A PRÁTICA
ESPIRITUAL MACROBIÓTICA
Gérard Wenker
Nos últimos anos, vários membros bem conhecidos da comunidade macrobiótica
morreram de cancro ou de doenças degenerativas. Atualmente, vários
macrobióticos sofrem de doenças como a osteoporose ou o cancro, mesmo após
vários anos de prática.
Estou certo de que muitos membros da comunidade macrobiótica e da medicina
alternativa ficaram chocados e desagradavelmente surpreendidos ao sabê-lo. No
que me diz respeito, devo dizer que isso não me surpreendeu verdadeiramente.
Por vezes, tive ocasião de constatar, durante consultas de saúde macrobiótica,
que praticantes tinham contraído determinadas doenças, como o cancro, a
poliartrite, problemas da próstata e até doenças cardiovasculares, após mais de
vinte anos de aplicação dos princípios alimentares macrobióticos.
Tive inúmeras discussões com a comunidade macrobiótica para tentar
compreender quais eram as razões pelas quais homens e mulheres que praticavam o
modo de vida macrobiótico, tal como é atualmente ensinado, sofriam de problemas
degenerativos.
Também tenho
refletido sobre estas questões desde meados dos anos 80, quando soube, pela
primeira vez, que um amigo que praticava macrobiótica desde os anos 60 tinha
morrido de cancro do fígado. São estas reflexões que gostaria de partilhar
convosco.
Se excluirmos certos erros grosseiros devidos a uma má compreensão ou até à
ausência completa da aplicação da «Dialética Universal», que permite introduzir
flexibilidade e variedade nas orientações alimentares — por exemplo: consumir
os mesmos pratos durante todo o ano —, continuam, ainda assim, a existir casos
inexplicáveis.
Não penso que seja uma fatalidade que um ser
humano sofra, durante a sua vida, de uma doença degenerativa, qualquer que seja
a maneira como escolha viver. No entanto, estou certo de que este género de
doenças continuará necessariamente a desenvolver-se devido ao modo de vida que
prevalece atualmente. O número de infelizes que sofrem deste tipo de doenças é
assustador; trata-se, literalmente, de centenas de milhões de pessoas.
Aprendemos, durante os nossos estudos macrobióticos, que o cancro é o
estádio terminal do processo da doença. Atualmente, 10 milhões de pessoas
morrem todos os anos de cancro. Cabe-nos compreender o que a prática
macrobiótica tem em comum com o modo de vida da sociedade atual. Infelizmente,
ao longo dos seus 60 anos de atividade, a macrobiótica demonstrou que o aspeto
regime/alimentação não cura todas as doenças. Não pretendo, com isto, afirmar
que a alimentação macrobiótica é um erro e que deveria ser abandonada. Pelo
contrário, acredito que os princípios macrobióticos aplicados aos nossos
hábitos alimentares quotidianos são plenamente justificados.
No entanto, para além de uma maneira de nos alimentarmos baseada nos
princípios macrobióticos aplicados à preparação e à elaboração da nossa
alimentação quotidiana, é indispensável, para curar, mudar a totalidade da
nossa vida em todos os seus aspetos, para além dos nossos hábitos alimentares.
É necessário redefinir a nossa atitude, as nossas emoções, a nossa maneira de
pensar, o nosso conhecimento da natureza humana, a nossa visão do mundo, as
nossas relações com os nossos amigos e com a natureza, para citar apenas alguns
aspetos.
Qual foi o caminho comum percorrido pela
comunidade macrobiótica e pela sociedade em geral desde o início dos tempos
modernos da macrobiótica? É a noção de que o sistema materialista constitui a
base sobre a qual tudo se constrói. É o sentimento geral que prevalece
amplamente hoje, qualquer que seja a cor da pele, a religião, o sexo ou a
idade. Vários exemplos vêm corroborar esta ideia: «somos aquilo que comemos»,
«a impressão genética», «o átomo é a sede da matéria», «a teoria do Big Bang»,
«a origem genética do comportamento» e o facto de a biotecnologia e a biónica
introduzirem uma nova era sem envelhecimento, sem doença, na qual poderemos
clonar o melhor da raça humana, etc., etc., até à náusea.
