Monday, August 10, 2026

 

COMO EVITAR A INFLAMAÇÃO CRÓNICA

Venu Sanz Chef

Certamente já ouviu falar de inflamação crónica e, embora não soe nada bem, é algo que, atualmente, está muito presente nas nossas vidas. Refiro-me à inflamação crónica e não a uma inflamação pontual, porque não são a mesma coisa.

A inflamação ocorre quando o nosso sistema imunitário reage para proteger o organismo de infeções, lesões ou doenças. No entanto, quando a inflamação persiste para além do tempo necessário e deixa de cumprir a sua função reparadora, o organismo não consegue regressar ao seu estado normal e a inflamação não desaparece.

Este tipo de inflamação mantém o organismo num estado constante de alerta que, com o passar do tempo, provoca um impacto negativo. É nestes casos que falamos de inflamação crónica: torna-se uma disfunção em si mesma, podendo estar associada a sintomas como fadiga constante, alterações do humor e insónia, ou a doenças como diabetes, artrite, doenças inflamatórias intestinais ou deterioração cognitiva.

FATORES PRÓ-INFLAMATÓRIOS

Na origem da inflamação crónica podem estar envolvidos diversos fatores:

  • Envelhecimento, uma vez que está associado a uma diminuição da capacidade regenerativa das células.
  • Infeções crónicas, provocadas por desequilíbrios da microbiota intestinal ou por infeções víricas, bacterianas ou parasitárias.
  • Inatividade física.
  • Obesidade, uma vez que o tecido adiposo produz hormonas e proteínas, como as citocinas inflamatórias, capazes de favorecer uma resposta inflamatória.
  • Alimentação pró-inflamatória, com excesso de calorias, gorduras saturadas e elevada carga glicémica. Atenção também ao glúten, caso exista sensibilidade.
  • Stress psicológico, que pode contribuir para a manutenção da inflamação.
  • Alterações do sono.
  • Exposição a produtos químicos tóxicos.
  • Exposição a poluentes atmosféricos.
  • Tabagismo, uma vez que os produtos resultantes da combustão do tabaco favorecem a inflamação e o stress oxidativo.
  • Álcool.

COMO REVERTER A INFLAMAÇÃO

A boa notícia é que a inflamação crónica pode ser reduzida ou, em determinadas situações, revertida, embora, naturalmente, seja muito melhor preveni-la do que chegar à necessidade de tratar as doenças que lhe possam estar associadas.

A solução de “remendo” para a inflamação são os anti-inflamatórios, presentes em praticamente todos os armários de medicamentos. Mas, como sempre, se não se resolver a causa da inflamação e apenas nos dedicarmos a “apagar fogos”, não estaremos a solucionar o problema.

A realidade é que os medicamentos anti-inflamatórios podem estar associados a efeitos secundários, nomeadamente a nível gastrointestinal, como úlceras e gastrite, podendo igualmente afetar outros órgãos, dependendo do medicamento, da dose e da duração do tratamento.

É verdade que podemos ter uma inflamação pontual em qualquer momento, mas a inflamação crónica é uma situação que devemos procurar prevenir e controlar.

E, mais uma vez, uma das chaves que está nas nossas mãos consiste em adotar um estilo de vida e uma alimentação saudáveis, procurando manter o equilíbrio do organismo e reduzir o risco de inflamação crónica.

ALIMENTAÇÃO ANTI-INFLAMATÓRIA

Os alimentos influenciam a inflamação de uma forma complexa. Foram desenvolvidos diferentes métodos destinados a avaliar o potencial inflamatório da alimentação, tendo em conta diversos componentes nutricionais, como os tipos de gorduras, vitaminas, minerais, ácidos gordos, entre outros.

De uma forma geral, uma alimentação com maior presença de alimentos associados a efeitos anti-inflamatórios pode contribuir para reduzir processos inflamatórios no organismo.

E quais são os alimentos que apresentam maior interesse neste contexto?

Vou indicar-lhe alguns dos mais recomendáveis, para que possa integrá-los, tanto quanto possível, na sua alimentação diária.

·       Frutas e hortícolas - O seu consumo está associado a menor stress oxidativo e menor inflamação no organismo, devido ao seu elevado teor de fibras, vitaminas e numerosos compostos fitoquímicos, entre os quais os flavonoides.

Podemos encontrá-los, por exemplo, nos: brócolos; couve-flor; alho-francês; cebola; citrinos; maçã; ameixa; mirtilos.

·       Hidratos de carbono - É aconselhável reduzir o consumo de cereais refinados e de alimentos que provoquem uma subida rápida da glicemia, uma vez que padrões alimentares com elevada carga glicémica podem favorecer processos inflamatórios e o stress oxidativo.

Por isso, como já referi noutras ocasiões, os cereais integrais são muito recomendáveis, não apenas pelo seu teor de fibras e hidratos de carbono complexos, mas também porque conservam uma maior variedade dos seus nutrientes e compostos antioxidantes.

