Wednesday, January 15, 2025

 


A ALIMENTAÇÃO E OS 5 ELEMENTOS

1º - O elemento Fogo: Coração e Intestino Delgado

Um grande consumo de alimentos condimentados deteriora o coração e o intestino delgado, assim como uma presença excessiva de gorduras e de colesterol no sangue resultante da ingestão de quantidades importantes de alimentos de origem animal. Se o coração e o intestino delgado estiverem fracos, há todo o interesse em reduzir ou até mesmo eliminar da nossa alimentação a carne vermelha, os ovos e os produtos lácteos, pois todos eles aumentam a taxa de colesterol do sangue e impedem o coração de receber um afluxo suficiente de sangue e de oxigénio. Um consumo excessivo de alimentos muito contractivos ou arrefecedores (muito yang), como o sal por exemplo, enfraquecem igualmente o coração e o intestino delgado.

Os alimentos que reforçam o elemento Fogo são o milho, as couves de Bruxelas, as cebolas, echalotas, cebolitas, lentilhas coral, morangos e framboesas. Os alimentos ligeiramente amargos, como as folhas do dente de leão, a chicória, a raiz de bardana, estimulam a função do coração e do intestino delgado.

Apenas pequenas quantidades destes alimentos serão necessárias, sobretudo se forem consumidos regularmente. É desejável variar os alimentos fogo que comemos. O facto de só consumirmos um grupo destes alimentos poderá ter como consequência graves desequilíbrios, podendo até desencadear doenças. Não nos esqueçamos que é preciso consumir estes alimentos na sua época/estação – é importante estarmos em harmonia com o meio ambiente e o clima. Os morangos, os rabanetes, os tomates não estão disponíveis no Inverno por uma boa razão: são frutos de Primavera, que devem completar a alimentação de uma só época bem precisa do ano.

Uma atitude optimista face à vida favorece também um bom funcionamento do coração e do intestino delgado. A fé e a gratidão são fonte de alegria.

Sinais de desordem

·      Todas as doenças do sistema circulatório e cardíaco

·      Pernas pesadas, varizes

·     Doenças que surgem no Verão ou que pioram nos meses de Dezembro a Março

·      Alterações do intestino delgado, tendência a diarreia

·      Sensação de aperto no tórax

·      Sede ardente

·      Perturbações de memória, omissão ou esquecimento de palavras

·      Fluxo verbal exagerado

·      Preferência extrema ou rejeição pelo sabor amargo

Ao verificar desordens num elemento, não podemos esquecer de verificar sempre os elementos mais intimamente relacionados.

É apoiado pelo elemento Árvore (fígado);

Alimenta o elemento Solo (baço-pâncreas)

É controlado pelo elemento Água (rins)

Alimentos a evitar

·  Ricos em gordura ou que sejam cozinhados desse modo – como acontece quando a chama se aproxima do óleo

·      Sal

·      Refrigerantes

·      Álcool

·      estimulantes

Outros aspectos a evitar

·      Ambientes de calor extremo e secura

·      consumo exagerado de estimulantes como nicotina e álcool

Sugestões

·      Procurar o equilíbrio entre trabalho e descanso, situações de trabalho extremo em que o corpo não tem tempo para recuperar, afecta o coração, bem como todo o organismo

·      Actividades como conduzir ou outras quee« exijam viver no ritmo em que a prioridade é a rapidez, geram muita tensão no corpo, o que a longo prazo cansa o coração. Respeite o seu ritmo para não o perder.

Alimentos recomendados 

·      Milho

·      Vegetais de sabor amargo (nabo, reama de nabo, …)

·      Estilos culinários mais alegres (saltear, escaldar)

· Preparações bem cozinhadas e bem temperadas, utilizando de forma moderada o sal, gordura e condimentos.

 

2º - O elemento Solo (Terra): Baço, Pâncreas e Estômago

O açúcar refinado e os alimentos muito ácidos fazem mal ao estômago e ao baço, sofrendo este último também com o consumo de bebidas extremamente açucaradas.

Por outro lado, os alimentos com sabor ligeiramente açucarado favorecem o bom funcionamento do baço. As abóboras em geral e a abóbora japonesa Hokaido em particular (“potimarron”) reforçam o baço. Entre os cereais, é o Millet. As pessoas que sofrem de problemas do estômago ou do baço deveriam consumir muito millet e abóbora.

