A PERDA DA
CAPACIDADE REPRODUTIVA
Elena Corrales
https://www.elenacorrales.com/blogelenacorrales/la-perdida-de-la-capacidad-reproductora-i/
I
Hoje
aprofundamos um fenómeno relativamente recente: cada vez mais casais jovens têm
dificuldades em conceber de forma espontânea. Como consequência, o recurso a
técnicas de reprodução assistida, como a inseminação artificial ou a fecundação
in vitro, tornou-se uma realidade cada vez mais frequente.
Espanha é
atualmente um dos países europeus com maior utilização de tratamentos de
reprodução assistida. Estima-se que os problemas de fertilidade afetem
aproximadamente 17% dos casais, o que significa que cerca de um milhão de
pessoas necessitam de ajuda médica para poder ter filhos.
AS CAUSAS
Segundo os
especialistas, quatro fatores principais podem interferir na capacidade
reprodutiva feminina: o excesso de peso, o tabagismo, determinadas práticas
contracetivas e a idade.
No entanto,
muitas das mulheres que não conseguem engravidar de forma espontânea não são
obesas, não fumam e procuram ativamente a conceção. Nestes casos, a explicação
costuma centrar-se numa única variável: a idade.
Os dados
demográficos mostram que a idade média da maternidade se atrasou de forma
considerável. Em Espanha, as mulheres têm o primeiro filho por volta dos 32
anos e menos de 30% dos nascimentos correspondem a mães com menos de 30 anos.
Do ponto de
vista médico, considera-se que um casal apresenta problemas de fertilidade
quando, após um ano de relações sexuais sem proteção, não se conseguiu uma
gravidez.
Recordo que,
na minha geração, a perceção era completamente diferente. Ensinavam-nos que
manter relações sexuais perto da ovulação praticamente garantia uma gravidez,
ao ponto de muitas pessoas confiarem em métodos pouco eficazes como o conhecido
«coito interrompido». A ideia geral era que a gravidez era algo quase
inevitável quando não existiam medidas contracetivas.
A IDADE É REALMENTE O PROBLEMA?
Voltando à
questão da idade, alguns estudos estatísticos indicam que cerca de 7% dos
casais apresentam infertilidade aos 30 anos, percentagem que aumenta para 11%
aos 35 anos.
No entanto,
atribuir a dificuldade em conceber unicamente à idade pode revelar-se uma
simplificação excessiva. Por detrás de muitos casos existem outros fatores que
também influenciam a fertilidade: diminuição da reserva ovárica, síndrome dos
ovários poliquísticos, alterações da tiroide, menopausa precoce, endometriose,
doença inflamatória pélvica ou perturbações das trompas de Falópio, entre
outros.
Por outras
palavras, muitas mulheres que encontram dificuldades em conceber apresentam
condições médicas concretas que afetam a sua saúde reprodutiva,
independentemente da idade cronológica.
BIOLOGIA OU PRECONCEITOS?
De uma
perspetiva biológica, a etapa fértil da mulher começa com a puberdade e termina
com a menopausa. Se a menarca costuma ocorrer por volta dos 12 anos e a
menopausa perto dos 50-55 anos, parece razoável pensar que uma mulher de 30
anos deveria encontrar-se ainda numa etapa de plena capacidade reprodutiva.
No entanto,
durante anos utilizou-se no âmbito médico o termo «primípara idosa» para
referir mulheres que têm o primeiro filho a partir de determinadas idades, uma
expressão que hoje se revela claramente questionável e que reflete uma
determinada visão cultural da maternidade.
Também é
frequente ouvir dizer que a capacidade reprodutiva feminina começa a diminuir a
partir dos 30 anos, enquanto a masculina se mantém durante muitas mais décadas.
Esta afirmação costuma apoiar-se na ideia de que as mulheres nascem com uma
reserva limitada de ovócitos, enquanto os homens produzem espermatozoides de
forma contínua ao longo da vida.
Contudo, a
realidade é mais complexa. A fertilidade masculina também pode ser afetada por
numerosos fatores ambientais, metabólicos e relacionados com o estilo de vida.
De facto, os especialistas observam cada vez com maior frequência alterações na
qualidade seminal de homens jovens que fazem parte de casais com problemas de
fertilidade.
Por isso,
atribuir as dificuldades reprodutivas exclusivamente ao envelhecimento feminino
pode impedir uma análise mais ampla e rigorosa das causas reais que estão por
detrás deste fenómeno.