Entre eles: trigo-sarraceno; quinoa; aveia; millet; amaranto; arroz vermelho, negro e selvagem; arroz basmati; arroz integral.

·       Amido resistente - O caso do amido resistente é particularmente interessante. Ao contrário do amido rapidamente digerível, uma parte do amido resistente não é digerida no intestino delgado, chegando ao intestino grosso, onde pode ser fermentada pelas bactérias intestinais.

Pode encontrar-se, por exemplo, na banana verde e na aveia. A quantidade de amido resistente também pode aumentar em determinados cereais, leguminosas e tubérculos depois de serem cozinhados e posteriormente arrefecidos.

Este amido constitui um substrato importante para determinadas bactérias benéficas do nosso intestino, contribuindo para uma microbiota intestinal saudável.

A fermentação do amido resistente pode favorecer a produção de compostos benéficos, nomeadamente ácidos gordos de cadeia curta, como o butirato, que desempenham funções importantes na saúde intestinal e na regulação da inflamação.

·       Leguminosas - O consumo habitual de leguminosas está associado a um padrão alimentar benéfico para a saúde, nomeadamente cardiovascular.

Os hidratos de carbono de absorção mais lenta e as fibras presentes nas leguminosas podem ajudar a manter níveis saudáveis de colesterol e contribuir para uma microbiota intestinal equilibrada.

As leguminosas contêm igualmente fitatos, cuja influência nutricional depende do conjunto da alimentação e da preparação dos alimentos. A demolha, germinação, fermentação e cozedura podem reduzir o seu teor.

De uma forma geral, recomendo o consumo habitual de: grão-de-bico; lentilhas; feijão azuki; ervilhas; feijão de diferentes variedades,

pois podem contribuir para uma alimentação rica em fibras e para a saúde intestinal, salvo quando existam indicações dietéticas específicas que recomendem a sua restrição.

·       Frutos secos e sementes - São um grupo de alimentos com um papel importante numa alimentação de perfil anti-inflamatório.

Entre os mais interessantes encontram-se: pistácios; nozes; sementes de linhaça; sementes de abóbora; sementes de chia; sementes de sésamo.

As sementes de sésamo contêm diversos compostos bioativos. Podem ser consumidas trituradas ou sob a forma de tahini, integrando-as nas refeições.

As nozes, a linhaça e a chia são fontes vegetais de ácido alfa-linolénico (ALA), um ácido gordo ómega-3.

Os ácidos gordos ómega-3 de cadeia longa, EPA e DHA, encontram-se sobretudo nos peixes gordos, como: sardinha; cavala; arenque; salmão.

Também podem estar presentes, em quantidades variáveis, noutros produtos do mar.

·       Especiarias - Além de proporcionarem cor e sabor à cozinha, especiarias e ervas aromáticas como: gengibre; curcuma; orégãos; canela; pimenta, contêm diferentes compostos bioativos estudados pelo seu potencial antioxidante e anti-inflamatório.

Podemos beneficiar deles no dia a dia, acrescentando-os, em quantidades culinárias, aos nossos pratos habituais.

·       Óleos vegetais - O azeite virgem extra, particularmente quando obtido por processos mecânicos adequados, é rico em ácidos gordos monoinsaturados e contém polifenóis associados a propriedades antioxidantes e anti-inflamatórias.

É, por isso, uma gordura particularmente interessante para integrar numa alimentação equilibrada.

Também pode ser utilizado óleo de sésamo de boa qualidade, preferencialmente pouco processado.

É importante, contudo, privilegiar a qualidade global da alimentação e evitar o consumo excessivo de gorduras refinadas e de produtos ultraprocessados.

·       Ovo - O ovo é um alimento nutricionalmente rico, contendo proteínas de elevada qualidade, diferentes ácidos gordos, vitaminas e minerais.

Contém também vitamina D, embora a quantidade possa variar. A vitamina D desempenha funções importantes no organismo, nomeadamente na saúde óssea, metabolismo do cálcio, função muscular e regulação do sistema imunitário.

Caso consuma ovos, pode optar por ovos provenientes de sistemas de produção que correspondam às suas preferências em matéria de qualidade e bem-estar animal.

·       Cacau - O cacau contém magnésio e é particularmente rico em polifenóis, compostos que têm sido estudados pelos seus efeitos antioxidantes e potenciais propriedades anti-inflamatórias.

É preferível utilizar cacau puro sem adição de açúcar ou, no caso do chocolate negro, escolher produtos com elevada percentagem de cacau e reduzido teor de açúcar.

ALIMENTOS PARTICULARMENTE PRÓ-INFLAMATÓRIOS

Se pretende seguir uma alimentação que não favoreça a inflamação crónica, é recomendável limitar sobretudo:

  • alimentos ultraprocessados;
  • açúcares adicionados e produtos muito açucarados;
  • consumo excessivo de gorduras saturadas;
  • carnes processadas;
  • produtos à base de cereais muito refinados;
  • consumo excessivo de álcool.

