Thursday, July 2, 2026

 


A REDENÇÃO PELA ARTE CULINÁRIA

Alan Watts

Resumo

Neste texto, Alan Watts reflete sobre a relação entre a vida, a morte e a alimentação. O autor explica que todos os seres vivos dependem da morte de outros para sobreviver, o que faz da existência um ciclo inevitável de sacrifício e transformação.

Watts questiona se este sistema é justo e se existe uma forma de escapar ao sofrimento que ele provoca. Considera que o vegetarianismo não resolve completamente o problema, pois também as plantas são seres vivos. Assim, conclui que viver implica sempre causar a morte de outros seres.

Perante esta realidade, o autor apresenta três princípios: aceitar a responsabilidade de matar para viver e fazê-lo com o mínimo de sofrimento possível; tratar os animais e as plantas destinados à alimentação com respeito e amor; e honrar os seres que morreram para nos alimentar, preparando e apreciando a comida da melhor forma possível.

Por fim, critica a agroindústria moderna por tratar os animais sem dignidade e defende que a verdadeira demonstração de respeito pela vida se manifesta na arte culinária. Para Watts, cozinhar bem e valorizar os alimentos é uma forma de homenagear os seres que tornaram possível a nossa sobrevivência.

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texto

 

Só a arte culinária nos redime do fardo de vivermos à custa de outras vidas.

O corpo biológico não é uma coisa fixa, mas um processo em permanente curso, como uma chama ou um redemoinho: apenas a forma é estável, porque a substância é um fluxo de energia que entra por uma extremidade e sai pela outra. Somos oscilações temporariamente identificáveis no seio de uma corrente de energia que entra em nós sob a forma de luz, calor, ar, água, leite, pão, fruta, cerveja, strogonoff, caviar ou foie gras. E sai de nós sob a forma de gases e excrementos, mas também de sémen, bebés, conversas, política, comércio, guerra, poesia, música... ou filosofia.

Um filósofo — título que suponho merecer — é uma espécie de intelectual ingénuo que se espanta com aquilo que as pessoas mais sensatas consideram normal; é alguém incapaz de deixar de se maravilhar com os factos mais banais da vida quotidiana. Como afirmava Aristóteles, o espanto é o princípio da filosofia. A mim fascina-me saber que vivo sobre uma enorme esfera rochosa que gira em torno de uma gigantesca bola de fogo. Fascina-me ainda mais o facto de eu próprio ser um labirinto, um intricado arabesco de tubos, filamentos, células, fibras e membranas que constituem diferentes espécies de pulsações imersas na pulsação maior: essa corrente incessante de energia.

Contudo, o que verdadeiramente me inquieta é que quase todas as substâncias que compõem esse labirinto, à excepção da água, foram outrora corpos vivos — corpos de animais e de plantas. E que, por falta de alternativa, tive de me apropriar deles através da morte. Não somos mais do que o rearranjo de outras criaturas, pois a existência biológica apenas se perpetua graças ao sacrifício mútuo e à digestão mútua entre as diversas espécies. Só existo enquanto membro desta comunidade de seres que florescem devorando-se uns aos outros.

É evidente que ser devorado é algo extremamente doloroso, e não desejo semelhante destino para mim. Só de o imaginar fico horrorizado. Se os responsáveis por um crematório não me apanharem primeiro, o facto de um dia vir a servir de alimento a micróbios e vermes compensará, de algum modo, as vacas, os cordeiros, as aves e os peixes de que me alimentei ao longo da vida? Pergunto-me então: não será este gigantesco sistema biológico de mutilação recíproca uma máquina insana e diabólica que caminha rapidamente para um beco sem saída?

Já vi plantas infestadas por pulgões: num dia encontram-se cobertas de pequenos corpos rechonchudos e viçosos; no dia seguinte, não passam de um pó acinzentado preso a caules secos. A vida parece um sistema que se devora até à morte, onde a vitória acaba por equivaler à derrota.

O ser humano pode facilmente seguir o exemplo do pulgão. Quando se torna especialista em tecnologia, revela-se mais predador do que a piranha ou o gafanhoto. Devasta, destrói e contamina toda a superfície do planeta: minerais, florestas, aves, peixes, insectos, água doce — tudo é transformado em subúrbios, esgotos, ferrugem e poluição. O domínio quase absoluto sobre os seus inimigos naturais, desde o tigre até às bactérias, permitiu-lhe multiplicar-se sem controlo sobre a Terra; e, receando a própria ganância, desperdiça fortunas na produção de armas cada vez mais destrutivas.

