Friday, July 31, 2026

 

Fazer uma boa digestão é o primeiro passo para criar um sangue forte e uma saúde perfeita

Martín Macedo

Fazer uma boa digestão é o primeiro passo para criar um sangue forte e uma saúde perfeita.

Quando falamos de digestão, a maioria das pessoas pensa imediatamente no estômago, como se ele fosse sinónimo de digestão.

Mas a verdadeira digestão não acontece no estômago.

Este é apenas um recetor que recebe os alimentos vindos do esófago e, em função daquilo que lhe chega, tenta fazer verdadeiros milagres para cumprir a sua parte na grande obra digestiva que decidirá entre uma vida de saúde extraordinária ou uma vida de contrariedades, doença e sofrimento.

O estômago é um recipiente digestivo. É um órgão muito delicado; não possui estruturas resistentes como os dentes ou os molares. Apenas consegue agitar o seu conteúdo graças à força dos seus músculos e libertar uma pequena quantidade de ácido clorídrico — muito menor do que geralmente se imagina, pois não existe uma «torneira» de onde jorre continuamente ácido sobre os alimentos — juntamente com algumas enzimas digestivas que ajudam a preparar o bolo alimentar para seguir para o compartimento seguinte do aparelho digestivo.

A maioria das pessoas come depressa. Alguns consideram a refeição uma perda de tempo, um simples procedimento que deve ser resolvido o mais rapidamente possível, porque fomos educados para sermos produtivos e eficientes.

Por esse motivo, sete em cada dez consultas por perturbações digestivas estão relacionadas com gastrites agudas ou crónicas.

Há um enorme número de pessoas que sofre de gastrite.

Os textos médicos apontam como causas o stress, determinados medicamentos, como a aspirina, o consumo de álcool e, sobretudo, uma bactéria considerada responsável pela maior parte dos casos: a Helicobacter pylori.

Como a maioria dos casos é atribuída a esta bactéria — que infeta grande parte da humanidade —, o tratamento da gastrite inclui frequentemente a associação de dois antibióticos destinados a eliminá-la: claritromicina e amoxicilina.

Contudo, isso não faz mais do que agredir ainda mais um estômago que já traz consigo um longo historial de maus-tratos.

O verdadeiro trabalho digestivo, a verdadeira digestão consciente e poderosa, acontece na boca.

É aí que existem dentes e molares robustos, duros como o granito, e glândulas salivares — seis glândulas principais e entre seiscentas e mil glândulas menores — capazes de transformar profundamente a composição química de qualquer alimento, seja de origem animal ou vegetal.

No entanto, a maioria das pessoas continua a comer a toda a velocidade, seja por falta de tempo, seja simplesmente porque desconhece o valor de uma digestão feita com verdadeira qualidade.

Já aconselhei pessoas reformadas que me confessavam continuar a fazer as refeições em apenas dez minutos porque comeram assim toda a vida.

Mesmo dispondo agora de todo o tempo do mundo, não têm a paciência necessária para proteger o próprio estômago, enviando-lhe um alimento já transformado numa papa fácil de processar.

O ensinamento dos sábios de que devemos beber os alimentos sólidos e mastigar os líquidos constitui um sinal claro, transmitido pelas culturas mais sábias do mundo, de que o alimento sagrado deve ser tratado desta forma para que possamos absorver plenamente o seu poder físico e espiritual.

Porque não nos alimentamos apenas de substâncias químicas; alimentamo-nos também de vibrações.

Depois de engolido o alimento, já pouco podemos fazer para melhorar a digestão.

A partir desse momento, todo o processo é automático. O sistema nervoso autónomo encarrega-se dos restantes passos até transformar o alimento em sangue, esse líquido precioso que determina a qualidade da nossa vida física, mental e espiritual.

Uma mastigação lenta, cuidadosa e consciente é um verdadeiro ato de liberdade.

É na boca que exercemos essa liberdade: a liberdade de caminhar para uma saúde sem limites ou para uma vida marcada pelo sofrimento e pela doença.

Contudo, a medicina moderna responsabiliza sobretudo uma bactéria.

Nós seríamos apenas vítimas desse microrganismo terrível que deve ser combatido com toda a agressividade através dos antibióticos mais potentes.

A verdadeira liberdade, porém, encontra-se na boca.

A liberdade de escolher a qualidade de tudo aquilo que comemos e bebemos.

A liberdade de escolher as palavras que dirigimos aos outros e a nós próprios, palavras que alimentam o nosso sistema de crenças e ajudam a construir o nosso futuro.

E a liberdade de transformar quimicamente cada bocado, preparando-o para se converter numa gota de sangue da mais elevada qualidade que, por sua vez, dará origem a um caudal de sangue forte e vigoroso, capaz de levar vitalidade a todas as células, tecidos e órgãos, formando um ser humano da mais elevada qualidade biológica e com maiores possibilidades de alcançar os seus objetivos na vida.

Qualquer leão, qualquer búfalo ou qualquer girafa trata o alimento com enorme respeito.

Esse comportamento revela o grau de sabedoria presente no reino animal.

Carnívoros e herbívoros utilizam a boca para construir a melhor versão biológica de si próprios, tornando-se tão fortes e capazes quanto a sua natureza lhes permite.

A natureza está repleta de sabedoria.

Ela deve ser a nossa maior fonte de inspiração para procurarmos a nossa melhor versão biológica.

Está cheia de seres vivos que o fazem continuamente, movidos apenas pelo instinto e pela obediência espontânea à Ordem Superior — uma Ordem que os seres humanos foram esquecendo, transformando-a num juiz que distribui prémios e castigos.

O animal é mais sábio.

