Sunday, March 15, 2026

 


MEDITAÇÃO

Dr. Martín Macedo (IN: “Bono Meditación”)

IIª PARTE

TOMAR CONSCIÊNCIA DA DIMENSÃO ESPIRITUAL

MEDITAÇÃO E SAÚDE

TOMAR CONSCIÊNCIA DA DIMENSÃO ESPIRITUAL

Para alcançar uma saúde verdadeiramente forte, é necessário vencer a fraqueza do medo crónico. O medo é o grande destruidor. O medo é uma emoção que maltrata duramente todas as células, todos os tecidos e todos os órgãos. Compreender os efeitos destrutivos do medo deveria ser uma prioridade para todos os estudantes de medicina, quer se trate de medicina clássica ou de medicinas alternativas. Para curar profundamente, é necessário ultrapassar ou pelo menos controlar o medo.

Foi por isso que me interessei pelo tema da meditação. Porque é uma ferramenta poderosa para conseguir ultrapassar muitos medos. Para ajudar verdadeiramente os doentes, há que levá-los a um lugar onde não haja mais medo. Esse lugar é chamado de fé avassaladora. Se há medo, não há fé. Se há fé, não há medo. Não podem coexistir, ainda que possam alternar-se ao longo do dia. Mas qual dos dois é a emoção dominante? Yin e Yang coexistem sempre. Mas há sempre uma das "forças" que é maioritária, principal, dominante, protagonista. O medo é yin e a fé avassaladora é yang. Tratar qualquer doença sem tratar o medo é apenas meio tratamento. Curar significa levar o indivíduo a um novo nível funcional, vital e emocional. Se ficarmos no somático, nos tecidos, na remoção de varizes ou na remoção de pedras da vesícula biliar ou na extirpação de um útero, não estamos a prestar um verdadeiro serviço médico. A verdadeira mestria consiste em devolver a confiança, a certeza e a vontade de viver ao doente. E isso é muito difícil de conseguir, mas sempre foi o ideal supremo dos grandes médicos como o Dr. Shinya, Paracelso e Hipócrates.

Se o médico tiver uma conceção "mecanicista" do corpo do seu paciente, não poderá ajudá-lo nesse sentido. Mas a maioria dos médicos alopatas tem essa formação médica. A ciência distanciou as pessoas de Deus, da contemplação da dimensão espiritual do ser humano e da vida. E é por isso que, como dizem muitos especialistas, a ciência chegou a um beco sem saída. Estamos, portanto, numa época em que as coisas estão felizmente a mudar. Muitos cientistas e investigadores de renome estão a aperceber-se de que a ciência e a espiritualidade não só podem andar juntas, como DEVEM ANDAR JUNTAS, para que a ciência seja verdadeira ciência e a espiritualidade seja verdadeira espiritualidade. Então a "ciência" deixará de ser uma arma, um pretexto para enriquecer uns poucos à custa da ignorância e do medo de muitos. A ciência deixará de ser um recurso de poder nas mãos de um punhado de pessoas sem escrúpulos e passará a ser uma poderosa ferramenta ao serviço da felicidade colectiva. Mas os egos dos cientistas ainda estão controlados pela ilusão da separação. A maior parte dos médicos formados nas mais prestigiadas escolas de medicina recebem esta formação mecanicista, reduzindo o grandioso ser humano a uma estrutura biológica de 70 kg, composta por sangue, fluidos, músculos, ossos e tecidos "vivos". E isso é considerado muito "científico" porque é baseado em evidências. Em evidências que só veem e podem ver a informação dada pelos órgãos dos sentidos. E os sentidos dão-nos informações úteis para funcionarmos no mundo físico, material e tridimensional. As evidências "científicas" provêm de evidências sensoriais (ver, tocar, cheirar, ouvir) e das elucubrações lógicas baseadas nessa informação. Trata-se de um grande avanço, que permitiu à civilização sair do obscurantismo da Idade Média, quando as doenças eram causadas por possessões diabólicas e/ou desígnios celestes. Graças à ciência e ao seu rigor baseado em evidências, pudemos, enquanto humanidade, dar um grande salto em direção à verdade e à felicidade humana. Mas agora esse avanço requer outro avanço ainda maior. E, felizmente, a maré das mudanças está a levar ao aparecimento de concepções científicas, como é o caso da física quântica. Os cientistas mais rigorosos, mais baseados em evidências, estão a "provar" que a matéria é energia. E que o universo é energia. Mas trata-se de uma forma muito peculiar de energia. Energia com informação. Energia inteligente. Energia com um sentido de propósito. Assim, a inevitável reconciliação entre a ciência e a espiritualidade está a acontecer gradualmente.