Os sais minerais também são importantes para assegurar um bom funcionamento dos órgãos do elemento Solo. Como eles contêm minerais, todos os legumes são favoráveis à função do estômago, do baço e do pâncreas. As folhas da couve “collard” (legume do Sul dos EUA, que parece espinafres) ou da couve  “plume” ou “ Kale”, a consola/capuchinha e as urtigas são as mais ricas em sais minerais, sobretudo em Cálcio.

O elemento Solo é ainda mais reforçado por uma boa mastigação dos alimentos e a insalivação que a acompanha. A saliva pode ser extremamente alcalina, e o estômago extremamente ácido. Os alimentos bem mastigados, ricos em saliva, penetram no estômago e tamponam os ácidos do estômago, harmonizando assim o meio no interior deste. Os alimentos condimentados ou ácidos e ainda por cima mal mastigados, tornam este meio ainda mais ácido, o que pode causar com toda a certeza dores de estômago, podendo com o tempo degenerar em úlceras.

Sinais de desiquilibrio nestes órgãos

·      Afecções da boca: aftas, acidez, herpes

·      Obesidade ou magreza, perturbações alimentares,

·      Sensação de cansaço, principalmente após as refeições

·      Acessos de apetite irresistíveis

·      Ruminar os problemas ou preocupar-se demasiado

·      Preferência extrema ou rejeição por tudo o que é doce

Ao verificar desordens num elemento, não podemos esquecer de verificar sempre os elementos mais intimamente relacionados.

É apoiado pelo elemento Fogo (coração);

Alimenta o elemento Metal (pulmões)

É controlado pelo elemento Madeira (fígado)

Alimentos a evitar

·      Açúcar

·      Produtos refinados

·      Farinhas no forno

·      Combinações de farinhas, gordura e doce

·      Alimentos pesados

·      Alimentos frios

·      Excesso de lacticínios

· Uso frequente de molhos, natas e cremes (criação de humidade e consequente afectação do sistema imunitário

Outros aspectos a evitar

·      Comer em demasia

·      Cansar-se excessivamente

·      Ruminar nos pensamentos

·      Excesso de rotinas, principalmente de organização

·      Rigidez, não experimentar outras possibilidades

·      Excesso de informação

Sugestões

·      Faça um corte de cabelo diferente

·      Procure outro cabeleireiro em vez do de sempre

·      Vestir outra cor que não a habitual

·      Trocar as gavetas da cómoda

·      Dizer bom dia a toda a gente (se não for hábito fazê-lo)

·      Ficar o dia todo calado (se falar sempre muito)

·      Mudar-se

Alimentos recomendados 

·      Millet. Arroz glutinoso. Mochi

·      Vegetais redondos: abóbora, cebola, couve coração

·      Feijão de soja preto

·      Doces de cereais e vegetais: amasake, abóbora, cebola, …

O baço precisa de doce, o dos vegetais e cereais.

As sobremesas elaboradas a partir de adoçantes refinados, provocam acidez no corpo e uma consequente desmineralização.

 

3º - O elemento Metal: Pulmões e Intestino Grosso

O elemento Metal é reforçado e estimulado pelo arroz integral e pelos numerosos legumes correntes, tais como as couves, couve-flor, aipo, pepino, agriões de água, nabos, rabanetes e cebolas. Segundo a medicina macrobiótica, a raiz de gengibre, o rábano/daikon negro, o daikon (nabo japonês), o alho e as folhas de mostarda são todos eles plantas medicinais para os pulmões e intestino grosso. Os alimentos com sabor picante, consumidos em pequenas quantidades, podem também melhorar o funcionamento destes dois órgãos.

O exercício físico, como a marcha e o ciclismo suave, são igualmente benéficos para os órgãos Metal.

De uma maneira geral, as fibras beneficiam o conjunto do tubo digestivo fazendo aumentar a duração do trânsito e desobstruindo-o dos velhos dejectos e expulsando-os do sistema. Porque contêm fibras, todos os cereais e todos os legumes sustentam e dinamizam o funcionamento do intestino grosso.

Pelo contrário, os alimentos de origem animal, sobretudo a carne vermelha, são verdadeiros fardos para os intestinos e tornam o trabalho da digestão mais difícil. As gorduras, sobretudo as provenientes da carne vermelha, dos ovos, e dos queijos de massa dura, são a primeira causa do cancro do cólon. A carne vermelha é extremamente difícil de digerir, sobretudo porque não pode ser inteiramente mastigada e também não pode certamente ser correctamente decomposta nos intestinos. As pessoas que sofrem de afecções do intestino grosso têm todo o interesse em evitar todos os alimentos muito difíceis de digerir, particularmente no que diz respeito à carne.

