Monday, August 10, 2026

 

COMO PLANEAR UMA EMENTA EQUILIBRADA

Elena Corrales

Muitas vezes decidimos o que vamos preparar para o almoço ou para o jantar sem outro critério além do paladar, isto é, escolhendo aquilo de que mais gostamos. Outras vezes, decidimos em função da rapidez de preparação ou da «moda» de consumir determinados alimentos considerados milagrosos, etc. Descubra os requisitos que uma ementa saudável deve cumprir.

As ementas convencionais são compostas por primeiro prato, segundo prato e sobremesa e, em muitos casos, são desequilibradas relativamente às quantidades de proteínas, gorduras e açúcar. Para que uma ementa seja uma fonte de saúde, deve cumprir alguns critérios básicos, tais como a escolha dos alimentos, a proporção entre os diferentes grupos de nutrientes, a forma de preparação, entre outros.

A investigação médica demonstrou a influência da alimentação moderna no desenvolvimento de muitas doenças: a carne e a falta de fibras estão implicadas no cancro do cólon; os alimentos ricos em gorduras saturadas contribuem para as doenças cardiovasculares; o açúcar e os alimentos doces favorecem o aparecimento da diabetes; os produtos lácteos podem provocar alergias…

Por outro lado, a nossa experiência clínica permitiu-nos verificar que milhares de pessoas que seguiram os princípios apresentados neste texto melhoraram consideravelmente a sua saúde. É por isso que propomos esta nova visão alternativa.

PLANEAR UMA EMENTA EQUILIBRADA

Além de considerarmos que aquilo que comemos deve estar adaptado ao nosso clima, constituição, sexo, tipo de atividade e estado de saúde, para prepararmos uma ementa equilibrada devemos ter em conta os seguintes aspetos:

  • A escolha dos alimentos: daremos preferência aos alimentos biológicos, consumindo regularmente cereais integrais, leguminosas e hortícolas. Os frutos secos, a fruta e o peixe serão sempre alimentos complementares.
  • Os sabores: o ácido, o amargo, o doce, o salgado e o picante devem estar presentes, de uma forma ou de outra, em todas as ementas.
  • Os métodos de confeção: devemos utilizar diferentes métodos de preparação, indo além dos extremos representados pela salada crua e pela carne grelhada.
  • As texturas: a variedade e a complementaridade das formas e das texturas dos alimentos são muito importantes para que a refeição seja satisfatória, tanto à vista como ao paladar.
  • As cores: a natureza colocou à nossa disposição uma grande variedade de cores nos alimentos. Devemos utilizá-las como um pintor utiliza a sua paleta, criando composições harmoniosas e atraentes, para que a comida nos desperte o apetite e estimule os órgãos digestivos.
  • A água, o fogo e o sal: a utilização destes três elementos permite-nos transformar os alimentos originais noutros mais saborosos e fáceis de digerir, facilitando um melhor aproveitamento dos nutrientes.

Nas próximas publicações desenvolveremos cada um destes pontos, apresentando exemplos concretos que permitam pôr estes conselhos em prática.

OS NUTRIENTES

Dispomos de uma grande variedade de alimentos para obter os nutrientes de que necessitamos. No entanto, dependendo das escolhas que fizermos, a nossa alimentação poderá ser uma fonte de saúde ou, pelo contrário, contribuir para adoecermos, pois nem todos os alimentos se comportam da mesma maneira no metabolismo.

Uma ementa equilibrada deve conter, nas proporções adequadas, os seguintes nutrientes: hidratos de carbono, proteínas, gorduras, vitaminas, sais minerais e água.

OS HIDRATOS DE CARBONO

São o principal nutriente e desempenham uma função energética. Devem representar entre 50% e 75% do volume total ingerido e ser, na sua quase totalidade, de absorção lenta.

Os alimentos ideais como fonte deste importante nutriente são os cereais integrais e os pseudocereais, apresentados sob diferentes formas: grãos, flocos, sêmolas e farinhas. Quando a nossa saúde não for a melhor, daremos preferência aos cereais em grão.

AS PROTEÍNAS

São materiais de construção do organismo e intervêm tanto na formação da massa muscular como na síntese de hormonas.

