Monday, August 31, 2026

 

A INDÚSTRIA DA DOENÇA                                                            Michael Pollan – IN: Metamorfose

 A medicina está aprendendo como manter vivos os que a dieta ocidental está deixando doentes. Os médicos aprenderam a manter vivos os cardíacos, e agora estão dando duro para tratar da obesidade e do diabetes. Muito mais que o corpo humano, o capitalismo é incrivelmente adaptável, capaz de transformar os problemas que cria em novas oportunidades de negócio: comprimidos para emagrecer, operações para a colocação de pontes cardíacas, bombas de insulina, cirurgia bariátrica.

Embora se estime que 80% dos casos de diabetes tipo 2 poderiam ser evitados com mudança na dieta e exercícios físicos, parece que o capital esperto investe na criação de uma grande indústria do diabetes. A imprensa dominante está cheia de anúncios de novos aparelhos e novas drogas para diabéticos, e a indústria do sistema de saúde prepara-se para satisfazer a crescente procura por cirurgias para a colocação de pontes (80% dos diabéticos sofrerão de doenças do coração), diálise e transplantes de rim. No caixa do supermercado, é possível folhear exemplares de uma nova revista com enfoque no estilo de vida: Diabetic Living. O diabetes está em via de ser normalizado no Ocidente – reconhecido como um novo segmento demográfico e, portanto, uma grande oportunidade de marketing. Ao que tudo indica, é mais fácil, ou pelo menos mais lucrativo, transformar uma doença da civilização em estilo de vida do que mudar a alimentação da civilização.

 

A ARTE DE NÃO CURAR

IN: Metamorfose

Entre as múltiplas facetas de George Ohsawa – poeta, filósofo, escritor, tradutor, editor, conferencista, homem de negócios – destaca-se a de curador. Aqueles que o seguiram de perto deixaram o extraordinário testemunho das tantas vidas que Ohsawa libertou da dor, do sofrimento e da morte estúpida.

Françoise Riviére, que participou do primeiro acampamento organizado por Ohsawa na França, não hesita em comparar as curas a que assistiu às do Novo Testamento: “As curas realizadas no famoso acampamento de Chelles, em 1957, foram tão impressionantes que não podemos senão equipará-las aos milagres operados pelo Cristo.”

Mas o Ohsawa curador jamais identificara a doença ao mal e a saúde ao bem. Ohsawa deu mostras inequívocas de que alcançara o fundamental: sabia como poucos que um princípio paradoxal governa o mundo fenomênico, que nada escapa à sua poderosa influência, que mesmo a saúde e a doença não se furtam ao seu domínio.

Circunstâncias houve em que Ohsawa percebeu que o “melhor” seria o “pior”: há doentes que se não devem curar, sob pena de, uma vez libertos dos limites impostos pela doença, multiplicarem a própria infelicidade e a dos que os cercam. Nestes casos, deve o verdadeiro curador, arriscando-se embora a ser mal compreendido pelo doente, negar-se a curá-lo.

É o próprio Ohsawa quem nos relata um caso que vem muito a propósito.

Ouçamo-lo:

Não se deve curar a doença, mas sim o doente.

Um dia, em 1944, já próximo ao fim da guerra, o diretor de um laboratório farmacêutico veio procurar-me pedindo um conselho. Tinha ficado rico fabricando um remédio especial para a cura da asma.

̶ Venho solicitar vossas instruções dietéticas.

GO- Estais doente?

̶ Sim, sofro de uma asma ‘incurável’.

GO- Asma? Mas e o vosso famoso medicamento?

̶ Ah, não tem adiantado.

GO- Mas não tem tido uma tão grande saída?

̶Tudo é possível vender investindo somas elevadas em anúncios diários nos jornais.

GO- Então o vosso produto não é eficaz?

̶ Deveis saber bem disto, uma vez que já escrevestes tanto que não existe medicamento nem operação que cure a asma.

GO- Mas o vosso...  que é tão vendido...  ?