Os pulmões são muito sensíveis aos produtos lácteos e ao óleo. Os alimentos fritos, o leite, iogurte e outros alimentos gordurosos ou oleosos tapam os microscópicos sacos de ar dos pulmões (alvéolos pulmonares), impedindo uma boa oxigenação destes. Para os curar, é necessário um regime alimentar comportando pouco óleo e gordura. Se tiverem tosse, evitem o “blue-fish”, as sardinhas e as cavalas.

Sinais de desordem

·      Todas as doenças que nos transmitem a sensação de “chegar ao limite” – necessidade de mudança

·      Enfermidades das vias respiratórias: sinusite, tosse, asma, bronquite.

·      Prisão de ventre ou diarreia e doenças fúngicas do intestino

·      Afecções características do Outono/Inverno

·      Pele/Mucosas secas (nariz e boca), tosse seca

Enfermidades da pele: acne, dificuldades de cicatrização, sensibilidade, vermelhidões, escamações

·   Transtornos e perturbações da personalidade que surgem com tristeza e desgosto, suspiros frequentes, ter dificuldade em deitar fora

·      Rejeição ou preferência extrema do sabor picante

 

Ao verificar desordens num elemento, não podemos esquecer de verificar sempre os elementos mais intimamente relacionados.

É apoiado pelo elemento Solo (baço-pâncreas);

Alimenta o elemento Água (rins)

É controlado pelo elemento Fogo (coração)

Alimentos a evitar

·      Alimentos feitos a partir de farinhas, principalmente refinadas

·      Laticínios em excesso

·      Açúcar. Refrigerantes

·      Todo o tipo de proteína animal transformada (fiambre, chouriço, enchidos, etc.)

Outros aspectos a evitar

·      Vida sedentária. Ausência de exercício físico

·      Vida sem convívio social

·      Permanecer em lugares poluídos

Sugestões

·      Praticar exercício físico – procurar práticas em que se reaprenda a respirar

·      Trabalho de voluntariado na comunidade

·      Manter a casa limpa, livrar-se de coisas que não se utiliza, não acumular

Alimentos recomendados 

·      Vegetais de raiz e de folha

·      Cereais integrais – principalmente o arroz

·      Alga Nori e Agar-Agar

·      Raiz de Kuzu

·      Germinados

·      Pickles de vegetais, fermentados com sal

 

4º - O elemento Água: Rins e Bexiga

Os alimentos que reforçam e estimulam um bom funcionamento dos rins são os feijões e pequenas quantidades de sal. Muito sal, pelo contrário, enfraquece os rins e cria hipertensão – convém utilizar este condimento em quantidades moderadas. Todos os feijões e leguminosas ajudam a tonificar os rins e a melhorar o seu funcionamento, mas os feijões Azuki de Hokkaido (os mais pequenos) estão sem dúvida entre os mais eficazes nesta categoria de alimentos. Entre os cereais, a cevada e o trigo sarraceno são os mais benéficos para os rins. No que diz respeito aos legumes do mar, sobretudo as algas Kombu, Hiziki, Wakame e Nori, têm todas elas a sua utilidade na melhoria do funcionamento destes órgãos.

Se os rins estiverem fracos, experimentemos a raiz de gengibre, que se pode beber em tisanas, comer como legume ou aplicar em compressas.

Sinais de desordem

·      Doenças que surgem na decorrência do frio

·      Problemas da bexiga e dos rins

·      Mãos e pés frios

·      Dores nas costas, hérnias discais, principalmente nas vértebras da parte inferior das cotas

·      Enfermidades das vias urinárias

·      Afecções dos ouvidos, zumbidos, redução da audição

·      Doenças dos ossos, osteoporose

·      Fracturas e demora na sua reconstituição

·      Medos e fobias, temor a novas situações

·      Alterações cutâneas (escamação, psoríase, …)

·      Preferência extrema ou rejeição pelo sabor salgado

Ao verificar desordens num elemento, não podemos esquecer de verificar sempre os elementos mais intimamente relacionados.

