MEDITAÇÃO
Dr.
Martín Macedo (IN: “Bono Meditación”)
IIIª PARTE
A TÉCNICA PARA MEDITAR
COMPROMISSO COM A PRÁTICA
A TÉCNICA PARA MEDITAR
Muito mais importante do que a técnica de
meditação ou a postura ou o estilo ou a escola é a vontade de meditar. A
compreensão da sua importância uma vez que tomamos consciência dela, a
determinação de a fazer todos os dias da nossa vida sem falhar um único dia. É
claro que, por vezes, não conseguiremos cumprir o tempo estipulado, porque a
vida quotidiana tem os seus imprevistos, os seus altos e baixos. Mas se
estivermos verdadeiramente determinados a meditar para o resto da nossa vida,
aconteça o que acontecer, mesmo com esses imprevistos, criaremos o forte hábito
de meditar todos os dias ou 99% dos dias.
O importante é compreender a sua vital importância
e a magnitude dos benefícios que trará para a nossa vida pessoal e para a nossa
saúde. Quando o compreendermos verdadeiramente, quando compreendermos que é uma
ferramenta muito poderosa para ultrapassar todos os medos que nos destroem
emocionalmente, surge a VONTADE DE MEDITAR O RESTO DOS NOSSOS DIAS. E assim faremos
o juramento de nos convertermos em meditadores vitalícios. Neste estado de
determinação, não há lugar para desculpas. Agora somos meditadores e vamos
fazê-lo para o resto das nossas vidas e, aconteça o que acontecer, continuaremos
esta prática até ao fim dos nossos dias. Tendo essa vontade, podemos
experimentar diferentes técnicas meditativas. Existem tantas quantos os mestres
e as escolas de meditação. É conveniente experimentar várias e a seguir decidir
qual delas se adapta melhor à nossa personalidade e carácter. Comecei em 1991,
praticando com um grupo numeroso que seguia a escola zen, e dentro do
zen, a escola do mestre Taisen Deshimaru, que pratica o estilo Soto
Zen. A outra escola importante é a Rinzai Zen. Existem algumas
diferenças. Mas em 1991, o Soto Zen teve uma explosão de seguidores em todo o
mundo ocidental, devido ao carisma e à atracção mágica do mestre Taisen Deshimaru
(ver vídeos no Youtube- https://www.youtube.com/playlist?list=PLCPdskGOz7KzWHszWTYiZTz1w5KsuHd-h. O mestre foi enviado a Paris pelos
superiores da escola Soto. Aí, Taisen concentrou-se no seu propósito de
difundir o zazen (a prática da meditação) e pôs-se a praticar, a estudar e a
viver de acordo com os ensinamentos tradicionais. E funcionou. Em pouco tempo,
tinha dezenas de estudantes franceses entusiastas e, pouco a pouco, começou a
ganhar simpatizantes em toda a Europa. E como tudo é quântico, o Universo conspirou
e ajudou poderosamente o mestre Deshimaru, gerando uma "explosão zen"
na década dos anos 1990. Foi um "boom Soto Zen". Esta poderosa
explosão também chegou à América Latina e começaram pequenos grupos, porém
muito empenhados, a praticar no Brasil, na Argentina, no Chile, no Uruguai e
outros países. Em 1991 a escola Soto estava no seu melhor momento. E em
Montevideu, funcionava um grupo dirigido por um mestre de aikido e psicólogo,
que tinha feito votos como monge zen. Tinha rapado a cabeça e usava um "kesha",
um hábito negro, típico dos monges que faziam os dois votos do Zen Soto. O voto
de meditar todos os dias da sua vida e o voto de contribuir para a difusão da
prática do zazen (a meditação propriamente dita). Aos domingos, às 19 horas,
começava a prática e durante a hora seguinte, toda a atenção dos participantes
se concentrava na meditação, no zazen. Soava um sino de madeira, tal como o
fazem no Japão, e todos entrávamos para meditar. Havia uma média de 50
praticantes todos os domingos, o que era um grande êxito para um grupo de
meditação. Mais do que um grupo de karaté ou de aikido, mais do que uma classe
de ginástica localizada. Um verdadeiro êxito "zen".
