Friday, September 18, 2026

 

MACROBIÓTICA PARA A TRANSIÇÃO DO TEMPO DE VERÃO PARA O TEMPO DE OUTONO

Patrícia Restrepo

Setembro representa, na natureza, o momento do fim e do começo: as folhas caem, a natureza concentra-se, o vento muda e começa a refrescar; tudo parece tomar o caminho de regresso ao interior.

Em setembro, as horas de sol diminuem, as temperaturas baixam, embora ainda não esteja frio, e os dias quentes de verão vão-se despedindo serenamente, deixando-nos na memória a recordação mais frugal dos sabores. Assim, o outono começa a ganhar o seu espaço, dando lugar ao recolhimento e à concentração.

No entanto, para que esta transição do verão extrovertido, expansivo, frugal, colorido, de noites tardias, banhos e vida noturna para dias mais recolhidos, com horários escolares e agendas programadas, se faça de forma eficaz e harmoniosa, devemos considerar algumas orientações vitais que, na realidade, são aquelas que a natureza nos dita através da sua sabedoria inerente e biológica.

ORIENTAÇÕES DA MACROBIÓTICA PARA A TRANSIÇÃO DO TEMPO DE VERÃO PARA O TEMPO DE OUTONO

·       O verão foi um período quente em que a sábia natureza nos proporcionou muita fruta sumarenta, com elevado teor de água, para nos refrescar.

·       Reduza o consumo de fruta e coma apenas a própria do outono: romãs, uvas, dióspiros, marmelos e algumas maçãs que começam a ser colhidas. Como poderá verificar, todas estas frutas apresentam uma característica semelhante: «menor teor de água».

·       Os legumes de verão poderiam ser classificados mais como frutos do que como legumes: tomate, pimento, beringela e pepino, com a mesma característica da fruta — maior teor de água e potássio — para refrescar e equilibrar o Yang do verão.

·       Os legumes próprios do outono emergem com a sabedoria da terra. As folhas chegam ao seu ocaso, os legumes contêm menos água, são mais densos e necessitam do fogo para nos proporcionarem o sabor doce próprio desta estação. É o momento de começar a consumir abóboras, couves, cebolas, alguns legumes de raiz doces, castanhas, couve-flor, entre outros.

·       Durante o verão, os gaspachos, sumos, saladas russas e outras saladas, combinadas com ervas frescas, hortelã, coentros, manjericão, vinagres e limão, conferiam frescura e expansão aos nossos pratos.

·       No outono, é o momento de preparar estufados, confeções mais prolongadas, como o nishime, pratos de leguminosas, cozinhados a vapor e outras confeções que permitam estabilizar o sabor doce e conduzir progressivamente o calor para o interior.

·       O objetivo é também voltar a assentar os pés na terra e recuperar a concentração depois do verão, período em que a energia estava totalmente projetada para o exterior, para o prazer e para a expansão. Se continuarmos a comer da mesma forma que durante o verão, sobretudo as crianças poderão ter dificuldade em adaptar-se à escola, com a mente dispersa e menor capacidade de concentração.

·       Para compreender este fenómeno, proponho a analogia da esponja. No verão, somos como uma esponja embebida em água. Quando chega o outono, o frio contrai essa esponja e todo o líquido nela contido sai para o exterior. Segundo esta perspetiva, é por essa razão que esta é uma época em que surgem mais constipações e problemas relacionados com os aparelhos respiratório e intestinal.

·       Se abusámos dos líquidos, das bebidas frias e da fruta, em proporção desequilibrada relativamente a outros alimentos, como leguminosas, cereais, legumes, algas, sementes e frutos secos, então o nosso organismo terá um excesso de líquido frio que, posteriormente, no outono-inverno, se transforma em acumulações e muco.

·       Recorde: não adoecemos por aquilo que comemos; adoecemos por aquilo que não conseguimos eliminar.

·       Segundo o Clássico do Imperador Amarelo, durante os três meses do outono todos os seres da natureza chegam à maturidade; o clima e a energia do céu arrefecem e o vento começa a agitar-se. É o ponto de mudança em que o YANG, ou ativo (verão), se transforma no seu oposto, o YIN, ou passivo.