É apoiado pelo elemento Metal (pulmões);

Alimenta o elemento Árvore (fígado)

É controlado pelo elemento Solo (baço-pâncreas)

Alimentos a evitar

·      Líquidos em excesso

·      Sal

·      Excesso de proteínas

·      Açúcar

·      Batatas

·      Gorduras

Outros aspectos a evitar

·      Comer antes de ir dormir (3 horas antes)

·      Dormir pouco

·      Estar muitas horas de pé

·      Banhos prolongados de água quente

·      Permanecer muito tempo na mesma posição

Sugestões

·      Andar a pé, se possível descalço, caminhando sobre a terra

·      Actividade física moderada

·      Compressas de gengibre sobre os rins ou escalda pés com sal marinho integral

·      Massagem aos pés (reflexologia)

·      Respeitar as horas das refeições

·      Tentar criar disciplina e ter horários regulares para tomar as refeições

Alimentos recomendados 

·      Todos os feijões, de preferência o feijão Azuki

·      Algas, em especial a kombu, a hiziki e a aramé

 

5º - O elemento Árvore (Madeira): Fígado e Vesícula Biliar

Os alimentos gordurosos, as gorduras, o colesterol e o álcool em excesso prejudicam o fígado e a vesícula biliar.

As pessoas que sofrem de cálculos da vesícula biliar sentem geralmente uma dor aguda na zona situada por baixo do peito. Muitas vezes a vesícula biliar é retirada cirurgicamente, mas os cálculos podem ser eliminados naturalmente – podem ser dissolvidos em todo este órgão por uma simples mudança de alimentação, reduzindo de maneira drástica o consumo de gorduras e de carne rica em colesterol (ostras, pele das aves, pastas de fígado, banha de porco, gordura de aves, etc.).

Um regime macrobiótico com dominância pelos cereais integrais, com uma grande variedade de legumes, leguminosas, algas e peixe deve poder fornecer todos os nutrientes necessários à manutenção ou ao regresso a um estado de saúde perfeitamente satisfatório.

Sinais de desordem

·      Mudanças abruptas de humor

·      Desordens nos processos hormonais, menstruação, tensão pré menstrual

·      Pontadas, palpitações, dores de cabeça, (principalmente quando são só de um lado)

·      Cãibras dores e distensões musculares

·      Conjuntivites, infecções da córnea

·      Rinite alérgica

·      Visão enublada

·      Enfermidades do fígado e da vesícula

·      Prisão de ventre

·      Doenças da Primavera

·      Sensibilidade às correntes de ar

·      Dificuldades em descontrair

·      Preferência extrema ou rejeição pelo sabor ácido

·      Estado frequente de zanga ou irritação

Ao verificar desordens num elemento, não podemos esquecer de verificar sempre os elementos mais intimamente relacionados.

É apoiado pelo elemento Água (rins);

Alimenta o elemento Fogo (coração)

É controlado pelo elemento Metal (pulmões)

Alimentos a evitar

·      Alimentos muito condimentados

·      Gorduras saturadas

·      Misturas de açúcar e gorduras

·      Consumo frequente de alimentos fritos

·      Comida sem frescura, requentada, restos

·      Refeições pesadas de difícil digestão

Outros aspectos a evitar

·      Executar várias tarefas em simultâneo por longos períodos

·      Sentir que não se tem prazer na vida

·      Sentir-se constantemente contrariado

·      Ficar acordado entre a meia-noite e as três da manhã

Sugestões

·      Consumir em todas as refeições vegetais verdes escaldados (agriões, nabiças, brócolos, couve portuguesa, couve coração, etc.

·      Não encher o estômago, comer apenas o suficiente

·      Ter sabores mais fortes e mais simples no prato, não devendo existir vários sabores aromáticos e intensos

·      Beber chá quente no final da refeição (neutro e não estimulante)

·      Mastigar muito bem e comer sentado e sem pressas

·      Passear frequentemente em sítios com árvores

·      Ouvir diariamente música de que se goste

·      Esfregar o corpo com água morna e sumo de gengibre

·      Fazer algo só para si

·      Evitar fazer várias tarefas ao mesmo tempo – fazer intervalos

·      Fazer jejum uma vez por mês, bebendo apenas líquidos, num dia em que possa ficar em casa a descansar

Alimentos recomendados 

·      Cevada

·      Germinados

·      Vegetais de folha verde

·      Nabo, rábano, rabanetes

·      Cogulos Shitake

·      Daikon

 

 

Bibliografia consultada

·      “L´Alimentation avec les 5 éléments” – Gérard Wenker, 2013.

·      “Cozinhar com a Natália. Cure corpo e emoções com o poder dos alimentos” – Natália Rodrigues, 2009.

