Wednesday, January 15, 2025

 


A ALIMENTAÇÃO E OS 5 ELEMENTOS

1º - O elemento Fogo: Coração e Intestino Delgado

Um grande consumo de alimentos condimentados deteriora o coração e o intestino delgado, assim como uma presença excessiva de gorduras e de colesterol no sangue resultante da ingestão de quantidades importantes de alimentos de origem animal. Se o coração e o intestino delgado estiverem fracos, há todo o interesse em reduzir ou até mesmo eliminar da nossa alimentação a carne vermelha, os ovos e os produtos lácteos, pois todos eles aumentam a taxa de colesterol do sangue e impedem o coração de receber um afluxo suficiente de sangue e de oxigénio. Um consumo excessivo de alimentos muito contractivos ou arrefecedores (muito yang), como o sal por exemplo, enfraquecem igualmente o coração e o intestino delgado.

Os alimentos que reforçam o elemento Fogo são o milho, as couves de Bruxelas, as cebolas, echalotas, cebolitas, lentilhas coral, morangos e framboesas. Os alimentos ligeiramente amargos, como as folhas do dente de leão, a chicória, a raiz de bardana, estimulam a função do coração e do intestino delgado.

Apenas pequenas quantidades destes alimentos serão necessárias, sobretudo se forem consumidos regularmente. É desejável variar os alimentos fogo que comemos. O facto de só consumirmos um grupo destes alimentos poderá ter como consequência graves desequilíbrios, podendo até desencadear doenças. Não nos esqueçamos que é preciso consumir estes alimentos na sua época/estação – é importante estarmos em harmonia com o meio ambiente e o clima. Os morangos, os rabanetes, os tomates não estão disponíveis no Inverno por uma boa razão: são frutos de Primavera, que devem completar a alimentação de uma só época bem precisa do ano.

Uma atitude optimista face à vida favorece também um bom funcionamento do coração e do intestino delgado. A fé e a gratidão são fonte de alegria.

Sinais de desordem

·      Todas as doenças do sistema circulatório e cardíaco

·      Pernas pesadas, varizes

·     Doenças que surgem no Verão ou que pioram nos meses de Dezembro a Março

·      Alterações do intestino delgado, tendência a diarreia

·      Sensação de aperto no tórax

·      Sede ardente

·      Perturbações de memória, omissão ou esquecimento de palavras

·      Fluxo verbal exagerado

·      Preferência extrema ou rejeição pelo sabor amargo

Ao verificar desordens num elemento, não podemos esquecer de verificar sempre os elementos mais intimamente relacionados.

É apoiado pelo elemento Árvore (fígado);

Alimenta o elemento Solo (baço-pâncreas)

É controlado pelo elemento Água (rins)

Alimentos a evitar

·  Ricos em gordura ou que sejam cozinhados desse modo – como acontece quando a chama se aproxima do óleo

·      Sal

·      Refrigerantes

·      Álcool

·      estimulantes

Outros aspectos a evitar

·      Ambientes de calor extremo e secura

·      consumo exagerado de estimulantes como nicotina e álcool

Sugestões

·      Procurar o equilíbrio entre trabalho e descanso, situações de trabalho extremo em que o corpo não tem tempo para recuperar, afecta o coração, bem como todo o organismo

·      Actividades como conduzir ou outras quee« exijam viver no ritmo em que a prioridade é a rapidez, geram muita tensão no corpo, o que a longo prazo cansa o coração. Respeite o seu ritmo para não o perder.

Alimentos recomendados 

·      Milho

·      Vegetais de sabor amargo (nabo, reama de nabo, …)

·      Estilos culinários mais alegres (saltear, escaldar)

· Preparações bem cozinhadas e bem temperadas, utilizando de forma moderada o sal, gordura e condimentos.

 

2º - O elemento Solo (Terra): Baço, Pâncreas e Estômago

O açúcar refinado e os alimentos muito ácidos fazem mal ao estômago e ao baço, sofrendo este último também com o consumo de bebidas extremamente açucaradas.