«Recomenda-se ir para a cama com o pôr do sol e levantar-se depois de o sol nascer. É muito importante manter a calma e a paz, evitar a depressão, para que a transição para o inverno se faça suavemente. O espírito e a energia devem manter-se focados e concentrados. A energia do pulmão, plena, limpa e calma.»
Neijing

·       De acordo com a tradição oriental, o movimento constante do universo obedece a um padrão cíclico repetitivo, facilmente observável na sucessão das fases de um dia e das estações do ano.

Para cada ciclo foram definidas cinco fases, correspondentes a cinco transformações energéticas ou tipos de energia, que tornam mais percetível a forma como a mudança se manifesta ao longo de um ciclo completo.

·       Estas fases foram designadas como energia flutuante, ascendente, ativa, descendente e de reunião ou fusão. A cada uma corresponde uma estação do ano — inverno, primavera, verão, verão tardio e outono, respetivamente —, uma fase do dia e outros aspetos existentes na natureza, como as cores, os sabores e os sons.

·       Simbolicamente, são designadas, pela mesma ordem, como Água, Árvore, Fogo, Terra/Solo e Metal.

·       Em alguns escritos, encontramos estas fases designadas como «elementos», o que, segundo esta interpretação, é incorreto, pois é precisamente o dinamismo que caracteriza estes ciclos em permanente mudança. Por isso, na macrobiótica, são denominadas «as cinco transformações da energia», sendo cada ciclo chamado transformação.

·       Segundo esta teoria das cinco transformações, a transformação Terra/Solo corresponde ao verão tardio, ao final do verão ou ao chamado «verão de São Martinho».

·       A transformação Terra/Solo está associada aos órgãos estômago, baço e pâncreas, nutridos pelo sabor doce, e relaciona-se com a capacidade de nos nutrirmos e de nutrirmos os outros.

Quando estamos bem nutridos, temos certezas e acreditamos naquilo que fazemos; ocupamo-nos dos nossos projetos e criações. Quando os órgãos da Terra estão em desequilíbrio, preocupamo-nos excessivamente em vez de nos ocuparmos, observamos os projetos dos outros com inveja e insegurança e desligamo-nos dos ciclos naturais da vida.

O estômago, o baço e o pâncreas são órgãos com funções claramente administrativas, digestivas, imunitárias, de assimilação e discernimento. Estes órgãos são nutridos pelos legumes doces e, de um modo geral, pelo sabor naturalmente doce dos legumes redondos, como abóboras, cebolas, couves, couves-de-bruxelas, couve-flor, castanhas, ervilhas secas, entre outros.

Também entram em jogo os cereais, como o millet, considerado um cereal que ajuda a melhorar as perturbações do estômago e do baço, favorece a concentração e facilita o regresso à escola, sendo tradicionalmente associado às atividades intelectuais.

Outros alimentos que, segundo esta abordagem, tonificam e nutrem estes órgãos são, por exemplo, a alga arame, o grão-de-bico, o feijão azuki cozinhado com abóbora e as castanhas piladas — castanhas secas que se conservam de um ano para o outro.

O sabor doce natural nutre estes órgãos. É o sabor dos frutos secos, da abóbora cozinhada, dos legumes redondos reduzidos ou estufados e dos cereais integrais em grão.

No entanto, o sabor doce proveniente do açúcar simples, sob qualquer das suas formas, dos líquidos açucarados e dos cereais refinados prejudica, as funções digestivas, o sistema imunitário e desestabiliza o equilíbrio dos açúcares no sangue.

A nível emocional e mental, estes alimentos estão associados ao aumento do sentimento de vitimização, inveja, relações de dependência, insegurança, dúvidas, falta de empatia, dificuldade de concentração, dispersão mental, angústia, ataques de pânico e crises de ansiedade.

Na cozinha, são privilegiadas as confeções que permitem recuperar e concentrar o sabor doce, que levam o calor para o interior e que possuem uma energia descendente: compota de maçã ou marmelo; abóbora estufada ou assada; cenouras ao vapor; estufados de leguminosas preparados na panela de pressão e combinados com legumes colhidos nesta época; couves-de-bruxelas; cremes de abóbora, couve-flor ou cebola; e estufados de legumes com alga arame.

