Sunday, July 9, 2023


 FRUTOS SECOS

Os frutos secos, geralmente designados por “nozes”, são produtos oleaginosos e ricos em ácidos gordos essenciais e proteínas, indispensáveis para uma dieta saudável e equilibrada.

De uma maneira geral, podem ser consumidos com regularidade na sua época de recoleção, em pequena quantidade, e com menor frequência e em menor quantidade que as sementes (de sésamo, de abóbora, de girassol, …). Não devem se consumidos sós – devem ser acompanhados com outros alimentos: sobremesas, cereais, estufados, … caso contrário, podem ocasionar problemas por congestão linfática e hepática.

Excelentes alimentos, sobretudo no Inverno, não devemos abusar deles devido ao seu teor em matérias gordas (50 a 60%) e do seu elevado poder calórico. Devemos evitar os frutos secos vendidos como aperitivos, porque são sempre muito salgados.

Contêm nutrientes muito importantes e são especialmente recomendados como fontes de proteínas (13 a 20%). Também contêm uma grande quantidade de fibra, magnésio, manganésio, zinco, são boas fontes de vitaminas do grupo B (com excepção da vit. B12) e vitamina E.

Os seus ácidos gordos essenciais são muito úteis para o organismo – produzem energia e hemoglobina, estimulam o desenvolvimento cerebral e dos tecidos, estabilizam os níveis de açúcar no sangue, ajudam a manter a saúde cardíaca e arterial, contribuem para uma pele saudável, são eficazes em baixar os níveis de colesterol LDL, diminuem o risco de derrames cerebrais (especialmente as amêndoas e as nozes).

Ligeiramente tostados, são uma opção saudável, para o pequeno almoço adicionados aos cereais, como snacks, nas sobremesas ou como guarnição nas refeições principais.

Podem ser igualmente cozinhados com os cereais e legumes, incorporados no pão e pastelaria, transformados em óleos e preparados sob a forma de manteigas.

Devemos dar preferência aos frutos secos provenientes de cultura biológica, sem serem submetidos a tratamentos intensos de fertilizantes artificiais, insecticidas e fungicidas e que, depois de colhidos, não sejam tratados com produtos químicos a fim de aumentar a sua duração – por exemplo, as nozes, antes de serem descascadas, são geralmente tratadas com gás etileno para as suavizar; depois da extracção da casca, são submetidas ao brometo de metilo para neutralizar os resíduos de etileno; são depois lavadas com uma solução quente de glicerina e de bicarbonato de sódio e enxaguadas com ácido cítrico para restaurarem a pele que contém os nutrientes – são tratadas com bicarbonato de sódio e ácido cítrico para reavivar a sua côr a fim de ficarem apresentáveis.

A utilização da manteiga destas oleaginosas (ou de sementes) é de limitar porque são relativamente ricas em óleos e gorduras que as torna difíceis de digerir. Devemos dar preferência aos deliciosos cremes de barrar feitos em casa, como os de amendoim, sésamo, castanha de cajú, de origem biológica, com sabor, textura e qualidade muito superiores aos que se vendem no comércio ordinário.

HISTÓRIA
Na pré-história, antes das civilizações agrícolas, as “nozes” e as sementes constituíram um dos principais alimentos do ser humano.
Com o desenvolvimento da agricultura, a utilização das sementes e das “nozes” foi diminuindo e tornou-se uma parte complementar relativamente menor na alimentação, cuja base passou a ser de cereais integrais, forma mais evoluída dos grãos que se tornaram o SUPORTE DE VIDA de espécie humana.

QUALIDADE
Os frutos secos mais pequenos, contendo menos óleo e gordura e provenientes de regiões de climas temperados, são mais convenientes para a nossa alimentação, que as variedades maiores, com mais óleo e mais gordura, provenientes de regiões tropicais. As castanhas, as amêndoas, as avelãs, os amendoins, as nozes, as pecãs, os pistachos, os pinhões, estão entre as variedades mais utilizadas.
As castanhas de cajú, as castanhas do Brasil, as macadâmias e as outras variedades maiores devem ser menos frequentemente utilizadas nos países de clima temperado e mais nos seus países tropicais de origem.

O óleo destes frutos fica rançoso depois de um certo tempo – conservam-se melhor, durante um ano ou mais, dentro das suas cascas e guardados em locais frescos e à sombra.
Os frutos secos descorticados e retirados da casca, aguentarão mais tempo sem rançar, se guardados em frascos ou potes hermeticamente fechados, podendo mesmo ser refrigerados.
Os frutos que são esmagados, partidos ou reduzidos a pó ou a farinha, estragam-se mais rapidamente ao mesmo tempo que ficam com menos energia e com menos nutrientes do que aqueles guardados inteiros. Os frutos secos tostados têm igualmente tendência a rançar mais rapidamente.

É, pois, importante renovar regularmente o nosso aprovisionamento de frutos secos.
Serão de boa qualidade se, quando descascados, a sua superfície se apresentar lisa e regular, com um mínimo de arranhões ou fissuras, nem muito duros nem muito secos, sendo geralmente a ausência de aroma ou a sua descoloração indicadores de que estão rançosos.

VARIEDADES DE FRUTOS SECOS

AMÊNDOAS
São provavelmente os frutos secos mais conhecidos pelos seus benefícios para a saúde.
A sua pele além de as proteger e conservar depois de descascadas, contém numerosos nutrientes. Assim, aconselha-se a consumi-las com a pele já que ela contém 20 flavonóides (com funções antioxidantes, anti inflamatórias e de prevenção de doenças). A vitamina E presente, duplica a sua acção antioxidante e faz do seu óleo uma maravilha para dar flexibilidade à nossa pele. Também têm cálcio, magnésio, ferro, zinco e fósforo. São particularmente ricas em ácido fólico. São baixas em gorduras saturadas e a maior parte das gorduras insaturadas que contêm são monoinsaturadas (eficazes em baixar o “mau” colesterol LDL).
Por isso, ajudam a fortalecer os ossos e a prevenir a osteoporose e são altamente recomendadas para o equilíbrio do sistema nervoso e para lidar com a ansiedade, stress, insónia, irritabilidade e ainda indicadas para o cansaço intelectual e físico, nomeadamente nas crianças em idade escolar.
Segundo o Dr. Jorge Calvo, é melhor comê-las cruas que tostadas; no entanto, ligeiramente tostadas dão um magnífico snack. Partidas ou esmigalhadas podem ser adicionadas aos cereais estufados, feijões ou legumes. São também preparadas em forma de manteiga, leite vegetal como bebida (muito digesto) ou na confecção de bolos.