É importante que a sua proporção seja entre cinco e sete vezes inferior à dos hidratos de carbono. Os alimentos que nos fornecem as proteínas mais saudáveis são as leguminosas, seguidas do peixe e dos produtos do mar e, mais afastados, das aves e dos ovos. As carnes vermelhas estarão presentes na alimentação apenas ocasionalmente.

AS GORDURAS

Os alimentos de eleição como fontes de gordura são as sementes oleaginosas, seguidas dos frutos secos e dos óleos obtidos por primeira pressão a frio.

A grande diferença entre os óleos e as sementes reside no facto de estas últimas serem alimentos integrais e, por conseguinte, mais completos do que os óleos, que são apenas o sumo extraído da respetiva semente.

A proporção de gorduras será entre cinco e sete vezes superior à de proteínas.

AS VITAMINAS

Pertencem ao grupo dos micronutrientes e já estão presentes nos cereais, leguminosas e sementes quando os consumimos na forma integral. No entanto, aumentamos ainda mais o seu aporte através da inclusão de hortícolas e fruta.

Estes dois grupos de alimentos, que farão sempre parte do acompanhamento, nunca constituirão o prato principal. Consumiremos dois terços cozinhados e um terço crus, tendo em conta, em cada caso, a estação do ano e a condição da pessoa.

OS MINERAIS

Também pertencem ao grupo dos micronutrientes e encontram-se igualmente presentes nos cereais, leguminosas e sementes. Contudo, aumentamos ainda mais o seu aporte quando incluímos algas marinhas na nossa alimentação.

Estes alimentos serão sempre utilizados como acompanhamento e podem ser incluídos três ou quatro vezes por semana.

A ÁGUA

A água é um nutriente essencial e está presente nos alimentos em quantidades consideráveis.

A título informativo, se o nosso corpo é constituído por 70% de água, podemos dizer que o arroz integral cozido contém aproximadamente a mesma proporção; as lentilhas cozidas, sem caldo, contêm 90% de água; e a quantidade de água presente nos hortícolas e na fruta varia entre 90% e 98%.

Posto isto, compreendemos que uma parte muito importante da água de que necessitamos é fornecida pelos alimentos. Se começarmos a refeição com uma sopa e terminarmos com uma bebida quente, não necessitamos de beber durante a refeição para satisfazer as nossas necessidades de água.

Todos os alimentos devem ser integrais e provenientes de agricultura biológica, pois são mais ricos em nutrientes do que os de agricultura convencional, além de estarem livres de produtos químicos.

A água deverá ser de nascente. Quando isso não for possível, utilizaremos um filtro de osmose inversa, que permite eliminar não só os contaminantes em suspensão, mas também aqueles que se encontram dissolvidos na água.

OS CINCO SABORES

A escolha dos alimentos não deve ser feita apenas com base no seu conteúdo nutricional. Devemos também ter em conta a sua cor, sabor e textura.

Estes aspetos vão além da estética, pois determinam efeitos harmonizadores sobre os nossos órgãos internos, conforme explicaremos em seguida.

A visão energética da alimentação abrange muito mais do que a composição química dos alimentos e mostra-nos a importância da utilização de diferentes formas, cores e texturas, assim como da combinação dos diversos sabores.

OS CINCO SABORES UNIVERSAIS

As nossas papilas gustativas reconhecem cinco sabores básicos: salgado, ácido, amargo, doce e picante.

Desde tempos remotos, a Medicina Tradicional Chinesa associa os diferentes sabores dos alimentos ao bom funcionamento de determinados órgãos. Apresentamos, em seguida, alguns exemplos.

O sabor salgado

É um sabor universal que não deve faltar nos nossos pratos, sobretudo se tivermos em conta que o sal está na origem da vida e que o nosso plasma sanguíneo é alcalino, isto é, salgado.

O sal era tão importante que, no passado, o trabalho das pessoas era pago com sal. Daí terá surgido a palavra «salário».

O sal que utilizamos deverá ser sempre marinho e não refinado, não sendo relevante se é fino ou grosso. Deverá ser adicionado aos alimentos durante a confeção e não no final, já à mesa.

