Monday, March 16, 2026

 

MEDITAÇÃO

Dr. Martín Macedo (IN: “Bono Meditación”)

IIIª PARTE

A TÉCNICA PARA MEDITAR

COMPROMISSO COM A PRÁTICA

 

A TÉCNICA PARA MEDITAR

Muito mais importante do que a técnica de meditação ou a postura ou o estilo ou a escola é a vontade de meditar. A compreensão da sua importância uma vez que tomamos consciência dela, a determinação de a fazer todos os dias da nossa vida sem falhar um único dia. É claro que, por vezes, não conseguiremos cumprir o tempo estipulado, porque a vida quotidiana tem os seus imprevistos, os seus altos e baixos. Mas se estivermos verdadeiramente determinados a meditar para o resto da nossa vida, aconteça o que acontecer, mesmo com esses imprevistos, criaremos o forte hábito de meditar todos os dias ou 99% dos dias.

O importante é compreender a sua vital importância e a magnitude dos benefícios que trará para a nossa vida pessoal e para a nossa saúde. Quando o compreendermos verdadeiramente, quando compreendermos que é uma ferramenta muito poderosa para ultrapassar todos os medos que nos destroem emocionalmente, surge a VONTADE DE MEDITAR O RESTO DOS NOSSOS DIAS. E assim faremos o juramento de nos convertermos em meditadores vitalícios. Neste estado de determinação, não há lugar para desculpas. Agora somos meditadores e vamos fazê-lo para o resto das nossas vidas e, aconteça o que acontecer, continuaremos esta prática até ao fim dos nossos dias. Tendo essa vontade, podemos experimentar diferentes técnicas meditativas. Existem tantas quantos os mestres e as escolas de meditação. É conveniente experimentar várias e a seguir decidir qual delas se adapta melhor à nossa personalidade e carácter. Comecei em 1991, praticando com um grupo numeroso que seguia a escola zen, e dentro do zen, a escola do mestre Taisen Deshimaru, que pratica o estilo Soto Zen. A outra escola importante é a Rinzai Zen. Existem algumas diferenças. Mas em 1991, o Soto Zen teve uma explosão de seguidores em todo o mundo ocidental, devido ao carisma e à atracção mágica do mestre Taisen Deshimaru (ver vídeos no Youtube- https://www.youtube.com/playlist?list=PLCPdskGOz7KzWHszWTYiZTz1w5KsuHd-h. O mestre foi enviado a Paris pelos superiores da escola Soto. Aí, Taisen concentrou-se no seu propósito de difundir o zazen (a prática da meditação) e pôs-se a praticar, a estudar e a viver de acordo com os ensinamentos tradicionais. E funcionou. Em pouco tempo, tinha dezenas de estudantes franceses entusiastas e, pouco a pouco, começou a ganhar simpatizantes em toda a Europa. E como tudo é quântico, o Universo conspirou e ajudou poderosamente o mestre Deshimaru, gerando uma "explosão zen" na década dos anos 1990. Foi um "boom Soto Zen". Esta poderosa explosão também chegou à América Latina e começaram pequenos grupos, porém muito empenhados, a praticar no Brasil, na Argentina, no Chile, no Uruguai e outros países. Em 1991 a escola Soto estava no seu melhor momento. E em Montevideu, funcionava um grupo dirigido por um mestre de aikido e psicólogo, que tinha feito votos como monge zen. Tinha rapado a cabeça e usava um "kesha", um hábito negro, típico dos monges que faziam os dois votos do Zen Soto. O voto de meditar todos os dias da sua vida e o voto de contribuir para a difusão da prática do zazen (a meditação propriamente dita). Aos domingos, às 19 horas, começava a prática e durante a hora seguinte, toda a atenção dos participantes se concentrava na meditação, no zazen. Soava um sino de madeira, tal como o fazem no Japão, e todos entrávamos para meditar. Havia uma média de 50 praticantes todos os domingos, o que era um grande êxito para um grupo de meditação. Mais do que um grupo de karaté ou de aikido, mais do que uma classe de ginástica localizada. Um verdadeiro êxito "zen".