̶ Caro Senhor, desconheceis o que é o comércio e a indústria atualmente? Ganhei muito dinheiro, mas quanto mais ganhava tanto mais gastava; e agora, por anos e anos, venho eu mesmo sofrendo de asma. Desnecessário dizer que tentei todos os meios de cura, mas em vão. Vosso método é minha última esperança. Conheço-o perfeitamente, pois foi graças aos vossos ensinamentos, há dez anos, que minha esposa e filhos recuperaram a saúde e ainda a conservam.

GO- Muito bem. Sinto-me feliz. Isto quer dizer que vossa esposa adquiriu uma boa compreensão do meu método e teoria. Então, nada tenho para dar-vos. Basta seguir vossa esposa, isto é, comer o que ela prepara em casa e nada mais.

̶  Mas é muito difícil...

GO- Sim, eu sei. Tendes de comer fora, diariamente, com vossos amigos e fregueses. Mas não tendes outra alternativa entre viver e morrer, ser ou não ser, longevidade ou morte prematura.

 

GO- Depois de uma movimentada conversação, pois ele é muito Yang, despedi-o sem dar as instruções solicitadas.

Após sua partida, minha secretária, Srta. Sima Moriyama, que abandonou uma posição muito importante como nutricionista a fim de ser uma de minhas secretárias, disse, parte para si mesma e parte para mim:

̶  É muito justo. Não há necessidade de dar instruções ao diretor de um laboratório farmacêutico que fabrica e vende tanto veneno para empilhar dinheiro sem que, primeiramente, admita que tal indústria é uma grande fraude, abandone seu negócio e confesse publicamente nos jornais que engana seus concidadãos.

GO- Não, Srta. Sima, não foi esse o motivo por que o despedi esta manhã. Não creio que ele terá disposição de seguir sua esposa, apesar de ela ter feito todo o possível. Pela primeira vez cheguei à conclusão, esta manhã, que ele deve ser repelido, que ele não deve ser curado.

̶  Mas por quê?

GO- Porque, de acordo com o diagnóstico baseado em sua fisionomia, constatamos que ele possui características demasiado Yang difíceis de erradicar.  Ele é muito Yang, não é verdade?

̶  Oh, sim, é verdade. É muito barulhento, conversador, agitado...

GO- É isto mesmo; ele é demasiado Yang. Tem muitas amantes e não pode ser um marido fiel. É uma infelicidade tanto para ele como para a família. Mas, se é asmático, deve ser muito cauteloso. As crises asmáticas são muito fortes e penosas. A asma é uma reação de seu sistema nervoso autônomo e ajuda a contrabalançar seus excessos. Se fosse curado, como é exageradamente Yang, ele e sua família teriam de sofrer muitos e maiores padecimentos posteriormente.

Yin atrai Yang e Yang atrai Yin. É a lei da natureza. Se comermos demasiado Yang, ficaremos demasiado Yin. Mais cedo ou mais tarde teremos de compreender isto ou morrer.

GO- Srta. Sima, não devemos curar a doença, mas sim o doente. Às vezes temos de recusar curar aquele que seja demasiado arrogante e egoísta, e esperar até que fique mais humilde e com vontade de aprender.

 

 

A BARAFUNDA YIN-YANG - Carl Ferré - IN: Metamorfose

“Quando adotei a macrobiótica em 1975, manifestei predileção pelo trigo sarraceno. Alguém comentou que se tratava de um grão extremamente yang. Mas eu o ingeria todos os dias. Ele não era, absolutamente, muito yang para mim. Anos depois, Jacques de Langre confidenciou-me que o considerava extremamente yin, já que pertencia de fato à família de uma fruta, o ruibarbo.

“Opiniões divergentes como as anteriores ajudam a barafundear ainda mais os conceitos de yin e yang. Há quantidades diferentes de yin e yang em cada alimento, em cada órgão, em cada pessoa, em cada coisa, enfim. Alguns aspectos do trigo sarraceno são yang (pequenez, rijeza); outros são yin (pertencer à família do ruibarbo). O trigo sarraceno é considerado “yang” pelos que privilegiam seus aspectos yang, e “yin” pelos que privilegiam seus aspectos yin. Pode-se dizer o mesmo sobre os tomates, o sal, o açúcar e qualquer outro alimento.”

 

  A INDÚSTRIA DA DOENÇA                                                             Michael Pollan – IN: Metamorfose   A medicina está apr...