Batch
cooking/ meal prep:
é saudável?
Agnès Pérez
Resumo
O texto aborda
o método batch cooking, que consiste em preparar as refeições da semana
num único dia ou em poucas sessões de cozinha, apresentando diferentes
perspetivas sobre as suas vantagens e limitações.
O batch
cooking é uma solução prática para quem tem pouco tempo para cozinhar
diariamente. Destaca a importância da organização, da elaboração de uma lista
de compras e do planeamento de um menu semanal equilibrado, rico em legumes,
fruta, cereais integrais e fontes de proteína. Salienta ainda que cozinhar em
grandes quantidades e congelar refeições permite poupar tempo, reduzir o
consumo de alimentos ultraprocessados e manter uma alimentação mais saudável.
A autora
defende que a verdadeira alimentação saudável passa pela confeção diária de
refeições com alimentos frescos, valorizando não só os nutrientes, mas também a
chamada "energia vital" dos alimentos. Na sua perspetiva, cozinhar
todos os dias contribui para preservar a qualidade nutricional e energética das
refeições, enquanto os alimentos congelados, pré-cozinhados ou reaquecidos
perdem parte dessas propriedades.
Alternativas
ao batch cooking tradicional: Em vez de cozinhar toda a semana de uma só
vez, propõe organizar a despensa, planear as refeições e cozinhar pequenas
quantidades de dois em dois dias. Sugere preparar previamente alguns alimentos,
como leguminosas, caldos, cereais, molhos e patés para barrar, recorrendo
apenas ocasionalmente à congelação. A autora considera que esta estratégia
permite manter a frescura dos alimentos, promover uma alimentação mais
consciente e transformar a cozinha numa atividade benéfica para a saúde e para
o bem-estar.
Assim:
planeamento das refeições é essencial para uma alimentação equilibrada - a
confeção semanal ou a congelação como forma de ganhar tempo, privilegiando a
confeção mais frequente de alimentos frescos, é a mais vantajosa para a saúde e
para a vitalidade.
~~~~~~~~~~~~~~~~~~
texto
O batch
cooking está na moda, mas será saudável? Neste artigo, partilho a minha
opinião, baseada em vários anos de observação.
O poder e a energia da comida
caseira preparada diariamente
As pessoas da
minha geração ainda se lembram do aroma dos pratos preparados pela nossa mãe e
pelas nossas avós, todos os dias, com um amor imenso. O meu pai incutiu-nos a
ideia de que a refeição em família era sagrada, porque era o momento em que
todos podíamos estar juntos e partilhar o nosso dia.
Quando
chegávamos a casa depois da escola, corríamos para a cozinha para ver o que
havia para o almoço e, claro, também para descobrir se era um prato de que
gostávamos ou se, pelo contrário, nos tinha calhado aquele que nem conseguíamos
comer. A minha mãe preparava todos os dias refeições diferentes, feitas com
alimentos frescos, que eram consumidas logo após serem confecionadas.
Nada de
refeições prontas compradas no supermercado. Nada de comida feita há vários
dias e reaquecida. Nada de televisão ou computador à mesa. Comíamos um pouco de
tudo, com muitos legumes e hortícolas, sem produtos desnecessários. Em casa não
havia refrigerantes, guloseimas nem bolos industriais, exceto em ocasiões muito
especiais. A minha mãe fazia um bolo caseiro uma vez por semana e levávamos
para a escola fruta ou uma pequena sandes para o intervalo.
E isto apesar
de eu pertencer a uma geração de transição. Digo de transição porque já
consumíamos pão branco, massa e arroz refinados, demasiado açúcar e muitos
produtos lácteos. Ainda assim, transbordávamos de energia. Parecia que
conseguíamos conquistar o mundo e a maioria dos meus amigos e eu estávamos
sempre em movimento: conciliávamos os estudos com o desporto e ainda tínhamos
energia para festas onde dançávamos durante horas. Que vitalidade! Tenho a
certeza de que os guisados e os pratos de arroz da minha mãe contribuíam muito
para essa energia, alimentando-nos com refeições acabadas de fazer, fumegantes
e cheias de sabor.
As dinâmicas
familiares mudaram muito ao longo do último meio século. Atualmente, muitas
mães trabalham fora de casa e, a menos que exista uma verdadeira partilha de
tarefas entre os membros do casal — assumindo que não se trata de uma família
monoparental —, conciliar uma jornada de trabalho de 40 horas semanais com as
tarefas domésticas e a educação dos filhos pode ser extremamente desgastante.
A
indústria da comida rápida e dos alimentos ultraprocessados sabe disso e
aproveita-se da situação, oferecendo uma enorme variedade de refeições prontas,
enlatadas, congeladas ou embaladas a vácuo. Quem chega a casa cansado recorre
frequentemente a estas soluções, porque não tem vontade de cozinhar depois de
um dia de trabalho ou simplesmente porque não dispõe de tempo suficiente, uma
vez que existem muitas outras prioridades. Então, para quê… …ao máximo as
jornadas de trabalho?
Para quê cozinhar?
Existe uma
grande diferença entre nutrirmo-nos e alimentarmo-nos.