CASTANHAS
Constituem um caso único: são frutos ricos em amido, sendo a sua composição mais próxima dos cereais, sobretudo do trigo e da cevada, do que a dos outros frutos. Pobres em gordura, são composta principalmente por hidratos de carbono complexos, não contém glúten, sendo as mais utilizadas nas dietas saudáveis.
Doces e deliciosas, possuem uma textura lisa e compacta e combinam bem com cereais e feijões. São ligeiramente mais doces quando estão frescas.
Já foram a base da alimentação de alguns povos, nomeadamente do Maciço Central no Sul de França.
Ricas em proteínas, sais minerais e oligoelementos – cálcio, magnésio, zinco, cobre, fósforo, enxofre, manganésio, … – têm a vantagem de serem do bosque. Também contêm vitamina C (a mesma quantidade do limão) e vitaminas do grupo B (B1, 2, 3, 5, 6, 9).
Muito nutritivas e calóricas são indicadas para pessoas débeis, magras, sem apetite, convalescentes e em casos de astenia física ou mental e também para pessoas que têm muita actividade intelectual (são ricas em fósforo) ou desportiva. Energéticas e remineralizantes são anti anémicas e anti hemorrágicas e indicadas para a gravidez.
Podem ser compradas frescas ou secas. Secas são duras e enrugadas e têm de ser demolhadas durante várias horas ou mesmo durante a noite. Secas podem consumir-se durante todo o ano.

AVELÃS
Célebres nas mitologias celta, francesa e escandinava, podem ser comidas cruas ou cozidas.
Contêm cálcio, fósforo, magnésio, potássio, enxofre, cloro, ferro, cobre, vitamina A, E, C e B1.
Muito nutritivas e energéticas, são as mais digestivas entre os frutos secos.
São vermífugas, antioxidantes e ricas em fito esteróis (ajudam a prevenir doenças cardiovasculares).
Também são boa fonte de cálcio para os nossos ossos e ajudam a reduzir o excesso de colesterol no sangue e a regular os triglicerídeos, a hipertensão e a anemia. São um bom alimento para a saúde e hidratação da pele.

NOZES
Supõe-se que são originárias do Médio-Oriente e são produzidas actualmente no mundo inteiro.
Ricas e oleosas, podem ser cozidas (em pouca quantidade) com cereais (arroz integral ou outros cereais), adicionadas aos waffles e aos crepes e utilizadas em bolos e tartes.
São um dos frutos secos mais tratados industrialmente, devendo por isso ser compradas com casca e sempre que possível de produção biológica.
Excelente tónico para os rins e cérebro.
Devem ser consumidas na sua temporada (Inverno) e devem-se tostar ligeiramente para matar as larvas que podem parasitá-las.
É o fruto mais rico em zinco e cobre. Também contêm potássio, magnésio, fósforo, enxofre, ferro, cálcio, vitaminas A, B, C, e P. Muito nutritivas apresentam uma proporção perfeita entre ómega 6 e ómega 3. O seu consumo aumenta significativamente o HDL (colesterol “bom”), reduzindo o “mau” colesterol e protege-nos de danos cerebrais – a forma do fruto faz lembrar os dois hemisférios cerebrais.
Ajudam a regular o sono e a manter os vasos sanguíneos flexíveis.
São benéficas na prevenção contra o cancro e para a saúde cardiovascular, fomentam a concentração e o bom funcionamento neuronal e também a fertilidade masculina.
NOZES PECÃS
São doces e têm um sabor marcados o que faz com que sejam utilizadas em tartes, bolos e outras sobremesas.
No entanto, são as mais gordas de todas as “nozes” e só devem ser consumidas excepcionalmente.

PINHÕES
Destacam-se em manganésio e ferro. Tradicionalmente utilizavam-se nas afecções pulmonares e recentes estudos investigam a sua possível utilização na prevenção do cancro dos pulmões.
São muito populares desde a Antiguidade, na China e no Japão, onde se adicionavam à alimentação normal e representavam o alimento favorito da floresta dos anciãos.
Regulam os níveis de colesterol e reduzem os triglicerídeos pelo seu alto conteúdo em ómega 3 e em ómega 6, ajudando a elevar o “bom” colesterol. O seu conteúdo em vitamina E e zinco mantém a saúde do coração e os seus ácidos gordos são bons para as células nervosas, protegendo o cérebro e o sistema nervoso.
São úteis em épocas de stress e ansiedade. Também favorecem a concentração e a memória dos estudantes. Aconselháveis em caso de prisão de ventre devido às suas fibras, ajudam a reforçar as nossas defesas. Hidratam e cuidam da nossa pele devido à vitamina E e são bons para os ossos devido ao seu cálcio e magnésio.
São os que contêm mais quantidade de proteínas. Podem ser tostados e consumidos como snack, cozidos inteiros ou picados e comidos com cereais e legumes, esmagados para molhos ou prensados para fazer leite.

CASTANHA DE CAJÚ
É originário da América Central, América do Sul e de outras regiões tropicais.
Tenras e doces, contêm cerca de 50% de gordura. Tostadas com uma pitada de molho de soja salgado japonês (Shoyu ou Tamari) são mais digestas.
Ricos em fósforo, são recomendáveis para a saúde do nosso cérebro, especialmente para tarefas de aprendizagem e memorização. Ajudam a controlar os níveis de colesterol, previnem problemas cardiovasculares e mantêm a saúde das artérias. Também melhoram a circulação sanguínea e a hipertensão arterial.

PISTACHOS
Pelo seu conteúdo em ácidos monoinsaturados, ajudam-nos a controlar os níveis de colesterol e triglicerídeos, reduzindo o “mau” e elevando o “bom”. Previnem doenças cardiovasculares, regulam a pressão arterial e doenças dos olhos.
Também ajudam o sistema imunitário e o seu conteúdo em vitamina E protege e hidrata a pele. Devido ao seu conteúdo em potássio e magnésio, são recomendados para os músculos e o seu fósforo ajuda a saúde dos ossos e funções cerebrais.
Ricos em potássio, magnésio e vitamina E e particularmente em cobre, também são úteis em caso de anemia.
Possuem propriedades anti inflamatórias e anti fúngicas.
Segundo um estudo da American Association for Cancer Research, reduzem o risco de cancro do pulmão.
Estes doces frutos secos podem ser consumidos em forma de snacks e em sobremesas.
São provenientes do Médio Oriente e da Califórnia.

