Thursday, March 5, 2026

 


OS DESEJOS NÃO SÃO SIMPLES CAPRICHOS, SÃO

MENSAGENS BIOLÓGICAS

Patrícia Restrepo

https://patriciarestrepo.org/alimentacion/los-antojos-no-son-simples-caprichos-son-mensajes-biologicos/

 

Quando decidimos mudar para uma alimentação respeitosa, ecológica, macrobiótica, vegana ou vegetariana, e eliminamos da nossa alimentação diária produtos químicos, alimentos cárneos, açucarados ou derivados de laticínios, todo o sistema psicofísico entra num processo de transformação e o conteúdo acumulado é descarregado do organismo por diferentes vias, uma das quais pode ser os desejos.

Não devemos sentir nenhuma culpa quando temos desejos intensos por alimentos do passado, alimentos inadequados ou prejudiciais, pois os desejos são reações essencialmente biológicas. Os desejos podem ser nossos melhores amigos, pois vêem para nos dizer que algo na nossa alimentação ou no nosso estilo de vida não está em equilíbrio. Se soubermos interpretá-los com um pequeno ajuste, criaremos harmonia e prazer.

Não importa o quão forte seja a nossa disciplina, rigor ou força de vontade com a dieta, a inteligência somática do corpo, quando estamos a entrar em desequilíbrio, dá-nos um sinal através de desejos viscerais para comer certos alimentos. É contraproducente não atendermos a esses desejos inesperados. Isso não significa que devemos dar-lhes rédea solta, mas devemos investigar o significado desses anseios. Há três perguntas-chave:

·     O que querem dizer esses desejos?

·     Que carência temos a nível bioquímico ou na nossa vida?

·     O que está em desequilíbrio, a alimentação ou a nossa vida emocional?

Por detrás dos desejos pode haver uma longa e prejudicial relação com a comida e, precisamente, atender conscientemente a esses aparentes caprichos dá-nos uma oportunidade clara para nos reconciliarmos com ela.

Quando fazemos a mudança para uma alimentação natural e, no passado, os hábitos alimentares não só eram caóticos, como também estavam ligados a antigos estados emocionais, padrões que estão profundamente estabelecidos no inconsciente, esses desejos refletem pistas importantes. Por exemplo, se em pequenos éramos recompensados com doces açucarados, crescemos encontrando satisfação imediata em bolos, gelados e chocolate açucarado. Se as festas eram celebradas com grandes quantidades de carne e laticínios, supervalorizamos as proteínas animais, pensando que nelas encontraremos a força e as tornamos sagradas. Portanto, não são apenas desejos biológicos, mas também desejos espirituais supersticiosos.

Há dois aspetos fundamentais nos desejos, o primeiro vamos chamá-lo de

«ajustamentos de transição» e o segundo «desejos derivados de hábitos caóticos».

Desejos no período de transição:

Transição não significa 25 anos, a transição ocorre nos primeiros anos da mudança alimentar, quando as pessoas deixam de comer queijos, laticínios, iogurtes, açúcares simples, gelados açucarados, alimentos refinados, pastelaria, chocolates, frutas tropicais, enchidos, presunto, carnes, aves, ovos. E quando se começa a comer uma dieta equilibrada e natural, esses alimentos automaticamente vêem à tona.

Para poder eliminá-los, o corpo utiliza diferentes formas, às vezes com erupções cutâneas, mau humor, nas mulheres corrimento vaginal, fezes, às vezes com sonhos, até sonhamos com alimentos do passado. Cheiramos alimentos do passado e, nesses momentos, a inteligência do corpo fica muito grata por se livrar desses tóxicos que estiveram lá por anos, mas dependendo da natureza (consistência yang ou yin) do que acumulamos no corpo no passado, esses alimentos serão eliminados durante mais ou menos tempo, é importante para acelerar o processo de eliminação incorporar a atividade física.

Mas enquanto estamos a eliminar esses alimentos que vêem à superfície, eles estão muito presentes e uma parte do nosso corpo tem um forte desejo de consumi-los novamente, a «síndrome de abstinência» ou o que coloquialmente se chama «mono». Todo alimento que cria dependência e se acumula desordenadamente no corpo gera mono (desejo intenso).

Mas para eliminar de forma inteligente essas substâncias desequilibradoras, além da atividade física, é crucial entender o que cada uma significa, para dar um substituto que satisfaça e não prejudique ou perpetue a disfunção. Portanto, se uma pessoa em transição desejar comer carne ou alimentos à base de carne, vamos sugerir que coma proteína vegetal consistente, como tempeh refogado, seitan frito na frigideira ou assado, tofu frito, leguminosas como feijão pinto, soja preta ou azukis (os azukis têm menos gorduras do que os restantes legumes, e se o desejo por carne for muito forte, escolha outro legume com mais gordura).

