PARA ALÉM
DA BIOQUÍMICA ESTÁ A NUTRIÇÃO ENERGÉTICA
«A VIAGEM DE REGRESSO À ESSÊNCIA
DOS ALIMENTOS, RECUPERAR O SEU ESPÍRITO»
Patrícia Restrepo
É evidente que
a brusca desconexão que o ser humano moderno sofreu relativamente à ordem da
natureza, com a ideia de «PROGRESSO» e, mais especificamente, com o advento da
Revolução Industrial e, posteriormente, da informática, o deixou a oscilar num
mundo onde todas as respostas para essa desconexão foram procuradas no
intelecto, na razão e na ciência. A mensagem parecia ser: «O mais importante é
aquilo que pensas, não aquilo que sentes.»
E assim, pouco
a pouco, o ser humano foi construindo um mundo de betão, metal e coltan,
naturalmente com ganhos no que diz respeito à «civilização industrial e
científica», mas deixando um desequilíbrio descomunal na condição humana, não
apenas devido às guerras que ainda hoje se travam em países com grandes
recursos naturais, onde as populações nativas são desenraizadas para benefício
do lóbi da informática, mas também mergulhando a raça humana numa amnésia
coletiva, num sonambulismo social que depende dos ecrãs e da engenhosidade do
marketing para reconhecer quais são as suas necessidades essenciais.
Concordo que
esta é a realidade que nos coube viver e que a história se repete: o fulgor das
grandes civilizações, quando atingem o seu máximo esplendor e o homem se julga
dono de tudo o que existe, conduz à decadência, não como castigo, mas como
oportunidade para aprender e recomeçar com respeito e humildade.
Mas também
sinto a certeza de que podemos dar uma volta a esta realidade que nos coube
viver; não uma viragem política ou de massas, porque a verdadeira mudança és
tu, tu e tu que a fazes. E a soma de cada «TU» conseguirá produzir essa mudança
em direção à nossa própria natureza, que nos interliga com tudo o que sente. Há
um só pulsar, um só corpo. Quando nos reconhecermos como parte integrante da
natureza, não através do conceito, mas através do sentir, mudaremos, porque
será apenas uma minoria que quererá continuar a autocastigar-se.
Quando me
refiro à natureza, não estou apenas a evocar a paisagem verde, exuberante e
selvagem, os rios cristalinos, os mares azuis, os polos árticos guardiões do
equilíbrio, o mundo plural dos insetos, as comunidades de mamíferos herbívoros
como exemplo de força, respeito e comunidade, e uma infinidade de imagens da
fauna, da flora e da paisagem. Refiro-me à natureza intrínseca do ser humano.
O curso do
«progresso», com a sua inventividade fantasiosa e toda a sua fábrica de
elementos de distração, afastou-nos da observação direta da natureza e da
«auto-observação», qualidade única que nos diferencia das restantes espécies da
Terra.
Com o
Renascimento e a Idade da Razão chegou também a visão mecanicista da natureza.
O homem tinha um novo deus, uma espécie de grande artefacto cósmico, dirigido
por mecânicos e articulado por uma lógica infalível.
Caímos na
nossa própria armadilha, conspirando contra uma visão integral; agora, privados
de parte do nosso senso comum, deixámos de nos orientar por uma visão inspirada
na ordem do universo e na consciência espiritual e energética, dando lugar aos
novos métodos de «conhecimento», que se tornaram «razoáveis» e se baseiam na
dissecação e na análise.
O maior dano
que causámos a nós próprios ocorreu quando o alimento, ponte de ligação com o
meio que nos rodeia, foi submetido ao uso exclusivo da ciência. O estudo da
nutrição baseou-se amplamente na «dissecação» dos «corpos dos alimentos» — a
análise das cinzas deixadas depois de um alimento ser incinerado num
laboratório. Uma abordagem abstrata, divorciada da realidade viva, que nada tem
em comum com a sabedoria energética. A passagem de um mundo orientado pelo
energético para um mundo governado pela mecânica provocou uma mudança profunda
na nossa forma de encarar a vida.
Numa carta
memorável de um chefe indígena ao Presidente dos Estados Unidos, em 1854,
dizia-se: «Sabemos isto… todas as coisas estão ligadas, como o sangue que
nos une a todos. O homem não tece a teia da vida; é apenas um fio dessa teia.
Tudo o que fizer à teia, fá-lo a si próprio.»
Ele sabia que
a natureza era simplesmente a humanidade voltada para fora e que a humanidade
era a natureza voltada para dentro.
Antes das eras
industrial e informática, os seres humanos possuíam uma perspetiva unificada da
vida, sustentada pelo contacto regular e constante com a natureza. Cada
experiência na natureza era observada com o máximo cuidado, porque sabíamos que
ela era a nossa fonte, a nossa companheira de vida e a força permanente capaz
de dar resposta às nossas necessidades e assegurar o futuro das novas gerações.