AMENDOINS
Na realidade são leguminosas, da família das Fabaceas, ainda que os tratemos como frutos pelas suas características semelhantes aos frutos secos.
Quando acompanham um cereal (arroz por exº, como nos países asiáticos) oferecem uma proteína de primeira qualidade. Como não possuem um índice glicémico muito alto, podem ser consumidos por diabéticos, mas são desaconselhados em caso de hipertensão arterial. Também podem produzir crises alérgicas por causa da histamina.
É na sua característica pele vermelha que se encontram grande parte dos seus nutrientes mais benéficos e há quem diga que devem ser consumidos sem serem tostados, sem sal e comidos com pele.
São ricos em ómega 3 e ómega 9. Muito ricos em gordura (o que faz deles o sustento dos elefantes de circo). Assim, por serem muito pesados para o nosso estômago e muito calóricos, só devem ser consumidos ocasionalmente e não mais de 6 a 8 amendoins de cada vez.
Também devem ser evitados em caso de debilidade hepática, peso excessivo, excesso de humidade, cancro e outras doenças degenerativas.
É preferível consumir amendoins de cultivo biológico e tostados em vez de fritos. Os amendoins comerciais são cultivados com a utilização de pesticidas, insecticidas, adubos sintéticos, contendo muitas vezes aflatoxina (substância cancerígena).
Ajudam a equilibrar o colesterol, protegem as artérias e as células do coração.
Um dos últimos estudos revela a sua eficácia em crianças com falta de atenção ou hiperactividade.


BIBLIOGRAFIA CONSULTADA

• “Os alimentos também curam” (2015) – Francisco Varatojo
“Macrobiótica moderna. La dieta más saludable para nutrir el cuerpo, la mente y el espírito” (2013) – Simon G. Brown
“Harmonisation de l´alimentation, selon les variations de l´environnement et les besoins personnels” (1985) – Aveline e Michio Kushi
“Nutrición energética y salud. Bases para una alimentación com sentido” (2012) – Dr. Jorge Pérez-Calvo Soler
“Ecodieta. Vivir en armonía com el entorno” (2017) – Clara Catellotti
“Nutrición energética y salud. Bases para una alimentación com sentido” (2012) e “Revitalízate! Las mejores recetas de la cocina energética” (2013) – Dr. Jorge Pérez-Calvo
“Los enormes benefícios de los frutos secos” (2020) – Álvaro Vargas


Thursday, July 6, 2023

 


O YIN E O YANG DA COZINHA DIÁRIA

por: Martín Macedo

Teoria e prática devem ir juntas. E ambas são de capital importância. As pessoas mais concentradas preferem os aspectos técnicos e descuidam a teoria, enquanto as pessoas mais intelectuais aprofundam naturalmente os aspectos teóricos, deixando um pouco de lado os aspectos práticos. Temos uma tendência a inclinar-nos mais para um lado ou para outro de acordo com a nossa natureza. Mas não nos devemos deixar levar pela inércia das nossas preferências, devemos compreender que para ter um desenvolvimento global é necessário ingressar no lado que não nos atrai tanto.

É muito difícil ter um desenvolvimento equilibrado. Tendemos fortemente a desenvolver o aspecto yin ou o aspecto yang, ou seja, prática ou teoria. Devemos trabalhar o lado contrário da nossa preferência pelo menos como forma complementar. Até agora temos trabalhado principalmente os aspectos teóricos. Está na hora de ingressar nos importantíssimos detalhes práticos.

Antes de tudo devemos reconsiderar que quase todos os componentes da nossa dieta são de origem vegetal, ou seja, que são yin. E no âmbito dos vegetais os mais neutros, os menos yin, são os cereais. E dentro dos cereais o que melhor combina ambas as energias é o arroz integral. Por isso o arroz deve estar diariamente, se possível, nas nossas refeições. Como é possível criar condições muito yang, partindo de componentes vegetais, de carácter dilatador, expansivo? Como é possível criar condições muito yang? Todos nós desejamos criar essas condições muito yang, como a força física e emocional, rapidez, precisão, autoconfiança, resistência, determinação, uma grande fé, magnetismo, êxito e atracção.

Em macrobiótica temos um princípio sagrado: se comes yang tornas-te yang - se comes yin, tornas-te yin. Se queremos ser muito yang, muito fortes, devemos comer alimentos yang. Então, pareceria mais lógico ir buscar estes componentes ao reino animal, onde o yang abunda. O problema está em que os alimentos animais são extremamente yang (salvo o peixe). Além do mais contêm elevados níveis de gordura que são extremamente yin, e por isso o alimento animal é delicioso e a tendência geral é abusar no seu consumo. Ao consumirmos quantidades importantes de alimento animal, absorvemos ambos os extremos, mas como o yang predomina, este desequilíbrio extremo irá levar a uma avidez compulsiva por doces, líquidos, álcool, café, chá-mate e outros yin fortes. O homem oriental sempre soube isto de forma intuitiva e sempre limitou o consumo de pratos de origem animal. Enquanto os ocidentais procuram avidamente a força yang nos alimentos animais, sem reflectir muito sobre as consequências sobre a sua saúde física e espiritual. O ocidental quer resultados rápidos. É demasiado yang para parar e fazer uma introspecção.

Porém, nós procuramos um milagre: produzir um resultado muito yang, partindo de componentes yin.

O alimento animal tem excesso de sódio enquanto que o vegetal tem excesso de potássio. O equilíbrio de sódio e potássio é o que conta. Portanto, para yanguizar os vegetais yin é imprescindível adicionar sódio em forma de sal marinho, miso, shoyu, gomásio, umeboshi e outros condimentos. Por outro lado, podemos yanguizar mediante o uso do fogo e do tempo de cozedura. Os nossos pratos devem ser cozinhados bastante tempo em fogo muito lento. Ainda assim, os vegetais têm uma essência yin e a sua capacidade de assimilar yang não é muito grande. Por isso é recomendável ingerir um pouco de peixe de vez em quando para adicionar yang. E os pratos de vegetais, feijões, sementes e outros ricos em potássio devem consumir-se em quantidades pequenas. Se o fizermos em quantidades importantes afastamo-nos das condições muito yang que queremos criar. Por isso, o tradicional foi empregar cereais cozidos em volumes maiores e vegetais e outros complementos em volumes menores. Contudo, para absorvermos todos os benefícios vitais do cereal, sobretudo se o comermos em volume importante, devemos mastigá-lo muito bem. De outra forma não o assimilaremos bem, sobretudo por parte das pessoas de constituição frágil. O uso do sal marinho constitui um tema delicado, já que a sua força contractiva é extremamente poderosa. Deve-se consumir em quantidades moderadas. O resultado é um yang suave que nos situa num grau de equilíbrio energético. Para produzir o resultado muito yang que desejamos e para o fazer de forma segura, devemos juntar mais dois factores: tempo e actividade. A perseverança, a vontade é o segredo para acumular a energia positiva de forma gradual. Passados um ou dois meses de prática constante começa-se a perceber efeitos poderosos. Porém, se quisermos acelerar o processo de mudança para condições mais vigorosas, o outro aspecto essencial é a actividade, o exercício físico. Sem exercício físico, mesmo fazendo bem tudo o resto, a taxa de mudança faz-se infinitamente mais lenta e corremos o risco de começar a duvidar sobre o sentido dos nossos esforços. Se quisermos produzir um resultado muito yang partindo de algo yin, a actividade física é essencial. As pessoas inactivas, preguiçosas, que sempre procuram a forma mais cómoda de fazer as coisas, têm muitas dificuldades no momento de avançar na sua recuperação e muitas vezes abandonam por falta de “resultados”. Para eles há outro caminho mais rápido e efectivo: a violência terapêutica. Há aqui novamente o paradoxo: o que procura o fácil, acaba encontrando o mais difícil, o mais duro, o mais violento. Enquanto que o caminho aparentemente mais difícil e esforçado produz paz e tranquilidade. Yin muda para yang e yang muda para yin. Devemos ser sábios para o compreender.

