MELHORAR O
ESTADO NUTRICIONAL
Dr. Martín Macedo
Tal como
Hipócrates ensinou há mais de 2.500 anos, o pai da medicina moderna, a nutrição
é crucial enquanto procedimento médico. Sem nutrição não há medicina. São
inseparáveis. Se a medicina não tiver em consideração a nutrição, não é uma
verdadeira medicina. Não é aquilo que Hipócrates sonhou e vislumbrou como um
futuro glorioso para a medicina.
As
considerações higiénico-dietéticas que figuram na história clínica são
«encaminhadas» para o nutricionista. E este, por sua vez, recebe uma educação
tendenciosa, financiada pelas multinacionais dos lacticínios, das bebidas de
cola e pela indústria frigorífica. Assim, ensinam aos estudantes de nutrição
que a carne vermelha é a que fornece a melhor proteína e que o cálcio do leite
apresenta uma excelente biodisponibilidade.
E os
estudantes acreditam, porque é isso que lhes é ensinado. E, quando se formam,
tornam-se «crentes». E os médicos encaminham os seus pacientes para os
nutricionistas «crentes», que não leem outra coisa senão a abundante informação
científica que lhes é fornecida nos cursos universitários.
Dão-lhes
quantidades extenuantes de informação para aprender e memorizar, avaliações e
exames. Não lhes dão tempo para pensar noutras opiniões ou noutras abordagens.
De manhã à noite: aulas, oficinas, aulas práticas, até os deixarem extenuados.
Se tiverem tempo livre, talvez se «contaminem» com outras opiniões, ou talvez
caiam em posições extremas, como o vegetarianismo.
Quase não há
nutricionistas vegetarianos. Ensinasse-lhes que as pessoas vegetarianas têm
deficiência de vitamina B12 e também anemia por falta de ferro. E que a
proteína vegetal é mal assimilada e não forma massa muscular. E repete-se a
mesma ladainha, como o Pai-Nosso ou a Avé-Maria. Centenas de vezes, até que as
jovens mentes acabam por aceitá-la. E assim se tornam «fiéis crentes».
Investigadores
de grande calibre, como o Dr. Colin Campbell, mostram nos seus trabalhos
científicos e vídeos que a proteína animal e, em particular, a proteína dos
lacticínios está implicada na maior parte das doenças degenerativas típicas dos
ocidentais, como o cancro da mama, o cancro da próstata, o cancro colorretal, a
hipertensão, as cardiopatias, a diabetes e a osteoporose.
Na China, onde
Campbell realizou um trabalho de investigação heroico, um marco na investigação
nutricional, que durou 40 anos e que foi apoiado e financiado por quatro
grandes universidades (Cornell, dos EUA, Oxford, de Inglaterra, e duas
universidades chinesas), confirmou-se que, quanto mais proteína animal era
consumida, maior era a incidência das doenças «ocidentais». E quanto menor era
o consumo de proteína animal e maior o consumo de proteína vegetal, menores
eram as taxas destas doenças degenerativas.
Campbell,
juntamente com o seu filho, que também é médico, percorreu toda a zona rural da
China entre 1970 e 2010, tomando notas sobre aquilo que as pessoas comiam, o
tipo de proteína, a qualidade biológica das mesmas, as quantidades e o baixo ou
elevado consumo de lacticínios.
Em
determinados distritos das zonas rurais chinesas, Campbell sugeriu a alguns
voluntários que incorporassem um pouco de leite de vaca, como parte da sua
investigação. Tradicionalmente, os chineses evitam o leite de vaca. Acreditam
que «somos aquilo que comemos»; têm isso muito mais claro do que nós,
ocidentais.
Assim, durante
milhares de anos, os chineses acreditaram que, se alguém beber leite de vaca,
terá uma atitude de bebé crescido, que segue a multidão e entra em pânico
perante a possibilidade de ficar isolado do rebanho. Não terá capacidade
crítica e será grande de corpo e de mente inocente, como um bezerro.
Os japoneses
gostam muito de peixe e de produtos do mar. Consomem muitas algas e peixe. Mas
não qualquer peixe. Preferem o tubarão e o peixe-balão. Evitam a sardinha e
outros peixes «tolos», fáceis de apanhar. Também têm muito presente o adágio
«somos aquilo que comemos». Se comer peixes tolos, como a sardinha, absorverei
a «alma» do animal e tenderei a ser atordoado e presa fácil dos astutos
«tubarões».
Os japoneses
também não bebem leite de vaca. E muito menos estragariam o seu sagrado chá
medicinal acrescentando-lhe leite e açúcar. O chá com leite, tão consumido no
Ocidente, é, para um japonês, uma aberração. Uma adulteração imperdoável. Uma
degradação da bebida tradicional que «eleva o pensamento e a sensibilidade
espiritual».
Eles sempre se
consideraram uma nação «elevada» espiritualmente e, por isso, o samurai não é
considerado apenas um guerreiro ou um habilidíssimo espadachim.
O valor do
samurai está no seu espírito. O espírito samurai está em cada japonês. Em cada
idoso, em cada criança, em cada menina, em cada mulher, em cada homem,
independentemente da sua profissão ou nível social. A grandeza do Japão é
espiritual. O seu espírito torna-os invencíveis.
E acreditam
que o espírito é alimentado com «alimentos» como o chá tradicional, o chá da
cerimónia do chá. E existem casas de chá para cultivar o espírito de
sensibilidade e grandeza do povo japonês. E os seus alimentos tradicionais
nutrem o «espírito samurai», a «alma do Japão».