Comer à mesa
da natureza, tão diretamente quanto possível e sem os modernos intermediários
do agronegócio, é a maneira mais direta de nos reconectarmos connosco próprios
e com a terra, pois constitui o vínculo mais direto com uma vida boa. A terra é
a referência última para a qualidade dos alimentos; afinal, é dela que eles
provêm. Como pudemos esquecer uma verdade com tanto sentido?
O verdadeiro
conhecimento dos alimentos, conhecer a sua dimensão energética, tem a ver com a
familiarização com a qualidade dos alimentos e com a sua relação com a
quantidade.
A qualidade é
algo que não podemos ver, mas que pode ser conhecido; está relacionada com
várias etapas do processo que acaba por se traduzir na quantidade. A qualidade
pode ser avaliada através dos sentidos ou dos instrumentos físicos da ciência.
A dimensão
energética dos alimentos não exclui a informação técnica, nutricional ou
química, mas esta não constitui o eixo central daquilo que é importante para
nos nutrirmos. Existe o «facto pelo facto» de o alimento ser aquilo que é. A
qualidade de um alimento é a sua essência, o seu carácter, espírito ou
personalidade, até mesmo a alma do alimento. A única forma de avaliar a
qualidade do alimento é através dos sentidos. Ou seja, existe uma grande
diferença entre informação sobre um alimento e conhecimento.
O verdadeiro
conhecimento é uma qualidade humana que se encontra algures entre o instinto
que diz a um pato recém-nascido como nadar, a uma ave como voar, e a visão
inspirada que indicava a Paganini onde colocar a nota seguinte. O meu
verdadeiro trabalho consiste em fazer com que alcances o conhecimento pessoal
da «qualidade dos alimentos».
Conhecer a
qualidade dos alimentos é semelhante a saber como a música nos faz vibrar e
sentir de determinada maneira, ou a sentir que estamos apaixonados.
Um dos
fundamentos para conhecer a qualidade dos alimentos deveria partir daquilo que
é tão biológico quanto possível, isto é, cultivado sem produtos químicos nem
inseticidas, sem interromper a relação com o «bioma» inerente à espécie, que
sabe por si própria em que tipo de terra, em que época do ano e em que lugar do
planeta deve crescer. É a «inteligência somática da flora e das plantas». Ou
seja, se cultivarmos através da «agricultura», ou cultura agrária, que é a
mesma coisa, devemos fazê-lo, no mínimo, de forma consciente e através de
processos naturais.
Não estou a
desprezar a análise química, que podemos considerar um «conhecimento-sombra», o
eco da experiência quando esta é separada, isolada e dissecada pelas
ferramentas do homem. A energia dos alimentos diz respeito ao verdadeiro
conhecimento que os alimentos nos transmitem quando os comemos e que depois se
manifesta no nosso corpo, física, mental e emocionalmente. Este conhecimento é
tão antigo como as histórias vivas do reino vegetal. É o mesmo conhecimento que
informou e inspirou a sabedoria dos grandes sistemas filosóficos alimentares da
Antiguidade, embora, para muitos, possa parecer um sistema novo e radical.
Por exemplo,
comparemos um pequeno brócolo cultivado biologicamente por um agricultor local,
com cuidado, tendo em consideração as luas e a época em que naturalmente se
manifesta na natureza — isto é, respeitando a linguagem da terra — com um
brócolo cultivado com produtos químicos e inseticidas, fora da sua época
natural, numa estufa, produzido para uma cadeia comercial, cujo crescimento é
ainda acelerado artificialmente; ou com um brócolo colhido industrialmente para
depois ser congelado e transportado num camião frigorífico; ou, no pior dos
casos, condenado a permanecer dentro de um recipiente metálico como conserva,
acompanhado por inúmeros aditivos.
Esse brócolo,
aparentemente verde e reluzente, é servido num restaurante e, segundo a análise
bioquímica, conserva todas as suas substâncias — ácido fólico, fibra, magnésio,
vitaminas A e C — e tem poucas calorias. É provável que não consigamos ver a
diferença entre o biológico e os restantes. A diferença está na qualidade.
A qualidade de
algo representa aquilo que está no coração, ou nos bastidores, de uma
determinada quantidade. Qualidade não significa apenas quão bom ou saudável é
um alimento. Refere-se ao carácter essencial e particular desse alimento.
«A jovem
indígena, depois de um dia a recolher sementes, folhas e raízes, ajoelhou-se
junto ao fogo, no centro da sua gruta, e rezou em silêncio, manifestando
gratidão ao Grande Espírito enquanto preparava a sua refeição. Os seus
pensamentos recordavam as caminhadas pelas pradarias. Sabia que, das raízes que
tinha encontrado — bardanas e algumas cenouras silvestres —, absorveria o
espírito que lhe daria acesso ao vasto silêncio da sabedoria da terra e lhe
proporcionaria enraizamento e tenacidade; das folhas silvestres de sabor
amargo, receberia flexibilidade; e das sementes, uma atenção plena e
penetrante.»