A meditação Zen dá uma importância
crucial à postura. Para aprender corretamente a postura, sugiro ao leitor que experimente
durante um mês ou dois a prática do zen, seja num grupo na sua própria cidade,
seja participando num retiro que é realizado regularmente em várias cidades das
Américas. Em Córdoba e em São Paulo existem templos zen, o que significa que aí
a atividade é particularmente intensa e que há regularmente retiros e jornadas
de treino. A postura no Soto Zen é sentado numa almofada com as pernas cruzadas
em posição de lótus ou meio-lótus. Os que não suportam a posição de meio-lótus,
simplesmente sentam-se no "zafu" (almofada) e cruzam as pernas da forma
que lhes for mais confortável. As costas direitas com uma ligeira inclinação da
bacia para a frente (ligeira lordose). O queixo ligeiramente inclinado para a
frente e a ponta da língua apoiada no céu da boca, atrás dos dentes incisivos
superiores. As mãos apoiam-se no colo, com a palma direita por baixo e a mão
esquerda por cima. Os polegares tocam-se levemente pelas pontas, sem forçar. A
sensação que se tem quando se atinge a postura é a de ser um arco que está
ligeiramente tenso para lançar uma flecha. Quando se treina, sente-se uma
agradável sensação de conseguir essa postura zazen, tão elegante e poderosa. Soa
um sino de bronze um par de vezes e reina o mais absoluto silêncio. Ouve-se o
som de crianças a brincar, pássaros a cantar, carros a passar. Esses ruídos
fazem parte da realidade do agora e não devem ser considerados como obstáculos
ou distracções. Aceitam-se simplesmente. Durante o zazen aceita-se tudo. Não há
luta. Aceitam-se os pensamentos que surgem, as dores que aparecem, as emoções
que surgem, e a temperatura da sala de meditação. E os cheiros. Tudo é aceite.
Aceitação é pacificação. Não há conflito. O que é simplesmente É. Não posso
lutar ou revoltar-me contra o que É, porque continuará a SER apesar da minha
irritação. Então levo a minha atenção
para a respiração. Abdominal,
profunda, expirando lentamente, muito lentamente. Inspira-se quando sentimos
que precisamos, brevemente e a seguir expiramos muito lentamente. E é assim que
se treina. Levando a atenção para a bonita e elegante postura e, por outro
lado, para a respiração. Postura e respiração. Não se luta contra os
pensamentos que surgem. Deixamo-los passar como as nuvens passam no céu. Um
pormenor importante. O praticante senta-se de frente para a parede e os olhos
não estão fechados, mas entreabertos. É um caminho de treino e experiência. Com
o tempo, acaba-se por amar apaixonadamente esta prática. As sensações que se
experimentam ao fim de 20 ou 30 minutos, ou mesmo ao fim de uma hora, são
indescritíveis e a única maneira de as sentir é fazendo a experiência. Ao fim
de 30 minutos, tocava um pequeno sino e quebrávamos a sólida postura e
levantávamo-nos. A meditação não acabou, é apenas um descanso para as pernas. É
o que se chama "kin in". Continuamos em silêncio, meditando,
mas de pé, caminhando muito lentamente até dar uma volta completa à sala de
meditação. Logo toca o sino novamente e voltamos ao nosso lugar frente à parede
e na posição. Ao zazen. Ao belo zazen. Ao glorioso zazen.
Durante a segunda meia hora de
prática, o instrutor lê em voz muito calma algumas passagens de histórias de
monges e mestres com um ensinamento subtil, que chega à mente durante a calma
da meditação. Assim, se entra num estado de presença. Aqui e agora eu estou
aqui, nesta postura, com esta respiração abdominal profunda. Sentindo e
aceitando o que estou a sentir. Tentando manter-me atento apenas à postura e à
respiração PRESENTE. Toda a atenção no presente. E uso o meu corpo, a minha
respiração, a minha postura física para contemplar o AGORA, o lugar onde estão
todos os potenciais. Todos, os actuais, os passados e os futuros. O agora
contém tudo, toda a dimensão da vida infinita, que está a pulsar agora.
Não tem outro momento para o fazer. No agora
tornamo-nos infinitos. Sem carências, sem medos, sem cálculos. Só a vida, a
beleza, só o SER. É difícil explicar isto em palavras. Zazen é uma experiência.
As palavras só nos aproximam de vislumbrar a majestosidade da prática do zazen.
Mas a seguir vamos para casa e meditamos sem companheiros, sem rituais, sem
instrutor. Fazemos o nosso próprio zazen. Personalizamo-lo. E está bem, porque,
mais cedo ou mais tarde, teremos de dar o salto para a mestria. E um mestre não
precisa de imitar outros praticantes. Confia na sua grande experiência e
partilha-a.
Há muitas outras formas de
meditação. E todas são válidas. Desde que a nossa intuição nos guie. Mas a
meditação sempre tem algumas características. A primeira é o silêncio. Não pode
ser guiada, nem por música, nem por cassetes, nem pela voz de um facilitador. Os
exercícios que são muito bons pelos seus efeitos salutares não podem chamar-se meditação.
São exercícios de visualização ou, quando muito, meditação guiada. Mas não
meditação.
A meditação é SILÊNCIO. A postura: as costas
direitas. Não se pode meditar deitado. Se estivermos deitados não é meditação.