Por outro lado, os alimentos com sabor ligeiramente açucarado favorecem o bom funcionamento do baço. As abóboras em geral e a abóbora japonesa Hokaido em particular (“potimarron”) reforçam o baço. Entre os cereais, é o Millet. As pessoas que sofrem de problemas do estômago ou do baço deveriam consumir muito millet e abóbora.

Os sais minerais também são importantes para assegurar um bom funcionamento dos órgãos do elemento Solo. Como eles contêm minerais, todos os legumes são favoráveis à função do estômago, do baço e do pâncreas. As folhas da couve “collard” (legume do Sul dos EUA, que parece espinafres) ou da couve  “plume” ou “ Kale”, a consola/capuchinha e as urtigas são as mais ricas em sais minerais, sobretudo em Cálcio.

O elemento Solo é ainda mais reforçado por uma boa mastigação dos alimentos e a insalivação que a acompanha. A saliva pode ser extremamente alcalina, e o estômago extremamente ácido. Os alimentos bem mastigados, ricos em saliva, penetram no estômago e tamponam os ácidos do estômago, harmonizando assim o meio no interior deste. Os alimentos condimentados ou ácidos e ainda por cima mal mastigados, tornam este meio ainda mais ácido, o que pode causar com toda a certeza dores de estômago, podendo com o tempo degenerar em úlceras.

Sinais de desiquilibrio nestes órgãos

·      Afecções da boca: aftas, acidez, herpes

·      Obesidade ou magreza, perturbações alimentares,

·      Sensação de cansaço, principalmente após as refeições

·      Acessos de apetite irresistíveis

·      Ruminar os problemas ou preocupar-se demasiado

·      Preferência extrema ou rejeição por tudo o que é doce

Ao verificar desordens num elemento, não podemos esquecer de verificar sempre os elementos mais intimamente relacionados.

É apoiado pelo elemento Fogo (coração);

Alimenta o elemento Metal (pulmões)

É controlado pelo elemento Madeira (fígado)

Alimentos a evitar

·      Açúcar

·      Produtos refinados

·      Farinhas no forno

·      Combinações de farinhas, gordura e doce

·      Alimentos pesados

·      Alimentos frios

·      Excesso de lacticínios

· Uso frequente de molhos, natas e cremes (criação de humidade e consequente afectação do sistema imunitário

Outros aspectos a evitar

·      Comer em demasia

·      Cansar-se excessivamente

·      Ruminar nos pensamentos

·      Excesso de rotinas, principalmente de organização

·      Rigidez, não experimentar outras possibilidades

·      Excesso de informação

Sugestões

·      Faça um corte de cabelo diferente

·      Procure outro cabeleireiro em vez do de sempre

·      Vestir outra cor que não a habitual

·      Trocar as gavetas da cómoda

·      Dizer bom dia a toda a gente (se não for hábito fazê-lo)

·      Ficar o dia todo calado (se falar sempre muito)

·      Mudar-se

Alimentos recomendados 

·      Millet. Arroz glutinoso. Mochi

·      Vegetais redondos: abóbora, cebola, couve coração

·      Feijão de soja preto

·      Doces de cereais e vegetais: amasake, abóbora, cebola, …

O baço precisa de doce, o dos vegetais e cereais.

As sobremesas elaboradas a partir de adoçantes refinados, provocam acidez no corpo e uma consequente desmineralização.

 

3º - O elemento Metal: Pulmões e Intestino Grosso

O elemento Metal é reforçado e estimulado pelo arroz integral e pelos numerosos legumes correntes, tais como as couves, couve-flor, aipo, pepino, agriões de água, nabos, rabanetes e cebolas. Segundo a medicina macrobiótica, a raiz de gengibre, o rábano/daikon negro, o daikon (nabo japonês), o alho e as folhas de mostarda são todos eles plantas medicinais para os pulmões e intestino grosso. Os alimentos com sabor picante, consumidos em pequenas quantidades, podem também melhorar o funcionamento destes dois órgãos.

O exercício físico, como a marcha e o ciclismo suave, são igualmente benéficos para os órgãos Metal.