Muitos animais pré-históricos extinguiram-se devido ao desenvolvimento excessivo das suas defesas naturais. Desapareceram, por exemplo, o tigre-dentes-de-sabre e o titanotério: o primeiro porque as suas enormes presas se tornaram um obstáculo, o segundo devido ao peso insustentável dos seus chifres.

Pode alguém aceitar a morte da espécie da mesma forma que aceita a morte do indivíduo. A energia do universo adoptará novos padrões e novas formas, e o universo continuará a dançar ritmos até então desconhecidos. O espectáculo, naturalmente, prosseguirá. Mas por que razão há-de envolver tamanha agonia? Nervos e carne sensível a contorcerem-se sob o ataque implacável de dentes afiados — será esta a condição indispensável para a continuidade da vida? Se assim for, então o único problema filosoficamente sério, como dizia Camus, é saber se devemos ou não suicidar-nos.

Assim, o filósofo pergunta: para além do suicídio, haverá outra forma de escapar a este círculo vicioso de matança recíproca, que não deixa de ser uma espécie de suicídio cósmico? Existirá algum modo de evitar, atenuar ou suavizar este sistema de morte e sofrimento implícito até mesmo na existência do mais espiritual dos seres humanos?

O vegetarianismo não constitui uma solução. Há muito tempo, o botânico indiano Jagadish Chandra Bose conseguiu medir as reacções das plantas quando eram arrancadas ou cortadas. Pode argumentar-se que as plantas não têm consciência do seu sofrimento; mas será mais sensato reconhecer que simplesmente não conseguem expressar, de forma perceptível para nós, a dor que sentem.

Quando mencionei as investigações de Bose ao budista rigorosamente vegetariano Reginald H. Blyth, autor do clássico Zen in English Literature, respondeu-me: «Sim, eu sei. Mas os vegetais, quando os matamos, gritam muito baixinho.»

Por outras palavras, Blyth mostrava indulgência para com os seus próprios sentimentos. Monges hindus e budistas levam ao extremo o princípio da ahimsa, ou da não-violência, chegando ao ponto de caminhar sempre de olhos postos no chão — não, como poderíamos imaginar, para evitar a tentação provocada por uma bela mulher que passe; mas para não esmagarem inadvertidamente besouros, caracóis ou minhocas. Ainda assim, essa atitude não deixa de ser um subterfúgio, um gesto ritual de respeito pela vida que em nada altera o facto de vivermos graças à morte de outros seres.

Ao recorrer à minha própria consciência em busca de alguma luz sobre esta questão tão espinhosa, encontrei três respostas.

A primeira consiste em admitir que decidir viver implica decidir matar. E, se estou verdadeiramente disposto a matar, devo fazê-lo da forma mais eficiente possível. Pense-se na agonia de ser decapitado por um carrasco incompetente. A morte deve ser tão rápida quanto possível, e a mão que segura a espingarda ou maneja a faca deve manter-se firme.

A segunda consiste em reconhecer que toda a forma de vida destinada a servir de alimento deve ser tratada segundo o princípio: «Amo tanto esta manifestação da vida que a vou comer», o que também significa: «Como tanto esta manifestação da vida que a vou amar.»

Este princípio tem sido impiedosamente ignorado pela agro-indústria e pela indústria piscatória modernas. Basta pensar em dois exemplos: as actuais técnicas de caça à baleia ameaçam a espécie de extinção, e a criação intensiva de aves inunda o mercado com falsos frangos e falsos ovos. Confinados em gaiolas metálicas e alimentados com rações artificiais, esses infelizes animais nunca esgravatam a terra nem sentem o calor do Sol; por isso, a sua carne é insípida. Tudo aquilo que não proporciona prazer à mesa é sinal de que também não foi tratado com respeito nem na exploração agrícola nem na cozinha.

A terceira resposta foi formulada de forma brilhante por Lin Yutang:

«A galinha sacrificada e mal cozinhada morreu em vão.»

O mínimo que posso fazer por uma criatura que morreu para meu benefício é honrá-la — não através de um ritual vazio de significado, mas cozinhando-a na perfeição e saboreando-a plenamente.

O amor pelas plantas e pelos animais que tornam possível a nossa vida deve manifestar-se, acima de tudo, na cozinha.

 

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