Além do sal marinho, temos ao nosso alcance quatro condimentos da cozinha oriental que nos fornecem uma pequena quantidade de sal «vegetalizado» e, por isso, facilmente assimilável: o miso, o tamari, o gomásio e a ameixa umeboshi.

Podemos também incluir algas marinhas que, embora não sejam necessariamente ricas em sódio, são ricas noutros minerais, como o cálcio, o ferro e o magnésio.

O sabor salgado deve estar presente nos nossos pratos para tonificar os rins, órgãos que regem os ossos e o equilíbrio dos sais minerais no organismo.

Quando falamos do sabor salgado na Medicina Oriental, não nos referimos apenas ao sódio, mas aos sais minerais na sua totalidade. Deste modo, compreendemos a relação entre o bom funcionamento dos rins e o equilíbrio mineral do organismo, quer falemos de cálcio, ferro, sódio ou potássio.

A recomendação generalizada na sociedade atual de seguir regimes alimentares pobres em sódio pode ser perigosa, pois tanto o excesso como a carência de sal são prejudiciais para a saúde.

Conclusão

Ao planearmos uma ementa, devemos pensar nos condimentos salgados e/ou nas algas que iremos incluir para que os nossos rins funcionem corretamente.

Tudo isto sem esquecermos que os alimentos integrais são mais ricos em sais minerais do que os alimentos refinados e que estes últimos têm um efeito desmineralizante.

DO SALGADO AO ÁCIDO

Continuamos a explicar o comportamento dos diferentes sabores relativamente ao funcionamento dos órgãos internos e de que forma tanto o desejo exagerado por determinado sabor como a aversão a esse sabor podem ser indicadores de desequilíbrios internos.

Há muitas pessoas que sentem uma grande apetência por pepinos em conserva e por temperos com vinagre em geral. Algumas chegam a beber o líquido que fica no fundo da saladeira depois de terminarem a alface. Pelo contrário, outras detestam tudo o que é ácido e/ou não o toleram.

O sabor ácido

O sabor ácido está naturalmente presente em alguns alimentos, como o tomate, a laranja, o limão, a toranja, etc. São também ácidos todos os alimentos submetidos a fermentação láctica, como o kefir, o iogurte, o chucrute, o miso, o tamari e a ameixa umeboshi.

A fermentação alcoólica também nos proporciona um sabor ácido, que pode ser mais ou menos pronunciado conforme o tipo de vinho. Por último, temos os alimentos obtidos através de fermentação acética, isto é, os vinagres.

O sabor ácido deve estar presente nos nossos pratos para harmonizar o funcionamento do fígado e da vesícula biliar, órgãos responsáveis pelo metabolismo das gorduras.

Daí provém a expressão segundo a qual um copo de vinho «ajuda a fazer a digestão», algo que seria verdadeiro quando a ementa é rica em gorduras.

Nem tudo o que é ácido é saudável

Devemos saber que a fermentação láctica é a mais suave e respeitadora da saúde; a fermentação alcoólica é tóxica e a fermentação acética sê-lo-á ainda mais. Por isso, devemos prescindir do vinho nas refeições quotidianas e dos vinagres, reservando estes ingredientes para um consumo ocasional.

Numa cozinha equilibrada, obtemos o sabor ácido através dos picles em geral, do chucrute, de um pouco de vinagre de baixa acidez e/ou de limão.

Estes ingredientes deverão ser sempre utilizados em quantidades moderadas, como se fossem apenas uma pincelada no sabor geral do prato.

Excluiremos os fermentados lácticos derivados do leite, como o iogurte e o kefir, sempre que a nossa saúde não seja a melhor, pois o leite de vaca não vaca é considerado uma fonte de saúde.

Pelo contrário, em muitas cozinhas tradicionais e/ou de vanguarda, o álcool é incluído em quantidades consideráveis, como acontece quando se faz uma harmonização com um tipo de vinho diferente para cada prato.

Quanto mais o nosso fígado tiver sido sobrecarregado no passado por um excesso de gorduras, sobretudo provenientes de alimentos de origem animal, como os enchidos e os queijos, maior será a nossa apetência por sabores ácidos.

Por isso, as pessoas com dependência do álcool deverão reduzir drasticamente o consumo de gorduras e de alimentos pesados.