Ainda assim, a maioria dos professores, especialistas e sábios agarram-se ao velho paradigma mecanicista. O homem não é apenas um corpo que pensa e experimenta emoções. O ser humano é um ser espiritual, que tem uma experiência neste mundo tridimensional. Habita um corpo, permanece num corpo e fá-lo durante algum tempo. Não pode nem deve aspirar à imortalidade do corpo, porque tudo o que começa tem um fim. Todos nós nascemos, todos nós morremos. Querer viver para sempre neste corpo físico, querer ter sempre um corpo jovem como o de alguém que tem 21 anos e continuar assim, sem alterações, é como querer que o Verão dure eternamente e que o Outono nunca chegue. Essa utopia é como querer que as coisas não mudem, que durem para sempre. E a vida é mudança. Isso é a única coisa que não muda. E essa é a nossa hipótese de sermos imortais. Compreender que estamos eternamente a mudar e que estamos eternamente a experimentar diferentes vivências e experiências vitais. O nosso corpo é um templo vivo. Abriga a nossa alma. A nossa alma deve cumprir a sua missão sagrada neste tempo e neste planeta, tomando posse de um corpo que tem de honrar, agradecer e amar enquanto viver a experiência da vida. Aqui há um salto abismal na conceção do que é o corpo. A visão da ciência antiga vê o corpo como "a pessoa". A nova visão vê o corpo como um instrumento que a "pessoa" está usando. Eu não sou o meu corpo, eu estou no meu corpo. E se o maltrato, o estrago, o sujo e o poluo, não posso nem devo responsabilizar uma bactéria ou um "inimigo" natural ou artificial. Compreender a dimensão espiritual, tanto por parte do médico como por parte do doente, é essencial para transcender o medo, a limitação, o peso, o pessimismo da "incurabilidade" e a propensão para estabelecer "prognósticos". “Vais viver no máximo dois anos" ou "Vais recuperar totalmente" ou "Não vais mais conseguir andar". O ego gosta de se sentir importante e admirado; o ego gosta de se sentir poderoso e de exercer influência sobre os outros seres. O ego adora dominar e reinar. Mas enquanto o ego for a forma habitual de nos vermos a nós próprios e aos outros, continuaremos a ser escravos do medo. Porque o ego e o medo são inseparáveis. A única maneira de transcender o medo é transcender o ego. E para isso é essencial mudar para outro paradigma onde a ciência e a espiritualidade trabalhem juntas, como pai e mãe, hemisfério esquerdo e direito, como oriente e ocidente, como o norte e o sul. Como o irmão mais velho e o irmão mais novo. Com esta conceção mais elevada, onde a dimensão espiritual tem um protagonismo tão importante como a conceção "científica" baseada em evidências, é possível superar o medo e dar ao paciente uma verdadeira ajuda, que lhe permitirá uma ajuda real, que lhe permitirá aproximar-se do sonho do gozo de uma verdadeira saúde holística, com felicidade para o corpo, para a mente e para a alma. E para isso meditar é essencial. Para isso acredito que a meditação é um tesouro, ainda mal compreendido. E como é uma pérola, seria injusto se fosse apenas desfrutada pelos orientais e por um punhado de ocidentais. Mediar é um direito para todos. Para todos aqueles que desejam alcançar uma saúde brilhante.

