Sunday, April 2, 2023

 


CHEROVIA OU PATISNACA

Por: Miguel Boieiro

As conquistas tecnológicas alcançadas nos últimos decénios, a ânsia febril de avançar sempre para diante, o encantamento pueril face às crescentes descobertas científicas suscetíveis de proporcionarem riqueza, prazer e poder, obliteraram, quase por completo, as recordações, quiçá, os preciosos ensinamentos de um passado ainda recente. Isso aconteceu em todos os setores da vida. A filosofia do “impossível é possível”, indubitavelmente plena de otimismo no que se refere às capacidades humanas, mas imbuída de ingenuidades, retirou espaço às reflexões necessárias para uma continuidade da evolução humana que se desejaria em progressão aritmética, medida cuidadosamente passo a passo. Imposta que foi uma severa pausa neste apressado processo, é agora oportuno interligar o passado ao presente para planear o devir de maneira mais sisuda, sem os devaneios encantatórios que nos enlearam.

Um dos aspetos mais marcantes deste fenómeno foi a mundialização mediática, generalizando os conhecimentos e as opiniões com extrema rapidez. A qualquer cidadão, bastará um clique, para se inteirar ou ficar enganado, se desprevenido, sobre o que se passa em qualquer pontículo do globo terrestre. Nunca como antes se tornou urgente desenvolver em todas as mentes um agudo sentido crítico sobre as novidades que nos chegam em catadupa, tentando descobrir a quem aproveita a difusão de certas “novidades”.

Bem, mas o introito já vai demasiado longo e há que fazer a ponte para a presente croniqueta.

A cherovia que hoje encontramos à venda nas grandes superfícies era, para este cronista, praticamente desconhecida nesse tempo em que a circulação de notícias, de géneros e de vírus estava ainda escassamente globalizada. Vi, pela primeira vez, esta espécie de cenoura branca nas imediações da Covilhã, considerada a capital da cherovia - Festa da Charovia, como dizem na Covilhã, de 22 a 25 de setembro no centro da cidade -, e logo ficou despoletada a curiosidade de a conhecer melhor.

A cherovia ou pastinaca, designada cientificamente por Pastinaca sativa é uma Apiaceae bienal que gosta, tal como a sua irmã, Daucus sativus, de terrenos arenosos permeáveis e frescos. Não medra bem em climas quentes e secos, necessitando de geadas para se desenvolver. Possui uma raiz pivotante carnuda de coloração branca amarfinada com radículas secundárias. As suas folhas são grandes, levemente peludas, com longos pecíolos, apresentando-se em folíolos lobulados imparipinulados de cor verde escura.

Inicialmente, o caule é curto e as folhas formam uma roseta basal, porém, no segundo ano, a planta emite um espigão vigoroso que pode alcançar dois metros de altura. Surgem então as pequeníssimas flores de cinco pétalas amareladas dispostas em umbelas. As sementes são aquénios alados de castanho claro cuja dimensão vai de 4 a 8 mm com reduzida dormência.

A cherovia selvagem, Pastinaca sativa subsp. sylvestris, é espontânea no Cáucaso, na Sibéria e em vastas regiões do norte da Europa. O seu consumo atingiu o apogeu no tempo da antiga Roma e em plena Idade Média. Decaiu, no entanto, drasticamente, após a chegada da batata proveniente do Novo Mundo, cuja produtividade económica é bastante mais elevada. Foi pena, porque a cherovia é uma raiz nutriente que tem na sua constituição amido, fibras, proteína, óleos essenciais, antioxidantes e abundantes sais minerais com destaque para o potássio mas também cálcio, fósforo, betacaroteno e vitaminas C, K e do complexo B.

Apontam-se-lhe, entre outras, as seguintes propriedades medicinais: alcalinizante, anti-inflamatória, antifúngica, anticancerosa, depurativa, diurética, sedativa, colagoga, prevenindo obstipações e reduzindo os níveis de colesterol.

A importância deste esquecido legume manifesta-se sobretudo na área da gastronomia saudável. Devido ao seu forte sabor e versatilidade a raiz carnuda da cherovia pode ser consumida crua (ralada), cozida, estufada, grelhada ou frita às rodelas ou palitos, como se fora batata. Integra maravilhosamente bem sopas, purés, guisados, saladas, molhos e guarnições. Os rebentos tenros, após finamente migados, são igualmente comestíveis.

Realce-se que a cherovia colhida na altura das baixas temperaturas e após as geadas alcança um teor de açúcar mais elevado do que o da cenoura, tendo mais conteúdo proteico e essência agradável.

A título de curiosidade, mencione-se que na edição espanhola da obra “Guía para recobrar y mantener la salud”, o autor americano Jack Soltanoff coloca a cherovia na lista dos melhores 20 superalimentos.