Observando os últimos vinte anos de ensino
macrobiótico e a prática daí resultante, é evidente para mim que os princípios
e as ideias macrobióticas não foram suficientemente bem compreendidos pela
maioria dos professores. Existem, evidentemente, boas razões para isso, sendo a
principal o facto de a prática espiritual macrobiótica atualmente ensinada não
estar claramente expressa nos princípios e nas ideias macrobióticas. O «Vivere
Parvo», expresso por George Ohsawa na página 29 de «Zen Macrobiótico», não foi
compreendido nem raramente aplicado. Contudo, a frase é clara:
Se não tiverdes a vontade de viver simplesmente e com pouco, segundo o
adágio «vivere parvo», que continua a ser a chave de ouro da saúde, não podeis
nem deveis curar-vos.
O coveiro da humanidade não é, portanto, o
cancro, mas a sociedade capitalista, que assenta num consumo desenfreado de
bens materiais produzidos pelos industriais para a nossa felicidade e o nosso
prazer.
A macrobiótica tem a sua origem nos tempos
antigos, na antiga cultura indiana pré-histórica, originária do Tibete. Período
situado após a destruição da Atlântida pelo uso abusivo do poder, que provocou
um dilúvio geral. O continente da Atlântida afundou-se no mar, formando aquilo
que é atualmente o oceano Atlântico. A antiga cultura hindu era uma cultura
espiritual muito elevada; os únicos vestígios que possuímos da grandeza
espiritual dessa cultura encontram-se na Bhagavad-Gita. Nas Upanishads da Bhagavad-Gita
está escrito:
«De Brahman, que é o Si, vem o éter; do éter vem o ar, o fogo; do fogo vem
a água; da água vem a terra; da terra, a vegetação; da vegetação, o alimento; e
do alimento, o corpo do homem. O corpo do homem, composto pela essência do
alimento, é o invólucro físico do Si. Todas as criaturas nascem do alimento,
vivem do alimento e, após a morte, regressam ao alimento. O alimento é a causa
principal. É, portanto, o medicamento para todas as doenças do corpo.»
Examinando atentamente esta passagem, compreende-se que o corpo humano não
pode ser confundido com o próprio ser humano. O corpo físico que vemos com os
nossos olhos físicos não é o ser humano; é o invólucro físico do ser humano.
Esta passagem mostra igualmente que o ser humano é uma manifestação do Si, que
É Brahman. Assim, a origem física do ser humano é totalmente espiritual.
Se
prosseguirmos o nosso estudo pela antiga cultura chinesa, encontramos as
palavras de um grande filósofo, Chuang Tze:
«O Céu deu-vos uma forma, a Terra emprestou-vos um corpo, e continuais a
tagarelar...»
Esta citação
mostra claramente que o ser humano é um ser espiritual cuja forma nos foi dada
pelo Tao e cuja matéria foi fornecida pela Terra através do alimento. No I
Ching, O Livro das Mutações, um dos maiores livros antigos, comparável à
Bíblia, está escrito, no capítulo chamado Ta Chuan/O Grande Comentário:
«As duas forças fundamentais, na sua alternância e na sua ação recíproca,
servem para explicar o conjunto dos fenómenos do universo. Mas permanece algo
que não se deixa explicar por este jogo, o derradeiro “porquê”. Esta
profundidade última da VIA é o espírito, o divino, o insondável, que deve ser
adorado em silêncio.»
O luminoso é yang e a obscuridade é yin; ambos são «as forças
fundamentais». Esta passagem foi escrita há milhares de anos, por volta de 1800
a.C., e o ser humano continuou a evoluir, embora inconscientemente.
Cabe-nos agora entrar no mundo espiritual para
descobrir e compreender a nossa verdadeira herança enquanto seres espirituais.
O ser humano é constituído pelo corpo astral, por um corpo etérico e por um
corpo físico, e a realidade do corpo físico é que ele também é espiritual. O
corpo físico que vemos com os nossos olhos físicos não é, de facto, o próprio
corpo físico, como é explicado na bela frase de Rudolf Steiner: a matéria
física do nosso corpo que vemos com os nossos olhos físicos é uma expressão do
reino dos minerais e dos vegetais, mostrando que estamos perante um ser humano.
Assim, o alimento NÃO é o fundamento da nossa existência física — trata-se
antes de uma paleta de cores ou de notas para pintar ou escrever uma peça
musical, que utilizamos para moldar o nosso corpo físico e fazer dele um
instrumento para cumprir as nossas tarefas na Terra, viver o nosso karma e
realizar o nosso destino.
Mudamos a nossa alimentação para proporcionar a
nós próprios um invólucro adequado à nossa vida espiritual e cumprir o nosso
destino na Terra. No entanto, se nos alimentarmos macrobioticamente sem
dedicarmos tempo e esforço a compreender quem somos espiritualmente, isso não é
apenas uma perda de tempo: conduzirá precisamente ao contrário daquilo que
procuramos — à doença e à infelicidade.