De uma maneira geral, as fibras beneficiam o conjunto do tubo digestivo fazendo aumentar a duração do trânsito e desobstruindo-o dos velhos dejectos e expulsando-os do sistema. Porque contêm fibras, todos os cereais e todos os legumes sustentam e dinamizam o funcionamento do intestino grosso.

Pelo contrário, os alimentos de origem animal, sobretudo a carne vermelha, são verdadeiros fardos para os intestinos e tornam o trabalho da digestão mais difícil. As gorduras, sobretudo as provenientes da carne vermelha, dos ovos, e dos queijos de massa dura, são a primeira causa do cancro do cólon. A carne vermelha é extremamente difícil de digerir, sobretudo porque não pode ser inteiramente mastigada e também não pode certamente ser correctamente decomposta nos intestinos. As pessoas que sofrem de afecções do intestino grosso têm todo o interesse em evitar todos os alimentos muito difíceis de digerir, particularmente no que diz respeito à carne.

Os pulmões são muito sensíveis aos produtos lácteos e ao óleo. Os alimentos fritos, o leite, iogurte e outros alimentos gordurosos ou oleosos tapam os microscópicos sacos de ar dos pulmões (alvéolos pulmonares), impedindo uma boa oxigenação destes. Para os curar, é necessário um regime alimentar comportando pouco óleo e gordura. Se tiverem tosse, evitem o “blue-fish”, as sardinhas e as cavalas.

Sinais de desordem

·      Todas as doenças que nos transmitem a sensação de “chegar ao limite” – necessidade de mudança

·      Enfermidades das vias respiratórias: sinusite, tosse, asma, bronquite.

·      Prisão de ventre ou diarreia e doenças fúngicas do intestino

·      Afecções características do Outono/Inverno

·      Pele/Mucosas secas (nariz e boca), tosse seca

Enfermidades da pele: acne, dificuldades de cicatrização, sensibilidade, vermelhidões, escamações

·   Transtornos e perturbações da personalidade que surgem com tristeza e desgosto, suspiros frequentes, ter dificuldade em deitar fora

·      Rejeição ou preferência extrema do sabor picante

 

Ao verificar desordens num elemento, não podemos esquecer de verificar sempre os elementos mais intimamente relacionados.

É apoiado pelo elemento Solo (baço-pâncreas);

Alimenta o elemento Água (rins)

É controlado pelo elemento Fogo (coração)

Alimentos a evitar

·      Alimentos feitos a partir de farinhas, principalmente refinadas

·      Laticínios em excesso

·      Açúcar. Refrigerantes

·      Todo o tipo de proteína animal transformada (fiambre, chouriço, enchidos, etc.)

Outros aspectos a evitar

·      Vida sedentária. Ausência de exercício físico

·      Vida sem convívio social

·      Permanecer em lugares poluídos

Sugestões

·      Praticar exercício físico – procurar práticas em que se reaprenda a respirar

·      Trabalho de voluntariado na comunidade

·      Manter a casa limpa, livrar-se de coisas que não se utiliza, não acumular

Alimentos recomendados 

·      Vegetais de raiz e de folha

·      Cereais integrais – principalmente o arroz

·      Alga Nori e Agar-Agar

·      Raiz de Kuzu

·      Germinados

·      Pickles de vegetais, fermentados com sal

 

4º - O elemento Água: Rins e Bexiga

Os alimentos que reforçam e estimulam um bom funcionamento dos rins são os feijões e pequenas quantidades de sal. Muito sal, pelo contrário, enfraquece os rins e cria hipertensão – convém utilizar este condimento em quantidades moderadas. Todos os feijões e leguminosas ajudam a tonificar os rins e a melhorar o seu funcionamento, mas os feijões Azuki de Hokkaido (os mais pequenos) estão sem dúvida entre os mais eficazes nesta categoria de alimentos. Entre os cereais, a cevada e o trigo sarraceno são os mais benéficos para os rins. No que diz respeito aos legumes do mar, sobretudo as algas Kombu, Hiziki, Wakame e Nori, têm todas elas a sua utilidade na melhoria do funcionamento destes órgãos.