Pretende-se, com mais esta croniqueta, incentivar a diversificação dos alimentos ao arrepio do consumismo meramente comercial que, como é sabido, assenta mais na rendibilidade económica e menos na utilidade dos géneros destinados à nutrição. (Ver, a propósito, “Légumes anciens, Saveurs nouvelles”, de Marianne Loison, edições France Agricole).

Apenas uma precaução: Se bem que todas as variedades sejam úteis, deve-se evitar a subespécie espontânea Pastinaca urens, a qual pode provocar, por simples contacto, graves dermatoses alérgicas. Sosseguem, contudo os estimados leitores; ela não se encontra no nosso clima mediterrânico que é proeminente em Portugal.

Miguel Boieiro, Maio de 2020.


Wednesday, March 29, 2023

 


AS SEMENTES

As sementes são altamente nutritivas e quando acompanham outros alimentos fornecem-lhes vitaminas, ácidos gordos essenciais e sais minerais.

As mais habituais são: sésamo, girassol e abóbora.

Vendem-se cruas, com e sem casca e podem (devem) tostar-se suave e ligeiramente numa sertã, sem óleo, e conservam-se por uns dias num frasco hermeticamente fechado.

SEMENTES DE SÉSAMO

As sementes de sésamo são um produto de base na cozinha mediterrânica, oriental e do médio oriente há milhares de anos. São uma excelente fonte de lípidos/gorduras e ricas em cálcio e outros nutrientes.

Há duas qualidades: brancas (castanho claro) e negras. São a base do gomásio (sementes tostadas com sal marinho) um “sal vegetalizado” muito utilizado na cozinha vegetariana e macrobiótica.

O óleo de sésamo negro não refinado obtido na pressão, com um maravilhoso sabor e aroma a nozes, é o óleo preferido da cozinha macrobiótica.

É melhor tostá-las ligeira e suavemente porque o seu óleo cru é difícil de digerir.

As sementes de sésamo levemente tostadas são utilizadas como condimento ou como guarnição em sopas, saladas e pratos/cremes de cereais e de legumes.

Também podem ser reduzidas a farinha (de preferência moídas no momento para não oxidarem e perderem nutrientes) que é utilizada em cozimentos no forno ou combinada com outros ingredientes para fazer pratos como o humus – esse creme para barrar ou acompanhar cereais e legumes, composto de tahin, grão de bico e diversos condimentos (sal, dentes de alho, óregãos, azeite, vinagre de arroz, miso branco, …) – e na pastelaria tradicional grega.

As sementes de forma convexa são de melhor qualidade que as de forma côncava. As sementes descorticadas são elaboradas quimicamente e desprovidas dos seus elementos nutritivos, pelo que devem ser evitadas.

O tahin feito com sementes descorticadas fica mais macio e doce que o tahin feito com sementes integrais (não descorticadas), este com sabor mais pronunciado, mas muito mais rico em nutrientes. O tahin é uma manteiga utilizada em molhos e para barrar.

 

SEMENTES DE GIRASSOL

De conteúdo proteico superior ao das outras sementes, possuem ferro, cálcio, fósforo, potássio, magnésio, vitaminas A, E e do grupo B. O seu conteúdo em magnésio e ferro é superior ao de qualquer outro alimento vegetal.

São saudáveis para a vista, pele, unhas e limitam a hipertensão e o nervosismo.

São compostas por 51% de óleo, rico em ácidos gordos insaturados, precioso para o bom funcionamento dos órgãos internos e do cérebro, para a saúde da pele e evita a formação de depósitos de colesterol. Actuam beneficamente sobre os dentes, previnem cáries e reforçam as gengivas.

Exigem uma boa mastigação, mas são deliciosas. Podem ser adicionadas aos cereais do pequeno almoço, aos pratos principais de cereais e legumes, às sopas, às saladas e muitas outras preparações. Também posem ser utilizadas no fabrico de pão, pequenos bolos e outros produtos à base de farinha cozidos no forno.

A manteiga de sementes de girassol dá uma pasta espessa e cheia de sabor e o óleo de girassol não refinado, obtido na pressão, pode ser utilizado na cozinha.

 

SEMENTES DE ABÓBORA

Contêm 50% de ácidos gordos polinsaturados, hormonas vegetais, vitaminas A, E, F, aminoácidos essenciais, fósforo em abundância, magnésio, ferro e zinco.

Estimulam o sistema imunitário, são adequadas para as perturbações humorais da adolescência, melhoram a visão e ajudam na destruição dos parasitas intestinais, incluindo a ténia.