Será relaxamento ou, no máximo, uma pseudo-meditação. Finalmente, a atenção. A
atenção centra-se numa só coisa. Ou na respiração ou num mantra ou num som ou
num som ou na contemplação de uma imagem religiosa, mas só numa coisa, a
atenção foca-se. Meditar é concentrar-se. Concentração é encontro com o poder,
com o poder da presença. Há quem medite contemplando uma vela. Isso também é válido.
A meditação da vela. Silêncio, sentar-se direito e focar a atenção numa só
coisa. E a mente começa a acalmar-se. E surge a paz. Com o tempo, os progressos
vão-se acrescentando e passados alguns anos, surge um poder mágico. Mas é algo
intransferível. Há que praticar e praticar. E perseverar. E comprometer-se
......
COMPROMISSO COM A PRÁTICA
Trata-se de uma palavra não
muito atraente. As pessoas não gostam de se comprometer. Consideram-no como uma
perda de liberdade. É compreensível. Mas é importante compreender que se não
nos comprometermos com algumas coisas na vida, não podemos avançar e crescer.
Se um estudante não se
comprometer com o seu processo de formação académica, nunca se formará. Compromisso
significa com uma promessa. A promessa de perseverar até atingir a meta, o
objetivo, o propósito. As pessoas jovens e com pouca experiência fogem dos
compromissos, são informais. Mas à medida que crescem e amadurecem, percebem
que sem compromisso não há forma de crescer e atingir um alto nível de
desenvolvimento em nenhuma área. Comprometemo-nos com um trabalho, com uma
família, com uma relação, com uma causa. Dessa forma, é possível ganhar
estabilidade e firmar-se. Com a prática da meditação acontece o mesmo. Se não
nos comprometermos a praticar diligentemente e a perseverar todos os dias
durante anos, durante uma vida inteira, nunca chegaremos a ser praticantes
avançados ou mestres.
O
mestre é um mestre porque se
comprometeu e cumpriu a sua promessa (com uma promessa). Apesar dos
inconvenientes, dos altos e baixos emocionais, das dificuldades económicas ou
familiares, faltas de saúde, o praticante empenhado continua e continua com uma
vontade férrea. E continua a
sua prática, com toda a sua determinação, com toda a sua paixão, com todo o seu
amor pela prática da meditação. Ele compreendeu que a meditação lhe dá a força
e a sabedoria para enfrentar melhor esses problemas, essas dificuldades que
outros poderão utilizar como desculpas para abandonar a prática. Dizem os
praticantes avançados de zazen que são necessários dez anos de prática
diligente e assídua para chegar a ser instrutor. É impossível praticar por 10
anos ininterruptos, contra todas as dificuldades, sem um forte compromisso.
Esse compromisso é basicamente para consigo próprio. Não tem necessariamente de
ser um acto formal, diante de professores ou de outras pessoas com assinaturas
de pergaminhos. É simplesmente a decisão de atingir um determinado nível de aprofundamento
na prática da meditação. Surge da constatação de que só aprofundando a sua
prática se acederá à paz poderosa, à saúde brilhante e à libertação do medo. Uma
vez que decidamos aceder a estes poderosos benefícios físicos, mentais e
espirituais, surge a vontade de nos comprometermos. Prometermos não desistir
até lá chegar. Custe o que custar. Ainda que tenhamos de morrer a tentar. Só os
corajosos fazem grandes promessas e têm a força interior para manter a sua
palavra. Como um alpinista que contempla o cume de uma grande montanha. Deseja
de todo o coração chegar ao topo e anuncia aos seus amigos que está determinado
a fazê-lo. Ele sabe que não será fácil, que haverá momentos de cansaço e de
medo. Mas está determinado. Está decidido. O seu desejo é mais forte do que os
obstáculos. A sua paixão é maior do que qualquer desculpa. Está comprometido
com o seu amor próprio, com os seus amigos, com o seu país, com a humanidade. O
empenho dar-lhe-á força. Vai levá-lo até lá. Não admite a possibilidade de
desistir. O compromisso dar-lhe-á a força necessária. Irá lá chegar. Não admite
sequer a possibilidade de se render. O compromisso é para valentes. E os valentes
são os que fizeram história. Grandes seres empenhados em realizar grandes
sonhos, grandes propósitos. E se quisermos alcançar um grande desenvolvimento
espiritual, teremos de escalar o nosso próprio Evereste. E se nos empenharmos
verdadeiramente, com todo o nosso ser, com toda a nossa alma, mesmo à custa da
própria vida, chegaremos lá. E conheceremos a glória. Aquela que é saboreada
por aqueles que são capazes de cumprir as suas promessas. Porque a humanidade está
à espera da melhor versão de nós próprios a que sejamos capazes de alcançar.
Essa é a nossa maior prenda. Essa é a maior felicidade. A felicidade dos
grandes seres. Generosos. E imortais. Como tu e eu.


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