Saturday, March 14, 2026

 


MEDITAÇÃO

Dr. Martín Macedo (IN: “Bono Meditación”).

Iª PARTE

PREFÁCIO

A IMPORTÂNCIA DA MEDITAÇÃO

PREFÁCIO

Há mais de 20 anos, juntei-me a um grupo de meditação zen-budista, liderado por um monge que era também mestre de Aikido e Tai Chi. Havia muito entusiasmo nesse grupo e todos os domingos à tarde havia cada vez mais pessoas. Deixei-me atrair por aquele grupo, como uma folha é atraída para o centro de um ciclone. Todos os domingos esperava ansiosamente por essa hora de energia intensa e bem-estar. E, como disse uma vez ao meu instrutor, tornei-me "viciado" em Zazen, ou seja, na prática da Meditação Zen. Sentávamo-nos em almofadas chamadas zafu e de frente para a parede. Éramos encorajados a manter uma postura elegante e correcta. Se a postura for correcta, a mente será correcta. Existe uma relação mente-corpo muito clara nos círculos onde se pratica a meditação, seja qual for o estilo. A partir desse momento compreendi que iria continuar a meditar para o resto da minha vida. E agora continuo a meditar e recomendo a sua prática. Tentarei partilhar com o leitor as conquistas maravilhosas desta prática. Comprometi-me a continuar esta prática e a encorajar outros a experimentarem os seus benefícios. Estes votos não foram feitos em nenhum templo ou grupo. É simplesmente uma decisão que tomei do meu coração, como uma contribuição para elevar o nível de consciência dos meus irmãos e irmãs humanos, que vivem juntos nestes tempos de grandes e profundas mudanças tecnológicas e espirituais.

A IMPORTÂNCIA DA MEDITAÇÃO

A meditação é vista na nossa cultura como algo “oriental”. É uma prática espiritual oriental e, por isso, não é importante para nós, porque temos a nossa própria tradição espiritual. Aqui temos uma forte influência do cristianismo e, em geral, os cristãos dão mais ênfase à oração e ao estudo das escrituras do que à meditação. Entre os círculos cristãos, quem pratica “meditação” não é visto com bons olhos”. É visto como alguém que é perigosamente atraído pelo “oriental”, como se o oriental fosse algo pecaminoso. Em alguns grupos cristãos contemplativos, a prática da meditação é uma coisa quotidiana. Com excepção dos contemplativos, em geral, nos círculos cristãos, tanto católicos como protestantes, a meditação é coisa rara.

Estou plenamente convencido de que a meditação deveria ser uma prática universal. É uma grande descoberta, feita por um oriental chamado Siddhartha Gautama. Este homem descobriu algo muito importante para o bem-estar e a qualidade de vida de toda a humanidade. Por isso, não deveria ser um benefício apenas para hindus ou chineses. Quando Newton descobriu como iluminar casas e cidades com a sua pequena lâmpada eléctrica, toda a humanidade abraçou esse progresso em direção a uma vida mais elevada. A iluminação ocidental foi acolhida com a mesma alegria tanto pelo Oriente como pelo Ocidente. Mas a iluminação oriental de Siddhartha Gautama, nem por isso. No Oriente amam esta prática, mas no Ocidente este tipo de “iluminação” espiritual ainda há resistência nos círculos religiosos tradicionais.