O ser humano realizado, tranquilo, feliz e extremamente saudável, tem o yang acumulado no seu interior e o yin no exterior. Aparentemente pacífico, tranquilo, humilde, calmo, compreensivo e carinhoso. Porém, internamente forte, decidido, valente, invencível, capaz de enfrentar qualquer desafio e extremamente adaptável e resistente.

O homem vulgar tem as energias invertidas. Tem o yang no exterior e o yin no interior. Desta forma aparentemente muito activo, enérgico, altivo, competitivo e agressivo. Tem o porte de um conquistador. Porém, internamente é muito frágil, sentimental, fácil de enganar, inocente, carente de autodisciplina, pobre em autoestima, medroso, desconfiado, ansioso e compulsivo. Não se aceita a si próprio e se auto castiga para tentar corrigir as tendências negativas que não pode eliminar. Considera-se separado de todos os demais e luta para ter um quinhão de poder onde encontrar segurança, ainda que seja de forma temporária. Aqueles que procuram a sua força no reino animal, acabam acreditando que são unidades separadas que devem sobreviver lutando até ao fim. Enquanto que aqueles que a procuram no reino vegetal, desenvolvem gradualmente uma compreensão universal, inclusiva, unificando toda a vida do Universo e cooperando para que todas as formas vivas alcancem a sua plenitude. Uma vez mais a fraqueza vence a força, a suavidade a prepotência e a paz a violência.



Tuesday, June 20, 2023

 


“ALIMENTOS TRADICIONAIS

Martín Macedo, Uruguay

Quando um povo se esquece da sua cozinha tradicional,

começa a declinar.

COMPREENDENDO O NOSSO PASSADO,

PODEMOS COMPREENDER QUEM SOMOS HOJE.

Todos nós necessitamos de conhecer as nossas origens, quem foram os nossos antepassados, onde viveram, que faziam e quais eram as suas virtudes e os seus defeitos.

A nossa identidade e dignidade como seres humanos depende em grande parte em saber de onde viemos. O passado é fundamental. Também é importante o futuro, para onde vamos e o que esperamos alcançar na vida. O nosso presente é o resultado do encontro entre esses dois mundos. O grande desenvolvimento da humanidade actual depende em grande medida das experiências acumuladas durante centenas de gerações. Todos esses esforços, sucessos e erros permitiram o actual avanço do conhecimento e da cultura.

Os usos tradicionais não são resposta a simples caprichos ou simplesmente uma consequência dos costumes. O ser humano aprendeu, após uma longa luta, o que é melhor para ele.

A capacidade formidável do conhecimento científico deslumbrou o homem moderno, levando-o a menosprezar e a considerar o antigo ou o tradicional como obsoleto ou “atrasado”.

No entanto, durante milhares de anos os seres humanos mantiveram-se fiéis a certas tradições porque a experiência lhes indicou que era o mais adequado.

Existe uma tradição no que diz respeito aos alimentos. Cada cultura tem a sua tradição e parte dessa tradição reflecte-se nos seus hábitos alimentares. Os alimentos básicos das grandes culturas permitiram, de alguma maneira, o grande desenvolvimento das mesmas. A crença tradicional leva à convicção de que de alguma maneira a peculiaridade e a força de um povo sustenta-se em grande parte na vitalidade que brota das suas comidas típicas. A civilização Egípcia e Judaico-cristã fez do trigo e seus derivados (especialmente o pão) a base da sua dieta. O pão é a base, o alimento fundamental, a tal ponto que se lhe deu valor religioso. No Extremo-Oriente, ocorre um facto similar com o arroz. As culturas Inca e Maia fizeram do milho o seu alimento divino. Esta é a tradição.

A experiência acumulada durante milhares de anos, levou os povos a perpectuar os costumes alimentares, entendendo que destes, depende a força e a grandeza que os têm caracterizado.

Penso que os cereais como o arroz, o trigo, a cevada e o milho (integrais, como se consumiam antes da generalização das máquinas polidoras no sec. XVIII) são os alimentos principais que as grandes civilizações nos mostram como correctos para a Humanidade. Deveríamos levar a sério o que nos ensinam os antigos. Quando um povo esquece a sua cozinha tradicional, começa a declinar. Entra em plena confusão e as doenças físicas e mentais propagam-se com grande rapidez. O espírito tradicional está vivo no coração dos simples grãos de trigo ou de arroz. Uma força mágica oculta-se nos modestos grãos. Durante milénios o homem recebeu directamente esta vitalidade mágica e sobreviveu com grande coragem e espírito de superação. Actualmente refinamos os grãos e ao fazê-lo estes perdem uns 50% do seu grande potencial vital.

Em trezentos anos, perdemos o gosto pelos pratos antigos e nutrimo-nos com produtos criados pela indústria que apenas procura vender grandes volumes das suas invenções “nutritivas”.

Nutrir não é só fornecer calorias e vitaminas. Há uma força vital subtil, ancestral, poderosa nos alimentos originais.  

A nossa grande capacidade só funciona optimamente se respeitarmos esta ordem tradicional. Quando o homem regressa a uma alimentação baseada em cereais e pratos tradicionais, encontra todo o seu potencial físico e mental. A grandeza da humanidade depende em grande parte destas simples tradições. O nosso ADN é o resultado de milhares de anos de evolução, bem como o ADN dos cereais naturais. Se os esquecermos, esquecemo-nos das nossas origens. A nossa força como humanos declina e somos presa fácil dos vírus e bactérias. Os nossos sistemas imunológicos só funcionarão com grande capacidade se cada célula for sustentada pela vitalidade formidável cristalizada nos alimentos correctos para o homem.

Cada espécie tem um alimento correcto – se se alimentar com ele a sua força natural é praticamente ilimitada.