São saborosas e crocantes quando são levemente tostadas e condimentadas com (pouco) sal ou molho de soja salgado japonês (shoyu ou tamari).

 

SEMENTES DE LINHO

Entre os óleos de sementes, o óleo de linhaça é o que contém maior quantidade de ácidos gordos (57%) a-lenolênico (percursor do ómega 3), destacando-se pelo seu papel protector das doenças cardiovasculares, do excesso de colesterol plasmático e da agregação plaquetária. A sua fibra também ajuda na prevenção de patologias como os cancros da mama, do pulmão e do cólon.

Têm efeito eficaz na prisão de ventre sem efeitos colaterais e em emplastros mornos ajudam nas mastites, reduzindo a inflamação, a dor e a dureza das mamas, evitando a toma de antibióticos.

 

AUTORES DE REFERÊNCIA

·         Aveline Kushi

·         Clara Castellotti.




Thursday, March 23, 2023

 


DISCIPLINA MACROBIÓTICA

A GRANDE IMPORTÂNCIA DA MASTIGAÇÃO

Por: Martín Macedo

A macrobiótica não é uma dieta no sentido estrito do termo, mas uma simples disciplina quotidiana, que permite fornecer uma grande força ao nosso sistema imunológico.

Esta prática maravilhosa, permite que o praticante macrobiótico fortaleça por si próprio o seu organismo até que a doença seja minimizada até desaparecer.

A saúde é uma força brilhante (yang) – quando esta luz é atenuada, aparece o estado contrário, a doença (yin).

A saúde é a vida, a felicidade e a alegria de viver. É uma grande prenda oferecida aos que se esforçam por alcançá-la e nenhum médico pode dar esta saúde brilhante.

Se não se fortalece a potência vital do doente, toda a cura é efémera e aparente, já que a debilidade subjacente permanece inalterada – portanto se não se transforma a debilidade profunda mediante uma disciplina pessoal e RESPONSÁVEL, a ameaça da doença permanecerá intacta. Por isso a medicina moderna não cura profundamente, porque não fortalece a força vital do sistema imunológico.

Algo parecido acontece com as terapias naturais ou técnicas de cura, se não se acompanharem de uma boa dieta. Quando se corrigem os desequilíbrios energéticos, o paciente sente-se melhor, mas se não tiver fortalecido a sua potência vital mediante uma disciplina pessoal e diária, o seu bem-estar não dura muito e volta a ficar doente pouco tempo depois.

Não existe um método dourado ou milagroso. O único caminho seguro é reforçar o organismo para que derrote uma após outra, todas as tentativas da doença em instalar-se na nossa vida.

Um dos aspectos mais importantes da disciplina macrobiótica é a mastigação. A sua importância é capital. Se não se mastigar muito bem, mesmo os alimentos da melhor qualidade, NÃO FUNCIONAM.

Para curar uma doença, 50% do êxito, depende de se mastigar muito bem. Os carnívoros devoram rapidamente a maior quantidade possível de carne; os herbívoros, mastigam pacientemente o seu alimento. “Quando se mastiga muito bem surge um poder mágico” (William Horace Fletcher, 1849-1919).

A energia de qualquer alimento, é multiplicada quando mais o mastigarmos.

Para nos curarmos mais rapidamente, há que mastigar mais e mais. Está demonstrado cientificamente, que mastigar a fundo fortalece NOTAVELMENTE a potência imunológica e que, além disso, tem um efeito marcadamente REJUVENESCEDOR.

Grandes sábios recomendaram a sua prática. No Evangelho Essénio de João (encontrado nos papiros do Mar Morto nos anos 1950) Jesus disse: “E mastigai bem o vosso alimento com os vossos dentes, de maneira que se liquidifiquem e que o anjo da água os transforme em sangue, no vosso corpo. E comei lentamente, como se fosse uma oração feita ao Senhor”. Leonardo da Vinci, o génio renascentista, recomendava insistentemente a mastigação. O ex-primeiro ministro britânico William Gladstone afirmava: “Não podereis ser um grande homem a menos que mastigueis pelo menos 32 vezes cada bocado”. Mahatma Gandhi ensinou: “Mastiga a tua bebida e bebe a tua comida”.

Nos EUA Fletcher difundiu no início do sec.XX, o maravilhoso poder desta prática. Tendo ficado doente aos 40 anos, estudou a fisiologia da digestão e compreendeu que a saúde começa na boca. Assim, começou a mastigar muito bem os seus alimentos e conseguiu uma grande potência física e entusiasmo pela vida. Destacou-se como atleta e empresário. Criou uma organização para difundir os seus ensinamentos, e teve um brilhante êxito nos EUA, Europa e Japão. O dr. Chittender, professor da universidade de Yale, trabalhou com Fletcher e apoiou o seu trabalho. Faleceu em 1919 e, pouco tempo depois, a sua organização caiu no esquecimento.