Sunday, January 5, 2025

 


Que comer e como fazê-lo

Na natureza existe uma ordem. Cada forma de vida necessita alimentar-se para continuar com a sua existência. Água, Sol, proteínas, minerais e outros nutrientes. Todas as formas de vida alimentam-se. Alimento é energia. Fonte de energia vital. E cada organismo está especializado para fazê-lo de uma forma única. Este processo de diversificação e especialização para a absorção do alimento é o resultado de enormes e extensos períodos.

Milhares e milhares de anos de evolução das diferentes formas vivas.

Assim, na família das aves, os pinguins estão adaptados a uma dieta de peixe e todo o seu corpo está perfeitamente desenhado para capturar peixe e assimilá-lo com suprema perfeição. A águia também é uma ave, uma prima irmã do pinguim, porém a evolução biológica de milhões de anos, gerou outro tipo de corpo perfeitamente adaptado à localização a grandes distâncias de pequenas presas e à sua posterior captura com ferozes garras. Pela sua parte, o colibri, também da família das aves, evoluiu como consumidor de pólen e busca nas flores a sua alimentação.

Todas são aves e cada uma limita-se àquilo que lhe toca dentro da ordem da vida. Como consequência não ficam doentes. E essa é uma manifestação da imensa “sabedoria” do instinto de sobrevivência dos animais vivendo em plena natureza.

O ser humano, também é um animal, e apesar de estar mais bem-dotado na evolução biológica, não está isento de respeitar aquelas normas da alimentação biológica. Todos os pinguins se alimentam na base do peixe, todos os búfalos se alimentam na base das ervas selvagens e todos os gorilas se alimentam na base de plantas e de frutos. E todos são felizes e saudáveis. Não há queixas nem protestos.

Quando o homem intervém querendo “ajudar” os animais fogem, não querem sair do paraíso no qual as suas espécies têm vivido felizes durante centenas de milhares de anos. Mas o ser humano crê-se muito preparado e dá aos animais alimentos “enriquecidos”, “melhorados” para que tenham um pelo mais bonito e forte e para melhorar o seu estado nutricional. E dá aos cães alimentos ricos em vitamina A e D, para melhorar esta ou aquela função biológica.

O homem por mais ilustre que seja é regido pelos mesmos princípios e as mesmas leis biológicas. Não deveria comer “de tudo”, simplesmente porque está saudável, ou porque “tudo lhe cai bem”. A anarquia, a desobediência à ordem natural é o que conduz à degeneração biológica e à eclosão de legiões de doentes crónicos. A macrobiótica convida-nos a descobrir os alimentos correctos na escala biológica e a como prepará-los e consumi-los todos os dias com prazer e gratidão.

Quanto ao que comer, a sugestão é utilizar os produtos que foram usados tradicionalmente no local. Mas alimentação tradicional não significa o que se tem usado nos últimos 200 ou 300 anos, mas sim o que se usou como alimento típico durante milhares de anos. Atualmente há muita confusão e já ninguém sabe com clareza o que é tradicional e o que é copiado de outras culturas. O ser humano adapta-se a todos os climas e a todas as latitudes.

Em zonas desérticas alimenta-se na base de leite de camelo e frutos que encontra no oásis. Essa é a forma que tiveram durante centenas de anos e seguem-na devotamente, acreditando que a sua raça e a sua cultura obtêm a sua força e energia destas tradições. Se os beduínos entrarem em contacto com a dieta das cidades e começarem a consumi-la habitualmente, perdem a sua base, a sua raiz e começam o seu declínio e a sua extinção.

Ao longo da história as grandes aglomerações humanas alimentaram-se de cereais. Arroz e trigo sarraceno na Ásia, millet e bulgur em África, trigo, cevada e aveia na Europa e no Médio Oriente e milho, quinoa e amaranto nas três Américas.

Os cereais têm sido a base da alimentação humana durante milhares de anos e nas zonas onde se cultivaram cereais floresceu a cultura e o desenvolvimento das ciências e tradições religiosas. Nas zonas onde os humanos se alimentaram de carnes (caça e recolecção) e frutos, a evolução intelectual-espiritual parou no Neolítico.  No pólo Norte, nas selvas tropicais e nas savanas africanas vivem robustos seres humanos que vivem da caça e recolecção, mas não consomem cereais como alimento base. Contudo não têm um calendário nem mapas das estrelas e astros do céu. Nem sequer têm escrita. Os cereais foram os geradores do desenvolvimento da humanidade. Não só trazem a saúde e a força para desenvolver e progredir para novos desafios, mas também permitem a conexão com as forças subtis que não chegam aos que se alimentam basicamente de corpos cozinhados de outros animais.