A natureza utiliza os alimentos como canais para nos conectarmos com as imensas forças do universo. Se não comemos morremos. Se nos afastarmos da ordem e comermos “de tudo” receberemos força vital, mas com certa distorção. Se comermos o alimento justo, ajustar-nos-emos aos ritmos universais e projectaremos a vitalidade ilimitada que é nosso destino manifestar. Os grandes homens e mulheres da antiguidade fizeram-no.

Porque não nós, homens e mulheres do século XXI ? “                                                                         

Friday, June 9, 2023

 


COZINHANDO PARA A VIDA

Por: Dr. Martín Macedo, Uruguay

A arte culinária é tão antiga como o Homem. Desde os tempos pré-históricos, o ser humano tem utilizado diferentes técnicas para melhorar o sabor da sua comida e aumentar o seu valor nutricional.

A cozinha, permitiu uma melhor adaptação aos diferentes climas e aos diferentes envolvimentos geográficos. Por isso cada região tem os seus pratos típicos e os seus sabores autóctones. Cada cultura tem também diferenças importantes neste aspecto.

Praticamente todos os seres humanos, desde os aborígenes mais primitivos até às pessoas mais refinadas e cultas, cozinham os seus alimentos antes de os consumir.

A macrobiótica dá uma importância de destaque à arte culinária – trata-se de uma verdadeira arte, a arte de atingir o nível mais elevado de saúde e de vitalidade, que cada indivíduo possa alcançar.

Por isso o tema da cozinha quotidiana, não deve ser tomado de ânimo leve. Actualmente, é notavelmente desvalorizada e quase todos nós preferimos delegar esta tarefa noutras pessoas.

Porém, se compreendermos o seu profundo significado, provavelmente iremos desejar começar a cozinhar, já que cozinhar é uma das formas mais imediatas de nos harmonizarmos com a natureza e as forças do universo. Quem descuida a cozinha descuida a sua própria vida.

A nossa energia vital, a força da nossa vitalidade e a capacidades de sermos felizes, são fortemente influenciadas por aquilo que comemos, a forma como cozinhamos e a ordem no consumo.

Se quisermos pôr ordem nas nossas vidas, devemos começar por pôr ordem nos aspectos mais básicos.  Se descuidarmos o básico não teremos êxito em ordenar aspectos mais importantes.

Porém, existem muitos estilos de cozinha: cozinha vegetariana, cozinha ecológica, cozinha naturista, cozinha japonesa, chinesa e outras. Todas têm os seus méritos e procuram alcançar os mesmos objectivos: combinar o bom sabor com um efeito saudável.

Muita gente quer escapar à comida/lixo - já não é segredo para ninguém que muitas doenças têm a sua origem no consumo contínuo de alimentos de má qualidade. Portanto, queremos proteger-nos contra esta ameaça dos falsos alimentos e procuramos um estilo mais saudável. Mas ao procurarmos o saudável, as ofertas são muito variadas – diferentes mestres ou especialistas, recomendam esta ou aquela dieta como óptima para a saúde. Todos desejam convencer-nos de que a sua proposta é a melhor. Porém, às vezes, a experiência é a única opção – mas não é possível experimentar tantas opções.

Comecei a praticar macrobiótica por minha própria iniciativa aos 16 anos. Não precisei de experimentar diferentes abordagens – só queria experimentar uma saúde poderosa, um fortalecimento vital, como um caminho para resolver alguns conflitos próprios da etapa da adolescência – e funcionou. Em poucos meses senti um vigor que me impressionou poderosamente, e desde então continuo esta prática.

Realmente existe um pouco de confusão entre tantas propostas nutricionais. Também existe uma nutrição oficial, que se pode estudar na universidade – mas ainda assim, as propostas multiplicam-se.

Em macrobiótica resolvemos este tema da seguinte forma:

1.  Toda a técnica deve ter uma teoria, um fundamento sólido que suporte a técnica, senão é só tecnicismo. A nossa lógica é o Princípio Yin-Yang, com 5.000 anos de existência.

2.  A experiência dos países orientais, sobretudo a China e o Japão que criou culturas altamente desenvolvidas.

3.  A extraordinária saúde e desenvolvimento intelectual e moral destes países, sobretudo dos povos japoneses, que praticam uma dieta baseada no arroz, leguminosas, algas e peixe.

4.  A experiência de milhares de pessoas, que desde 1950 até à data, tanto nos EUA como na Europa, se curaram de problemas considerados incuráveis para a medicina oficial, seguindo simplesmente com assiduidade um estilo nutricional macrobiótico.

5.  A própria experiência, depois de um tempo variável para cada indivíduo, desde 1 a 3 meses, experimentando-se um bem-estar tão notável, que já não quereremos abandonar esta prática.

6.  Também os diferentes investigadores da saúde em universidades prestigiosas dos EUA, que fizeram estudos sobre pessoas alimentando-se macrobioticamente e deixaram evidências médicas dos benefícios em: pressão arterial, nível de colesterol, arteriosclerose, peso ideal, nível de açúcar no sangue e aumento da resposta imunológica.

7.  E finalmente, a intuição. No meu caso, deixei-me guiar por ela há 20 anos e encontrei assim a mais elevada cultura da nutrição.

Yin e Yang, não são só conceitos ou palavras de origem chinesa – reflectem uma actividade, uma forma de movimento ou tendência. Se observarmos a nossa realidade de mente aberta, podemos ver que tudo é movimento – ninguém pode negar que tudo muda. O relógio não para – envelhecemos, transformamo-nos e aprendemos coisas novas. O dia começa pela manhã e continua até à noite. O Verão avança até ao Outono. A criança faz-se adulto e o adulto se faz velho. A riqueza de hoje pode amanhã ser pobreza. A ignorância de hoje, pode ser sabedoria no futuro.

Esta mudança obedece a ciclos: ciclos naturais, ciclos biológicos, ciclos históricos.

As civilizações nascem, desenvolvem-se e a seguir declinam.

Todas as mudanças se dirigem para os seus opostos: dia em noite, fracasso em êxito, escravidão em liberdade, falta de jeito em destreza.

Para simplificar, podemos classificar em Yang tudo aquilo que tem tendência para o positivo, o rápido, o dinâmico e o prático. Os fenómenos com tendência Yin, serão os antagónicos: a passividade, a lentidão, a suavidade e a espiritualidade.

A saúde é um fenómeno positivo e luminoso. A saúde é Yang – a doença tem uma tendência mais apagada, débil e triste – podemos classificá-la como um fenómeno de tendência Yin.

Portanto, Yang muda para Yin gostemos ou não. Este processo pode levar dias, semanas ou anos, mas a mudança está operando agora mesmo saibamo-lo ou não. De facto, todos já tivemos alguma doença ou tê-la-emos no futuro, porque a saúde não é nem absoluta nem eterna. Porém, ao estarmos doentes, existe a opção de retornarmos à saúde e a mudança toma uma direcção diferente. Temos a liberdade de escolher que direcção queremos tomar, já que a liberdade é uma possibilidade do nosso espírito, ainda que às vezes não saibamos como empregá-la.

