CALANDIVA
Miguel Boieiro
Leitor amigo enviou-me o
interessante texto “Las plantas medicinales olvidadas” da autoria de José Luís
Berdonces, médico naturista e fitoterapeuta, considerado um dos principais
especialistas espanhóis. O Dr. Berdonces, que leciona na Universidade de Barcelona,
é autor de valiosas obras sobre fitoterapia, entre as quais, destacamos um
volumoso dicionário ilustrado sobre mais de 1300 plantas com propriedades
medicinais comprovadas.
No texto acima referido a minha atenção concentrou-se na parte que aborda o género Kalanchoe, abrangendo cerca de 170 espécies detendo singulares qualidades causadoras de admiração. Menciono, por exemplo, que o seu desenvolvimento vegetativo não necessita de sementes para a reprodução. De facto, nos bordos das folhas surgem botões adventícios que originam pequenas plântulas. Estes bolbilhos, providos de raízes, caules e folhas, ao caírem no solo, rapidamente dão lugar a novas plantas adultas. A curiosa particularidade ilustra bem a versatilidade do reino vegetal. Conta-se que o poeta Goethe ao observar as plantinhas que brotavam nos bordos da folhagem da planta-mãe, ficou de tal maneira fascinado que passou a referenciar o facto em alguns dos seus escritos.
Analisemos então a Kalanchoe pinnata, ou Bryophyllum pinnatum, pertencente à família das Crassulaceae, talvez a kalanchoe mais conhecida, mormente como planta ornamental. Ela tem sido demoradamente estudada por especialistas da botânica e de outras áreas científicas mas, as investigações, devido à sua complexidade, não se encontram ainda concluídas. Julga-se que a planta é oriunda da África Tropical, sendo nativa na ilha de Madagáscar. Popularmente é conhecida por variados nomes: folha-da-fortuna, folha-do-ar, mãe-de-muitos, saião, coirama, bruxa, capim-tartaruga, silaba, folha-viva, sempreviva, calandiva (este último termo foi o escolhido para título da presente croniqueta).
É uma herbácea perene que
gosta de terrenos soltos bem drenados e muita luz mas, não se desenvolve face a
temperaturas inferiores a 10 graus. Por ser uma espécie suculenta acumula água,
não necessitando de regas frequentes.
Possui caule cilíndrico, oco e carnudo que nas regiões tropicais chega a ultrapassar 1 metro de altura. As folhas, de um verde escuro, são grossas e opostas, tendo margens dentadas donde brotam os tais propágulos. A inflorescência terminal fica disposta em panículas com bastantes flores hermafroditas pendentes, geralmente vermelhas.
Na composição química
foram apurados ácidos orgânicos (málicos, oxálicos, cítricos e outros),
flavonoides, glicosídeos, alcaloides, taninos, etc.
Os estudos clínicos comprovaram várias propriedades medicinais com efeitos analgésicos, anti-bacterianos, antibióticos, antissépticos, anti-alérgicos, anti-inflamatórios, anti-histamínicos …
Berdonces refere que a planta é amplamente utilizada na medicina tradicional das diversas regiões tropicais para tratar dores de cabeça, resfriados, tosse, febres, asma, cicatrização de feridas e demais transtornos cutâneos. Em uso tópico aplicam-se cataplasmas ou suco das folhas para queimaduras, úlceras e dores musculares. Adverte contudo que, devido a alguns componentes algo tóxicos, não convém usar doses concentradas ou consumos contínuos para grávidas, doentes cardíacos e hepáticos, sem supervisão médica.
Setembro de 2026, Miguel Boieiro
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