OS PERIGOS
DA MACROBIÓTICA
Daniel Mayor –
ESMACA (2018)
É natural que este título o surpreenda num blogue de uma escola
macrobiótica: "Os perigos da Macrobiótica". Pois é, eles
existem.
Deixe-me
contar-lhe um pouco da história da Macrobiótica e, em seguida, responder a
algumas das perguntas que mais frequentemente me colocam sobre os seus alegados
perigos.
Há muitos, muitos anos, Georges Ohsawa tornou-se conhecido por divulgar uma
filosofia a que deu o nome de Macrobiótica. O seu objetivo era encontrar
uma forma de ajudar o ser humano a ser mais feliz e, simultaneamente,
contribuir para o restabelecimento da paz no mundo — numa época marcada por
numerosos conflitos bélicos.
Esta filosofia defendia que a forma como nos alimentamos desempenha um
papel fundamental na nossa saúde e que, para alcançarmos uma vida mais feliz, é
necessário recuperar o equilíbrio perdido através da doença.
Muitas pessoas começaram a seguir os seus ensinamentos e algumas delas
verificaram, quase "milagrosamente", que muitas das suas doenças
desapareciam ou melhoravam significativamente. Isso fez com que a Macrobiótica
passasse a ser conhecida como "a dieta que cura doenças".
Com o passar do tempo, esta ideia foi-se consolidando e atingiu o seu auge
durante a década de 1980, quando a Macrobiótica passou a ser popularmente
identificada como "a dieta anticancro".
Naturalmente, muitas pessoas sentiram-se atraídas por esta promessa.
Infelizmente, alguns dos que ensinavam Macrobiótica acabaram por a apresentar
como uma verdadeira "dieta milagrosa".
É evidente
que, tal como houve muitas pessoas que melhoraram a sua saúde, também houve
outras que não obtiveram qualquer benefício ou até agravaram o seu estado de
saúde. Tudo isto contribuiu para que a Macrobiótica adquirisse uma imagem
simultaneamente milagrosa e perigosa.
Com este
artigo gostaria de esclarecer algumas dúvidas sobre a Macrobiótica, segundo a
perspetiva da ESMACA, para que fique claro que a nossa abordagem é
plenamente saudável e, de modo algum, perigosa.
Em que consiste a alimentação
macrobiótica? É nutricionalmente equilibrada?
A Macrobiótica promove o consumo de cereais integrais, legumes,
verduras, sementes, frutos secos, algas e alimentos fermentados como base
da alimentação, em proporções equilibradas do ponto de vista nutricional e que,
segundo os ensinamentos orientais, favorecem a manutenção da saúde.
Em determinadas situações, pode igualmente ser recomendado o consumo de
alimentos de origem animal como complemento da alimentação.
Na Macrobiótica não recomendamos o consumo excessivo de açúcar, álcool,
leite, produtos lácteos nem alimentos ultraprocessados.
Cada pessoa é livre de escolher a quantidade e a frequência com que os
consome, desde que se encontre em boas condições de saúde.
A alimentação é organizada de forma a fornecer todos os nutrientes
necessários.
Se uma pessoa apresentar alguma deficiência nutricional que não possa ser
corrigida através da alimentação, recomendamos sempre que consulte um médico ou
nutricionista.
Para nós, a
informação que transmitimos sobre Macrobiótica constitui um complemento a uma
alimentação saudável e não contradiz, de forma alguma, os princípios
científicos atualmente aceites relativamente à nutrição.
A Macrobiótica consiste apenas em
comer arroz integral?
Grande parte da informação que se encontra sobre Macrobiótica e que afirma
tratar-se de uma alimentação desequilibrada resulta de uma má interpretação.
Essa ideia nasceu porque algumas pessoas praticavam aquilo que se designava
por Dieta Número 7, uma forma de alimentação semelhante a um jejum,
realizada apenas durante poucos dias, sempre sob supervisão, e baseada
exclusivamente no consumo de arroz integral.
Essa prática nunca foi pensada para ser seguida diariamente.
Na ESMACA,
não recomendamos este tipo de dieta a nenhum dos nossos alunos.
A Macrobiótica é recomendável para
crianças e mulheres grávidas?
Naturalmente.
É necessário ter em consideração que as suas necessidades nutricionais são
diferentes, pelo que as proporções dos alimentos devem ser adaptadas a cada
caso.
Mais uma vez,
quando se afirma que a Macrobiótica não é adequada para estas pessoas,
geralmente está a fazer-se referência à antiga Dieta Número 7 e não à
alimentação macrobiótica equilibrada.
A Macrobiótica baseia-se em
conceitos pouco científicos, como o Yin e Yang ou a energia dos alimentos?
Sim.
Se tiver uma mentalidade exclusivamente científica, estes conceitos poderão
parecer-lhe estranhos.
No entanto, convém lembrar que, durante milhares de anos, tanto no Oriente
como no Ocidente, as pessoas alimentavam-se sem conhecer os hidratos de
carbono, as proteínas ou as gorduras.
É evidente que hoje sabemos muito mais graças ao conhecimento científico, o
que representa um enorme progresso.
Contudo, consideramos que este conhecimento ancestral também não deve ser
descartado, porque ajuda a compreender diversos fenómenos, como, por exemplo,
os desejos alimentares ou o facto de determinados alimentos, aparentemente
muito nutritivos, deixarem de nos fazer sentir bem.
Outras
disciplinas, como a acupunctura, o shiatsu e diversas terapias complementares,
assentam nestes mesmos princípios e têm ajudado muitas pessoas a melhorar a sua
saúde e qualidade de vida.
A Macrobiótica é uma seita?