O ser humano ideal não é carnívoro nem vegetariano, mas sim “granívoro”. Por isso a nossa sugestão é a alimentação à base de cereais em grão integrais. Algumas culturas conservaram ferreamente a sua tradição da alimentação à base de cereais. Na Ásia a base é o arroz. Para os asiáticos o arroz é sagrado e por isso consomem-no em todas as refeições. Creem que os protegem das doenças e sustenta a sua peculiar tenacidade e espírito colectivo. Também os japoneses inconscientemente aferram-se às suas tradições dietéticas face à invasão das modas dietéticas europeias e dos estados unidos da América.  A base sempre foi o cereal. Um prato tradicional chinês, japonês ou indiano, tem como base o arroz, vegetais e proteínas vegetais e animais. Muita pouca carne e derivados animais. Ausência quase completa de leite e derivados do leite. A dieta é 80-90% de origem vegetal. Alguns pratos crus e a maioria são cozinhados segundo receitas tradicionais. Na América indígena a base sempre foi o milho, feijões, vegetais como batatas e outras hortícolas, especiarias e também pouca carne e derivados animais.

Actualmente, come-se na base da proteína animal. Perdeu-se a noção da base, do alimento principal. É esse o grande erro. E por isso a medicina só consegue alívios parciais e curas de duração efémera. A base é o cereal. O precioso cereal deveria ser 50-60% das nossas principais refeições. Porém, é imprescindível que seja integral e sempre que possível de cultivo orgânico (ou pelo menos não transgénico). Na maior parte dos países do mundo a soja e o milho são transgénicos. Aos meus irmãos latinos, e apesar de que a tradição indique que a base é o milho, desaconselho o seu consumo, a menos que seja evidente que a sua procedência seja de produção orgânica. No Uruguai 99% do milho que se vende em forma de farinha de milho ou fécula de milho ou óleo de milho ou em forma de choclos frescos têm origem transgénica. Os estudos e investigações científicas independentes indicam que produzem tumores em ratos. Mas os governos não dizem nada nem sequer rotulam as embalagens que têm alimentos com milho ou com base de milho, porque para eles o mais importante é a estabilidade das indústrias e a conservação das fontes de trabalho. Se rotulassem e as pessoas tomassem consciência dos perigos do milho transgénico, as vendas cairiam a pique, muitos empreendimentos quebrariam e muita gente ficaria sem trabalho. Ainda que isso implique o declínio da saúde da sua nação. A prioridade são os números, a “rentabilidade”. Mas tenho-me percebido que no Brasil a rotulação já está nos alimentos que contêm milho. Trata-se de um triângulo com um T no seu interior. É um grande avanço e uma mostra de respeito para com os direitos dos consumidores. Porém, por aqui, nesse sentido, todavia estamos na pré história. Mais tarde ou mais cedo, chegará. Porque nada nem ninguém pode parar MARÉ DAS MUDANÇAS.

Então podemos usar arroz integral como base ou então outros cereais como: millet, quinoa, cevada ou bulgur. Os cereais integrais levam mais tempo a cozinhar que os cereais refinados industrialmente. Há que praticar e praticar para conseguir uma boa cozinha macrobiótica ou saudável.  Empregaremos a expressão “macrobiótica” por convenção, para entender do que estamos a falar. 50-60% de cereais integrais bem preparados com água mineral e sal marinho. Devem ser muito bem mastigados inclusive até 80-100 vezes cada bocado até que o alimento fique com consistência líquida. Só assim nos asseguraremos que temos completado o 1º tempo digestivo, o tempo bocal. A saliva tem potentes acções químicas sobre os hidratos de carbono complexos, que abundam nos cereais. Os cereais têm no estado cru, um Ph levemente ácido. Porém ao cozinhá-los em fogo muito lento com um pouco de sal marinho e ao mastigarmos cuidadosamente, o seu Ph torna-se alcalino, sobretudo pela acção alcalinizante da ptialina. Face a uma gastrite, onde há uma inflamação permanente das paredes internas do estômago, a mastigação deve ser muito mais atenta e cuidadosa. O alimento deve então liquefazer-se completamente antes de ser deglutido. Em casos severos mastigar mais e inclusivamente 200 a 250 vezes cada bocado (para o arroz e cereais integrais). É só uma questão de HÁBITO, tudo se aprende se nos treinarmos. Desta forma o sabor de cada bocado será cada vez mais doce e alcalinizar-se-á tanto que inibirá a acidez gástrica. É interessante que os fármacos que se empregam na gastrite são em muitos casos alcalinos. O alcalino neutraliza e cura a acidez. Mas se em vez de alcalinizar com fármacos que têm custos económicos e vitais (e efeitos secundários) preferimos alcalinizar com uma dieta alcalina e muita mastigação. Também o sal marinho usado com moderação alcaliniza os alimentos e todos os fluídos corporais. Somos 80% de água alcalina, não 80% de água doce engarrafada. E o componente que invariavelmente está em todos os fluídos biológicos é o NaCl (cloreto de sódio). Ou seja, sal natural. Apesar da má propaganda que fizeram ao sal e ao medo pela sua suposta responsabilidade no aparecimento da hipertensão arterial. Não podemos viver sem sal. A hipertensão só ameaça os que se alimentam na base de derivados animais. Os verdadeiros vegetarianos não padecem de hipertensão apesar de usarem sal. Trata-se de outro mito, de outro paradigma errado. E a ponto de se derrubar.