Se os rins estiverem fracos, experimentemos a raiz de gengibre, que se pode beber em tisanas, comer como legume ou aplicar em compressas.

Sinais de desordem

·      Doenças que surgem na decorrência do frio

·      Problemas da bexiga e dos rins

·      Mãos e pés frios

·      Dores nas costas, hérnias discais, principalmente nas vértebras da parte inferior das cotas

·      Enfermidades das vias urinárias

·      Afecções dos ouvidos, zumbidos, redução da audição

·      Doenças dos ossos, osteoporose

·      Fracturas e demora na sua reconstituição

·      Medos e fobias, temor a novas situações

·      Alterações cutâneas (escamação, psoríase, …)

·      Preferência extrema ou rejeição pelo sabor salgado

Ao verificar desordens num elemento, não podemos esquecer de verificar sempre os elementos mais intimamente relacionados.

É apoiado pelo elemento Metal (pulmões);

Alimenta o elemento Árvore (fígado)

É controlado pelo elemento Solo (baço-pâncreas)

Alimentos a evitar

·      Líquidos em excesso

·      Sal

·      Excesso de proteínas

·      Açúcar

·      Batatas

·      Gorduras

Outros aspectos a evitar

·      Comer antes de ir dormir (3 horas antes)

·      Dormir pouco

·      Estar muitas horas de pé

·      Banhos prolongados de água quente

·      Permanecer muito tempo na mesma posição

Sugestões

·      Andar a pé, se possível descalço, caminhando sobre a terra

·      Actividade física moderada

·      Compressas de gengibre sobre os rins ou escalda pés com sal marinho integral

·      Massagem aos pés (reflexologia)

·      Respeitar as horas das refeições

·      Tentar criar disciplina e ter horários regulares para tomar as refeições

Alimentos recomendados 

·      Todos os feijões, de preferência o feijão Azuki

·      Algas, em especial a kombu, a hiziki e a aramé

 

5º - O elemento Árvore (Madeira): Fígado e Vesícula Biliar

Os alimentos gordurosos, as gorduras, o colesterol e o álcool em excesso prejudicam o fígado e a vesícula biliar.

As pessoas que sofrem de cálculos da vesícula biliar sentem geralmente uma dor aguda na zona situada por baixo do peito. Muitas vezes a vesícula biliar é retirada cirurgicamente, mas os cálculos podem ser eliminados naturalmente – podem ser dissolvidos em todo este órgão por uma simples mudança de alimentação, reduzindo de maneira drástica o consumo de gorduras e de carne rica em colesterol (ostras, pele das aves, pastas de fígado, banha de porco, gordura de aves, etc.).

Um regime macrobiótico com dominância pelos cereais integrais, com uma grande variedade de legumes, leguminosas, algas e peixe deve poder fornecer todos os nutrientes necessários à manutenção ou ao regresso a um estado de saúde perfeitamente satisfatório.

Sinais de desordem

·      Mudanças abruptas de humor

·      Desordens nos processos hormonais, menstruação, tensão pré menstrual

·      Pontadas, palpitações, dores de cabeça, (principalmente quando são só de um lado)

·      Cãibras dores e distensões musculares

·      Conjuntivites, infecções da córnea

·      Rinite alérgica

·      Visão enublada

·      Enfermidades do fígado e da vesícula

·      Prisão de ventre

·      Doenças da Primavera

·      Sensibilidade às correntes de ar

·      Dificuldades em descontrair

·      Preferência extrema ou rejeição pelo sabor ácido

·      Estado frequente de zanga ou irritação

Ao verificar desordens num elemento, não podemos esquecer de verificar sempre os elementos mais intimamente relacionados.

É apoiado pelo elemento Água (rins);

Alimenta o elemento Fogo (coração)

É controlado pelo elemento Metal (pulmões)

Alimentos a evitar

·      Alimentos muito condimentados

·      Gorduras saturadas

·      Misturas de açúcar e gorduras

·      Consumo frequente de alimentos fritos

·      Comida sem frescura, requentada, restos

·      Refeições pesadas de difícil digestão

Outros aspectos a evitar

·      Executar várias tarefas em simultâneo por longos períodos

·      Sentir que não se tem prazer na vida

·      Sentir-se constantemente contrariado

·      Ficar acordado entre a meia-noite e as três da manhã

Sugestões

·      Consumir em todas as refeições vegetais verdes escaldados (agriões, nabiças, brócolos, couve portuguesa, couve coração, etc.