Podemos escolher um alto nível de saúde e mantê-la quase inalterada durante muitos anos. Poderá haver momentos de debilidade orgânica, mas fortalecendo a vontade e mantendo hábitos adequados, é possível disfrutar de uma grande saúde durante um período prolongado.

Quando se pratica macrobiótica a fundo, não se evita apenas a doença, mas também se pode transformar uma situação de doença. Quando a saúde se debilita surge a doença – não importa nem o tipo nem o nome da mesma - doença é saúde débil. Ao fortalecer-se a saúde, a doença cura-se. É assim e não pode ser de outra forma. É lógico e é justo. O universo tem regras claras. A mente do homem às vezes confunde-se e afirma que várias doenças não têm cura, admitindo que a saúde pode transformar-se em doença, mas não se admite o contrário em muitos casos.

Mas a lei do Yin e Yang indica o retorno, se existir vontade de retornar. Não há cura sem vontade de se curar. Cura é Yang, trabalho autocrítica, assumir a própria responsabilidade e pôr-se em movimento.

Mas se ficarmos à espera que nos curem, então esperaremos por um milagre, porque ninguém nos pode curar … nós teremos de fazer o trabalho … de contrário, não será uma cura profunda, duradora.

E POR ISSO, DEVEMOS APRENDER A COZINHAR ...

A COZINHAR PARA A VIDA.



Friday, May 26, 2023

 


ALIMENTAÇÃO SAUDÁVEL:

OS 10 PONTOS DE UMA DIETA EQUILIBRADA

EM HARMONIA COM O MEIO AMBIENTE 

Por: Clara Castellotti (*)

“O mundo está interconectado através dos processos da nutrição e do alimento. O alimento não é uma mercadoria nutricionalmente vazia e tóxica, não pode ser “bioingernierizado” para compensar as suas carências. O alimento, aquele que definimos como “saudável”, é o resultado da nossa relação com a Terra e de como a cuidamos e o alimento “bom” é um direito para todos os seres vivos, desde as abelhas, que não deviam ser tratadas com neonicotinoides; os vermes não deviam ser eliminados com fertilizantes químicos e glifosato; desde a pessoa mais pobre até à última criança. Unamo-nos então, agora mesmo, em todo o mundo, para voltarmos a ter para todos o nosso alimento, na sua função de nutrição. É tempo de reivindicar o nosso “bom alimento” – Vanda Shiva.

Este artigo, trata de prevenção, não de cura: de alimentação saudável. Não falaremos de dietas curativas que necessitam de um foco mais específico, porque a doença é filha do desequilíbrio e, com a prevenção e o conhecimento adequados, podemos evitar muitos desses desequilíbrios.

Pontos mais importantes de uma dieta equilibrada,

em harmonia com o meio ambiente:

1. OPTAR POR ALIMENTOS VERDADEIROS, PREDOMINANTEMENTE DE ORIGEM VEGETAL.

Um alimento verdadeiro é uma substância íntegra, que não sofreu transformações industriais, isto é, que não foi modificado artificialmente: cereais integrais, leguminosas, sementes, frutas e vegetais de estação, cultivados de maneira orgânica; produtos de origem animal provenientes de quintas ecológica que respeitem os ritmos vitais dos animais; peixe de pesca sustentável …

Saudáveis e verdadeiros são também os alimentos que foram secos, fermentados, marinados ou transformados por métodos tradicionais. Em contrapartida, não podemos considerar alimentos verdadeiros muitos dos produtos que, ainda que sejam vendidos como saudáveis em lojas de produtos naturais, foram processados industrialmente. Refiro-me a vários subprodutos de soja, a soja texturizada, hamburgers e wurtels veganos, as inúmeras galletes adoçadas com xarope de agave e outros adoçantes similares que foram refinados e processados. Numa dieta saudável, devem ser consumidos unicamente alimentos biológicos.

2. CONSUMIR ALIMENTOS DE ESTAÇÃO FRESCOS E CULTIVADOS NUM CLIMA O MAIS PARECIDO POSSÍVEL AO DA NOSSA RESIDÊNCIA.

A dieta ideal deve assegurar, pelo menos, um certo aporte de elementos biológicos frescos para nutrir a nossa energia defensiva e, se possível, devem ser autóctones, para fornecer a integração do indivíduo no ambiente em que vive. Só assim podemos conectar com o nosso envolvimento, coisa que não podemos levar a cabo se, na nossa dieta, a maioria dos alimentos vierem de longe ou de outra tradição. As técnicas de conservação/armazenamento, como a refrigeração, a congelação, etc., fazem com que os produtos, sobretudo os vegetais, cheguem às nossas mesas privados daquela “qualidade biótica” que representa a sua energia como ser vivo. Esta qualidade biótica consiste num aporte energético básico para o nosso organismo, já que está em relação directa com a “aura” o “halo energético” dos alimentos (energia Wei), que se perde progressivamente no decurso do tempo. Wei é a energia defensiva, a que estimula e sustenta o sistema imunitário, pelo qual, somente os produtos frescos poderão garantir ao nosso organismo as defesas adequadas, realizando a sua capacidade neutralizante face às influências exteriores. Da permanência da energia Wei nos alimentos depende a sua capacidade de conservação.

Consumir alimentos de estação é fundamental para criar harmonia com o meio ambiente: a natureza oferece-nos, a cada momento, justamente o que necessitamos para que essa adaptação seja completa. Consumir alimentos fora da sua época significa introduzir no nosso organismo energias pouco adaptadas ao momento que estamos a viver, criando as bases de um desequilíbrio e da doença. Outro factor que nos debilita é a presença na nossa dieta de alimentos exóticos, não aptos para o clima em que vivemos. Este factor agrava-se quando se trata de um alimento fresco (fruta, por exº) transportado em câmaras frigoríficas durante longas distâncias.

Para enfatizar a harmonia com o meio ambiente, quem viver junto ao mar poderá fazê-lo consumindo algas marinhas, verdadeiros concentrados de água do mar; quem viver na montanha deverá alimentar a sua energia com alimentos silvestres, como cogumelos, castanhas e frutos do bosque. Os alimentos silvestres, como os cogumelos, as plantas, os vegetais, os frutos do boque, a água bebida do próprio poço, etc., contêm uma quantidade de energia telúrica sumamente maior inclusivamente à dos alimentos biológicos cultivados pelo homem.