Fletcher afirmava que a mastigação aumenta a imunidade, e cura o alcoolismo.

A mastigação é uma questão de HÁBITO. O mercado oferece alimentos tenros, fáceis de comer e que não requerem esforço de mastigação. Assim as pessoas comem em 10 minutos e não “perdem tempo” a comer o seu alimento.

George Ohsawa afirmava que “quem não tem tempo para comer, não merece viver”.

A nossa vida é restaurada diariamente a partir do nosso alimento. Esta transferência de vida a partir do reino vegetal para o reino animal, necessita de um certo tempo, de um certo processo. Ela obedece à ordem natural e nós não podemos pretender acomodá-la às nossas conveniências. Ou se come bem ou não comemos. As meias tintas produzem resultados medíocres.

A digestão dos açúcares (hidratos de carbono) realiza-se na boca e no estômago. O estômago não tem enzimas para digerir o amido (hidratos de carbono) do arroz ou do trigo. A PTIALINA, enzima digestiva presente apenas na saliva, transforma o amido em açúcar simples.

O amido dos cereais deve ser bem triturado, para que a ptialina actue em cada grão de açúcar de cereal. De outra forma o amido vai para o estômago, não é bem digerido e obriga a um tempo gástrico maior e com mais conteúdo de ácido. O alimento mal mastigado, produz excesso de gases e a pressa leva a que comamos demasiado. E isso favorece a obesidade e a diabetes.

O sabor de cada bocado melhora quando as enzimas digestivas presentes na saliva actuam quimicamente sobre o alimento. Quanto mais se mastiga o arroz ou o pão, mais doce é o sabor final. Esse é o verdadeiro doce e não o doce do açúcar refinado, que tem um intenso sabor doce inicial. O verdadeiro alimento tem um sabor doce e delicioso no final.

A maior parte das doenças têm origem por se comer em excesso; a única forma realmente efectiva para controlarmos a avidez e evitar os excessos, é mastigando muito bem.

A única cura para a obesidade, é precisamente aumentar o número de mastigações.

Muitos morreram asfixiados ao tentarem tragar grandes bocados de carne. O homem não deve ser uma besta.

Por outro lado, mastigar fortalece os dentes e as gengivas, pela exercitação e pela libertação de uma hormona que fortalece os dentes.

O efeito rejuvenescedor está demonstrado cientificamente. A PARATONINA, é uma hormona produzida e libertada pelas parótidas, glândulas salivares, situadas no maciço facial por baixo do pavilhão auricular. Esta hormona é absorvida pelos vasos linfáticos da cavidade bucal durante a mastigação, e passa directamente para o sangue, onde realiza a sua acção biológica. Mas se tragarmos rapidamente os alimentos, a parotina vai directamente para o estômago onde é destruída pelo ácido clorídrico. Desta forma perde-se um enorme benefício medicinal.

A parotina estimula o TIMO e aumenta a contagem de linfócitos T, ou seja, que potencia a resposta imunológica. Quanto mais se mastiga, maior é o poder imunológico que temos. É simples e maravilhoso.

Como já dissemos, a parotina rejuvenesce … o dr. Ogata da Escola de Medicina da Universidade de Tóquio, comprovou o efeito rejuvenescedor da parotina. Injectou parotina, obtida a partir de saliva de vaca a um grupo de doentes idosos e, pouco tempo depois, pareciam 10 anos mais jovens!! O efeito da parotina exógena atenuava-se com o tempo e houve alguns casos de alergia à parotina de vaca. É melhor que cada um de nós mastigue bem e absorva altos níveis da parotina endógena para retardar poderosamente o envelhecimento e ter a solidez imunológica maior que sejamos capazes de conseguir …

Agora você já o sabe … agora você pode ter uma grande potência imunológica praticando macrobiótica. Sabendo isto, não tem sentido cair doente. Estando doente não tem sentido continuar doente.

O conhecimento dá-nos liberdade

e a liberdade concede-nos a felicidade.



Sunday, March 19, 2023

 


TOMATE vs. Solanáceas

Solanum Lycopersicum ou Lycopersicon esculentum

Nem tudo são rosas quando comemos tomate numa bela salada crua ou num saboroso prato de carne (ou de seitan) à Bolonhesa … pois, sendo uma solanácea e tendo uma energia muito expansiva, o consumo do tomate também tem desvantagens.

Como em tudo, há prós e contras … o que é preciso é conhecer e saber utilizar …

CURIOSIDADES

·         A maior fábrica de concentrado de tomate da Europa, sita algures em Inglaterra, utiliza como matéria-prima tomates de excelente qualidade provenientes de Salvaterra de Magos, em Portugal.