Quando um
japonês começa a comer como os ocidentais — carne, café com leite e pão branco
com açúcar e compota —, os outros consideram-no uma espécie de irmão
«desgarrado», que perdeu o contacto com a sua força espiritual tradicional. Um
corpo japonês com uma alma ocidental. Um japonês de segunda categoria. A sua
alma está degradada por se alimentar da comida dos «bárbaros ocidentais».
É muito
interessante este tipo de considerações asiáticas, que poderão chocar-nos, a
nós, ocidentais, mas que são muito respeitáveis, porque têm alguma lógica e uma
permanência no tempo de milhares de anos.
Os hindus
também mantiveram a sua clara convicção da relação entre alimentação superior e
pensamento superior. O hinduísmo classifica os alimentos em sátvicos, tamásicos
e rajásicos. Ayurveda.
O alimento SÁTVICO
estimula o desenvolvimento de uma mente elevada, de um pensamento elevado, de
sentimentos e propósitos nobres. O alimento sátvico é utilizado,
fundamentalmente, pelos indivíduos espiritualmente avançados. E a carne e o
leite não são sátvicos, com exceção de um pouco de leite de iaque, um bovino de
raça asiática muito diferente da vaca holandesa da indústria e do negócio da
Europa e da América.
Na Ásia e na
América indígena, assim como no Egito espiritual e noutras tradições, como a
Cabala, a compreensão da relação entre alimento e espírito é absolutamente
clara. O espírito é o espírito do alimento. O alimento tem alma.
Os xamãs dos
grupos nativos da América acreditam que tudo tem espírito. A aranha tem
espírito e a montanha tem espírito. O veado tem espírito e a águia tem
espírito. E, ao ingerir um alimento, absorve-se a «alma» do animal ou do
vegetal.
E o alimento
de origem vegetal é aquele que mais eleva espiritualmente. São os cereais. Por
isso, Jesus partiu o pão e ensinou: «Este é o meu corpo».
E os budistas
zen tomam a sua sopa de genmai, a sua comida tradicional para os retiros
espirituais com muitas horas de prática de meditação. O genmai é uma sopa de
arroz com vegetais que encarna o espírito de Buda. O arroz é o espírito de
Buda, acreditam muitos budistas.
Se um budista
for obrigado a comer carne de vaca, recusará, porque acredita que esse tipo de
comida o rebaixará espiritualmente.
Creio que é
bom considerar as coisas a partir da perspetiva destas culturas antigas, tanto
do Oriente como do Ocidente, tanto da América como da Ásia, porque nos podem
ajudar a ver as coisas sob outra perspetiva.
A América
nativa adora, endeusa, diviniza o milho. Falam do espírito do milho como falam
do espírito dos deuses. Sem milho, nenhuma grandeza espiritual.
O homem
branco, que mata e destrói, alimenta-se de corpos de animais sacrificados com
violência. Por isso é violento e destruidor. Por isso sempre foi um
predador-conquistador-açambarcador.
E despojou as
culturas nativas do seu ouro, prata e diamantes, para construir luxuosas
catedrais e palácios na Europa. Espanha, Portugal, França, Inglaterra,
Alemanha, Itália e Holanda, entre outras antigas potências militares, tiveram,
em tempos, este espírito «felino» de glorificar a carne e o leite como os
alimentos destinados a produzir nações fortes e poderosas.
E consideravam
as nações «indígenas», como a Índia e os povos nativos da América do Sul e da
América Central, fracas e facilmente subjugáveis devido à natureza da sua
alimentação, baseada em sementes.
Como a nossa
ciência tem uma forte influência do Ocidente científico e académico, os nossos
médicos e nutricionistas, os nossos profissionais da área da saúde, têm uma
convicção profunda, quase visceral, da superioridade da proteína animal.
É algo
invariável. Todos sentem nas suas entranhas que, quando faltam a carne e o
leite, se corre o risco de desnutrição. E essa forma de alimentação é aquela
que pratica a maior parte dos ocidentais. E fazem-no há centenas de anos. Já
faz parte do inconsciente coletivo.
Apesar de as
taxas de doenças degenerativas no Ocidente serem muito mais elevadas. Apesar de
existirem «evidências científicas» de que as dietas japonesas e indianas
tradicionais são muito mais convenientes, continuam a arrastar esses hábitos
dos «assados» e do pequeno-almoço com leite, manteiga e queijo.
«Não somos
chineses», não vamos tomar sopa ao pequeno-almoço. E os próprios especialistas
recomendam aos seus pacientes uma dieta baseada em lacticínios e proteínas
animais.
E esse tipo de
alimentação é precisamente aquele que acidifica o sangue e convida à
proliferação de todo o tipo de vírus, porque toda a componente hídrica do corpo
se acidifica devido à decomposição da proteína animal, numa fisiologia
basicamente herbívora.
Assim, não
podemos ter um bom estado nutricional com esse tipo de crenças e convicções.
Com essa obstinação em alimentarmo-nos com elevados níveis de proteína, é muito
difícil criar sistemas imunitários poderosos.
As leis
fisiológicas dão razão aos «nativos». Os povos nativos procuraram sempre os
alimentos que engrandecem o espírito e, consequentemente, o corpo, que é o
templo onde habita um deus.
E a história
dá-lhes razão. E continua a dar-lhes razão.
Aprenderemos,
então, com eles e criaremos um templo transbordante de saúde e beleza.