A REDENÇÃO PELA ARTE CULINÁRIA
Alan Watts
Resumo
Neste texto, Alan Watts reflete sobre a relação
entre a vida, a morte e a alimentação. O autor explica que todos os seres vivos
dependem da morte de outros para sobreviver, o que faz da existência um ciclo
inevitável de sacrifício e transformação.
Watts questiona se este
sistema é justo e se existe uma forma de escapar ao sofrimento que ele provoca.
Considera que o vegetarianismo não resolve completamente o problema, pois
também as plantas são seres vivos. Assim, conclui que viver implica sempre causar
a morte de outros seres.
Perante esta realidade,
o autor apresenta três princípios: aceitar a responsabilidade de matar para
viver e fazê-lo com o mínimo de sofrimento possível; tratar os animais e as
plantas destinados à alimentação com respeito e amor; e honrar os seres que morreram
para nos alimentar, preparando e apreciando a comida da melhor forma possível.
Por fim, critica a agroindústria moderna por
tratar os animais sem dignidade e defende que a verdadeira demonstração de
respeito pela vida se manifesta na arte culinária. Para Watts, cozinhar bem e
valorizar os alimentos é uma forma de homenagear os seres que tornaram possível
a nossa sobrevivência.
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texto
Só a arte
culinária nos redime do fardo de vivermos à custa de outras vidas.
O corpo biológico não é uma coisa
fixa, mas um processo em permanente curso, como uma chama ou um redemoinho:
apenas a forma é estável, porque a substância é um fluxo de energia que entra
por uma extremidade e sai pela outra. Somos oscilações temporariamente
identificáveis no seio de uma corrente de energia que entra em nós sob a forma
de luz, calor, ar, água, leite, pão, fruta, cerveja, strogonoff, caviar ou foie
gras. E sai de nós sob a forma de gases e excrementos, mas também de sémen,
bebés, conversas, política, comércio, guerra, poesia, música... ou filosofia.
Um filósofo — título que suponho
merecer — é uma espécie de intelectual ingénuo que se espanta com aquilo que as
pessoas mais sensatas consideram normal; é alguém incapaz de deixar de se
maravilhar com os factos mais banais da vida quotidiana. Como afirmava
Aristóteles, o espanto é o princípio da filosofia. A mim fascina-me saber que
vivo sobre uma enorme esfera rochosa que gira em torno de uma gigantesca bola
de fogo. Fascina-me ainda mais o facto de eu próprio ser um labirinto, um
intricado arabesco de tubos, filamentos, células, fibras e membranas que
constituem diferentes espécies de pulsações imersas na pulsação maior: essa
corrente incessante de energia.
Contudo, o que
verdadeiramente me inquieta é que quase todas as substâncias que compõem esse
labirinto, à excepção da água, foram outrora corpos vivos — corpos de animais e
de plantas. E que, por falta de alternativa, tive de me apropriar deles através
da morte. Não somos mais do que o rearranjo de outras criaturas, pois a
existência biológica apenas se perpetua graças ao sacrifício mútuo e à digestão
mútua entre as diversas espécies. Só existo enquanto membro desta comunidade de
seres que florescem devorando-se uns aos outros.
É evidente que
ser devorado é algo extremamente doloroso, e não desejo semelhante destino para
mim. Só de o imaginar fico horrorizado. Se os responsáveis por um crematório
não me apanharem primeiro, o facto de um dia vir a servir de alimento a
micróbios e vermes compensará, de algum modo, as vacas, os cordeiros, as aves e
os peixes de que me alimentei ao longo da vida? Pergunto-me então: não será
este gigantesco sistema biológico de mutilação recíproca uma máquina insana e
diabólica que caminha rapidamente para um beco sem saída?
Já vi plantas
infestadas por pulgões: num dia encontram-se cobertas de pequenos corpos
rechonchudos e viçosos; no dia seguinte, não passam de um pó acinzentado preso
a caules secos. A vida parece um sistema que se devora até à morte, onde a
vitória acaba por equivaler à derrota.
O ser humano
pode facilmente seguir o exemplo do pulgão. Quando se torna especialista em
tecnologia, revela-se mais predador do que a piranha ou o gafanhoto. Devasta,
destrói e contamina toda a superfície do planeta: minerais, florestas, aves,
peixes, insectos, água doce — tudo é transformado em subúrbios, esgotos,
ferrugem e poluição. O domínio quase absoluto sobre os seus inimigos naturais,
desde o tigre até às bactérias, permitiu-lhe multiplicar-se sem controlo sobre
a Terra; e, receando a própria ganância, desperdiça fortunas na produção de
armas cada vez mais destrutivas.