·         O tomate era desconhecido na Idade Média na Europa até há 300 ou 400 anos atrás – foi trazido e divulgado por toda a parte após a colonização das Américas pelos europeus.

·         Os primeiros tomates que chegaram a Itália eram amarelos e foram apelidados de “pomodori” (maçã de ouro), nome que ainda hoje se mantém, enquanto que em todas as outras línguas subsiste o vocábulo “tomate” derivado da palavra asteca, “tomatl”.

·         Inicialmente o tomate foi olhado pelos europeus e nos EUA com muita desconfiança, tendo sido introduzidos como planta ornamental de jardim – acreditava-se que causavam cancro do estômago e apendicite. Até que, em 1820, o coronel Robert Johnson, desafiando os conselhos dos seus médicos, comeu tomates no Palácio da Justiça de New Jersey, frente a uma multidão de 2.000 testemunhas, tendo sobrevivido e contribuído a partir de então para a aceitação do consumo do tomate como alimento.

·         Actualmente, há centenas de novas espécies de tomate de todas as formas, feitios e cores: vermelho intenso, rosa, amarelo, castanho, laranja, quase branco e até negro, sendo cultivado em estufas ou por processo hidropónico, tal é a sua utilização na indústria alimentar.

·         As sementes do tomate são extremamente duradouras, resistindo à passagem pelo trato intestinal e à decomposição na compostagem.

·         Aspecto lúdico do tomate: a festa da “Tomatina” em Espanha (Buñol) – os participantes protagonizam uma voluptuosa guerra, arremessando tomates uns aos outros.

PROPRIEDADES - CONTRAS

·         Tomates, batatas, beringelas, pimentos, bagas de goji – alimentos que fazem quase todos parte da dieta mediterrânica há vários séculos – pertencem à família das SOLANÁCEAS, vegetais de origem tropical e sub-tropical, que contêm um alcalóide tóxico, a SOLANINA, responsável por eliminar minerais e oligoelementos do organismo – são inibidores de cálcio e outros minerais alcalinos e tornam o pH do sangue ácido. Solanáceas são também o jindungo, o piripiri, o tabaco, a beladona, a mandrágora, …

·         As folhas e os frutos verdes do tomateiro contêm mais solanina, logo são mais tóxicos.

·         O efeito tóxico da solanina é particularmente grave e perigoso em pessoas com atrite reumatóide, refluxo gastro-esofágico, intestinos permeáveis, colite ulcerosa, lúpus, psoríase, esclerose múltipla, doença celíaca, cistite intersticial, doentes do fígado, rins, sistema digestivo, sistema imunológico, crianças com eczema, … levando às dores e inflamações articulares ou intestinais, calcificação dos tecidos moles, irritação intestinal, etc.

PROPRIEDADES – PRÓS

·         O tomate bem maduro naturalmente é rico em licopeno, pró-vitamina A, vitaminas do complexo B, vitamina C, P e K. Também possui minerais importantes como o potássio, o fósforo e o cálcio e ainda frutose e ácido fólico (anticancerígeno e bom para o cérebro, coração, pele e sistema imunitário).

·         O tomate representa uma grande fonte de LICOPENO – oxidante muito eficaz contra os radicais livres que dá a cor avermelhada ao tomate. Vários estudos atribuem ao licopeno a capacidade de prevenir o cancro da próstata, suprimir as células tumorais mamárias e reforçar o sistema imunitário.

·         É muito rico em potássio, equilibrando o sódio contido nos produtos animais consumidos – por este motivo, é por nós inconscientemente desejado quando consumimos carne ou peixe. No entanto, ao optarmos por uma dieta com mais vegetais, não notaremos tanto a sua falta.

·         Como planta medicinal é ainda utilizado: em cataplasmas (folhas), como emoliente (para amolecer tumores), em caso de hemorroidas (cortado fresco às rodelas e aplicado localmente), como diurético (em sumo fresco, sem sal, bebido várias vezes ao dia).

·         Bem amadurecido, é refrescante, aperitivo, alcalinizante e anticancerígeno.

SABER UTILIZAR …

·         A justificação de que não devemos consumir tomate, porque é extremamente “Yin” ou contém solanina, é verdadeiramente extrema e como sempre fruto de pouco conhecimento - a salsa e o aipo, p. exº, pertencem à mesma família da cicuta, e nem por isso são mortais, antes pelo contrário – pertencer à mesma família de plantas, não significa ter as mesmas propriedades e efeitos, já que as doses dos princípios activos são diferentes e amiúde as plantas pertencem a uma mesma família por outros motivos (forma das folhas, flor, etc.). Além do mais, a solanina presente no tomate, é mínima comparada com a que existe noutras solanáceas (beladona, datura, …) e os tomates bem maduros, lavados, borrifados com sal marinho durante um certo tempo, desaparece quase por completo.