Na Bíblia é dito que não se deve colocar vinho novo em odres velhos, pois,
ao fazê-lo, os odres velhos serão destruídos e o vinho novo perder-se-á, ou o
vinho novo será estragado pelos odres velhos. O inverso seria colocar vinho
velho em odres novos. Evidentemente, ninguém pensaria em adquirir um odre novo
para nele colocar vinho mau. Imaginemos que o nosso corpo, o invólucro físico,
é o odre e que a nossa vida espiritual é o vinho. Quando mudamos a nossa
maneira de comer para adotarmos o modo de vida e a prática macrobiótica, criamos
um novo odre. No entanto, se continuarmos a deitar nele vinho deteriorado, sob
a forma das nossas ideias habituais, dos nossos antigos conceitos (emoções,
sentimentos, atitudes, etc.), precisamente aqueles que nos foram inoculados
pela cultura materialista em que vivemos, então colocamos no nosso novo
invólucro físico (o nosso corpo) as mesmas forças destrutivas que se manifestam
na sociedade moderna materialista.
Assim, não é surpreendente que pessoas que
praticam o modo de vida macrobiótico tenham desenvolvido doenças degenerativas.
É de esperar que assim seja enquanto considerarmos os conceitos e as ideias da
ciência moderna como válidos relativamente à nossa vida espiritual — isto é,
para compreender o ser humano, o animal, o mundo vegetal e a sua origem.
Há 40 anos, tinha a esperança de que as ideias e a prática macrobióticas
encontrassem uma ampla audiência no mundo. Fui até suficientemente ingénuo para
pensar que a ciência médica moderna não teria qualquer hesitação em confirmar a
verdade da macrobiótica enquanto fundamento sólido para o desenvolvimento de um
corpo e de uma alma saudáveis e, por extensão, de uma sociedade saudável, de
uma política saudável, de uma educação saudável, de uma agricultura saudável e
de uma economia saudável.
Infelizmente, o espírito que se esconde por detrás da nossa cultura
ocidental decadente, em decomposição e árida provou que ninguém lhe conseguia
resistir, nem mesmo os macrobióticos. E o espírito do nosso mundo ocidental
decrépito é o materialismo. O que quero dizer com materialismo? O materialismo
é a noção grotesca de que tudo o que existe é aquilo que podemos contar, medir
e pesar, e de que a vida é constituída por átomos e moléculas que funcionam
segundo as leis da física e da química.
O materialismo insiste, entre outras coisas, no
facto de que a totalidade do ser humano É o corpo físico. Surgem, assim,
ideias tão estúpidas como «alicamentos e medicalimentos», a «base química das
emoções» ou ainda a «base genética da vida». São conceitos ilusórios e
completamente errados.
Assim, o movimento macrobiótico desvaneceu-se e autodestruiu-se porque, na
sua maioria, os macrobióticos não mudaram o seu estado de espírito; não
praticaram qualquer autorreflexão e o resultado foi terem sido contaminados
pelo espírito materialista. Foi por isso que sofreram das mesmas doenças
degenerativas que afetam a maioria dos indivíduos que vivem nesta sociedade.
Além disso, durante os últimos 50 anos, a crescente atração da população
pelo materialismo levou-a a fechar o coração, e cada vez menos pessoas se
sentiram atraídas pelo modo de vida macrobiótico; o seu lugar foi ocupado pelos
grossistas de suplementos alimentares, vitaminas e oligoelementos, produtos
fitoterápicos, antioxidantes, spirulina, ímanes, alimentos de soja, etc., etc.
Se aplicarmos a nossa compreensão do yin e do yang e da teoria das cinco
transformações à arte da cozinha, se prepararmos nós próprios as nossas
refeições, se tivermos reconhecimento pelo alimento, se praticarmos o
autodiagnóstico para que os princípios funcionem, se fizermos tudo isto E
MUDARMOS a nossa maneira de pensar para nos libertarmos das ilusões do
materialismo, então poderemos curar-nos de qualquer sintoma, de qualquer
doença, degenerativa ou não.
Não podemos livrar-nos da doença por qualquer meio — o facto é que o nosso
corpo está sujeito às forças da doença e estaremos sujeitos a essas forças
enquanto tivermos um corpo físico. No entanto, as forças de cura estão à nossa
disposição porque somos seres espirituais. Espero que tenham compreendido que,
enquanto pensarmos e agirmos «materialmente, nunca poderemos verdadeiramente
curar-nos».
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