·      Não encher o estômago, comer apenas o suficiente

·      Ter sabores mais fortes e mais simples no prato, não devendo existir vários sabores aromáticos e intensos

·      Beber chá quente no final da refeição (neutro e não estimulante)

·      Mastigar muito bem e comer sentado e sem pressas

·      Passear frequentemente em sítios com árvores

·      Ouvir diariamente música de que se goste

·      Esfregar o corpo com água morna e sumo de gengibre

·      Fazer algo só para si

·      Evitar fazer várias tarefas ao mesmo tempo – fazer intervalos

·      Fazer jejum uma vez por mês, bebendo apenas líquidos, num dia em que possa ficar em casa a descansar

Alimentos recomendados 

·      Cevada

·      Germinados

·      Vegetais de folha verde

·      Nabo, rábano, rabanetes

·      Cogulos Shitake

·      Daikon

 

 

Bibliografia consultada

·      “L´Alimentation avec les 5 éléments” – Gérard Wenker, 2013.

·      “Cozinhar com a Natália. Cure corpo e emoções com o poder dos alimentos” – Natália Rodrigues, 2009.

Sunday, January 5, 2025

 


Que comer e como fazê-lo

Na natureza existe uma ordem. Cada forma de vida necessita alimentar-se para continuar com a sua existência. Água, Sol, proteínas, minerais e outros nutrientes. Todas as formas de vida alimentam-se. Alimento é energia. Fonte de energia vital. E cada organismo está especializado para fazê-lo de uma forma única. Este processo de diversificação e especialização para a absorção do alimento é o resultado de enormes e extensos períodos.

Milhares e milhares de anos de evolução das diferentes formas vivas.

Assim, na família das aves, os pinguins estão adaptados a uma dieta de peixe e todo o seu corpo está perfeitamente desenhado para capturar peixe e assimilá-lo com suprema perfeição. A águia também é uma ave, uma prima irmã do pinguim, porém a evolução biológica de milhões de anos, gerou outro tipo de corpo perfeitamente adaptado à localização a grandes distâncias de pequenas presas e à sua posterior captura com ferozes garras. Pela sua parte, o colibri, também da família das aves, evoluiu como consumidor de pólen e busca nas flores a sua alimentação.

Todas são aves e cada uma limita-se àquilo que lhe toca dentro da ordem da vida. Como consequência não ficam doentes. E essa é uma manifestação da imensa “sabedoria” do instinto de sobrevivência dos animais vivendo em plena natureza.

O ser humano, também é um animal, e apesar de estar mais bem-dotado na evolução biológica, não está isento de respeitar aquelas normas da alimentação biológica. Todos os pinguins se alimentam na base do peixe, todos os búfalos se alimentam na base das ervas selvagens e todos os gorilas se alimentam na base de plantas e de frutos. E todos são felizes e saudáveis. Não há queixas nem protestos.

Quando o homem intervém querendo “ajudar” os animais fogem, não querem sair do paraíso no qual as suas espécies têm vivido felizes durante centenas de milhares de anos. Mas o ser humano crê-se muito preparado e dá aos animais alimentos “enriquecidos”, “melhorados” para que tenham um pelo mais bonito e forte e para melhorar o seu estado nutricional. E dá aos cães alimentos ricos em vitamina A e D, para melhorar esta ou aquela função biológica.

O homem por mais ilustre que seja é regido pelos mesmos princípios e as mesmas leis biológicas. Não deveria comer “de tudo”, simplesmente porque está saudável, ou porque “tudo lhe cai bem”. A anarquia, a desobediência à ordem natural é o que conduz à degeneração biológica e à eclosão de legiões de doentes crónicos. A macrobiótica convida-nos a descobrir os alimentos correctos na escala biológica e a como prepará-los e consumi-los todos os dias com prazer e gratidão.

