digestivo foi
concebido para que comamos sentados, a hora da refeição é sagrada, comer
conscientemente tem a ver com comer, mastigar e sentir o que comemos, as
modernas refeições de negócios são, na realidade, uma forma de destruir o nosso
sistema nervoso e o sistema digestivo. Nunca sabemos realmente qual é o nosso
apetite se fazemos outra coisa enquanto comemos, como ler, ver televisão, estar
em frente ao computador ou qualquer outro dispositivo eletrónico.
Comer regularmente, todos os
dias à mesma hora, promove a saúde e a satisfação orgânica.
Como a nossa vida moderna é
muito ativa, o planeamento tanto das compras
como da cozinha é
indispensável. Se não nos programarmos, é possível que passemos muitas horas no
trabalho e, quando sentirmos fome, acabemos por comer a primeira coisa que
encontrarmos. Isso levar-nos-á diretamente à hipoglicemia e, no dia seguinte,
começaremos a ter desejos pelo que comemos no dia anterior. Quando o açúcar
baixa, cedemos ao desejo e isso torna-se o princípio do desequilíbrio que tem
um final amargo e só encontra satisfação com açúcares simples.
Se não tivermos o açúcar
estável, o nosso cérebro não funciona bem, perdemos o equilíbrio, ficamos
irritáveis, com as mãos e os pés frios e o pâncreas, que é muito yang (pequeno,
compacto), sofre!
O cérebro médio e o pâncreas
são as partes mais compactas e yang do corpo, trabalham em conjunto, de modo
que os alimentos mais yang afetam
esses órgãos porque geram pressão, assim
todos os alimentos secos, salgados e compactos como ovos, frango, peru,
avestruz, carnes, atum, assados, crocantes, bolachas, bolos de arroz, geram
pressão e desequilibram o pâncreas, levando-nos a comer alimentos que relaxam,
como gelados ou produtos açucarados, criando assim desejos por «cremosidade
açucarada».
É necessário entender o
mecanismo de contração-expansão (yin-yang) para compreender o porquê do desejo
visceral por esses alimentos e, para aliviá-los, devemos primeiro suprimir a
ingestão de alimentos extremamente secos e compactos e, temporariamente,
consumir alimentos cremosos naturais, cremes de legumes e sobremesas cremosas
naturais.
O desejo por alimentos duros e
crocantes, por vegetais al dente, condimentados com molhos à base de
sementes torradas. O crocante natural é uma textura que estimula o cérebro.
No diagnóstico oriental, pressionamos o
centro da mão (que deve estar flexível e tonificada) e, se estiver dura,
significa que a energia não flui no corpo, que os órgãos centrais estão muito
tensos (o pâncreas tenso, o fígado em colapso, os rins estagnados) e, como a
energia não flui, os pés e as mãos estão frios.
É importante não saltar
refeições para manter o açúcar estável, caso contrário, vamos sentir desejos
por açúcar simples. Porque tudo o que tensiona ou pressiona o pâncreas gera
dependência em si mesmo e dependência por açúcares simples. O pâncreas fica
tenso negativamente com os alimentos mencionados acima e por um estilo de vida
frenético, conduzir rápido, levar tudo ao limite, fazer muitas coisas ao mesmo
tempo, chegar aos compromissos apressando-se até ao último momento. Estas atitudes criam hipoglicemia,
irritabilidade e, por sua vez, criam
adição, adição quer dizer «agora».
Para sair destes vícios
prejudiciais, recomenda-se:
1. Caminhar todos os dias na natureza, parques,
montanha ou praia durante 20 minutos. 20 é um número chave, representa o ciclo
KI, uma hora tem três ciclos KI.
2. Dedicar 20 minutos a cada refeição bem
mastigada.
3. Comer de forma equilibrada. Equilíbrio na
macrobiótica não significa 50-50, significa 1/7, 1 parte yang x 7 partes yin.
O corpo precisa, para o seu funcionamento, de minerais, proteínas, hidratos de carbono, água e oxigénio.
Por uma parte de minerais,
precisamos de 7 partes de proteína; por uma parte de proteínas, precisamos de 7
partes de hidratos de carbono; por uma parte de hidratos de carbono, precisamos
de 7 partes de água; por uma parte de água, precisamos de 7 partes de oxigénio;
yang é mineral, yin é oxigénio.
Os minerais completos vêem do
sal marinho orgânico não refinado, do miso, das algas marinhas, do tamari, das
ameixas umeboshi, dos pickles, de forma que, na hora de preparar uma refeição,
o mais importante é saber como usamos os minerais, porque o desconhecimento
desse princípio é o que mais destrói a saúde. Devemos usá-los com moderação e
sempre cozinhados. Se não soubermos como usá-los, destruímos o equilíbrio,
tensionamos os órgãos e temos desejos por açúcar ou derivados.
Na dieta moderna, são usados
minerais simples, como o sal comercial, que é mais duro e não tem minerais.
Quando comemos sal refinado, simples, isso nos leva a desejar proteína completa
(carnes). Quando comemos proteína completa, sentimo-nos atraídos por hidratos
de carbono simples, açúcar, arroz refinado, batatas.
Quando comemos açúcar simples,
sentimo-nos mais atraídos por líquidos, água e álcool. Quando bebemos mais,
respiramos mais rápido, superficialmente, e isso encurta a vida.
Quando comemos sal orgânico (sal grosso
integral), sentimo-nos atraídos por proteínas simples, leguminosas e derivados;
quando comemos proteínas simples, sentimo-nos mais atraídos por hidratos de
carbono complexos, cereais integrais em grão.
Poderíamos concluir que por detrás
de muitos desejos está a qualidade e a quantidade do sal. Comer alimentos
salgados leva-nos a desejar mais óleo e mais açúcar, e cria adições, inclusive
a adição às drogas e ao álcool provêm da pressão interna ou de alimentos
salgados, carnes e alimentos secos muito yang.
O sal é indispensável na nossa
dieta, mas deve ser orgânico e integral, para realçar o sabor natural dos
alimentos.

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