3. CONSUMIR NA SUA MAIORIA ALIMENTOS EQUILIBRADOS.

Se consumirmos alimentos mais centrados da lista yin-yang (**), sentir-nos-emos muito menos atraídos por alimentos extremo yin ou extremo yang. Se comermos cereais integrais, leguminosas ou peixe, a nossa necessidade de yin satisfar-se-á com vegetais doces ou fruta, enquanto que, se consumirmos carne vermelha ou queijo curado, facilmente iremos desejar acompanhá-los com um copo de vinho, um gelado ou uma sobremesa açucarada, para compensar. Se salgarmos demasiado os alimentos, necessitaremos de adicionar mais óleo/azeite e vinagre para equilibrá-los. Os alimentos afastados do centro consumir-se-ão, portanto, ocasionalmente e equilibrando-os sempre com alguma substância de carácter complementar, mas não extrema. Se compensarmos um bife grelhado com um gelado (ainda que não tenhamos desejos disso), teremos de voltar a algum yang extremo para restabelecer o equilíbrio e isso leva a um círculo vicioso sem fim. Quando consumimos alimentos de origem animal, é necessário ter em conta três regras fundamentais: 1) comer uma quantidade muito reduzida; 2) acompanhá-los de grandes quantidades de vegetais e de frutas que em parte anulem as substâncias nocivas produzidas pela combustão das gorduras e das proteínas animais, evitando assim que organismo se acidifique; 3) reduzir ou evitar a ingestão dos vegetais mais yang, como cereais integrais e leguminosas ao mesmo tempo da proteína animal.

4. RESPEITAR PROPORÇÕES E QUANTIDADE.

“Nada na natureza é veneno; é a quantidade que transforma uma substância em veneno” – Paracelso.

Se tivermos em conta o número e o tipo de dentes que a Natureza nos proporcionou, constataremos que temos apenas 4 caninos aptos para comermos carne, contra 20 destes – entre molares e pré molares – específicos para moer cereais, raízes e sementes, além de 8 incisivos para os vegetais. Ao contrário do que se passa actualmente, as proteínas animais deveriam constituir no máximo 1/8 da nossa dieta quotidiana. Se respeitarmos esta proporção, não só não seriam nocivas, como nos fornecerão os nutrientes que uma dieta equilibrada e completa exige, sem recorrermos a alimentos integradores. É a quantidade que acaba esgotando a capacidade de alquimia da nossa maravilhosa máquina humana. A quantidade na nossa sociedade prevalece sobre a qualidade, mas há que conseguir que nos alimente mais, seja a nível energético ou físico - uma pequena e feia maçã recém colhida da árvore, alimenta-nos mais que 10 formosas maçãs amadurecidas em câmaras frigoríficas, compradas nos supermercados.

Em segundo lugar, tratando-se também de um alimento saudável e equilibrado se o consumirmos em excesso, torna-se prejudicial, já que comer em excesso esgota os órgãos e os diferentes sistemas do nosso organismo. Se comermos mais do que o necessário, criamos uma estagnação, e produzir-se-á uma digestão mais lenta. Como consequência disso, aparecerá distensão e cansaço depois de comer, já que a nossa fisiologia ocupar-se-á de digerir este excesso de comida. Michio Kushi costumava dizer que “é menos prejudicial comer pouco seguindo uma dieta normal, do que comer muito comendo uma dieta macrobiótica”. Deveríamos levantar-nos da mesa com um pouco de fome – essa sensação desaparecerá completamente em pouco tempo. Sentir-nos 80% cheios, sugeria Ohsawa.  

5. REDUZIR A INGESTÃO DE PROTEÍNAS E GORDURAS ANIMAIS.

Ao contrário de muitos colegas, a quem muito respeito, em geral e se não houver necessidade temporal para o fazer, não sou partidária da dieta vegana a longo prazo, ainda que considere que a proporção de alimentos de origem animal consumida deva ser muito reduzida e adaptada à condição de saúde de cada indivíduo. Deve-se limitar a quantidade e que seja de proveniência estritamente biológica, para evitar a superabundância de antibióticos e hormonas, dando preferência ao peixe, que é anti-inflamatório. Recordemos que os alimentos de origem animal, ao serem inflamatórios (excepto o peixe) e acidificantes, devem ser equilibrados com grandes porções de alimentos alcalinizantes e anti-inflamatórios. É suficiente muito pouca proteína animal - de 5 a 15% da nossa ingestão total de acordo com a condição de saúde pessoal -, o que nos fornecerá todos os nutrientes que necessitamos sem ter medo e recorrer a integradores, evitando assim os produtos mais extremos, como enchidos, carnes vermelhas, fumados, queijos curados e, sobretudo, acompanhando aquela pequena porção com muita quantidade de alimentos vegetais.

A propósito da dieta vegana, queria também dizer que, para as pessoas que vêm de um passado de abuso de proteínas animais, uns anos de dieta vegana é muito aconselhável, já que ajudará a elimina os excessos acumulados e fará com que reconsideremos os nossos hábitos alimentares, voltando depois a consumirmos tais alimentos com consciência e na sua justa medida. Ao falarmos de dieta e saúde, há que enfatizar que as dietas veganas são, na sua maioria, muito desequilibradas: só, e nem sempre, cumprimos com o critério ético de não prejudicar os animais e o ambiente; não são, em vez de e em geral, dietas equilibradas e saudáveis (***). Com o tempo, debilitarão muitíssimo o organismo. Assim, se seguirmos uma dieta vegana, devemos considerar a macrobiótica vegana, que tem em conta não só a ética, mas também o equilíbrio entre os alimentos.

6. ELIMINAR É MAIS IMPORTANTE DO QUE ADICIONAR.

Eliminar da nossa alimentação os alimentos “prejudiciais” é mais importante do que adicionar aqueles que consideramos serem saudáveis. Muitas pessoas pensam que “comem bem” porque consomem sopa de miso, cereais integrais e outros alimentos que catalogam como “saudáveis”, mas continuam a seguir com os costumes que tinham antes: não se libertam do consumo excessivo de produtos de origem animal ou produtos refinados, não renunciam à sua dose diária de vinho, bebidas alcoólicas, cigarros ou cerveja e autojustificam-se demasiado com frases do tipo “é só quando saio com os amigos”. Se isso for verdade muito ocasionalmente, nada irá acontecer. No entanto, cuidado com os autoenganos.

7. RESPEITAR O RELÓGIO BIOLÓGICO E CRIAR UMA ROTINA. (****)

Numa alimentação saudável, também é importante a distribuição dos horários das refeições.