O cereal é o alimento base. É a base da cura. Isto deve ser compreendido claramente. Sem cereal base não há cura. Não se trata de comer saudável ou natural. Trata-se de compreender que assim o estabelece a Ordem. O ser humano pode comer de tudo e assimilar quase tudo. Mas o maior nível de equilíbrio e saúde recebe-os do cereal. Por alguma razão temos 20 molares num total de 32 dentes. Os molares “moem”, como as mós de um moinho. Os moinhos “mastigam” o trigo e o convertem em farinha. Os nossos dentes são os nossos moinhos naturais. Mas não se limitam a triturar, a reduzir tudo a mínimos fragmentos, mas também o misturam com os factores bioquímicos que compõem a saliva, como enzimas, sais minerais e claro água, para que a papila esteja com o nível exacto de hidratação antes de “cair” na mucosa gástrica. Mas como queremos evitar esforços preferimos que o moinho mecânico faça o trabalho. E por isso todos nós gostamos de farinha. Branca, integral ou de mistura. Para evitar o esforço e o trabalho de mastigar inclinamo-nos para usar o cereal mastigado pela máquina. Mas a mastigação mecânica do moinho não chega ao nível óptimo da mastigação bocal fisiológica. Por isso é melhor comer grãos cozidos inteiros e mastigá-los do que comer grãos processados em forma de farinhas.  Podemos comer todo o volume de arroz ou cereais inteiros que desejemos sempre e quando o mastiguemos muito bem, e em caso de problemas digestivos, isto é particularmente importante.  Não há limites nas quantidades de alimento principal. Uma parte deste prato principal pode ser consumida em forma de subprodutos de cereais integrais, como bolos moídos, arepas, tortilhas de milho ou arroz ou pães e bolos. Sempre e quando o estômago o tolere. Em caso de impulso severo de gastrite todos os cereais deveriam ser consumidos em forma de grãos bem cozidos e tenros ou inclusivamente liquidificados em forma de cremes ou sopas. Logo que passe o impulso e melhorem os sintomas podem usar-se formas mais atractivas de consumir os cereais.

O cereal é sagrado para o ser humano. A sua correcta absorção, purifica-o, eleva-o espiritualmente, torna-o formoso e sábio. Dá-lhe um tipo de força vital subtil que outros alimentos não têm. Devemos estar profundamente agradecidos e emocionados cada vez que comamos o nosso arroz integral ou o nosso milho ou a nossa aveia. São os alimentos superiores para o homem e a ferramenta dietética mais poderosa para alcançar a cura da gastrite ou de qualquer outra doença. Compreendendo isto muito claramente, não comeremos nunca “mecanicamente” o nosso arroz, queixando-nos da pouca “variedade” ou da pouco gostosa preparação. Recorde o leitor que a minha sugestão é por uma grande paixão na arte de cozinhar. Se tiver mau sabor é porque não está bem preparada. Se estiver bem preparada com amor, com consciência, com intenção e com o adequado equipamento e experiência, o arroz e suas diferentes variações deverão dar-nos diariamente regalias e sabores requintados. E assim cada dia pode ser uma festa. Pelo menos assim é para mim e para milhões de seres humanos que comem uma dieta à base de cereal integral há dezenas de anos e com maravilhosos resultados. É, portanto, essencial comer e mastigar o arroz ou o millet ou a quinoa com essa consciência e com esse espírito de gratidão, amor e sentir-se um privilegiado por ter tido acesso a este ensino que nos catapulta para a felicidade e a realização do nosso completo potencial. Então a doença é uma chave, para abrir a nossa vida a enormes possibilidades. Por isso devemos estar sempre agradecidos e entusiasmados porque tudo o que venha agora, se continuamos praticando estas disciplinas será cada vez mais e mais poderoso. Despertamos. Somos seres humanos da mais alta categoria biológica e espiritual. Verdadeiramente humanos e, portanto, amantes da felicidade colectiva e de todas as formas de vida. E isto o “sentimos” espontaneamente, sem ter de pertencer a nenhuma fraternidade ou agrupamento filosófico. Simplesmente respeitamos a Ordem e isso de igual forma ao que se passa com os animais selvagens coloca-nos numa situação de privilégio aos olhos do Universo.