Se pretendermos conferir-lhes uma intenção mais profunda e medicinal, temos a confeção nishime ou a sopa de legumes doces com millet, um clássico que revitaliza e equilibra em diversos aspetos.

RECEITAS

SOPA DE MILLET E LEGUMES DOCES

Esta sopa é deliciosa, mas é apresentada sobretudo como uma preparação medicinal. Nutre os órgãos Solo, fortalece o sistema imunitário, proporciona estabilidade emocional e ajuda a equilibrar o açúcar no sangue.

Ingredientes

  • 250 g de millet;
  • 100 g de abóbora cortada em cubos pequenos;
  • 100 g de cenoura cortada em cubos pequenos;
  • 100 g de couve cortada em cubos pequenos;
  • 1 cebola cortada em cubos pequenos;
  • 2,5 cm de alga wakame cortada em pedaços pequenos;
  • 1 cogumelo shiitake pequeno;
  • 2 colheres de sopa de mugi miso;
  • 1 molho de rebentos de alfafa ou outros rebentos.

Preparação

Ø  Lavar muito bem o millet várias vezes em água corrente, até que a água saia límpida.

Ø  Colocar todos os ingredientes numa panela grande com 2 litros de água e deixar levantar fervura.

Ø  Reduzir o lume e cozinhar em lume brando durante 50 minutos.

Ø  Retirar um pouco do caldo, dissolver nele o miso e voltar a incorporá-lo na sopa.

Ø  Deixar cozinhar durante mais 3 minutos em lume brando.

Ø  Servir com os rebentos ou com salsa crua.

LEGUMES PREPARADOS À MANEIRA NISHIME

·       A tradução de Nishime é, literalmente, «cozinhar sem água ou com muito pouca água».

·       Trata-se de uma confeção doce e apresentada como muito medicinal, útil em estados de convalescença, para pessoas que sentem muito frio no corpo, após uma cirurgia, quando existe necessidade de enraizamento, durante o abandono de dependências e nos casos em que se considera indispensável uma cozinha de energia descendente.

Ø  Para preparar um bom nishime, devemos cortar os legumes em pedaços grandes. A confeção deve ser lenta, em lume brando. O vapor gerado no interior da panela permite que os ingredientes cozinhem no seu próprio suco; desta forma, chegamos ao interior dos legumes e extraímos o seu sabor doce e o seu líquido.

Ø  O líquido resultante constitui, por si só, uma iguaria. Deve utilizar-se uma panela pesada, com tampa hermética.

Ø  Os legumes podem ser dispostos em camadas para obter um determinado efeito ou podem ser distribuídos por setores.

NISHIME DE RAÍZES DOCES

Ingredientes

  • 2 cenouras;
  • 2 cebolas;
  • 2 pastinacas;
  • 1 pedaço de alga kombu do tamanho de um selo postal;
  • água até à altura de cerca de dois dedos.

Preparação

Ø  Cortar os legumes em pedaços grandes.

Ø  Colocar a alga kombu no fundo da panela com cerca de dois dedos de água.

Ø  Dispor os legumes separadamente por setores: as cenouras de um lado, as cebolas ao lado e as pastinacas no outro setor.

Ø  Deixar levantar fervura durante 3 minutos.

Ø  Reduzir depois o lume e cozinhar durante 20 minutos, se possível sobre uma placa difusora.

COUVES-DE-BRUXELAS NO FORNO

Ingredientes

  • 250 g de couves-de-bruxelas;
  • azeite;
  • noz-moscada;
  • shoyu;
  • alho;
  • alecrim;
  • água;
  • uma pitada de sal.

Preparação

Ø  Levar um litro de água ao lume até ferver.

Ø  Adicionar uma pitada de sal.

Ø  Escaldar as couves-de-bruxelas durante cerca de 5 minutos, até ficarem al dente.

Ø  Colocá-las num tabuleiro de forno.

Ø  Esfregar as couves com um dente de alho.

Ø  Pincelar com azeite.

Ø  Ralar um pouco de noz-moscada por cima.

Ø  Levar ao forno, com um ramo de alecrim, a 200 °C durante 15 minutos.

 

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