Se a transição for feita diretamente de uma alimentação à base de carne para uma vegana, temos de aumentar o tempeh, o tofu e o seitan cozinhados com óleo. Se o desejo surgir por laticínios, que é o mais comum, porque os laticínios são os alimentos que criam mais dependência e são difíceis de erradicar da dieta. Mas é muito importante deixá-los devido aos graves e, por vezes, irreversíveis danos à saúde, pois obstruem o sistema linfático, enfraquecem os intestinos, obstruem as vias respiratórias, obstruem os seios paranasais, gerando alergias, sinusite, contribuem para a formação de muitos tipos de cancro, especialmente o cancro da mama. É um dos fatores subjacentes, juntamente com a gordura animal, da doença celíaca. O corpo descarrega-os na forma de mucosidades.

Para satisfazer o desejo por laticínios, vamos centrar-nos novamente em proteínas como o tempeh e, especialmente, em frutos secos e sementes, purés de frutos secos como tahin (puré de sésamo), puré de amêndoas, puré de amendoim, que devem ser cozidos para serem melhor digeridos. Na verdade, os purés de sementes e frutos secos têm as qualidades dos queijos vegetais e, embora não sejam o centro de uma dieta equilibrada, são substâncias transitórias que contribuem para um equilíbrio futuro e, de certa forma, são um passo em frente em relação aos laticínios.

É típico, no início da mudança, que as pessoas comam puré de amendoim, ou tahin ou puré de amêndoas diretamente do pote, pois o corpo está a habituar-se a viver sem a caseína (proteína pegajosa e pesada dos laticínios), substituindo-a provisoriamente por estas novas gorduras.

Uma forma harmoniosa de compensar esta nova tendência do corpo é utilizar óleo na cozinha, porque o abuso destes purés de frutos secos pode levar a uma disfunção nas vias hepáticas.

O uso moderado de óleo na hora de cozinhar produz saciedade e satisfação orgânica.

Quando as pessoas deixam de consumir óleo por um longo período, correm o risco de comer demais porque instintivamente o corpo está à procura de gordura.

«Encontrar o ponto certo de óleo para cozinhar gera grande satisfação».

É claro que quando uma pessoa está a recuperar de uma disfunção importante através de uma dieta terapêutica, é fundamental seguir as instruções de um consultor em nutrição e, muitas vezes, o óleo é suprimido por um curto período de tempo. As bebidas vegetais, chamadas «leites», ajudam a desabituar-se emocionalmente dos laticínios (mas temos de dar-lhes o lugar que lhes corresponde), são líquidos brancos, que podem enriquecer a cozinha na hora de preparar sobremesas ou molhos.

Se os desejos viscerais são por alimentos açucarados, então vamos concentrar-nos em alimentos com um sabor que intensifique o doce. Os adoçantes são sempre reduções de outros alimentos, mas aqui vamos escolher aqueles que provêm de cereais integrais, polissacarídeos, como geleias/maltes de cereais que, no seu processo de redução, não perderam as vitaminas e conservam enzimas e parte dos nutrientes originais.

Como, por exemplo, geleia de arroz, cevada, quinoa, milho (com este último é importante fazer a diferença com o xarope de milho que vem camuflado em muitos dos bolos «naturais») são igualmente úteis na transição, alimentos cremosos doces, como pudins e cremes.

A transformação estável e duradoura para nos livrarmos dos açúcares simples é conseguida colocando mais ênfase nos vegetais doces (abóbora, repolho, cenoura, cebola, todos os tipos de couves, beterraba, etc.). Sei que quando fomos muito viciados em açúcar no passado, achamos os vegetais doces insípidos, mas quando as nossas papilas gustativas se limpam dessas substâncias viciantes, «deleitamo-nos e celebramos com o doce natural».

É importante compreender que muitas vezes esses desejos por doces ou chocolate também são o reflexo de uma vida com falta de doçura e afectividade. Esquecemo-nos «da carícia, do beijo, do abraço».

O outro aspeto fundamental dos desejos tem a ver com os nossos hábitos alimentares e estilo de vida. «Desejos derivados de hábitos caóticos». «Os nossos hábitos criam o nosso apetite».

É importante programarmos com antecedência o que vamos comer, como vamos comer e a que horas vamos comer.

O nosso sistema digestivo foi concebido para que comamos sentados, a hora da refeição é sagrada, comer conscientemente tem a ver com comer, mastigar e sentir o que comemos, as modernas refeições de negócios são, na realidade, uma forma de destruir o nosso sistema nervoso e o sistema digestivo. Nunca sabemos realmente qual é o nosso apetite se fazemos outra coisa enquanto comemos, como ler, ver televisão, estar em frente ao computador ou qualquer outro dispositivo eletrónico.

Comer regularmente, todos os dias à mesma hora, promove a saúde e a satisfação orgânica.

Como a nossa vida moderna é muito ativa, o planeamento tanto das compras

como da cozinha é indispensável. Se não nos programarmos, é possível que passemos muitas horas no trabalho e, quando sentirmos fome, acabemos por comer a primeira coisa que encontrarmos. Isso levar-nos-á diretamente à hipoglicemia e, no dia seguinte, começaremos a ter desejos pelo que comemos no dia anterior. Quando o açúcar baixa, cedemos ao desejo e isso torna-se o princípio do desequilíbrio que tem um final amargo e só encontra satisfação com açúcares simples.