RECEITAS ENERGÉTICAS
SOPA DE LENTILHAS
Informação
bioquímica: ferro, proteínas, hidratos de carbono, cálcio, magnésio, fósforo, sódio,
zinco e selénio.
Conhecimento
energético: um prato de lentilhas aquece, gera vitalidade e nutre as funções
hepáticas.
Ingredientes
- 250 g de
lentilhas castelhanas
- 100 g de
abóbora cortada em cubos
- 100 g de
cenoura cortada em cubos
- 1
alho-francês cortado em meias-luas
- 2 folhas
de louro
- Azeite
- Sal
marinho não refinado
- 1 pedaço
de alga kombu previamente demolhada
- ½ litro
de água
Preparação
Colocar todos
os ingredientes na panela de pressão.
Adicionar um
fio de azeite.
Cozinhar em
lume forte durante 10 minutos.
Baixar o lume
e cozinhar durante 20 minutos em lume brando.
Retificar o
sal e deixar cozinhar mais 5 minutos em lume mínimo.
SALADA DE FRUTOS VERMELHOS COM
IOGURTE DE SOJA
Informação
bioquímica: antioxidantes, diuréticos, ricos em provitamina A, vitamina C, flavonoides
e isoflavonas.
Conhecimento
energético: as saladas de fruta arrefecem; o iogurte de soja arrefece em profundidade,
relaxa pessoas com condições tensas e ajuda a atenuar os afrontamentos nas
mulheres na «idade da sabedoria».
Os frutos do
bosque, especialmente os mirtilos, podem estimular a produção de urina.
Ingredientes
- 100 g de
arandos vermelhos
- 100 g de
morangos
- 100 g de
framboesas
- 1 iogurte
de soja
- Uma
pitada de sal
- 1 colher
de sopa de crunch de frutos do bosque sem açúcar
- 1 colher
de sopa de concentrado de maçã
Preparação
Cortar os
morangos, adicionar uma pitada de sal e deixar macerar durante 10 minutos.
Misturar os
restantes frutos.
Colocar numa
taça.
Adicionar o
iogurte natural de soja.
Verter o
concentrado de maçã sobre o iogurte.
Cobrir com o crunch
de frutos do bosque.
TIMBAL DE ARROZ INTEGRAL NO FORNO (*)
Informação
nutricional: ao contrário do arroz refinado, o arroz integral contém hidratos de
carbono complexos, polissacáridos, proteínas, magnésio, potássio, fósforo,
niacina, ácido fólico, sódio e vitaminas do complexo B.
Conhecimento
energético: o arroz integral gera centramento, concentração e integridade. Cozinhado
no forno, transforma-se num alimento muito concentrado, que gera um calor
profundo e duradouro e uma energia consolidada.
Ingredientes
- 1 chávena
de arroz integral cozido
- 1 cenoura
cortada em cubos pequenos
- 100 g de
ervilhas
- 1
alho-francês cortado em cubos pequenos
- 100 g de
tempeh
- 2
colheres de sopa de farinha de trigo-sarraceno
- 2
colheres de sopa de azeite
- Sal
Preparação
Aquecer uma
frigideira e adicionar o azeite.
Saltear o
alho-francês juntamente com os restantes legumes e uma pitada de sal.
Juntar o arroz
e continuar a saltear.
No final,
adicionar o tempeh cortado em pedaços muito pequenos.
Misturar a
farinha de trigo-sarraceno com um pouco de água até obter uma textura cremosa e
espessa.
Incorporar
esta mistura no arroz salteado.
Colocar tudo
numa forma e levar ao forno durante 15 minutos, a 180 °C.
(*)IA Um timbal de arroz é uma preparação de arroz — normalmente misturado
com legumes, leguminosas, cogumelos, tofu ou tempeh — que é colocada e
comprimida numa forma ou molde, para adquirir uma forma definida. Pode ser
servido diretamente depois de desenformado ou levado ao forno para ficar mais
firme.
No caso desta
receita, trata-se de um timbal de arroz integral no forno: mistura-se
arroz integral cozido com cenoura, ervilhas, alho-francês e tempeh; a farinha
de trigo-sarraceno diluída em água funciona como elemento de ligação; depois
coloca-se tudo numa forma e leva-se ao forno durante 15 minutos a 180 °C.
A palavra «timbal»
refere-se sobretudo à forma de apresentação, e não a um tipo específico de
arroz. Tradicionalmente, o preparado é moldado e depois desenformado, ficando
semelhante a um pequeno bolo ou pudim salgado.