Fazer uma
boa digestão é o primeiro passo para criar um sangue forte e uma saúde perfeita
Martín Macedo
Fazer uma boa digestão é o primeiro passo para criar um sangue forte e uma
saúde perfeita.
Quando falamos de digestão, a maioria das pessoas pensa imediatamente no
estômago, como se ele fosse sinónimo de digestão.
Mas a verdadeira digestão não acontece no estômago.
Este é apenas um recetor que recebe os alimentos vindos do esófago e, em
função daquilo que lhe chega, tenta fazer verdadeiros milagres para cumprir a
sua parte na grande obra digestiva que decidirá entre uma vida de saúde
extraordinária ou uma vida de contrariedades, doença e sofrimento.
O estômago é um recipiente digestivo. É um órgão muito delicado; não possui
estruturas resistentes como os dentes ou os molares. Apenas consegue agitar o
seu conteúdo graças à força dos seus músculos e libertar uma pequena quantidade
de ácido clorídrico — muito menor do que geralmente se imagina, pois não existe
uma «torneira» de onde jorre continuamente ácido sobre os alimentos —
juntamente com algumas enzimas digestivas que ajudam a preparar o bolo
alimentar para seguir para o compartimento seguinte do aparelho digestivo.
A maioria das pessoas come depressa. Alguns consideram a refeição uma perda
de tempo, um simples procedimento que deve ser resolvido o mais rapidamente
possível, porque fomos educados para sermos produtivos e eficientes.
Por esse motivo, sete em cada dez consultas por perturbações digestivas
estão relacionadas com gastrites agudas ou crónicas.
Há um enorme número de pessoas que sofre de gastrite.
Os textos médicos apontam como causas o stress, determinados medicamentos,
como a aspirina, o consumo de álcool e, sobretudo, uma bactéria considerada
responsável pela maior parte dos casos: a Helicobacter pylori.
Como a maioria dos casos é atribuída a esta bactéria — que infeta grande
parte da humanidade —, o tratamento da gastrite inclui frequentemente a
associação de dois antibióticos destinados a eliminá-la: claritromicina e
amoxicilina.
Contudo, isso não faz mais do que agredir ainda mais um estômago que já
traz consigo um longo historial de maus-tratos.
O verdadeiro trabalho digestivo, a verdadeira digestão consciente e
poderosa, acontece na boca.
É aí que existem dentes e molares robustos, duros como o granito, e
glândulas salivares — seis glândulas principais e entre seiscentas e mil
glândulas menores — capazes de transformar profundamente a composição química
de qualquer alimento, seja de origem animal ou vegetal.
No entanto, a maioria das pessoas continua a comer a toda a velocidade,
seja por falta de tempo, seja simplesmente porque desconhece o valor de uma
digestão feita com verdadeira qualidade.
Já aconselhei pessoas reformadas que me confessavam continuar a fazer as
refeições em apenas dez minutos porque comeram assim toda a vida.
Mesmo dispondo agora de todo o tempo do mundo, não têm a paciência
necessária para proteger o próprio estômago, enviando-lhe um alimento já
transformado numa papa fácil de processar.
O ensinamento dos sábios de que devemos beber os alimentos sólidos e
mastigar os líquidos constitui um sinal claro, transmitido pelas culturas
mais sábias do mundo, de que o alimento sagrado deve ser tratado desta forma
para que possamos absorver plenamente o seu poder físico e espiritual.
Porque não nos alimentamos apenas de substâncias químicas; alimentamo-nos
também de vibrações.
Depois de engolido o alimento, já pouco podemos fazer para melhorar a
digestão.
A partir desse momento, todo o processo é automático. O sistema nervoso
autónomo encarrega-se dos restantes passos até transformar o alimento em
sangue, esse líquido precioso que determina a qualidade da nossa vida física,
mental e espiritual.
Uma mastigação lenta, cuidadosa e consciente é um verdadeiro ato de
liberdade.
É na boca que exercemos essa liberdade: a liberdade de caminhar para uma
saúde sem limites ou para uma vida marcada pelo sofrimento e pela doença.
Contudo, a medicina moderna responsabiliza sobretudo uma bactéria.
Nós seríamos apenas vítimas desse microrganismo terrível que deve ser
combatido com toda a agressividade através dos antibióticos mais potentes.
A verdadeira liberdade, porém, encontra-se na boca.
A liberdade de escolher a qualidade de tudo aquilo que comemos e bebemos.
A liberdade de escolher as palavras que dirigimos aos outros e a nós
próprios, palavras que alimentam o nosso sistema de crenças e ajudam a
construir o nosso futuro.
E a liberdade de transformar quimicamente cada bocado, preparando-o para se
converter numa gota de sangue da mais elevada qualidade que, por sua vez, dará
origem a um caudal de sangue forte e vigoroso, capaz de levar vitalidade a
todas as células, tecidos e órgãos, formando um ser humano da mais elevada
qualidade biológica e com maiores possibilidades de alcançar os seus objetivos
na vida.
Qualquer leão, qualquer búfalo ou qualquer girafa trata o alimento com
enorme respeito.
Esse comportamento revela o grau de sabedoria presente no reino animal.
Carnívoros e herbívoros utilizam a boca para construir a melhor versão
biológica de si próprios, tornando-se tão fortes e capazes quanto a sua
natureza lhes permite.
A natureza está repleta de sabedoria.
Ela deve ser a nossa maior fonte de inspiração para procurarmos a nossa
melhor versão biológica.
Está cheia de seres vivos que o fazem continuamente, movidos apenas pelo
instinto e pela obediência espontânea à Ordem Superior — uma Ordem que os seres
humanos foram esquecendo, transformando-a num juiz que distribui prémios e
castigos.