No que respeita ao glúten e aos produtos lácteos, a sua exclusão generalizada não é necessária para todas as pessoas. A restrição pode justificar-se quando existe doença celíaca, alergia, intolerância ou outra situação clínica individual devidamente identificada.

Para terminar, complementar uma alimentação equilibrada com atividade física regular, sono de qualidade, controlo do stress e ausência de tabaco pode contribuir significativamente para prevenir e reduzir a inflamação crónica.

Um forte abraço e até à próxima semana.


COMENTÁRIOS À TRADUÇÃO E AO CONTEÚDO (IA)

O texto original contém uma mensagem globalmente útil: a inflamação crónica está relacionada não apenas com a alimentação, mas também com obesidade, sedentarismo, tabagismo, álcool, stress, sono e outros fatores ambientais e metabólicos. Esta visão global é importante.

Fiz, contudo, algumas adaptações de redação para evitar transformar certas afirmações demasiado categóricas do original em recomendações médicas que não correspondem inteiramente ao conhecimento científico atual.

1. Anti-inflamatórios

O texto original apresenta os anti-inflamatórios essencialmente como um “remendo”. Esta formulação é excessivamente simplista. Os medicamentos anti-inflamatórios podem ser indispensáveis em numerosas situações clínicas. O problema encontra-se sobretudo na automedicação, utilização prolongada ou inadequada, particularmente em pessoas idosas ou com problemas gástricos, cardiovasculares, renais ou hepáticos.

2. Glúten

Não existe fundamento para recomendar que toda a população elimine o glúten com o objetivo de prevenir a inflamação. A exclusão é essencial na doença celíaca e pode justificar-se noutras situações específicas, mas os cereais integrais que contêm glúten podem fazer parte de uma alimentação saudável em pessoas que os toleram.

3. Produtos lácteos

Também não é cientificamente correto classificar todos os produtos lácteos como alimentos necessariamente inflamatórios. O efeito depende do alimento, quantidade, contexto alimentar e tolerância individual. Por esse motivo, alterei a conclusão original, que recomendava simplesmente evitar “glúten e lácteos”.

4. Ómega-3 e ómega-9

O texto original afirma que determinados óleos vegetais refinados têm “muito mais ómega-9 do que ómega-3” e que esta proporção pode provocar inflamação. Esta explicação não é rigorosa. O ácido oleico, um ómega-9 abundante no azeite, não é considerado pró-inflamatório; pelo contrário, o azeite virgem extra constitui uma das principais gorduras do padrão alimentar mediterrânico.

5. Leguminosas e “sensibilidade às leptinas”

No original surge a expressão “sensível às leptinas”, aparentemente utilizada num contexto em que provavelmente se pretendia falar de lectinas. Leptina e lectinas são coisas completamente diferentes. As lectinas presentes nas leguminosas são substancialmente reduzidas/inativadas pela preparação e cozedura adequadas. Por isso, reformulei essa passagem.

6. Ácido fítico

O ácido fítico não deve ser apresentado simplesmente como prejudicial. Pode diminuir a absorção de determinados minerais em certas circunstâncias, mas também apresenta propriedades potencialmente benéficas. Numa alimentação variada e nutricionalmente adequada, o seu consumo através de cereais integrais, leguminosas, sementes e frutos secos não constitui, em geral, motivo para evitar esses alimentos.

7. Amido resistente

Esta é, na minha opinião, uma das partes mais interessantes do artigo. Cozer determinados alimentos ricos em amido e deixá-los arrefecer favorece a formação de amido resistente. Este chega em maior quantidade ao cólon, onde é utilizado por determinadas bactérias intestinais e pode favorecer a produção de ácidos gordos de cadeia curta, nomeadamente butirato.

Do ponto de vista de uma alimentação macrobiótica, há aqui uma questão interessante: não é necessário transformar isto numa recomendação para comer habitualmente cereais frios. Pode cozinhar-se arroz integral, cevada ou outros cereais, arrefecê-los adequadamente no frigorífico e, posteriormente, voltar a aquecê-los. Parte do amido resistente formado mantém-se após o reaquecimento.

8. Perspetiva global

O aspeto mais valioso do artigo é o padrão alimentar que emerge do conjunto: cereais integrais, leguminosas, hortícolas, sementes, frutos secos, alimentos pouco processados, azeite e, para quem os consome, peixe, associado a atividade física e sono adequado.

Há, portanto, uma grande zona de convergência entre estas recomendações, a alimentação mediterrânica tradicional e vários princípios da macrobiótica moderna — sobretudo a preferência por alimentos integrais, vegetais, sazonais e pouco transformados.

A diferença fundamental é que não considero necessário atribuir a cada alimento isoladamente o rótulo de “anti-inflamatório”. É o padrão alimentar global, mantido ao longo do tempo, que tem maior importância.

 

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