A meditação Zen dá uma importância crucial à postura. Para aprender corretamente a postura, sugiro ao leitor que experimente durante um mês ou dois a prática do zen, seja num grupo na sua própria cidade, seja participando num retiro que é realizado regularmente em várias cidades das Américas. Em Córdoba e em São Paulo existem templos zen, o que significa que aí a atividade é particularmente intensa e que há regularmente retiros e jornadas de treino. A postura no Soto Zen é sentado numa almofada com as pernas cruzadas em posição de lótus ou meio-lótus. Os que não suportam a posição de meio-lótus, simplesmente sentam-se no "zafu" (almofada) e cruzam as pernas da forma que lhes for mais confortável. As costas direitas com uma ligeira inclinação da bacia para a frente (ligeira lordose). O queixo ligeiramente inclinado para a frente e a ponta da língua apoiada no céu da boca, atrás dos dentes incisivos superiores. As mãos apoiam-se no colo, com a palma direita por baixo e a mão esquerda por cima. Os polegares tocam-se levemente pelas pontas, sem forçar. A sensação que se tem quando se atinge a postura é a de ser um arco que está ligeiramente tenso para lançar uma flecha. Quando se treina, sente-se uma agradável sensação de conseguir essa postura zazen, tão elegante e poderosa. Soa um sino de bronze um par de vezes e reina o mais absoluto silêncio. Ouve-se o som de crianças a brincar, pássaros a cantar, carros a passar. Esses ruídos fazem parte da realidade do agora e não devem ser considerados como obstáculos ou distracções. Aceitam-se simplesmente. Durante o zazen aceita-se tudo. Não há luta. Aceitam-se os pensamentos que surgem, as dores que aparecem, as emoções que surgem, e a temperatura da sala de meditação. E os cheiros. Tudo é aceite. Aceitação é pacificação. Não há conflito. O que é simplesmente É. Não posso lutar ou revoltar-me contra o que É, porque continuará a SER apesar da minha irritação. Então levo a minha atenção

para a respiração. Abdominal, profunda, expirando lentamente, muito lentamente. Inspira-se quando sentimos que precisamos, brevemente e a seguir expiramos muito lentamente. E é assim que se treina. Levando a atenção para a bonita e elegante postura e, por outro lado, para a respiração. Postura e respiração. Não se luta contra os pensamentos que surgem. Deixamo-los passar como as nuvens passam no céu. Um pormenor importante. O praticante senta-se de frente para a parede e os olhos não estão fechados, mas entreabertos. É um caminho de treino e experiência. Com o tempo, acaba-se por amar apaixonadamente esta prática. As sensações que se experimentam ao fim de 20 ou 30 minutos, ou mesmo ao fim de uma hora, são indescritíveis e a única maneira de as sentir é fazendo a experiência. Ao fim de 30 minutos, tocava um pequeno sino e quebrávamos a sólida postura e levantávamo-nos. A meditação não acabou, é apenas um descanso para as pernas. É o que se chama "kin in". Continuamos em silêncio, meditando, mas de pé, caminhando muito lentamente até dar uma volta completa à sala de meditação. Logo toca o sino novamente e voltamos ao nosso lugar frente à parede e na posição. Ao zazen. Ao belo zazen. Ao glorioso zazen.

Durante a segunda meia hora de prática, o instrutor lê em voz muito calma algumas passagens de histórias de monges e mestres com um ensinamento subtil, que chega à mente durante a calma da meditação. Assim, se entra num estado de presença. Aqui e agora eu estou aqui, nesta postura, com esta respiração abdominal profunda. Sentindo e aceitando o que estou a sentir. Tentando manter-me atento apenas à postura e à respiração PRESENTE. Toda a atenção no presente. E uso o meu corpo, a minha respiração, a minha postura física para contemplar o AGORA, o lugar onde estão todos os potenciais. Todos, os actuais, os passados e os futuros. O agora contém tudo, toda a dimensão da vida infinita, que está a pulsar agora.

Não tem outro momento para o fazer. No agora tornamo-nos infinitos. Sem carências, sem medos, sem cálculos. Só a vida, a beleza, só o SER. É difícil explicar isto em palavras. Zazen é uma experiência. As palavras só nos aproximam de vislumbrar a majestosidade da prática do zazen. Mas a seguir vamos para casa e meditamos sem companheiros, sem rituais, sem instrutor. Fazemos o nosso próprio zazen. Personalizamo-lo. E está bem, porque, mais cedo ou mais tarde, teremos de dar o salto para a mestria. E um mestre não precisa de imitar outros praticantes. Confia na sua grande experiência e partilha-a.

Há muitas outras formas de meditação. E todas são válidas. Desde que a nossa intuição nos guie. Mas a meditação sempre tem algumas características. A primeira é o silêncio. Não pode ser guiada, nem por música, nem por cassetes, nem pela voz de um facilitador. Os exercícios que são muito bons pelos seus efeitos salutares não podem chamar-se meditação. São exercícios de visualização ou, quando muito, meditação guiada. Mas não meditação.