Na nossa mente há sempre uma atividade, um ruído, uma espécie de conversa, a que alguns chamam o EGO. Ego ou mente. Aqui vamos usá-los como sinónimos. O diálogo interior nunca pára, nem sequer quando dormimos. O nosso ego está sempre na defensiva, procurando vantagens, antecipando-se aos problemas e querendo controlar tudo (até usa apólices de seguro). O ego é o reino do medo, da preocupação e da especulação. O ego ou a mente está sempre à espreita, procurando ansiosamente por proteção. Esta atividade frenética da mente é incompatível com a verdadeira paz. Quando há paz, há silêncio interior. A única forma de encontrar o silêncio interior é a meditação. Siddhartha Gautama descobriu a fórmula. E nós temos para com ele uma imensa dívida de gratidão pela sua descoberta. A paz interior é tão necessária como o ar ou a água. A mente não pára nunca, nunca há silêncio, nunca há paz, o medo está sempre presente, querendo “proteger-nos”. Quando começamos a investigar o tema da meditação, apercebemo-nos de que a natureza humana tem dois aspectos. Um aspeto pessoal-individual, o ego que se debate entre o passado e o futuro. E um aspeto divino, que vive agora, que está presente agora. Que está em paz agora. E que tem todas as potencialidades infinitas, presentes, passadas e futuras, disponíveis para o praticante aceder. No entanto, para a maioria das pessoas é muito difícil estar no “agora”. O agora é um momento, um instante, muito pequeno e fugaz. Temos um grande passado, uma história e também um grande futuro com muitos projectos e possibilidades. A imensa maioria das pessoas está “mentalmente” no passado e no futuro, porque é mais fácil estar em esferas muito maiores e também por estar emocionalmente envolvidas com experiências passadas ou sonhos grandiosos do futuro. No entanto, o nosso verdadeiro poder só vive no presente. O nosso gigante adormecido só desperta e mostra a sua imensa força nesse lugar fugaz, efémero e esquivo chamado “agora”. Podemos viajar ao passado e ao futuro quantas vezes quisermos, mas sempre a partir do presente. Agora estou a fazer planos para o futuro. Agora estou a avaliar estas acções que realizei há 10 anos. Mas, em geral, há uma fuga do presente e a maioria das pessoas está a revolver os escombros do passado, recordando as suas dores, ofensas, abusos, maus tratos e situações trágicas. Ninguém escapa a isso. Todos têm de carregar a sua “cruz”. Mas se olharmos para trás e nos detivermos na contemplação, isso que contemplamos, isso que vemos, torna-se cada vez mais poderoso. E habituamo-nos a viver de recordações e parece-nos que a vida de antes era “melhor”. E é uma ilusão, porque não existe vida “antes”. Há vida “agora” e só “agora”. Quem vive de recordações não vive. Está a desperdiçar a sua vida, contemplando ilusões, quimeras. A meditação ajuda-nos a escapar a este “vício” da mente. Não existe método mais eficaz. Por isso amo a meditação. Ninguém inventou nada que a iguale ou supere. Como temos de agradecer ao ser humano que trabalhou durante nove anos, dia e noite, para descobrir esta técnica.

Também há pessoas que vivem no “futuro”. Estão numa reunião em família, a saborear um delicioso almoço e falam de como vai ser a próxima refeição, do que vão levar, porque se trata de algo que vai ser fabuloso. E não saboreiam o que têm entre os dentes. Estão a imaginar as refeições que vão comer daqui a duas semanas. E vivem imaginando e vivendo num futuro enquanto a vida está a acontecendo agora. São hábitos mentais. O ego gosta de estar nesses âmbitos. O ego não quer que estejamos conectados com o agora. Porque durante essa conexão, o ego é reduzido a nada..... e o ego abomina o “nada”.

O ego cria a ilusão da separação. Toda a vida está conectada. Toda a vida é sagrada e todas as formas de vida fazem parte dessa “teia” sagrada. Mas o ego só consegue ver separação. Aqui estou eu e ali estás tu. Aqui estou eu e ali estão as montanhas. Contemplando a sua pequenez, o ego procura segurança e proteção. Depois compete com outras formas para se antecipar aos problemas que possam surgir. As relações com outras formas de vida são contaminadas por esta ilusão de separação. Divisão, separação, luta de interesses, conflitos, amor e ódio, serve-me ou não me serve, amigos ou inimigos. Então o ego está sempre na defensiva, procurando vantagens e privilégios. E gosta de se sentir superior. Mas esta aparente segurança, no fundo, está a mascarar um profundo medo e sentimento de insignificância. Superar a ilusão da separação e despertar para a conecção infinita da vida é o trabalho que o estudante do caminho espiritual deve realizar. Essa consciência plena requer uma preparação que pode levar uma vida ou várias vidas. E a meditação é uma ferramenta essencial para alcançar esse imenso objetivo.





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