·         Este alcalóide presente no tomate é menos tóxico se os consumirmos bem amadurecidos de forma natural – o ideal é cultivá-los e colhê-los bem roxos – sendo mínima a presença de solanina.

·         Outra forma de consumir o tomate é em forma de tomate seco (bem seco ao Sol) ou cultivá-lo com água do mar, como se faz na Sicília.

·         As pessoas mais débeis constitucionalmente ou que têm problemas de mineralização, artrite, reumatismos, doenças de pele, dores generalizadas, articulações débeis ou doridas, deveriam moderar a sua utilização ou evitá-lo.

·         As pessoas mais robustas, de boa saúde e que vivam em zonas com climas quentes e secos poderão integrar o seu consumo mais amiúde na sua dieta, sobretudo nos meses mais quentes de Verão, tomando, contudo, algumas precauções na sua preparação: reduzir o conteúdo de solanina, preferir cozimentos mais longos, consumi-lo de preferência em molho de tomate caseiro, borrifá-los com sal marinho ou flor de sal antes de os consumir … O licopeno encontra-se numa concentração dez vezes maior e a sua biodisponibilidade aumenta, após a cocção, isto é, em forma de molho de tomate.

Por tudo o que foi dito, deveríamos evitar o consumo de tomate, tendo o cuidado de o cozinhar devidamente e por tempo suficiente e temperando-o com sal marinho integral.

É melhor não o consumir diariamente, reservando a sua utilização para receitas especiais ou então consumi-lo em pequena quantidade e unicamente no Verão.

 

COMO ALQUIMIZAR AS SOLANÁCEAS

A cozinha mediterrânica utiliza uma grande quantidade de tomates, pimentos, beringelas, batatas, todos eles pertencentes à família das solanáceas, que contêm solanina, um princípio activo potencialmente tóxico, responsável por eliminar minerais e oligoelementos do organismo.

Mas não temos que nos assustar ou eliminar tais alimentos da nossa dieta. Muito simplesmente, só há que os consumir unicamente na sua estação e bem maduros (Verão). A solanina, de facto, em tais condições, é praticamente inexistente. Devido à energia expansiva destes vegetais, é importante adoptar algumas precauções, que nada têm de novo, e constituem, de facto, a maneira tradicional de os preparar.

Em algumas zonas de Sicília, por exemplo, os tomates são regados com água do mar: o clima, particularmente quente, e o sal da água, deixando os tomates a secar ao Sol durante dias, são todos eles factores yang que harmonizam a natureza yin do vegetal.

No que diz respeito às beringelas e pimentos, devem deixar-se uma meia hora cortados e borrifados com sal marinho, a seguir passam-se por baixo da torneira (que eliminará a solanina) e, finalmente, seguem-se cozeduras muito longas, se possível, no forno: o tempo e o ambiente muito yang do forno vai, em parte, equilibrá-los.

Nas batatas, a solanina vê-se à vista desarmada: é aquela coloração verde que têm quando são colhidas antes do tempo, mas que também se acumula nas batatas velhas, enrugadas e germinadas. Assim há que observá-las, deixá-las uma meia hora cortadas em água com sal marinho. Mas, devido ao seu índice glicémico muito alto, devem-se evitar, se tivermos o açúcar no sangue elevado ou alguma doença grave e debilitante, já que neste caso, há que ter a glicémia sob controlo.  Também se deve restringir o seu uso ou eliminar as solanáceas da dieta se se sofrermos de algum tipo de condição inflamatória que gere dores: artrite, enxaqueca, artrose, etc.

 

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

·         - “ECODIETA. Vivir en armonia com el entorno” – Clara Castellotti.

·         - “QUE EL ALIMENTO SEA TU MEDICINA. La dieta mediterrânea a la luz del yin y el yang” – Clara Castellotti.

·         - “Harmonisation de l´alimentation selon les variations de l´environnement et les besoins personnels” – Aveline e Michio Kushi.

·         - “Solanáceas, vegetais venenosos, cuidado com batatas, tomates e outros” – Manuel Moreira

·        -  “Plantas para curar e para comer” – Miguel Boieiro.

·        -  “Las solanáceas (tomate, patata, pimento y berengena) en la macrobiótica: por qué no se suelen comer y cómo suscituirlas” – CALAGNESMACROBIÓTICA.



Friday, March 10, 2023

 



DENTE DE LEÃO

“O dente de leão deve ser seguramente a planta com maior reputação na área da Fitoterapia, pois é presença obrigatória em todas as grandes obras da especialidade” (Miguel Boieiro).