OLHANDO PARA ALÉM DA IDADE
Talvez tenha
chegado o momento de nos perguntarmos se o adiamento da maternidade é a única
explicação ou se existem outros fatores relacionados com a saúde, o estilo de
vida e o ambiente que estão a afetar a fertilidade tanto das mulheres como dos
homens.
Nos próximos
artigos analisaremos algumas destas possíveis causas e aprofundaremos o papel
que a alimentação moderna e outros fatores ambientais poderão desempenhar na
perda da capacidade reprodutiva.
II
Hoje
aprofundamos o aspeto da idade, distinguindo entre a idade cronológica e a
idade biológica, que é a determinante em questões de saúde e de fertilidade.
Estima-se que
aproximadamente 47% dos problemas de fertilidade tenham uma origem feminina.
Embora este número deva ser interpretado dentro da complexidade que caracteriza
a infertilidade, é interessante tê-lo em conta quando um casal enfrenta uma
situação tão delicada como a dificuldade em conceber.
No artigo
anterior falávamos de como a idade da mulher costuma ser apresentada como uma
das principais causas de esterilidade. No entanto, gostaria de partilhar uma
reflexão que considero fundamental e que, além disso, é igualmente válida para
homens e mulheres.
IDADE CRONOLÓGICA E IDADE BIOLÓGICA: DOIS
CONCEITOS DIFERENTES
A idade
cronológica é o tempo decorrido desde o nosso nascimento. É a idade que
expressamos em anos e que tem uma grande importância do ponto de vista social e
administrativo: determina a maioridade, a reforma ou o acesso a determinados
direitos e obrigações.
No entanto, da
perspetiva da saúde existe outro conceito muito mais relevante: a idade
biológica.
A idade
biológica reflete o estado funcional real dos nossos órgãos e sistemas em
comparação com os padrões esperados para uma determinada idade. Por outras
palavras, indica-nos como está realmente a envelhecer o nosso organismo.
Duas pessoas
de 30 anos podem ter idades biológicas muito diferentes. Uma pode apresentar
tecidos, uma capacidade metabólica e funções orgânicas próprias de alguém muito
mais velho, enquanto outra pode manter parâmetros fisiológicos excelentes.
Por isso,
quando falamos de fertilidade, talvez não devêssemos centrar-nos unicamente nos
anos de idade, mas também no estado de saúde global do organismo.
A BIOELETRÓNICA DE VINCENT
Um dos métodos
que historicamente têm sido utilizados para uma aproximação ao estudo do
terreno biológico é a Bioeletrónica de Vincent, desenvolvida pelo hidrólogo
francês Louis-Claude Vincent em 1948.
Entre os anos
de 1999 e 2004, no Centro de Medicina Biológica Elena Corrales realizámos
vários milhares de estudos baseados nesta abordagem. Através da análise de
sangue, saliva e urina, eram avaliados parâmetros como:
- O pH.
- O
potencial de oxidação-redução.
- A
concentração de eletrólitos.
Mediante
cálculos específicos, estes dados permitiam avaliar o estado biológico geral do
organismo.
Durante
aqueles anos observámos como muitos pacientes apresentavam inicialmente
indicadores compatíveis com um envelhecimento biológico significativamente
superior à sua idade cronológica. Também pudemos verificar que, ao introduzir
alterações dietéticas adaptadas a cada caso, esses parâmetros tendiam a
melhorar progressivamente.
Foi uma etapa
especialmente enriquecedora do ponto de vista clínico porque permitiu observar,
de forma prática, como a alimentação influencia múltiplos fatores relacionados
com o equilíbrio interno e a saúde.
Atualmente
continuamos a avaliar aspetos como a oxidação celular ou a tendência para a
acidose através de procedimentos indiretos e critérios clínicos globais.
FERTILIDADE E ENVELHECIMENTO FUNCIONAL
Quando um
casal jovem consulta por problemas de fertilidade, costumamos assumir que o seu
organismo funciona de acordo com a idade que consta no seu documento de
identificação. No entanto, nem sempre é assim.
Em muitos
casos encontramos pessoas de 28 ou 30 anos com alterações metabólicas,
inflamatórias ou endócrinas que refletem uma deterioração funcional
consideravelmente superior à esperada para a sua idade.
Desta
perspetiva, a dificuldade em conceber não seria unicamente uma questão dos anos
de idade, mas também do estado biológico em que se encontra o organismo.
A IMPORTÂNCIA DA ALIMENTAÇÃO
Sem retirar
importância a outros fatores como o stress crónico, o tabagismo, os
contaminantes ambientais ou a exposição a pesticidas, considero que a
alimentação desempenha um papel fundamental na saúde reprodutiva.