O resto dos alimentos que compõem o nosso menu dominam-se alimentos secundários. Incluem uma extensa variedade de vegetais terrestres e marinhos, leguminosas, sementes e frutos secos, frutas de estação, peixe magro e ovos do campo. Também uma variedade de condimentos e o uso de ervas medicinais. Todos estes detalhes deveriam ser recebidos numa consulta pessoal com algum orientador dietético adequadamente classificado e experiente. Porém, alimentando-nos simplesmente segundo estes directizes gerais poderemos curar a gastrite em aproximadamente um mês no máximo dois. Em alguns casos antes, dependendo da nossa vontade e entusiasmo e também do surgimento das emoções que geram a cura sem nos faltar: uma fé esmagadora e uma imensa gratidão.

Resumindo, deveremos alimentar-nos com um prato consistente de 2/3 de arroz integral e 1/3 de alimentos secundários. Dentro dos alimentos secundários, deve haver sempre vegetais cozidos e crus (numa proporção 3/4-1/4), algumas algas marinhas para dar cálcio, ferro, magnésio e outros sais vitais para uma saúde óptima, proteínas vegetais em forma de leguminosas bem cozidas, sementes levemente tostadas (sésamo, girassol, linho, nozes, castanhas, amêndoas, amendoins). Ocasionalmente (uma ou duas vezes por semana) um pouco de peixe branco e um pouco de fruta local fresca ou levemente cozida. Durante os impulsos o prato deve ser muito simples e estricto. Só arroz, sésamo e vegetais no vapor. A seguir aos impulsos, voltar a empregar uma variedade de sabores e texturas. É importante usar produtos fermentados para termos enzimas e bactérias que beneficiem a digestão, como os lacto-bacilos.  O melhor produto que conheço é o miso, uma pasta de soja usada há milhares de anos no Extremo Oriente. Também o molho de soja de boa qualidade e o tempeh. Se não for possível na nossa zona conseguir estes produtos usar pickles de vegetais em salmoura como o chucrute. Tudo deve ser muito bem mastigado e respeitando a proporção entre cereal e complementos. A inversão das proporções conduz a um excesso de yin e assim a inflamação da mucosa que também está muito yin, continuará inflamada apesar de estarmos comendo muito saudavelmente e muito macrobioticamente. A proporção, a mastigação, a qualidade dos alimentos e também as emoções correctas que conduzem à cura. É um pouco difícil ao princípio, mas se formos persistentes e estivermos determinados a curar-nos, em um mês ou no máximo em dois receberemos a grande caixa de primeiros socorros da cura. Melhor dito da auto-cura. E sentiremos a satisfação imensa de o termos feito nós próprios. Sem ajuda técnica. Apenas apelando às forças curativas da natureza. E a sua mais gloriosa síntese para o humano: o cereal, o bendito cereal ao qual não deixo de agradecer todos os dias da minha vida. E se fizerem o mesmo a vossa transformação fisiológica será imparável e poderosa. A cura começa na mente e sustenta-se com a mente. Leiam a vossa folha de propósitos/objectivos para afirmar a vossa determinação e programar o vosso inconsciente. Assim tereis 100% de probabilidades de ter êxito. E devereis escrever-me logo a seguir umas linhas contando-me da vossa nova vida saudável. Não duvidem. Vocês o farão. Repitam em voz alta por favor= Fá-lo-ei. Fá-lo-ei. Tenho o potencial e a vontade infinita. Obrigado. Obrigado. O Universo conspira a meu favor.

Dr. Martín Macedo - médico, Uruguai, 2013

 

 

 

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