Alguém disse: "precisamos de médicos sem medo". É o mesmo que dizer: "precisamos de médicos com uma conceção espiritual do ser humano e da vida". Sem o toque da espiritualidade, o medo continuará a existir, porque o medo é o resultado de uma ilusão. Uma ilusão que se alimenta todos os dias na maior parte das escolas de medicina e noutros locais onde o ensino das diferentes disciplinas científicas são ensinadas com base no rigor das provas.

 

MEDITAÇÃO E SAÚDE

Para se conseguir uma saúde integral, acredito firmemente que meditar é essencial. Todas as células são extremamente sensíveis aos pensamentos, emoções e sentimentos. O que acontece numa parte do corpo afecta todo o corpo. Não podemos separar a saúde orgânica da saúde emocional ou da saúde espiritual. A saúde é um todo interligado. A vida é uma só e a vida implica simultaneamente o mental, o físico, o fisiológico, o bioquímico, o emocional, o afetivo e a consciência. Meditar tem uma grande vantagem sobre outras técnicas "mentais". Conecta-nos com o agora. Só no agora, na total e profunda imersão no momento presente, pode fluir toda a força vital no máximo do seu esplendor. Por outras palavras, que a função fisiológica mais poderosa, óptima e magistral ocorre sempre num lugar temporal chamado presente. Por isso, se chama da “presença” como de algo sagrado ou sobrenatural. Quando somos crianças pequenas, estamos num estado de presença natural e espontâneo. Mas à medida que crescemos, amadurecemos, tomamos consciência do nosso eu (ego), a nossa atividade mental muda e começamos a sentir a necessidade de nos protegermos e de anteciparmos as futuras calamidades. Por isso, torna-se cada vez mais difícil viver nesse estado de presença onde há paz, confiança plena e alegria constante. Por outro lado, os hábitos tóxicos da vida adulta vão esgotando energia ao soma e isso também contribui para tornar mais difícil viver num estado de presença, de paz, de bem-estar, onde não existe cansaço. Se estivermos realmente "conectados", "ligados", estamos numa espécie de euforia alegre onde não há cansaço. O cansaço é doença, ausência de presente. O mestre Kikuchi sempre defendeu magistralmente que a doença é a ausência do presente. Os bebés e as crianças pequenas vivem num estado de presença, paz e felicidade. Isto deve-se em parte à ausência de ego e em parte porque estão saudáveis, limpos, sem contaminação. O adulto toma consciência do seu eu, surge o ego, o medo, a especulação e, por outro lado, ao adotar uma vida de "adulto", começa a alimentar-se como um adulto e a fazer coisas de adulto como fumar e beber. Então cansa-se e sustentar o estado de presença torna-se algo penoso e difícil. Quando as pessoas começam a alimentar-se saudavelmente e tomam consciência do papel vital dos cereais integrais na sua dieta, descobrem que entrar nesse estado de presença é muito mais fácil. Ou seja, "que se tornam crianças pequenas" que não têm dificuldade em entrar no "Reino dos Céus". Por isso meditar seriamente sem mudar a forma de comer típica do ocidente é um esforço que rende pouco. Mas, felizmente a maioria dos meditadores tende intuitivamente para o vegetarianismo e para uma alimentação saudável. Porque se pode ser vegetariano ou vegan e ter uma dieta péssima (lixo vegetariano). Há opções para todos os gostos. Em geral, a prática da meditação empurra-nos para uma dieta saudável e praticar uma dieta saudável empurra-nos para a meditação. Uma potencia a outra. O ego é fonte de medo, ansiedade, culpa e especulação. Os complexos de inferioridade e de superioridade provêm do ego. O considerarmo-nos "pecadores" e contaminados por falhas do passado ou de vidas anteriores, vem do ego. A baixa autoestima vem do ego. Assim como a autorrejeição. Todas estas emoções ou formas de sentir prejudicam as funções fisiológicas. Existem estudos exaustivos sobre o modo como a tristeza e o desânimo deprimem a potência imunitária e como a experiência do amor ou do namoro eleva ao mais alto nível as funções de autodefesa- imunológica. Também é conhecido e estudado como o stress, as preocupações e as obsessões estão