É um erro saltar o pequeno-almoço: a energia Qi nutricional está em níveis altos em torno do baço e do estômago das 7 às 11 horas da manhã. Este é um horário em que podemos digerir muito eficazmente os alimentos que ingerimos e transformamos em energia a utilizar durante o dia. Saltar o pequeno-almoço pode causar desequilíbrios ao nível do açúcar no sangue e fará co que o nosso organismo acumule reservas (instinto de sobrevivência) em vez de as libertar. Assim, se pensarmos perder peso, obteremos o seu contrário. O velho ditado “comer de manhã como um rei, ao meio-dia como um príncipe e à noite como um pobre”, está seguramente correcto, ainda que, pessoalmente, aconselhe a comer ao pequeno-almoço como um príncpe e ao almoço como um rei. De facto, quando nos levantamos, os nossos órgãos estão ainda a despertar, e, exigir-lhes um trabalho demasiado intenso pode ser contraproducente. A Ayurveda, que tanto indagou sobre o relógio biológico, equilibra o nosso Sol Interno (o fogo digestivo ou Agni) com o Sol Externo. É ao meio-dia quando o Sol tem mais força e, da mesma forma, que nosso Agni está mais activo. Assim, temos a máxima força digestiva nas horas do meio-dia e é nesse momento que deveríamos consumir comida mais abundante. Depois do pôr do Sol Agni também se apaga e com ele a capacidade do nosso metabolismo dividir nutrientes e assimilá-los. Assim, o jantar deverá ser o mais cedo possível e muito ligeiro, só assim não se criarão estagnações. Muitos problemas digestivos provêm não só daquilo que comemos, mas também de como comemos, incluindo jantar tarde. O refluxo gastroesofágico, a acidez do estômago, a ansiedade pela comida, os gases, a flatulência, etc. são todos eles problemas que têm origem nos maus hábitos alimentares.

Procurar regularidade nos nossos costumes e nos horários das refeições, levantar-se ou deitar-se mais ou menos à mesma hora, arranjar tempo para fazer exercício físico durante o dia e um espaço para meditação são, entre outras actividades rotineiras, ferramentas que nos permitem retornar ao nosso centro.

Repetir um Mantra recitado mantendo as mãos abertas sobre o prato para energizar a comida e dar graças por ela é uma rotina maravilhosa.

8. EVITAR COMER À PRESSA.

Comer depressa, assim como as refeições irregulares, empobrecem o fluxo vital do baço e do estômago, já que não os deixa ter tempo para digerir os alimentos e causa estagnações aos seus Qis; o mesmo se passa ao comermos em pé. É melhor não misturar comida e trabalho; a nossa digestão funciona melhor quando está focada em disfrutar da comida não nos distraimos com outros estímulos ou factores. Assim, é melhor fazer com que o tempo em estamos a comer seja um momento de descontracção em vez de tentarmos ler ou ver TV ou fazer negócios. A mastigação deve ser tranquila e lenta, triturado perfeitamente os alimentos antes de os engolir. Mastigar bem reduz o trabalho dos nossos órgãos e aumenta a absorção dos nutrientes. Esta função, além de assegurar uma digestão fácil e óptima, ao ser a boca a porta do sistema digestivo, tem as suas explicações energéticas; de facto, a saliva, está carregada de energia elecromagnética e somente uma atenta mastigação irá permitir ao Qi misturar-se com os alimentos. A amílase salivar que decompõe os hidratos de carbono complexos, provenientes dos tubérculos, raízes, cereais integrais e leguminosas, inicia esse longo processo digestivo que os vai converter pouco a pouco em glicose para nos fornecer energia. Mastigar correctamente até que o alimento se torne cremoso ajuda a estabilizar os níveis de glicose e diminui o stress e o trabalho do estômago; tem um efeito calmante e relaxante que promove a estabilidade emocional e finalmente evita inchaços e fermentações intestinais. Aquece ou esfria o alimento, levando-o à temperatura corporal porque assim dá menos trabalho ao estômago e ao baço e ao começo do peristaltismo no cólon, ajudando a regular s intestinos. Mastigar bem ajuda também a não engordar: estimula no intestino a produção de neuropeptídeos que induzem o sistema nervoso a reduzir o apetite. Permite-nos acalmar, desfrutar da comida e conectar com o processo da nutrição com agradecimento e consciência. Ohsawa dizia que o facto de se mastigar muito estimula os Charas Superiores e é um dos vários motivos pelo que associava a Macrobiótica Zen ao regime dos mosteiros Zen, o Syozin Ryori, “cozinha que melhora a compreensão”. Manter uma atitude tranquila às horas das refeições provoca, além do mais, que todas as nossas reacções durante o dia sejam mais pacíficas e controladas. Umas palavras de agradecimento ou um Mantra recitado antes de comer, ajuda-nos a centrar no momento presente (o aqui-agora, NDT), tornando a nossa atitude mais consciente e tranquila. Para isso, devemos juntar as palmas das mãos e apoiá-las no centro do peito e a seguir recitar o som “suuuuuuu”. “Su” é o som da harmonia, acalma-nos imediatamente e serve para nos harmonizar com o alimento que temos à nossa frente.

 

9. UTILIZAR O BOM SENSO/SENSO C0MUM.

Isto significa ter a humildade de aprender com as tradições, que normalmente unificam a sabedoria e a experiência e não nos deixarmos doutrinar ou ser levados pelas modas do momento, a miúde privadas de fundamento e de bom senso.

10.  FINALMENTE, NEM SÓ DE PÃO VIVE O HOMEM.

“Não devemos curar os olhos sem curar a cabeça inteira; nem a cabeça, sem curar o corpo. Além disso, não devemos curar o corpo sem curar a alma. Este é o motivo pelo qual os médicos desconhecem a cura das doenças: porque eles ignoram o Todo. Uma parte específica do corpo não pode estar bem se o Todo não estiver bem”. Platão.

A cura do corpo - que inclui o exercício físico regular, além da dieta – deve ir em unidade com o controlo da mente, à abertura do coração e ao cultivo do espírito. O que introduzimos na nossa mente e no nosso espírito por meio de como pensamos, actuamos, partilhamos ou vemos é tão importante como o que introduzimos no nosso organismo em forma de alimento.

Estudos recentes demonstraram que com a nossa actividade espiritual podemos modificar o ADN, podemos ligar ou desligar com a meditação determinadas células.

Com a meditação, reduz-se a actividade dos genes que causam inflamação e temos visto como o estado inflamatório crónico está ressente em muitas doença como o Alzheimer, a diabetes, o enfarte e o cancro.”

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·         (*)- IN: “QUE EL ALIMENTO SEA TU MEDICINA. La dieta mediterránea a la luz del Yin y el Yang” – Clara Castellotti – dilema EDITORIAL, 2022.


(**)- 


·         (***)-   IN: “Alimentación y salud integral para niños” – Clara Castellotti – dilema EDITORIAL, 2010.


·         (****)-    


O DAIKON SÍNTESE GLOBAL ORGANIZADA POR TEMAS (IA) Existe um elevado grau de concordância entre as fontes. Abaixo segue uma síntese or...