A dieta
moderna caracteriza-se por um elevado consumo de produtos ultraprocessados,
excesso de açúcares refinados, gorduras de baixa qualidade e alimentos com
reduzida densidade nutricional. Este padrão alimentar favorece desequilíbrios
que podem afetar o funcionamento normal do organismo.
Com frequência
observamos como muitas patologias relacionadas com a fertilidade aparecem
acompanhadas de um estado geral de inflamação, oxidação celular e alterações
metabólicas.
Entre elas
encontramos:
- Endometriose.
- Síndrome
dos ovários poliquísticos.
- Diminuição
da reserva ovárica.
- Menopausa
precoce.
- Alterações
da qualidade seminal.
- Diminuição
da mobilidade espermática.
- Baixa
contagem de espermatozoides.
Embora cada
uma destas condições tenha causas complexas e multifatoriais, é difícil ignorar
o papel que os hábitos de vida desempenham na sua evolução.
UMA VISÃO A PARTIR DA MEDICINA BIOLÓGICA
Da perspetiva
da medicina biológica, a fertilidade não depende exclusivamente da função de um
órgão concreto, mas do equilíbrio geral do organismo.
Por isso,
quando um casal consulta por dificuldades reprodutivas, o objetivo principal
não consiste unicamente em intervir sobre os ovários ou os testículos, mas em
melhorar as condições internas que permitem que todos os sistemas do corpo
funcionem de forma adequada.
A experiência
clínica mostra que, quando se corrigem determinados desequilíbrios através de
alterações nutricionais e hábitos saudáveis, costumam ocorrer melhorias
significativas: ciclos menstruais mais regulares, redução da síndrome
pré-menstrual, melhor qualidade seminal e uma sensação geral de maior
bem-estar.
Em muitos
casos, estas melhorias são acompanhadas de gravidezes espontâneas que não
requerem técnicas de reprodução assistida.
UMA REFLEXÃO IMPORTANTE
Talvez a
pergunta mais importante não seja unicamente porque nascem cada vez menos
crianças, mas o que está a acontecer com o nosso estado de saúde global.
A fertilidade
pode ser entendida como mais um indicador da vitalidade do organismo. Quando
esta diminui, talvez convenha olhar para além da idade cronológica e
perguntarmo-nos como vivemos, como nos alimentamos e que fatores ambientais
estão a condicionar o nosso equilíbrio biológico.
Porque, em
última análise, a capacidade reprodutiva não depende apenas da passagem do
tempo, mas também da qualidade do terreno biológico sobre o qual a vida se
desenvolve.
III
Durante
décadas, a explicação mais repetida para justificar o aumento dos problemas de
fertilidade tem sido o adiamento da idade da maternidade. No entanto, esta
resposta revela-se insuficiente para explicar uma realidade cada vez mais
evidente: homens e mulheres jovens, aparentemente saudáveis, apresentam
dificuldades em conceber.
Se observarmos
a evolução da nossa alimentação nos últimos cinquenta anos, surge uma pergunta
inevitável: poderá a alimentação moderna estar a influenciar a perda
progressiva da capacidade reprodutiva?
A FERTILIDADE COMO INDICADOR DE SAÚDE
A reprodução é
uma das funções mais sofisticadas do organismo. Quando o corpo percebe que
existem desequilíbrios importantes, costuma dar prioridade aos mecanismos de
sobrevivência em detrimento dos reprodutivos.
Por este
motivo, a fertilidade pode ser considerada um verdadeiro indicador do estado
geral de saúde.
Um organismo
inflamado, oxidado, mal nutrido ou submetido a stress metabólico terá mais
dificuldades em produzir hormonas equilibradas, ovular corretamente ou gerar
espermatozoides de qualidade.
DO ALIMENTO TRADICIONAL AO PRODUTO INDUSTRIAL
Até há apenas
algumas décadas, a maior parte da alimentação baseava-se em produtos frescos e
preparações caseiras. Em contrapartida, hoje uma parte importante da dieta
provém de alimentos ultraprocessados.
Estes produtos
costumam caracterizar-se por:
- Excesso
de açúcares refinados.
- Farinhas
muito refinadas.
- Gorduras
de baixa qualidade.
- Aditivos
e conservantes.
- Défice de
vitaminas, minerais e antioxidantes.
Paradoxalmente,
vivemos numa época de abundância calórica, mas de crescente pobreza
nutricional.
O resultado é
que existem cada vez mais pessoas com excesso de peso ou alterações metabólicas
que, a nível celular, apresentam défices importantes de nutrientes essenciais
para a função reprodutiva.