A meditação é SILÊNCIO. A postura: as costas direitas. Não se pode meditar deitado. Se estivermos deitados não é meditação. Será relaxamento ou, no máximo, uma pseudo-meditação. Finalmente, a atenção. A atenção centra-se numa só coisa. Ou na respiração ou num mantra ou num som ou num som ou na contemplação de uma imagem religiosa, mas só numa coisa, a atenção foca-se. Meditar é concentrar-se. Concentração é encontro com o poder, com o poder da presença. Há quem medite contemplando uma vela. Isso também é válido. A meditação da vela. Silêncio, sentar-se direito e focar a atenção numa só coisa. E a mente começa a acalmar-se. E surge a paz. Com o tempo, os progressos vão-se acrescentando e passados alguns anos, surge um poder mágico. Mas é algo intransferível. Há que praticar e praticar. E perseverar. E comprometer-se ......

COMPROMISSO COM A PRÁTICA

Trata-se de uma palavra não muito atraente. As pessoas não gostam de se comprometer. Consideram-no como uma perda de liberdade. É compreensível. Mas é importante compreender que se não nos comprometermos com algumas coisas na vida, não podemos avançar e crescer.

Se um estudante não se comprometer com o seu processo de formação académica, nunca se formará. Compromisso significa com uma promessa. A promessa de perseverar até atingir a meta, o objetivo, o propósito. As pessoas jovens e com pouca experiência fogem dos compromissos, são informais. Mas à medida que crescem e amadurecem, percebem que sem compromisso não há forma de crescer e atingir um alto nível de desenvolvimento em nenhuma área. Comprometemo-nos com um trabalho, com uma família, com uma relação, com uma causa. Dessa forma, é possível ganhar estabilidade e firmar-se. Com a prática da meditação acontece o mesmo. Se não nos comprometermos a praticar diligentemente e a perseverar todos os dias durante anos, durante uma vida inteira, nunca chegaremos a ser praticantes avançados ou mestres.

O mestre é um mestre porque se comprometeu e cumpriu a sua promessa (com uma promessa). Apesar dos inconvenientes, dos altos e baixos emocionais, das dificuldades económicas ou familiares, faltas de saúde, o praticante empenhado continua e continua com uma vontade férrea. E continua a sua prática, com toda a sua determinação, com toda a sua paixão, com todo o seu amor pela prática da meditação. Ele compreendeu que a meditação lhe dá a força e a sabedoria para enfrentar melhor esses problemas, essas dificuldades que outros poderão utilizar como desculpas para abandonar a prática. Dizem os praticantes avançados de zazen que são necessários dez anos de prática diligente e assídua para chegar a ser instrutor. É impossível praticar por 10 anos ininterruptos, contra todas as dificuldades, sem um forte compromisso. Esse compromisso é basicamente para consigo próprio. Não tem necessariamente de ser um acto formal, diante de professores ou de outras pessoas com assinaturas de pergaminhos. É simplesmente a decisão de atingir um determinado nível de aprofundamento na prática da meditação. Surge da constatação de que só aprofundando a sua prática se acederá à paz poderosa, à saúde brilhante e à libertação do medo. Uma vez que decidamos aceder a estes poderosos benefícios físicos, mentais e espirituais, surge a vontade de nos comprometermos. Prometermos não desistir até lá chegar. Custe o que custar. Ainda que tenhamos de morrer a tentar. Só os corajosos fazem grandes promessas e têm a força interior para manter a sua palavra. Como um alpinista que contempla o cume de uma grande montanha. Deseja de todo o coração chegar ao topo e anuncia aos seus amigos que está determinado a fazê-lo. Ele sabe que não será fácil, que haverá momentos de cansaço e de medo. Mas está determinado. Está decidido. O seu desejo é mais forte do que os obstáculos. A sua paixão é maior do que qualquer desculpa. Está comprometido com o seu amor próprio, com os seus amigos, com o seu país, com a humanidade. O empenho dar-lhe-á força. Vai levá-lo até lá. Não admite a possibilidade de desistir. O compromisso dar-lhe-á a força necessária. Irá lá chegar. Não admite sequer a possibilidade de se render. O compromisso é para valentes. E os valentes são os que fizeram história. Grandes seres empenhados em realizar grandes sonhos, grandes propósitos. E se quisermos alcançar um grande desenvolvimento espiritual, teremos de escalar o nosso próprio Evereste. E se nos empenharmos verdadeiramente, com todo o nosso ser, com toda a nossa alma, mesmo à custa da própria vida, chegaremos lá. E conheceremos a glória. Aquela que é saboreada por aqueles que são capazes de cumprir as suas promessas. Porque a humanidade está à espera da melhor versão de nós próprios a que sejamos capazes de alcançar. Essa é a nossa maior prenda. Essa é a maior felicidade. A felicidade dos grandes seres. Generosos. E imortais. Como tu e eu.




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