Num prato equilibrado, o sabor ácido pode ser representado por uma pequena quantidade de chucrute ou de rabanetes fermentados, em contraste com o sal, que estará presente nos diferentes elementos da ementa.

O SABOR AMARGO

Os diferentes sabores não representam apenas um prazer sensorial no momento de comer: também harmonizam o funcionamento dos diversos órgãos internos.

Falamos agora do sabor amargo e dos alimentos que o proporcionam.

Em muitas culturas, este sabor é interpretado como desagradável. Trata-se de um mecanismo de defesa relacionado com o facto de muitas substâncias venenosas serem amargas.

Na nossa sociedade, o sabor amargo não é tão apreciado como o doce. No entanto, deverá estar presente nos nossos pratos para tonificar o intestino delgado e o órgão que lhe está associado, o coração.

O sabor amargo

Muitos hortícolas são amargos: espargos, agrião, chicória, escarola, endívias, aipo, salsa, etc. Também o são as alcachofras, as beringelas e as azeitonas.

Outros alimentos amargos são o pepino, a curgete e a toranja. Noutro grupo, encontramos o café, o chá, o cacau e a cerveja.

O sabor amargo surge também quando os alimentos são torrados. Encontramo-lo no pão torrado; nas sementes de sésamo, girassol, abóbora e linhaça; nos frutos secos, como amêndoas, avelãs e amendoins; e ainda na cevada, sob a forma de malte, na chicória e no café, quando são torrados.

Os princípios amargos dos alimentos abrem o apetite e favorecem a digestão, porque estimulam a produção de gastrina e aumentam o peristaltismo intestinal. Favorecem igualmente a produção de bílis.

Os sabores amargos tonificam o organismo nos planos físico e mental. As pessoas que consomem mais princípios amargos são psicologicamente mais fortes, mais felizes e têm maior vontade de desfrutar da vida e de conquistar o mundo.

Nem tudo o que é amargo é saudável

Tal como referimos relativamente ao sabor ácido, existem muitas substâncias amargas tóxicas que não são saudáveis, como os alcaloides presentes no café, no chá e no cacau.

Os princípios amargos que deverão estar presentes nas nossas ementas serão, em primeiro lugar, os provenientes das sementes e dos cereais torrados; algum pão torrado; um pouco de salsa como tempero; e pequenas quantidades de hortícolas, como agrião, endívias e algumas azeitonas.

Não estamos a falar de comer um grande prato de acelgas, que poderão provocar diarreia e cólicas ao estimular excessivamente o peristaltismo.

As pessoas que toleram melhor os hortícolas amargos são aquelas cujo aparelho digestivo é mais resistente ou mais yang. Todos aqueles que têm pouca força digestiva toleram mal este tipo de hortícolas, assim como o café.

As pessoas que sentem necessidade de consumir café e bebidas amargas, como o Campari, devem reduzir drasticamente o consumo de alimentos pesados: carnes, queijos e enchidos.

Desse modo, para se equilibrarem, será suficiente consumirem malte em vez de café e cerveja em vez de Campari.

O SABOR DOCE

Na sequência das publicações anteriores, explicamos agora tudo aquilo que é necessário saber sobre o sabor doce — que não é o mesmo que açucarado — e a sua relação com o funcionamento dos nossos órgãos internos.

O sabor doce deverá predominar na nossa ementa. Não nos referimos ao que sabe imediatamente a doce na boca, como o mel, o açúcar, o leite ou a fruta, mas ao sabor doce neutro que surge na boca depois de mastigarmos os cereais e que também está presente em muitos hortícolas cozinhados, como a cenoura e a cebola.

O sabor doce

Podemos distinguir três tipos de sabor doce, com efeitos muito diferentes sobre o nosso equilíbrio interno:

O doce neutro

O doce neutro, considerado uma fonte de saúde, é aquele que está presente em todos os cereais integrais depois de cozinhados e mastigados.

Tanto o fogo como a mastigação desdobram as cadeias dos hidratos de carbono complexos até à obtenção de maltose, um açúcar de absorção rápida e, por conseguinte, de sabor intensamente doce.

Também possuem um sabor doce neutro hortícolas como as couves, a couve-flor, o feijão-verde, a cenoura, a abóbora, a cebola, o alho-francês, etc.