A Macrobiótica é uma filosofia baseada em conceitos orientais, existindo
diferentes interpretações da mesma.
Se alguém utilizar a Macrobiótica para criar uma seita ou formar seguidores
fanáticos, isso nada tem a ver com os seus verdadeiros ensinamentos.
Na realidade, a Macrobiótica promove a liberdade e o princípio do NON
CREDO, isto é, a necessidade de experimentar continuamente, observar por si
próprio e não aceitar dogmas impostos do exterior.
Assim,
qualquer utilização sectária representa apenas um mau uso da filosofia, tal
como poderia acontecer com a Bíblia ou com os ensinamentos de Buda.
A Macrobiótica pode provocar
desidratação?
Na
Macrobiótica recomenda-se beber água quando existe sede, preferencialmente fora
das refeições, para permitir que os sucos digestivos desempenhem adequadamente
a sua função.
A Macrobiótica pode provocar
carências de vitamina B12, cálcio ou proteínas?
Se a pessoa já apresentar alguma deficiência, deve consultar um médico para
identificar a sua origem.
Caso
contrário, estes nutrientes encontram-se presentes nos alimentos anteriormente
referidos, pelo que não existe motivo para que ocorram carências quando a
alimentação é corretamente planeada.
O consumo de algas pode provocar
problemas da tiroide ou intoxicação por arsénio?
Na Macrobiótica, as algas são consumidas em quantidades muito reduzidas e
devidamente cozinhadas, pelo que o risco de intoxicação por arsénio é
considerado inexistente.
Se uma pessoa
tiver problemas de tiroide ou apresentar risco de os desenvolver, pode
simplesmente evitar o consumo de algas caso verifique que estas lhe provocam
algum problema.
A Macrobiótica é contra a Medicina
e a Ciência?
A Macrobiótica não deve ser encarada como uma alternativa à medicina
convencional.
Pelo contrário, deve ser vista como um complemento que pode contribuir para
melhorar a saúde e a vitalidade, tendo em conta os resultados observados em
muitos alunos.
Sempre que exista um problema de saúde, a primeira atitude deve ser
consultar o médico.
A Medicina e a
Ciência da Nutrição realizaram enormes progressos e continuam a evoluir, não
existindo qualquer incompatibilidade entre esses conhecimentos e uma
alimentação macrobiótica.
Afinal, a Macrobiótica é uma
alimentação perigosa?
Pode sê-lo, se for interpretada e aplicada de forma incorreta, conduzindo a
desequilíbrios nutricionais.
É precisamente por isso que existem escolas dedicadas ao seu ensino.
Circula muita informação na Internet que poderá não corresponder às
necessidades específicas de cada pessoa.
Por esse motivo, antes de iniciar qualquer dieta apenas porque leu um livro
ou encontrou testemunhos sobre os benefícios da Macrobiótica, aconselho-o a
procurar o acompanhamento de um profissional experiente, sobretudo se tiver
algum problema de saúde.
Se necessitar de mais informações, poderá contactar-nos através do correio
eletrónico da ESMACA.
Se tiver outras dúvidas sobre este tema, deixe um comentário no blogue.
Terei todo o gosto em responder.
Daniel Mayor
Comentário
(Inteligência
Artificial)
Considero este um dos textos mais sensatos publicados por uma escola de
Macrobiótica nos últimos anos. Daniel Mayor procura afastar-se tanto do
entusiasmo excessivo como do alarmismo, defendendo uma visão da Macrobiótica
como um sistema alimentar e uma filosofia de vida, e não como uma
terapia milagrosa.
Merecem destaque vários aspetos positivos:
- Recupera o verdadeiro objetivo de Georges Ohsawa, que nunca foi apenas
ensinar uma dieta, mas promover uma filosofia de vida orientada para a
liberdade, a felicidade e a paz.
- Desmistifica a antiga Dieta n.º 7, frequentemente confundida
com a alimentação macrobiótica quotidiana e responsável por muitas
críticas feitas à Macrobiótica.
- Afirma claramente que a Macrobiótica não substitui a Medicina nem o
acompanhamento médico, posição hoje partilhada pela maioria das escolas
macrobióticas sérias.
- Reforça um dos princípios fundamentais de Ohsawa: o NON CREDO,
ou seja, não acreditar cegamente em dogmas, mas experimentar, observar e
tirar conclusões pela própria experiência.
Existem, contudo, alguns pontos que podem ser enriquecidos à luz do
conhecimento atual.
Por exemplo, afirmar que uma alimentação macrobiótica equilibrada "não
provoca carências de vitamina B12" é uma simplificação excessiva.
Atualmente sabe-se que a vitamina B12 deve ser monitorizada em pessoas que
seguem padrões alimentares predominantemente vegetais e, quando necessário,
suplementada. Essa recomendação não contradiz a filosofia macrobiótica; pelo
contrário, traduz a atitude de observação e adaptação defendida pelo próprio
Ohsawa.
Também a questão das algas merece hoje uma abordagem mais prudente.
Consumidas em pequenas quantidades e escolhidas com critério, continuam a ser
alimentos muito interessantes. Contudo, algumas espécies podem apresentar
teores elevados de iodo ou acumular metais pesados, razão pela qual importa
conhecer a sua origem e variar o seu consumo.
Em síntese, este artigo representa aquilo que muitos praticantes defendem
atualmente: uma Macrobiótica moderna, aberta ao diálogo com a ciência,
respeitadora da liberdade individual e centrada na educação alimentar, e não no
fanatismo ou em promessas de cura universal. É precisamente esta visão
equilibrada que poderá contribuir para uma melhor compreensão pública da
Macrobiótica, preservando o seu legado filosófico sem ignorar os conhecimentos
científicos contemporâneos.
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