Se não tivermos o açúcar estável, o nosso cérebro não funciona bem, perdemos o equilíbrio, ficamos irritáveis, com as mãos e os pés frios e o pâncreas, que é muito yang (pequeno, compacto), sofre!

O cérebro médio e o pâncreas são as partes mais compactas e yang do corpo, trabalham em conjunto, de modo que os alimentos mais yang afetam

esses órgãos porque geram pressão, assim todos os alimentos secos, salgados e compactos como ovos, frango, peru, avestruz, carnes, atum, assados, crocantes, bolachas, bolos de arroz, geram pressão e desequilibram o pâncreas, levando-nos a comer alimentos que relaxam, como gelados ou produtos açucarados, criando assim desejos por «cremosidade açucarada».

É necessário entender o mecanismo de contração-expansão (yin-yang) para compreender o porquê do desejo visceral por esses alimentos e, para aliviá-los, devemos primeiro suprimir a ingestão de alimentos extremamente secos e compactos e, temporariamente, consumir alimentos cremosos naturais, cremes de legumes e sobremesas cremosas naturais.

O desejo por alimentos duros e crocantes, por vegetais al dente, condimentados com molhos à base de sementes torradas. O crocante natural é uma textura que estimula o cérebro.

No diagnóstico oriental, pressionamos o centro da mão (que deve estar flexível e tonificada) e, se estiver dura, significa que a energia não flui no corpo, que os órgãos centrais estão muito tensos (o pâncreas tenso, o fígado em colapso, os rins estagnados) e, como a energia não flui, os pés e as mãos estão frios.

É importante não saltar refeições para manter o açúcar estável, caso contrário, vamos sentir desejos por açúcar simples. Porque tudo o que tensiona ou pressiona o pâncreas gera dependência em si mesmo e dependência por açúcares simples. O pâncreas fica tenso negativamente com os alimentos mencionados acima e por um estilo de vida frenético, conduzir rápido, levar tudo ao limite, fazer muitas coisas ao mesmo tempo, chegar aos compromissos apressando-se até ao último momento.  Estas atitudes criam hipoglicemia, irritabilidade e, por sua vez, criam

adição, adição quer dizer «agora».

Para sair destes vícios prejudiciais, recomenda-se:

1.  Caminhar todos os dias na natureza, parques, montanha ou praia durante 20 minutos. 20 é um número chave, representa o ciclo KI, uma hora tem três ciclos KI.

2.  Dedicar 20 minutos a cada refeição bem mastigada.

3.  Comer de forma equilibrada. Equilíbrio na macrobiótica não significa 50-50, significa 1/7, 1 parte yang x 7 partes yin.

O corpo precisa, para o seu funcionamento, de minerais, proteínas, hidratos de carbono, água e oxigénio.

Por uma parte de minerais, precisamos de 7 partes de proteína; por uma parte de proteínas, precisamos de 7 partes de hidratos de carbono; por uma parte de hidratos de carbono, precisamos de 7 partes de água; por uma parte de água, precisamos de 7 partes de oxigénio; yang é mineral, yin é oxigénio.

Os minerais completos vêem do sal marinho orgânico não refinado, do miso, das algas marinhas, do tamari, das ameixas umeboshi, dos pickles, de forma que, na hora de preparar uma refeição, o mais importante é saber como usamos os minerais, porque o desconhecimento desse princípio é o que mais destrói a saúde. Devemos usá-los com moderação e sempre cozinhados. Se não soubermos como usá-los, destruímos o equilíbrio, tensionamos os órgãos e temos desejos por açúcar ou derivados.

Na dieta moderna, são usados minerais simples, como o sal comercial, que é mais duro e não tem minerais. Quando comemos sal refinado, simples, isso nos leva a desejar proteína completa (carnes). Quando comemos proteína completa, sentimo-nos atraídos por hidratos de carbono simples, açúcar, arroz refinado, batatas.

Quando comemos açúcar simples, sentimo-nos mais atraídos por líquidos, água e álcool. Quando bebemos mais, respiramos mais rápido, superficialmente, e isso encurta a vida.

Quando comemos sal orgânico (sal grosso integral), sentimo-nos atraídos por proteínas simples, leguminosas e derivados; quando comemos proteínas simples, sentimo-nos mais atraídos por hidratos de carbono complexos, cereais integrais em grão.

Poderíamos concluir que por detrás de muitos desejos está a qualidade e a quantidade do sal. Comer alimentos salgados leva-nos a desejar mais óleo e mais açúcar, e cria adições, inclusive a adição às drogas e ao álcool provêm da pressão interna ou de alimentos salgados, carnes e alimentos secos muito yang.

O sal é indispensável na nossa dieta, mas deve ser orgânico e integral, para realçar o sabor natural dos alimentos.



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