Thursday, July 30, 2026

 

OS PERIGOS DA MACROBIÓTICA

Daniel Mayor – ESMACA (2018)

É natural que este título o surpreenda num blogue de uma escola macrobiótica: "Os perigos da Macrobiótica". Pois é, eles existem.

Deixe-me contar-lhe um pouco da história da Macrobiótica e, em seguida, responder a algumas das perguntas que mais frequentemente me colocam sobre os seus alegados perigos.

Há muitos, muitos anos, Georges Ohsawa tornou-se conhecido por divulgar uma filosofia a que deu o nome de Macrobiótica. O seu objetivo era encontrar uma forma de ajudar o ser humano a ser mais feliz e, simultaneamente, contribuir para o restabelecimento da paz no mundo — numa época marcada por numerosos conflitos bélicos.

Esta filosofia defendia que a forma como nos alimentamos desempenha um papel fundamental na nossa saúde e que, para alcançarmos uma vida mais feliz, é necessário recuperar o equilíbrio perdido através da doença.

Muitas pessoas começaram a seguir os seus ensinamentos e algumas delas verificaram, quase "milagrosamente", que muitas das suas doenças desapareciam ou melhoravam significativamente. Isso fez com que a Macrobiótica passasse a ser conhecida como "a dieta que cura doenças".

Com o passar do tempo, esta ideia foi-se consolidando e atingiu o seu auge durante a década de 1980, quando a Macrobiótica passou a ser popularmente identificada como "a dieta anticancro".

Naturalmente, muitas pessoas sentiram-se atraídas por esta promessa. Infelizmente, alguns dos que ensinavam Macrobiótica acabaram por a apresentar como uma verdadeira "dieta milagrosa".

É evidente que, tal como houve muitas pessoas que melhoraram a sua saúde, também houve outras que não obtiveram qualquer benefício ou até agravaram o seu estado de saúde. Tudo isto contribuiu para que a Macrobiótica adquirisse uma imagem simultaneamente milagrosa e perigosa.

Com este artigo gostaria de esclarecer algumas dúvidas sobre a Macrobiótica, segundo a perspetiva da ESMACA, para que fique claro que a nossa abordagem é plenamente saudável e, de modo algum, perigosa.

Em que consiste a alimentação macrobiótica? É nutricionalmente equilibrada?

A Macrobiótica promove o consumo de cereais integrais, legumes, verduras, sementes, frutos secos, algas e alimentos fermentados como base da alimentação, em proporções equilibradas do ponto de vista nutricional e que, segundo os ensinamentos orientais, favorecem a manutenção da saúde.

Em determinadas situações, pode igualmente ser recomendado o consumo de alimentos de origem animal como complemento da alimentação.

Na Macrobiótica não recomendamos o consumo excessivo de açúcar, álcool, leite, produtos lácteos nem alimentos ultraprocessados.

Cada pessoa é livre de escolher a quantidade e a frequência com que os consome, desde que se encontre em boas condições de saúde.

A alimentação é organizada de forma a fornecer todos os nutrientes necessários.

Se uma pessoa apresentar alguma deficiência nutricional que não possa ser corrigida através da alimentação, recomendamos sempre que consulte um médico ou nutricionista.

Para nós, a informação que transmitimos sobre Macrobiótica constitui um complemento a uma alimentação saudável e não contradiz, de forma alguma, os princípios científicos atualmente aceites relativamente à nutrição.

A Macrobiótica consiste apenas em comer arroz integral?

Grande parte da informação que se encontra sobre Macrobiótica e que afirma tratar-se de uma alimentação desequilibrada resulta de uma má interpretação.

Essa ideia nasceu porque algumas pessoas praticavam aquilo que se designava por Dieta Número 7, uma forma de alimentação semelhante a um jejum, realizada apenas durante poucos dias, sempre sob supervisão, e baseada exclusivamente no consumo de arroz integral.

Essa prática nunca foi pensada para ser seguida diariamente.

Na ESMACA, não recomendamos este tipo de dieta a nenhum dos nossos alunos.

A Macrobiótica é recomendável para crianças e mulheres grávidas?

Naturalmente.

É necessário ter em consideração que as suas necessidades nutricionais são diferentes, pelo que as proporções dos alimentos devem ser adaptadas a cada caso.

Mais uma vez, quando se afirma que a Macrobiótica não é adequada para estas pessoas, geralmente está a fazer-se referência à antiga Dieta Número 7 e não à alimentação macrobiótica equilibrada.

A Macrobiótica baseia-se em conceitos pouco científicos, como o Yin e Yang ou a energia dos alimentos?

Sim.

Se tiver uma mentalidade exclusivamente científica, estes conceitos poderão parecer-lhe estranhos.

No entanto, convém lembrar que, durante milhares de anos, tanto no Oriente como no Ocidente, as pessoas alimentavam-se sem conhecer os hidratos de carbono, as proteínas ou as gorduras.

É evidente que hoje sabemos muito mais graças ao conhecimento científico, o que representa um enorme progresso.

Contudo, consideramos que este conhecimento ancestral também não deve ser descartado, porque ajuda a compreender diversos fenómenos, como, por exemplo, os desejos alimentares ou o facto de determinados alimentos, aparentemente muito nutritivos, deixarem de nos fazer sentir bem.

Outras disciplinas, como a acupunctura, o shiatsu e diversas terapias complementares, assentam nestes mesmos princípios e têm ajudado muitas pessoas a melhorar a sua saúde e qualidade de vida.

A Macrobiótica é uma seita?

A Macrobiótica é uma filosofia baseada em conceitos orientais, existindo diferentes interpretações da mesma.