ligados à gastrite, úlceras e problemas de pele como a psoríase. Muitos médicos ortodoxos falam de pressão "nervosa". Por vezes, trata-se de uma forma elegante de se esquivarem quando o doente pergunta o porquê da hipertensão. "É a tensão nervosa”. É uma forma subtil de quebrar o galho. E o doente fica muitas vezes satisfeito com esta explicação, que não o incomoda muito porque o liberta da responsabilidade de ter criado a sua doença. E então pode continuar com o seu estilo de vida e comer carne e beber vinho e fazer o que gosta. Mas terá de fazer algumas mudanças superficiais, como comer com pouco sódio e tomar medicação para a tensão arterial. Embora a explicação de uma origem nervosa ser uma fachada para encobrir o desconhecimento das causas profundas, há nela uma grande dose de verdade. As emoções podem fazer subir ou baixar a tensão arterial, podem aumentar ou diminuir o ritmo cardíaco, aumentar ou diminuir o ritmo respiratório e podem inclusivamente bloquear temporariamente a capacidade para engravidar. A única cura é a paz. A paz é saúde. Mas para alcançar a paz, há que transcender o ego. O ego não é necessariamente uma coisa negativa, tem o seu papel no jogo da vida. Mas, por vezes, há excesso de ego, demasiado protagonismo, e esquecemo-nos de que não somos apenas aquilo que cremos que somos. O ego cuida do nosso corpo e esforça-se para o proteger e que não lhe falte roupa, comida, afeto, emprego e segurança social. Mas a vida não se resume a atender às necessidades físicas ou emocionais. Também temos necessidades espirituais. As que dão significado à nossa vida. Quando meditamos, entramos num estado de presença, cada vez mais profundo à medida que ganhamos experiência com a meditação. Os grandes mestres da meditação mostram um estado de clareza e conexão magistrais. Por alguma coisa são chamados mestres. E diz-se que são "iluminados". A iluminação é um estado de ligação superlativo com as forças vitais do Universo. Máximo bem-estar, máxima paz, máxima funcionalidade e máxima saúde. É a felicidade que todos ansiamos. Somos "iluminados" quando somos bebés e crianças pequenas até aos 6 ou 7 anos de idade. Durante esse período somos felizes e gozamos de funções fisiológicas quase perfeitas. Mas isso é algo espontâneo, natural e normal. Sem mérito. É apenas uma dádiva. Um corpo novo, formoso, puro, limpo, acabado de sair da fábrica. E que tem o potencial para funcionar durante 90 ou 100 anos. Uma maravilha. Mas para nós, o caminho é o de recuperar o estado de conexão. E a meditação é a disciplina que nos levará a transcender o medo, a culpa, a ansiedade e a ausência do presente. Quando nos treinamos na prática da meditação, gostamos cada vez mais dela e cada dia é uma alegria praticar esta disciplina. Chegamos a amar a meditação e a tratar de convidar os outros para beneficiarem desta prática maravilhosa. Ao estarmos no estado de Presença, o ego é reduzido à sua mínima expressão, quase se desvanece. Neste estado de presença conectamo-nos com o nosso aspeto "divino", onde só há presente, vida, abundância, confiança infinita e amor infinitos. Esse é o estado que produz a saúde suprema, porque cada célula recebe esse fluxo de energia pura da mais alta qualidade. E para conseguir mais facilmente essa conexão e mantê-la espontaneamente, é de grande ajuda, uma alimentação saudável e pobre em produtos de origem animal. Estas são as minhas conclusões após mais de 20 anos de meditação diária. Convido todos os meus pacientes e conhecidos a experimentarem a meditação. Os benefícios são imediatos e, à medida que avançamos no caminho para a mestria, mais aumentam a força interior, a coragem, a vontade, o amor e o desejo de servir desinteressadamente. Compreendemos "visceralmente" que somos um e que amar os outros é amar uma parte de nós próprios. E que fazer mal ao outro é fazer mal a uma parte de nós. Então, vive-se com uma perceção diferente, com outra paz e uma alegria diferente. Mas há que praticar e encontrar uma técnica que se adapte à nossa personalidade e carácter.





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