Se há super plantas selvagens usadas como alimento e remédio, o dente de leão ocupa, sem dúvida nenhuma, lugar de grande destaque nessa classificação.
Tais “super-poderes” curativos estão bem patentiados no seu nome científico – taraxacum – que em grego significa: taraxos (transtorno) + akos (remédio). Isto é, indicada para curar todo o tipo de transtornos.
Já o seu nome vulgar – “dente de leão”, “dendeleon” para os ingleses, “pissenlit” (mija na cama) para os gauleses ou “erva urinária” para os castelhanos – está relacionado ou com a forma dentada das suas folhas ou com as suas grandes virtudes diuréticas e depurativas dos rins.
A taraxacum officinalis é uma planta nativa da Europa e Ásia, aclimatada a todo o hemisfério Norte.
Se bem que pode ser recolectada e consumida fresca durante todo o ano, é recomendável recolectar as raízes no Outono.
As suas sementes têm um fantástico poder disseminador, “semeando-se por toda a parte”, com um simples sopro de uma criança ou com o sopro do vento.
Toda a planta pode ser utilizada sem contra-indicações, em infusões (folhas), em decocções (raízes), em sumo fresco ou em alcoolaturas (maceração da planta jovem em álcool) – toda a planta é a ctiva, mas a raíz é a parte que mais propriedades contém.
As folhas jovens e frescas são especialmente benéficas na Primavera. Podem ser comidas cruas em saladas ou fervidas no vapor.
De efeito moderado, permite ser bebida diariamente, sendo o seu chá mais adequado às estações quentes do que frias.
Tal como a urtiga, é eficaz nas curas de desintoxicação da Primavera e do Outono.
Contém importantes princípios activos: lactopionina, tanino, inulina, tiraxicina, polissacarídeos, caroteno, mucilagens, fitosterol, esteróis, flavonoides, cumarina, enzimas, saponinas, etc.
É fácil de adquirir em qualquer ervanária.

PROPRIEDADES MEDICINAIS
Purificadora do sangue, colagoga (incrementa e estimula a passagem da bílis para o intestino delgado), diurética, estomacal, tónico amargo, remineralizante, anti anémica, hipotensora, depurativa, litotrópica (ajuda a dissolver cálculos e pedras das vias urinárias e biliares, em especial das vias urinárias), …
É indicada para problemas hepáticos, estomacais, biliares, intestinais e urinários; gota; erupções cutâneas; obesidade; inflamações, quistos e cancro da mama.
A cor amarela das flores e o gosto amargo, indicam propriedades hepáticas, enquanto que o leite que escorre dos seus talos assinalam a sua actividade curativa sobre as glândulas mamárias e aliviam as dores de picada de abelha.
As suas raízes tostadas são um válido substituto do café sem efeitos colaterais e favorecem o sistema imunitário.
Estudos mais recentes demonstram a sua capacidade antioxidante e anticancerígena.

RECEITAS e PREPARAÇÕES

“Negligenciando - o Dente de Leão - este tesouro do reino vegetal, a sociedade moderna mostra-se totalmente cega às virtudes da mãe natureza” (Ed Esko).

  CHÁ PARA DESINTOXICAR O FÍGADO (Lourenço Azevedo)
Ingredientes (plantas secas)
·         4 colheres de chá (cerca de 20g) de folhas esmagadas num almofariz (ou com as mãos)
·         1 litro de água
Ingredientes (plantas frescas)
·         8 colheres de chá (cerca de 40g) de folhas
·         1 litro de água
Preparação
·         Deixar a água entrar em ebulição, apagar o lume e esperar 3 a 5 minutos. Juntar as folhas e fica em repouso durante 10 minutos.
·         Coar e beber quente ou verter para uma garrafa térmica e beber durante o dia. Tomar, antes das refeições, uma chávena, três vezes ao dia.
Sugestões de utilização
·         Também se pode adicionar uma casca de limão, potenciando o seu efeito sobre o fígado.
·         Adicionar folhas de menta quando a infusão está à temperatura ambiente – alternativa refrescante e depurativa para os dias mais quentes da Primavera e do Verão.

  

CHÁ DEPURATIVO DO SANGUE
·         1 a 2 pés de dentes de leão (folhas e raiz)
·         Ferver em 2 copos de água, durante uns 10 minutos
·         Tomar 2 a 3 copos por dia. Pode ser bebido diariamente por qualquer pessoa.



  CHÁ DE RAIZ SECA DE DENTE DE LEÃO (Michio Kushi)
·         Cortar a raiz em rodelas fininhas
·         Tostar ligeiramente e reduzir a pó no moinho do café
·         Proporções: 1 colher de sopa de pó de raiz para 1 litro de água
·         Ferver durante 10 minutos, coar e beber
·         Tem gosto amargo. Fortalece o estômago e os intestinos e intensifica a vitalidade.