Se alguém utilizar a Macrobiótica para criar uma seita ou formar seguidores fanáticos, isso nada tem a ver com os seus verdadeiros ensinamentos.

Na realidade, a Macrobiótica promove a liberdade e o princípio do NON CREDO, isto é, a necessidade de experimentar continuamente, observar por si próprio e não aceitar dogmas impostos do exterior.

Assim, qualquer utilização sectária representa apenas um mau uso da filosofia, tal como poderia acontecer com a Bíblia ou com os ensinamentos de Buda.

A Macrobiótica pode provocar desidratação?

Na Macrobiótica recomenda-se beber água quando existe sede, preferencialmente fora das refeições, para permitir que os sucos digestivos desempenhem adequadamente a sua função.

A Macrobiótica pode provocar carências de vitamina B12, cálcio ou proteínas?

Se a pessoa já apresentar alguma deficiência, deve consultar um médico para identificar a sua origem.

Caso contrário, estes nutrientes encontram-se presentes nos alimentos anteriormente referidos, pelo que não existe motivo para que ocorram carências quando a alimentação é corretamente planeada.

O consumo de algas pode provocar problemas da tiroide ou intoxicação por arsénio?

Na Macrobiótica, as algas são consumidas em quantidades muito reduzidas e devidamente cozinhadas, pelo que o risco de intoxicação por arsénio é considerado inexistente.

Se uma pessoa tiver problemas de tiroide ou apresentar risco de os desenvolver, pode simplesmente evitar o consumo de algas caso verifique que estas lhe provocam algum problema.

A Macrobiótica é contra a Medicina e a Ciência?

A Macrobiótica não deve ser encarada como uma alternativa à medicina convencional.

Pelo contrário, deve ser vista como um complemento que pode contribuir para melhorar a saúde e a vitalidade, tendo em conta os resultados observados em muitos alunos.

Sempre que exista um problema de saúde, a primeira atitude deve ser consultar o médico.

A Medicina e a Ciência da Nutrição realizaram enormes progressos e continuam a evoluir, não existindo qualquer incompatibilidade entre esses conhecimentos e uma alimentação macrobiótica.

Afinal, a Macrobiótica é uma alimentação perigosa?

Pode sê-lo, se for interpretada e aplicada de forma incorreta, conduzindo a desequilíbrios nutricionais.

É precisamente por isso que existem escolas dedicadas ao seu ensino.

Circula muita informação na Internet que poderá não corresponder às necessidades específicas de cada pessoa.

Por esse motivo, antes de iniciar qualquer dieta apenas porque leu um livro ou encontrou testemunhos sobre os benefícios da Macrobiótica, aconselho-o a procurar o acompanhamento de um profissional experiente, sobretudo se tiver algum problema de saúde.

Se necessitar de mais informações, poderá contactar-nos através do correio eletrónico da ESMACA.

Se tiver outras dúvidas sobre este tema, deixe um comentário no blogue. Terei todo o gosto em responder.

Daniel Mayor

Comentário

(Inteligência Artificial)

Considero este um dos textos mais sensatos publicados por uma escola de Macrobiótica nos últimos anos. Daniel Mayor procura afastar-se tanto do entusiasmo excessivo como do alarmismo, defendendo uma visão da Macrobiótica como um sistema alimentar e uma filosofia de vida, e não como uma terapia milagrosa.

Merecem destaque vários aspetos positivos:

  • Recupera o verdadeiro objetivo de Georges Ohsawa, que nunca foi apenas ensinar uma dieta, mas promover uma filosofia de vida orientada para a liberdade, a felicidade e a paz.
  • Desmistifica a antiga Dieta n.º 7, frequentemente confundida com a alimentação macrobiótica quotidiana e responsável por muitas críticas feitas à Macrobiótica.
  • Afirma claramente que a Macrobiótica não substitui a Medicina nem o acompanhamento médico, posição hoje partilhada pela maioria das escolas macrobióticas sérias.
  • Reforça um dos princípios fundamentais de Ohsawa: o NON CREDO, ou seja, não acreditar cegamente em dogmas, mas experimentar, observar e tirar conclusões pela própria experiência.

Existem, contudo, alguns pontos que podem ser enriquecidos à luz do conhecimento atual.

Por exemplo, afirmar que uma alimentação macrobiótica equilibrada "não provoca carências de vitamina B12" é uma simplificação excessiva. Atualmente sabe-se que a vitamina B12 deve ser monitorizada em pessoas que seguem padrões alimentares predominantemente vegetais e, quando necessário, suplementada. Essa recomendação não contradiz a filosofia macrobiótica; pelo contrário, traduz a atitude de observação e adaptação defendida pelo próprio Ohsawa.

Também a questão das algas merece hoje uma abordagem mais prudente. Consumidas em pequenas quantidades e escolhidas com critério, continuam a ser alimentos muito interessantes. Contudo, algumas espécies podem apresentar teores elevados de iodo ou acumular metais pesados, razão pela qual importa conhecer a sua origem e variar o seu consumo.

Em síntese, este artigo representa aquilo que muitos praticantes defendem atualmente: uma Macrobiótica moderna, aberta ao diálogo com a ciência, respeitadora da liberdade individual e centrada na educação alimentar, e não no fanatismo ou em promessas de cura universal. É precisamente esta visão equilibrada que poderá contribuir para uma melhor compreensão pública da Macrobiótica, preservando o seu legado filosófico sem ignorar os conhecimentos científicos contemporâneos.

 

No comments:

Post a Comment

  A DOENÇA VEM DA ALIMENTAÇÃO Georges Ohsawa A doença vem da alimentação, e a escolha da nossa alimentação depende da nossa compreensão....