Muitos animais
pré-históricos extinguiram-se devido ao desenvolvimento excessivo das suas
defesas naturais. Desapareceram, por exemplo, o tigre-dentes-de-sabre e o
titanotério: o primeiro porque as suas enormes presas se tornaram um obstáculo,
o segundo devido ao peso insustentável dos seus chifres.
Pode alguém aceitar a morte da
espécie da mesma forma que aceita a morte do indivíduo. A energia do universo
adoptará novos padrões e novas formas, e o universo continuará a dançar ritmos
até então desconhecidos. O espectáculo, naturalmente, prosseguirá. Mas por que
razão há-de envolver tamanha agonia? Nervos e carne sensível a contorcerem-se
sob o ataque implacável de dentes afiados — será esta a condição indispensável
para a continuidade da vida? Se assim for, então o único problema
filosoficamente sério, como dizia Camus, é saber se devemos ou não
suicidar-nos.
Assim, o filósofo pergunta: para
além do suicídio, haverá outra forma de escapar a este círculo vicioso de
matança recíproca, que não deixa de ser uma espécie de suicídio cósmico?
Existirá algum modo de evitar, atenuar ou suavizar este sistema de morte e
sofrimento implícito até mesmo na existência do mais espiritual dos seres
humanos?
O
vegetarianismo não constitui uma solução. Há muito tempo, o botânico indiano
Jagadish Chandra Bose conseguiu medir as reacções das plantas quando eram
arrancadas ou cortadas. Pode argumentar-se que as plantas não têm consciência
do seu sofrimento; mas será mais sensato reconhecer que simplesmente não
conseguem expressar, de forma perceptível para nós, a dor que sentem.
Quando
mencionei as investigações de Bose ao budista rigorosamente vegetariano
Reginald H. Blyth, autor do clássico Zen in English Literature,
respondeu-me: «Sim, eu sei. Mas os vegetais, quando os matamos, gritam muito
baixinho.»
Por outras palavras, Blyth mostrava
indulgência para com os seus próprios sentimentos. Monges hindus e budistas
levam ao extremo o princípio da ahimsa, ou da não-violência, chegando ao
ponto de caminhar sempre de olhos postos no chão — não, como poderíamos
imaginar, para evitar a tentação provocada por uma bela mulher que passe; mas
para não esmagarem inadvertidamente besouros, caracóis ou minhocas. Ainda
assim, essa atitude não deixa de ser um subterfúgio, um gesto ritual de
respeito pela vida que em nada altera o facto de vivermos graças à morte de
outros seres.
Ao recorrer à minha própria
consciência em busca de alguma luz sobre esta questão tão espinhosa, encontrei
três respostas.
A primeira consiste em admitir que
decidir viver implica decidir matar. E, se estou verdadeiramente disposto a
matar, devo fazê-lo da forma mais eficiente possível. Pense-se na agonia de ser
decapitado por um carrasco incompetente. A morte deve ser tão rápida quanto
possível, e a mão que segura a espingarda ou maneja a faca deve manter-se
firme.
A segunda
consiste em reconhecer que toda a forma de vida destinada a servir de alimento
deve ser tratada segundo o princípio: «Amo tanto esta manifestação da vida que
a vou comer», o que também significa: «Como tanto esta manifestação da vida que
a vou amar.»
Este princípio tem sido
impiedosamente ignorado pela agro-indústria e pela indústria piscatória
modernas. Basta pensar em dois exemplos: as actuais técnicas de caça à baleia
ameaçam a espécie de extinção, e a criação intensiva de aves inunda o mercado
com falsos frangos e falsos ovos. Confinados em gaiolas metálicas e alimentados
com rações artificiais, esses infelizes animais nunca esgravatam a terra nem
sentem o calor do Sol; por isso, a sua carne é insípida. Tudo aquilo que não
proporciona prazer à mesa é sinal de que também não foi tratado com respeito
nem na exploração agrícola nem na cozinha.
A terceira
resposta foi formulada de forma brilhante por Lin Yutang:
«A galinha
sacrificada e mal cozinhada morreu em vão.»
O mínimo que
posso fazer por uma criatura que morreu para meu benefício é honrá-la — não
através de um ritual vazio de significado, mas cozinhando-a na perfeição e
saboreando-a plenamente.
O amor pelas
plantas e pelos animais que tornam possível a nossa vida deve manifestar-se,
acima de tudo, na cozinha.