  CHÁ DE RAIZES E FOLHAS SECAS DE DENTE DE LEÃO (Bernardete Kikushi)
·         Ferver 2 copos de água e, quando estiver em ebulição, adicionar um punhado de raízes e folhas secas de dente de leão
·         Deixar ferver por 5 minutos em lume brando
·         Este chá pode ser usado frequentemente. É muito bom para o fígado e um excelente depurativo do sangue. Possui ainda propriedades  regenerativas e remineralizantes


“CAFÉ” DE RAIZES DE DENTE DE LEÃOas raízes são muito amargas e uma vez secas e tostadas e reduzidas a pó, são um excelente substituto do café, sem as desvantagens deste. Tonificante especialmente indicado para doenças cardíacas e desequilíbrios do sistema nervoso central.



  CAFÉ DE RAIZES DE DENTE DE LEÃO (Sara Rato)
·         Lavar as raízes e secar ao Sol durante vários dias. Cortar em pedaços pequenos
·         Tostar no forno. Moer no moinho do café
·         Ferver 2 copos de água, e, quando estiver em ebulição, adicionar 2 c. de chá deste café, deixando ferver por 10 minutos
·         Apagar o fogão, mexer um pouco e coar


NA COZINHA, AS FOLHAS JOVENS TENRAS E FRESCAS, PODEM SER PREPARADAS DE VÁRIAS MANEIRAS:
·         No vapor
·         Refogadas em azeite, alho e shoyu (molho de soja japonês salgado)
·         Em saladas cruas
·         Em saladas ligeiramente escaldadas em água a ferver (1 a 2 minutos)
·         Salteadas (em óleo/azeite ou água)
·         Como produto constituinte de sopas
·         Em “tempura” (fritas envoltas num polme)
·         Etc.
As folhas verdes do dente de leão dão força e vitalidade e são uma boa fonte de fibras, facilitando a digestão e são muito boas para a vesícula biliar.

  

  DENTE DE LEÃO COM SHOYU (Lima Oshawa) – receita para 5 pessoas
Ingredientes (plantas secas)
·         1 punhado de folhas tenras, apanhadas antes da eclosão das flores
·         1 colher de sopa (c.s.) de óleo de sésamo ou de azeite
·         3 colheres de sopa de shoyu
·         3 colheres de sopa de água
·         1 colher de sopa de sementes de sésamo, ligeiramente tostadas e esmagadas
Preparação
·         Lavar as folhas e cortá-las finamente
·         Salteá-las em óleo quente, em fogo médio, durante 2 a 3 minutos
·         Diluir o shoyu na água e juntar às folhas. Pode-se substituir por sal marinho
·         Deixar fervilhar até à completa absorção do líquido
·         Servir salpicadas com as sementes de sésamo tostadas e moídas
Variante com raízes de dente de leão
·         Lavar (escovar) bem as raízes e depois escorrer
·         Salteá-las em 1 c.s. de óleo de sésamo (ou azeite) 3 a 4 minutos em lume médio
·         Temperar com shoyu diluído ou 1 pitada de sal e deixar fervilhar até à completa absorção do líquido
·         Prato tradicional japonês contra o artritismo

  

  SUMO DE PLANTAS FRESCAS
·         2 a 3 colheres de sobremesa por dia
·         Indicado como diurético, depurativo e colagogo

   

  PICKLES DE BOTÕES FLORAIS DE DENTE DE LEÃO
·         Dos botões florais, ainda não abertos, do dente de leão, conservados em vinagre e sal, faz-se um aperitivo (pickles) semelhante às alcaparras.

  

  CATAPLASMA DE FOLHAS E FLORES FRESCAS
·         Esmaga-las e aplicar directamente na pele em caso de dermatite
·         A cataplasma é uma massa medicamentosa em forma de papa que se aplica sobre a pele de uma determinada zona do corpo dorida ou inflamada.

 

  AUTORES DE REFERÊNCIA
·         Lourenço Azevedo – “Regenerar. Manual de bem-estar para viver de acordo com as estações do ano”
·         Miguel Boieiro – “Plantas para Curar e para Comer”
·         Clara Castellotti – “Fitoterapia Energética. Plantas medicinales para una salud plena y natural”
·         Michio Kushi
·         Lima Ohsawa
·         Sara Rato
·         Bernardete Kikushi
·         Ed Esko – “Ode ao dente de leão” - Metamorfose, https://restaurantemetamorfose.blogspot.com/2017/12/ode-ao-dente-de-leao.html

 

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