Se encararmos
a nutrição apenas em termos de calorias ou de nutrientes essenciais, desde que
a alimentação siga os princípios da alimentação saudável, quase tudo parece
servir. No entanto, isso deixa de ser verdade quando entendemos a nutrição como
uma fonte de energia, para além dos nutrientes e das calorias.
A energia
vital primária de um alimento está mais presente quanto mais fresco, integral e
recentemente confecionado ele for. Além disso, consoante a técnica de confeção
utilizada, os alimentos fornecem diferentes tipos de energia.
Os alimentos
frescos, acabados de colher e, de preferência, provenientes de agricultura
biológica, apresentam um valor nutricional superior. Contêm maiores quantidades
de matéria seca, proteínas, minerais, vitaminas e outros componentes benéficos
quando comparados com os alimentos produzidos por métodos convencionais.
Todos estes
aspetos foram analisados, documentados e avaliados com rigor pela Dra. Dolores
Raigón num estudo publicado pela Junta da Andaluzia.
Se quisermos
utilizar a alimentação diária como uma ferramenta para manter a saúde, prevenir
doenças e potenciar a nossa energia vital, devemos ter em conta outros aspetos
para além do simples consumo de legumes, frutas e alimentos biológicos, embora
estes já contribuam para um maior aporte de nutrientes e uma menor ingestão de
substâncias tóxicas.
Substituir um
alimento pré-cozinhado ou refinado por outro semelhante, mas de origem
biológica, não faz grande sentido quando o estado de saúde e a vitalidade são
reduzidos. Da mesma forma, trocar uma refeição pronta de um supermercado
convencional por outra preparada e embalada numa loja de produtos biológicos
continua a significar consumir alimentos pobres em energia vital. Recuperar,
manter e reforçar a vitalidade exige dedicação diária à cozinha, porque
cozinhar todos os dias proporciona energia real, frescura e uma verdadeira
sensação de nutrição. Cozinhar é assumir o controlo da nossa saúde e recuperar
o poder de decidir aquilo de que realmente necessitamos, através da escolha dos
alimentos que compõem o nosso menu, da forma como os cortamos, combinamos e
confecionamos, para aproveitarmos os seus nutrientes e a energia que queremos e
precisamos de criar, contribuindo assim para o nosso bem-estar.
O que é o batch cooking?
Atualmente,
tornou-se muito popular o conceito de batch cooking: cozinhar, em apenas
duas horas, as refeições para toda a semana. Era precisamente aquilo que muitas
pessoas trabalhadoras, ou menos dadas à cozinha, desejavam para se organizarem
melhor, passarem menos tempo a cozinhar e continuarem a preparar refeições
económicas. À primeira vista, a ideia parece prática e apelativa: cozinhar
grandes quantidades, congelá-las em recipientes individuais e ir descongelando
as doses ao longo da semana, utilizando o micro-ondas ou aquecendo-as antes de
servir. Estas refeições podem ser levadas para o trabalho ou ficar prontas para
quando se chega a casa cheio de fome. É evidente que esta solução é preferível
à compra de refeições industriais ultraprocessadas, pois é muito mais económica
e permite escolher ingredientes de qualidade, como cereais integrais,
leguminosas, legumes e hortícolas.
Atualmente,
praticamente todos os sites e revistas dedicados à alimentação saudável têm
artigos sobre o batch cooking, também conhecido por meal prep,
explicando como o praticar corretamente e incentivando à congelação de porções
de cereais integrais, hambúrgueres de leguminosas, guisados, sopas, cremes e
até legumes, como forma de facilitar uma alimentação considerada equilibrada e
saudável.
Para a autora,
porém, isto representa um atentado às qualidades dos alimentos frescos.
O batch
cooking é, sem dúvida, mais saudável do que encomendar comida rápida ou
pedir uma pizza. É também um primeiro passo para reduzir o consumo de alimentos
processados e de fraca qualidade.
No entanto…
·
Sabia que os alimentos congelados e posteriormente aquecidos no micro-ondas
podem enfraquecer o sistema digestivo? É importante compreender que a energia
transmitida aos alimentos durante a confeção é a mesma que, simbolicamente, irá
transformar a nossa condição física e mental.
·
O que lhe transmite um alimento congelado quando o observa?
O que sente ao tocar no gelo?
·
Que sensações — visuais, olfativas e gustativas — lhe desperta um alimento
acabado de cozinhar?
·
E que sensações lhe provoca esse mesmo alimento depois de ter sido
descongelado?
·
É certo que, depois de aquecido, a perceção muda. Contudo, a energia
resultante do processo de cozinhar, congelar, descongelar e voltar a aquecer é aquela
que o organismo absorve. E essa energia é fria. Muito fria.
·
Conhecer a energia dos alimentos e dos diferentes métodos de confeção é
considerado essencial para regular o organismo.
·
Conhecer a nossa condição física, compreender a nossa natureza e respeitar
as necessidades do corpo e da mente é igualmente fundamental para praticarmos
uma alimentação consciente. Alimentar-se conscientemente significa compreender
o impacto que a alimentação, o estilo de vida e os pensamentos têm sobre o
nosso organismo e decidir, de forma livre, se queremos ou não esses efeitos.
