Saturday, September 12, 2026

 

VOCÊ É COMO COME

«Ninguém pode mastigar por nós:

nisso consiste toda a nossa liberdade.»
Michio Kushi

«O alimento pode ser tanto o céu como o inferno.»
Swami Muktananda

Comer é o nosso impulso mais básico, a maior expressão do nosso instinto de sobrevivência. Talvez por ser tão simples, o ato de comer seja completamente menosprezado enquanto um dos alicerces da nossa saúde. Sim, há outros alicerces; mas, se questiona a importância dos alimentos, experimente jejuar durante alguns dias ou observe a reação de uma criança com fome. Tal como acontece com todas as funções humanas básicas, comer pode manifestar-se tanto como um prazer descontrolado como enquanto experiência espiritual. A forma como comemos pode resultar simplesmente em indigestão e doença, mas também pode conduzir à cura e à transformação.

Em muitas tradições e culturas, comer é considerado um ato extremamente importante e até sagrado. Um amigo meu, do Líbano, garantiu-me que, naquelas terras, até um simples camponês tem o direito de não interromper uma refeição, mesmo que um rei entre em sua casa. A antiga lei judaica estabelecia que, se alguém tencionasse ingerir um pedaço de alimento maior do que um ovo, deveria primeiro sentar-se e dar graças ao Senhor. Comer com reverência constitui uma recomendação de várias práticas espirituais.

Hoje, porém, abandonamos negligentemente as nossas refeições para falar ao telefone ou atender alguém, tornando-nos vulneráveis aos milhões de influências caóticas da vida moderna. Enquanto comemos, agitamo-nos, falamos, lemos, vemos televisão… e depois tomamos um digestivo. De acordo com o Consumer Spending Report, os norte-americanos gastam, todos os anos, enormes quantias em digestivos.

Michael Rossoff, acupuntor e orientador macrobiótico, afirma no seu artigo intitulado Finding Peace of Mind in Troubled Times (Encontrar a Paz de Espírito em Tempos Conturbados): A experiência de comer — na qual aromas, cores, texturas e sabores se reúnem para satisfazer os nossos sentidos e o nosso estômago — deixou de fazer parte da vida de muitas pessoas. Se vê televisão, lê uma revista ou conduz um veículo enquanto come, inevitavelmente não consegue assimilar a refeição na sua totalidade. Não me surpreende que as pessoas comam em excesso e estejam sempre com fome.

Movemo-nos, em detrimento da nossa saúde, como ratos num labirinto. Se os alimentos são um dos pilares do nosso bem-estar, os hábitos causadores de stresse que acompanham as nossas refeições estão a levar o nosso organismo à ruína. A maioria de nós come em demasia, mas encontra-se subnutrida. Para muitas pessoas, os alimentos são vistos como entretenimento, e não como fonte de vida e de saúde. Palhaços sorridentes vendem caixas coloridas e brilhantes de produtos alimentares com elevados teores de açúcar e gordura. Personagens de desenhos animados, estrelas de cinema e atletas tentam convencer a população a consumir comida pouco saudável.

Entretanto, um número crescente de pessoas está a mudar os seus hábitos alimentares. Infelizmente, nem todas alcançam os resultados esperados — e não sabem porquê. Na maioria dos casos, o motivo reside no facto de se preocuparem apenas com o que comer, esquecendo-se — ou sem nunca terem aprendido — de como comer. A minha experiência diz-me que são muito poucas as pessoas que sabem extrair todos os poderes dos alimentos. Os efeitos da refeição mais saudável podem ser minimizados ou até anulados por um comportamento inadequado no momento de a saborear.

É necessário aprender a pôr a nossa energia em circulação, para que possamos receber do universo as forças benéficas, restauradoras e curativas, e expulsar ou afastar as que são prejudiciais, tóxicas e funestas. Se nada pode prejudicar-nos mais do que os alimentos, também é verdade que nada pode curar-nos mais do que eles. Comer é um ato tão simples que dificilmente o encaramos como uma ferramenta incomparável de transformação e de cura.

Cada pessoa escolhe o que deseja para a sua vida. Podemos obter o máximo benefício dos alimentos que escolhemos comer. A atitude respeitosa à mesa, a respiração, o relaxamento, a contemplação e os exercícios de orientação da energia proporcionar-nos-ão um melhor aproveitamento das virtudes transformadoras que os alimentos contêm. Deste modo, os nossos objetivos serão alcançados mais rapidamente.

Lino Stanchich

 

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