Estes alimentos tonificam o estômago, o baço e o pâncreas, sendo, portanto, indispensáveis na nossa alimentação.

É importante saber que este sabor provém de alimentos que contêm hidratos de carbono complexos.

O doce açucarado

É aquele que predomina na fruta, no mel, na rapadura, nos xaropes de cereais, no açúcar branco ou integral e no leite.

Estes alimentos são ricos em glicose, frutose e galactose, que, por serem hidratos de carbono de absorção rápida, são considerados responsáveis por desequilíbrios do pâncreas e por várias perturbações digestivas.

O doce químico

É aquele que está presente nos adoçantes, como a sacarina, o aspartame, o sorbitol, etc., os quais deverão ser excluídos da nossa alimentação devido aos perigos que comportam.

Os alimentos do primeiro grupo estarão presentes diariamente na alimentação; os do segundo grupo serão consumidos ocasionalmente ou com pouca frequência; e os do terceiro grupo deverão ser evitados em todos os casos.

O doce cria dependência

Quando as pessoas consomem muitos doces, levam o pâncreas a produzir uma grande quantidade de insulina para regular os níveis de glicose no sangue. Como consequência, poderá ocorrer uma hipoglicemia reativa.

Esta descida da glicemia faz com que o organismo volte a pedir alimentos doces e inicia-se o círculo vicioso que muitas pessoas definem como dependência.

Os alimentos ricos em hidratos de carbono de absorção rápida são considerados responsáveis por várias alterações digestivas ao nível do estômago, enfraquecem o sangue, tanto o vermelho como o branco, e provocam alterações hormonais.

No plano emocional, são considerados responsáveis por desequilíbrios do estado de espírito, levando-nos a passar da euforia à depressão, como se estivéssemos numa montanha-russa, e favorecendo a falta de autoestima e o sentimento de vitimização.

Os cereais integrais são a opção saudável em todos os casos.

O SABOR PICANTE

Falamos agora do quinto sabor universal: o picante.

Descubra quando é necessário consumir alimentos picantes e quais os alimentos que nos podem proporcionar este sabor para conservarmos a saúde, pois alguns alimentos picantes arrefecem e outros aquecem.

É um sabor associado a muitas especiarias exóticas, às malaguetas e aos pimentos de Padrón.

O picante é aquilo que nos provoca uma sensação intensa de ardor na língua e no palato. A palavra também pode estar relacionada com o sexo e com aquilo que é considerado obsceno, como as anedotas picantes.

Por isso, podemos compreender que o sabor picante ativa a circulação e tonifica, essencialmente, os pulmões.

O sabor picante

O picante comporta-se de maneira diferente conforme a planta da qual provém. Vejamos alguns exemplos.

Alguns hortícolas de raiz são picantes, como os nabos, os rabanetes, a raiz de lótus, o gengibre e a curcuma.

Este grupo de alimentos possui um efeito aquecedor e tonificante dos pulmões e do intestino grosso. Está, portanto, indicado sempre que exista fraqueza digestiva ou tendência para constipações.

Existe outro grupo de hortícolas que também possui sabor picante e que é representado por hortícolas de fruto: as malaguetas, os pimentos, os chilli, a pimenta-de-caiena e o Tabasco, pertencentes à família das solanáceas.

Este grupo de hortícolas tem um efeito refrescante e tonificante da circulação. São habitualmente consumidos como acompanhamento de vários tipos de carne e de pratos fortes, como feijões com toucinho e morcela, quando servidos com malaguetas.

No mundo das especiarias, encontramos as pimentas, das quais se utiliza o fruto das plantas de onde provêm e que, do ponto de vista botânico, não estão relacionadas com as anteriores.

Todas crescem em climas tropicais húmidos. Devemos conhecer o efeito dispersante da energia e o efeito refrescante destes condimentos. Não é por acaso que se desenvolvem em climas tropicais.

Devemos ser muito moderados na sua utilização em climas temperados e frios como o nosso, pois podem enfraquecer-nos, sobretudo quando seguimos uma alimentação essencialmente vegetariana.