·
Tem tendência para sentir frio? Sente-se frequentemente cansado ou com
pouca energia? Tem a sensação de estar bloqueado nos seus projetos pessoais ou
na sua vida? Se respondeu afirmativamente, a autora aconselha a evitar
alimentos congelados até recuperar a vitalidade, sentir-se confortável mesmo
durante o inverno e estabilizar o chamado «fogo digestivo».
·
Os alimentos considerados frios também podem enfraquecer os rins e o
sistema reprodutor. Por isso, é importante manter a zona lombar e o baixo
ventre quentes, favorecendo uma energia ativa, fluida e uma maior vitalidade
sexual e criativa.
·
Congelar legumes — considerados alimentos de natureza muito «yin», ou seja,
refrescantes — e seguir simultaneamente uma alimentação vegetariana ou vegana
baseada no batch cooking, embora os efeitos possam não ser percetíveis a
curto prazo, deixa-se aqui este alerta, mesmo reconhecendo que possa contrariar
a ideia atrativa de preparar todas as refeições da semana em apenas duas horas.
Então, como me posso organizar para
continuar a alimentar-me de forma saudável sem arrefecer nem enfraquecer o meu
organismo?
O primeiro
passo é organizar os seus menus e as compras, de modo a que a despensa tenha
sempre vários cereais integrais, leguminosas, diferentes legumes da época —
como cebolas, alhos-franceses, cenouras, nabos, couves, abóbora, legumes de
folha verde e saladas —, fruta fresca, frutos secos, sementes de sésamo e
outras sementes, pastas de sementes, como o tahini, algas, um bom azeite virgem
extra obtido por prensagem a frio, bolachas de arroz, pão integral de
fermentação natural produzido de forma artesanal, alguns condimentos, como
ervas aromáticas e miso, um adoçante natural, como o melaço ou geleia/malte de
arroz/cevada/…, amasake, bebidas vegetais, chás, infusões naturais e tudo
aquilo de que gostar.
Os alimentos
mais perecíveis deverão ser comprados semanalmente. Já sabe que os legumes
colhidos recentemente conservam-se durante muito mais tempo do que aqueles que
viajaram longas distâncias e permaneceram armazenados em câmaras frigoríficas.
Pode, por
exemplo, organizar-se ao domingo à tarde.
·
Comece por preparar uma base de caldo de legumes e um cereal, renovando-a,
no máximo, de dois em dois dias. Se cozinhar ao domingo e voltar a fazê-lo na
terça ou quarta-feira, não precisará de dedicar tanto tempo e poderá aproveitar
esse momento para preparar cereais de confeção rápida, como millet,
trigo-sarraceno, massa ou cuscuz, garantindo refeições até quinta-feira.
Depois, terá novamente o fim de semana pela frente.
Será assim tão
exigente dedicar quatro momentos por semana, de cerca de hora e meia cada um, à
cozinha? Na opinião da autora, trata-se de um investimento necessário para nos
concentrarmos naquilo que realmente importa: a nossa saúde e a das pessoas com
quem partilhamos a vida. É uma forma de nos reconectarmos com o essencial.
·
No primeiro dia, reserve uma porção de cereal integral para preparar papas
(porridge) ao pequeno-almoço. Ao almoço, acompanhe-o com legumes
salteados e, com o que sobrar, pode preparar sushi ou croquetes.
·
Se tiver muito pouco tempo, pode recorrer ao chamado método de «cozedura
angélica» para os cereais. Esta técnica permite conservá-los durante várias
semanas à temperatura ambiente, evitando que absorvam frio.
·
Prepare também uma boa quantidade de leguminosas e faça conservas.
·
Confecione dois patês, uma pasta para barrar que possa durar toda a semana
(com alho, alcaparras ou azeitonas, ingredientes que ajudam à conservação),
dois molhos para saladas (com mostarda ou tamari, que também possuem
propriedades conservantes), pão Ohsawa para os lanches, bolachas ou outros
doces de preparação rápida.
·
Congelar refeições apenas ocasionalmente e voltar a cozinhá-las durante,
pelo menos, 20 a 30 minutos, ou aquecê-las em confeções de temperatura elevada,
como no forno, não constitui um problema grave. Embora seja preferível evitar a
congelação, reconhece-se que, para algumas pessoas, esta prática é necessária
para melhor gerir o tempo. Também os pratos mais trabalhosos, como a lasanha,
podem ser preparados em maior quantidade e congelados em doses individuais para
consumo posterior.
A decisão cabe
a cada pessoa, tendo em conta aquilo que leu e o que considera mais adequado às
suas necessidades.
Quando a mente
está lúcida e o corpo cheio de vitalidade, organizar o dia a dia torna-se
simples e natural. Nessa altura, cozinhar deixa de ser uma obrigação pesada e
pode mesmo transformar-se numa atividade relaxante e fonte de bem-estar.
© Artigo escrito por Agnès Pérez.

No comments:
Post a Comment