Limita-se a seguir o seu impulso superior e instintivo, evitando afastar-se desse estado de harmonia, graça e perfeição.

Martín Macedo


Comentário

Inteligência Artificial

Trata-se de um texto muito característico de Martín Macedo, que combina conhecimentos de fisiologia digestiva com uma visão filosófica e macrobiótica da alimentação.

Este é um texto muito rico, mas também muito opinativo. Convém distinguir aquilo que é cientificamente bem fundamentado, aquilo que constitui uma interpretação macrobiótica e aquilo que representa uma imagem filosófica utilizada pelo autor.

 

1. A mastigação é realmente muito mais importante do que a maioria das pessoas imagina.

Neste ponto, Martín Macedo está perfeitamente alinhado com a fisiologia moderna.

Uma mastigação adequada:

  • aumenta a produção de saliva;
  • inicia a digestão dos amidos através da amílase salivar;
  • facilita o trabalho do estômago;
  • melhora a absorção intestinal;
  • reduz episódios de refluxo e dispepsia;
  • aumenta a saciedade;
  • ajuda no controlo do peso.

É provavelmente um dos hábitos mais negligenciados da alimentação contemporânea.


2. O estômago não faz "toda" a digestão.

Também aqui o autor tem razão.

A digestão é um processo que envolve:

  • boca;
  • estômago;
  • fígado;
  • vesícula biliar;
  • pâncreas;
  • intestino delgado;
  • microbiota intestinal.

Na realidade, é no intestino delgado que ocorre a maior parte da digestão química e da absorção dos nutrientes.


3. A Helicobacter pylori

Aqui o texto necessita de alguma nuance.

É verdade que:

  • milhões de pessoas possuem Helicobacter pylori sem qualquer sintoma;
  • nem toda a gastrite é causada por esta bactéria;
  • o stress, o álcool, os anti-inflamatórios e os hábitos alimentares também contribuem.

Contudo, também está hoje claramente demonstrado que a Helicobacter pylori pode provocar:

  • gastrite crónica;
  • úlceras gástricas;
  • úlceras duodenais;
  • aumento do risco de cancro gástrico em alguns indivíduos.

Assim, quando existe indicação médica, a sua erradicação com antibióticos pode ser muito importante.

A crítica de Macedo dirige-se sobretudo ao uso indiscriminado de medicamentos, e não deve ser interpretada como uma rejeição absoluta da medicina baseada na evidência.


4. "Beber os sólidos e mastigar os líquidos"

Este é um dos ensinamentos clássicos da Macrobiótica, também repetido por Georges Ohsawa, Michio Kushi, Herman Aihara e Tomio Kikuchi.

Não significa literalmente transformar todos os alimentos em líquido, mas sim:

  • mastigar lentamente;
  • misturar completamente os alimentos com saliva;
  • saborear conscientemente cada bocado.

Quanto aos líquidos, "mastigá-los" significa mantê-los alguns instantes na boca, misturando-os com saliva antes de engolir.

Hoje sabe-se que esta prática favorece a fase cefálica da digestão, preparando todo o aparelho digestivo para receber os alimentos.


5. O "sangue forte"

Esta expressão é típica da linguagem macrobiótica.

Na medicina atual, não falamos em "sangue forte", mas podemos interpretá-la como uma metáfora para:

  • boa nutrição;
  • equilíbrio metabólico;
  • boa oxigenação;
  • bom estado hematológico;
  • funcionamento eficiente do organismo.

É uma imagem que procura sintetizar o conceito de vitalidade global.


6. O alimento como energia e "vibração"

Quando Macedo afirma que "não comemos apenas elementos químicos, mas também vibrações", entra claramente no domínio filosófico da Macrobiótica e das tradições orientais.

Este conceito não pode ser medido pela ciência atual da mesma forma que medimos vitaminas ou proteínas.

Contudo, pode ser entendido simbolicamente:

  • a qualidade do alimento;
  • a forma de cultivo;
  • o modo de confeção;
  • o ambiente da refeição;
  • o estado emocional de quem cozinha e de quem come.

Todos estes fatores influenciam, direta ou indiretamente, a experiência alimentar e até alguns aspetos fisiológicos, como o apetite e a digestão.


7. A liberdade começa na boca

Talvez esta seja a ideia mais profunda do texto.

Macedo amplia o significado da boca:

  • é onde escolhemos os alimentos;
  • é onde decidimos mastigar ou engolir rapidamente;
  • é também onde nascem as palavras.

Ou seja, a boca torna-se símbolo simultâneo da alimentação e da comunicação.

É uma imagem muito bonita e coerente com a filosofia macrobiótica.


Consideração final

Este texto transmite uma das mensagens mais importantes da tradição macrobiótica: a digestão começa muito antes do estômago. Ao colocar a mastigação consciente no centro da saúde, Martín Macedo recorda um ensinamento comum a Ohsawa, Kushi, Aihara e também a muitas tradições médicas antigas do Oriente e do Mediterrâneo.

Embora algumas das suas críticas à medicina moderna sejam deliberadamente provocadoras e devam ser relativizadas à luz do conhecimento científico atual — sobretudo no que respeita à Helicobacter pylori e ao uso de antibióticos —, a ideia essencial mantém toda a sua atualidade: a forma como comemos é tão importante quanto aquilo que comemos.

Num tempo em que as refeições são frequentemente apressadas, distraídas por ecrãs e marcadas pelo stress, recuperar o hábito de mastigar lentamente, saborear cada alimento e comer com presença poderá ser uma das intervenções mais simples, económicas e eficazes para melhorar a digestão e promover a saúde. É precisamente nesta convergência entre sabedoria tradicional e fisiologia moderna que reside o maior valor deste texto.

 

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