O PROBLEMA DA INFLAMAÇÃO CRÓNICA
A inflamação é
uma resposta natural do organismo perante uma agressão. O problema surge quando
se transforma num estado permanente.
Numerosos
hábitos modernos favorecem a inflamação de baixo grau:
- Consumo
excessivo de açúcar.
- Excesso
de alimentos processados.
- Má
qualidade do sono.
- Sedentarismo.
- Stress
continuado.
São cada vez
mais frequentes patologias associadas a processos inflamatórios, como a
endometriose, a síndrome dos ovários poliquísticos ou determinadas alterações
endócrinas que podem dificultar a fertilidade.
No caso
masculino, a inflamação também pode afetar a qualidade seminal, reduzindo a
mobilidade e a capacidade fecundante dos espermatozoides.
O PAPEL DA OXIDAÇÃO CELULAR
Outro fator
estreitamente relacionado com a fertilidade é o stress oxidativo.
O nosso
organismo produz radicais livres de forma natural, mas necessita de
antioxidantes para manter o equilíbrio. Quando a produção de radicais livres
ultrapassa a capacidade neutralizadora do organismo, produz-se um dano
progressivo nos tecidos.
Os ovócitos e
os espermatozoides são especialmente sensíveis à oxidação.
Fatores como:
- O tabaco.
- A
poluição ambiental.
- Os
pesticidas.
- O álcool.
- Uma
alimentação pobre em alimentos não processados, como cereais integrais,
leguminosas, hortaliças e frutas.
podem aumentar
significativamente o stress oxidativo e comprometer a qualidade reprodutiva.
DEFICIÊNCIAS NUTRICIONAIS SILENCIOSAS
Para produzir
hormonas sexuais, ovular corretamente ou produzir espermatozoides saudáveis, o
organismo necessita de nutrientes específicos.
Entre os mais
importantes destacam-se:
- Zinco.
- Selénio.
- Magnésio.
- Ferro.
- Ómega 3.
- Vitaminas
A, D, E e do grupo B.
Estes
nutrientes estão ausentes nos alimentos refinados e processados.
Muitas pessoas
apresentam défices ligeiros que não produzem sintomas evidentes, mas que podem
afetar o funcionamento ótimo do sistema reprodutor.
Este fenómeno
é especialmente frequente em dietas baseadas em produtos industriais, refeições
rápidas e alimentos com baixa densidade nutricional.
O QUE ACONTECE COM OS HOMENS?
Quando se fala
de infertilidade, tradicionalmente a atenção tem-se centrado na mulher. No
entanto, diversos estudos mostram uma diminuição progressiva da qualidade
seminal em numerosos países ocidentais.
São cada vez
mais habituais diagnósticos como:
- Baixa
contagem de espermatozoides.
- Diminuição
da mobilidade espermática.
- Alterações
morfológicas.
- Fragmentação
do ADN espermático.
Embora as
causas sejam múltiplas, os hábitos alimentares e o estilo de vida parecem
desempenhar um papel importante.
A fertilidade
é um projeto de casal e merece uma visão integral que contemple tanto a saúde
feminina como a masculina.
RECUPERAR O TERRENO BIOLÓGICO
Na medicina
biológica, a pergunta não é unicamente por que razão um casal não consegue uma
gravidez, mas que condições internas deixaram de favorecer a reprodução.
A minha
experiência clínica demonstra que, quando se melhora a alimentação, se corrigem
défices nutricionais e se diminuem os fatores inflamatórios, muitas pessoas
experimentam alterações significativas na sua saúde geral:
- Menstruações
mais regulares.
- Menos dor
menstrual.
- Melhor
equilíbrio hormonal.
- Maior
energia.
- Melhor
qualidade seminal.
Em muitos
casos, estas melhorias são acompanhadas de gravidezes espontâneas que
inicialmente pareciam improváveis.
REFLEXÃO FINAL
Talvez o
verdadeiro problema não seja unicamente a idade dos casais, mas a deterioração
progressiva da nossa saúde biológica.
A fertilidade
não depende apenas da função dos ovários ou dos testículos. É o resultado do
equilíbrio de todo o organismo. E, nesse equilíbrio, a alimentação ocupa um
lugar central.
Se queremos
compreender por que razão é cada vez mais difícil conceber, talvez devamos
olhar para além da data de nascimento e perguntar-nos o que estamos a colocar
todos os dias no nosso prato.
Porque a
capacidade de criar vida começa, em grande medida, com a capacidade de nutrir a
própria.