O animal é mais sábio.
Limita-se a seguir o seu impulso superior e instintivo, evitando afastar-se
desse estado de harmonia, graça e perfeição.
Martín Macedo
Comentário
Inteligência Artificial
Trata-se de um
texto muito característico de Martín Macedo, que combina conhecimentos de
fisiologia digestiva com uma visão filosófica e macrobiótica da alimentação.
Este é um texto muito rico, mas também muito opinativo. Convém distinguir
aquilo que é cientificamente bem fundamentado, aquilo que constitui uma interpretação
macrobiótica e aquilo que representa uma imagem filosófica utilizada
pelo autor.
1. A mastigação é realmente muito mais importante
do que a maioria das pessoas imagina.
Neste ponto, Martín Macedo está perfeitamente alinhado com a fisiologia
moderna.
Uma mastigação adequada:
- aumenta a produção de saliva;
- inicia a digestão dos amidos através da amílase salivar;
- facilita o trabalho do estômago;
- melhora a absorção intestinal;
- reduz episódios de refluxo e dispepsia;
- aumenta a saciedade;
- ajuda no controlo do peso.
É provavelmente um dos hábitos mais negligenciados da alimentação
contemporânea.
2. O estômago não faz "toda" a digestão.
Também aqui o autor tem razão.
A digestão é um processo que envolve:
- boca;
- estômago;
- fígado;
- vesícula biliar;
- pâncreas;
- intestino delgado;
- microbiota intestinal.
Na realidade, é no intestino delgado que ocorre a maior parte da digestão
química e da absorção dos nutrientes.
3. A Helicobacter pylori
Aqui o texto necessita de alguma nuance.
É verdade que:
- milhões de pessoas possuem Helicobacter pylori sem qualquer sintoma;
- nem toda a gastrite é causada por esta bactéria;
- o stress, o álcool, os anti-inflamatórios e os hábitos alimentares
também contribuem.
Contudo, também está hoje claramente demonstrado que a Helicobacter
pylori pode provocar:
- gastrite crónica;
- úlceras gástricas;
- úlceras duodenais;
- aumento do risco de cancro gástrico em alguns indivíduos.
Assim, quando existe indicação médica, a sua erradicação com antibióticos
pode ser muito importante.
A crítica de Macedo dirige-se sobretudo ao uso indiscriminado de
medicamentos, e não deve ser interpretada como uma rejeição absoluta da
medicina baseada na evidência.
4. "Beber os sólidos e mastigar os líquidos"
Este é um dos ensinamentos clássicos da Macrobiótica, também repetido por
Georges Ohsawa, Michio Kushi, Herman Aihara e Tomio Kikuchi.
Não significa literalmente transformar todos os alimentos em líquido, mas
sim:
- mastigar lentamente;
- misturar completamente os alimentos com saliva;
- saborear conscientemente cada bocado.
Quanto aos líquidos, "mastigá-los" significa mantê-los alguns
instantes na boca, misturando-os com saliva antes de engolir.
Hoje sabe-se que esta prática favorece a fase cefálica da digestão,
preparando todo o aparelho digestivo para receber os alimentos.
5. O "sangue forte"
Esta expressão é típica da linguagem macrobiótica.
Na medicina atual, não falamos em "sangue forte", mas podemos
interpretá-la como uma metáfora para:
- boa nutrição;
- equilíbrio metabólico;
- boa oxigenação;
- bom estado hematológico;
- funcionamento eficiente do organismo.
É uma imagem que procura sintetizar o conceito de vitalidade global.
6. O alimento como energia e "vibração"
Quando Macedo afirma que "não comemos apenas elementos químicos, mas
também vibrações", entra claramente no domínio filosófico da Macrobiótica
e das tradições orientais.
Este conceito não pode ser medido pela ciência atual da mesma forma que
medimos vitaminas ou proteínas.
Contudo, pode ser entendido simbolicamente:
- a qualidade do alimento;
- a forma de cultivo;
- o modo de confeção;
- o ambiente da refeição;
- o estado emocional de quem cozinha e de quem come.
Todos estes fatores influenciam, direta ou indiretamente, a experiência
alimentar e até alguns aspetos fisiológicos, como o apetite e a digestão.
7. A liberdade começa na boca
Talvez esta seja a ideia mais profunda do texto.
Macedo amplia o significado da boca:
- é onde escolhemos os alimentos;
- é onde decidimos mastigar ou engolir rapidamente;
- é também onde nascem as palavras.
Ou seja, a boca torna-se símbolo simultâneo da alimentação e da
comunicação.
É uma imagem muito bonita e coerente com a filosofia macrobiótica.
Consideração final
Este texto transmite uma das mensagens mais importantes da tradição
macrobiótica: a digestão começa muito antes do estômago. Ao colocar a
mastigação consciente no centro da saúde, Martín Macedo recorda um ensinamento
comum a Ohsawa, Kushi, Aihara e também a muitas tradições médicas antigas do
Oriente e do Mediterrâneo.
Embora algumas
das suas críticas à medicina moderna sejam deliberadamente provocadoras e devam
ser relativizadas à luz do conhecimento científico atual — sobretudo no que
respeita à Helicobacter pylori e ao uso de antibióticos —, a ideia
essencial mantém toda a sua atualidade: a forma como comemos é tão
importante quanto aquilo que comemos.
Num tempo em que as refeições são frequentemente apressadas, distraídas por
ecrãs e marcadas pelo stress, recuperar o hábito de mastigar lentamente,
saborear cada alimento e comer com presença poderá ser uma das intervenções
mais simples, económicas e eficazes para melhorar a digestão e promover a
saúde. É precisamente nesta convergência entre sabedoria tradicional e
fisiologia moderna que reside o maior valor deste texto.