O picante na nossa ementa

Quando a nossa alimentação se baseia nos cereais integrais e é essencialmente vegetariana, podemos incluir na preparação dos pratos um pouco de sumo de gengibre, alguns rabanetes ralados e macerados em vinagre de umeboshi ou um pouco de nabo daikon ralado.

OS CINCO SABORES NO PRATO

Chegados a este ponto, devemos recapitular e observar a importância de cada um dos cinco sabores na harmonização do bom funcionamento dos nossos órgãos: salgado, ácido, amargo, doce e picante.

Se necessitarmos de fortalecer os rins, a bexiga e o aparelho reprodutor, teremos em conta o sabor salgado, representado pelo sal, pelos condimentos como o miso e o tamari e pelas algas marinhas.

Se for o fígado a pedir a nossa atenção, oferecer-lhe-emos algum alimento sujeito a fermentação láctica, como os picles, ou um pouco de vinagre.

Se for o coração que necessita de ser ativado, poderemos reconfortá-lo comendo algum hortícola amargo ou bebendo café de cereais, ou ainda através do consumo de um pouco de tekka, etc.

O doce neutro não pode faltar como elemento harmonizador do funcionamento do estômago, do baço e do pâncreas: os cereais integrais, sob todas as suas formas.

Por último, para tonificar os pulmões, os alimentos picantes de eleição seriam o gengibre, os rabanetes, etc.

Tal como fizemos um percurso pelos cinco sabores, também deveriam estar presentes no nosso prato as cinco cores — preto, verde, vermelho, amarelo e branco —, as cinco formas básicas de confeção e as cinco texturas principais.


COMENTÁRIO (IA)

O texto apresenta uma visão macrobiótica coerente e útil naquilo que incentiva: variedade de cores, sabores, texturas e métodos culinários; predominância de alimentos pouco processados; consumo regular de cereais integrais, leguminosas e hortícolas; redução de carnes vermelhas, enchidos, açúcares e álcool; e atenção à mastigação e à apresentação das refeições.

Contudo, várias afirmações são demasiado absolutas ou pertencem à interpretação energética da Medicina Tradicional Chinesa, não devendo ser confundidas com conclusões científicas comprovadas. É o caso da associação direta de cada sabor a determinados órgãos, da ideia de que os alimentos amargos tornam as pessoas psicologicamente mais fortes e felizes, ou de que certas preferências alimentares revelam necessariamente um desequilíbrio específico.

Também merecem correção ou prudência os seguintes pontos:

  • O plasma sanguíneo é ligeiramente alcalino, mas isso não significa que seja «salgado» no mesmo sentido alimentar, nem justifica aumentar o consumo de sal.
  • Miso, tamari, gomásio e umeboshi podem conter bastante sódio. Nos casos de hipertensão arterial e edema, devem ser utilizados em pequenas quantidades e contabilizados como fontes de sal.
  • As algas podem fornecer minerais, mas algumas contêm quantidades excessivas de iodo. A sua ingestão deve ser pequena e não necessariamente diária.
  • Não é correto afirmar que todos os vinagres são mais tóxicos do que as bebidas alcoólicas. O álcool apresenta riscos bem estabelecidos; o vinagre, usado moderadamente, é geralmente seguro.
  • O café, o chá e o cacau contêm compostos bioativos, mas não devem ser genericamente classificados como tóxicos. A tolerância e a quantidade consumida são importantes.
  • Os adoçantes autorizados não devem ser todos considerados perigosos. Alguns podem causar desconforto intestinal, sobretudo os polióis como o sorbitol, mas a segurança depende do tipo e da quantidade.
  • A indicação de que não é necessário beber água durante a refeição não pode ser transformada numa regra geral. A água dos alimentos contribui para a hidratação, mas não substitui necessariamente os líquidos. Perante boca e olhos secos, diminuição do volume de urina, calor, uso de anti-hipertensor ou consumo de infusões diuréticas, restringir a água pode ser perigoso.

Em síntese, o texto oferece bons princípios culinários e uma estrutura interessante para compor refeições variadas. Deve, porém, ser utilizado como orientação alimentar macrobiótica, e não como substituto das necessidades individuais de hidratação, proteína, sódio e energia ou das recomendações médicas aplicáveis a cada estado de saúde.

 

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