Quanto ao que comer, a sugestão é utilizar os produtos que foram usados tradicionalmente no local. Mas alimentação tradicional não significa o que se tem usado nos últimos 200 ou 300 anos, mas sim o que se usou como alimento típico durante milhares de anos. Atualmente há muita confusão e já ninguém sabe com clareza o que é tradicional e o que é copiado de outras culturas. O ser humano adapta-se a todos os climas e a todas as latitudes.

Em zonas desérticas alimenta-se na base de leite de camelo e frutos que encontra no oásis. Essa é a forma que tiveram durante centenas de anos e seguem-na devotamente, acreditando que a sua raça e a sua cultura obtêm a sua força e energia destas tradições. Se os beduínos entrarem em contacto com a dieta das cidades e começarem a consumi-la habitualmente, perdem a sua base, a sua raiz e começam o seu declínio e a sua extinção.

Ao longo da história as grandes aglomerações humanas alimentaram-se de cereais. Arroz e trigo sarraceno na Ásia, millet e bulgur em África, trigo, cevada e aveia na Europa e no Médio Oriente e milho, quinoa e amaranto nas três Américas.

Os cereais têm sido a base da alimentação humana durante milhares de anos e nas zonas onde se cultivaram cereais floresceu a cultura e o desenvolvimento das ciências e tradições religiosas. Nas zonas onde os humanos se alimentaram de carnes (caça e recolecção) e frutos, a evolução intelectual-espiritual parou no Neolítico.  No pólo Norte, nas selvas tropicais e nas savanas africanas vivem robustos seres humanos que vivem da caça e recolecção, mas não consomem cereais como alimento base. Contudo não têm um calendário nem mapas das estrelas e astros do céu. Nem sequer têm escrita. Os cereais foram os geradores do desenvolvimento da humanidade. Não só trazem a saúde e a força para desenvolver e progredir para novos desafios, mas também permitem a conexão com as forças subtis que não chegam aos que se alimentam basicamente de corpos cozinhados de outros animais.

O ser humano ideal não é carnívoro nem vegetariano, mas sim “granívoro”. Por isso a nossa sugestão é a alimentação à base de cereais em grão integrais. Algumas culturas conservaram ferreamente a sua tradição da alimentação à base de cereais. Na Ásia a base é o arroz. Para os asiáticos o arroz é sagrado e por isso consomem-no em todas as refeições. Creem que os protegem das doenças e sustenta a sua peculiar tenacidade e espírito colectivo. Também os japoneses inconscientemente aferram-se às suas tradições dietéticas face à invasão das modas dietéticas europeias e dos estados unidos da América.  A base sempre foi o cereal. Um prato tradicional chinês, japonês ou indiano, tem como base o arroz, vegetais e proteínas vegetais e animais. Muita pouca carne e derivados animais. Ausência quase completa de leite e derivados do leite. A dieta é 80-90% de origem vegetal. Alguns pratos crus e a maioria são cozinhados segundo receitas tradicionais. Na América indígena a base sempre foi o milho, feijões, vegetais como batatas e outras hortícolas, especiarias e também pouca carne e derivados animais.

Actualmente, come-se na base da proteína animal. Perdeu-se a noção da base, do alimento principal. É esse o grande erro. E por isso a medicina só consegue alívios parciais e curas de duração efémera. A base é o cereal. O precioso cereal deveria ser 50-60% das nossas principais refeições. Porém, é imprescindível que seja integral e sempre que possível de cultivo orgânico (ou pelo menos não transgénico). Na maior parte dos países do mundo a soja e o milho são transgénicos. Aos meus irmãos latinos, e apesar de que a tradição indique que a base é o milho, desaconselho o seu consumo, a menos que seja evidente que a sua procedência seja de produção orgânica. No Uruguai 99% do milho que se vende em forma de farinha de milho ou fécula de milho ou óleo de milho ou em forma de choclos frescos têm origem transgénica. Os estudos e investigações científicas independentes indicam que produzem tumores em ratos. Mas os governos não dizem nada nem sequer rotulam as embalagens que têm alimentos com milho ou com base de milho, porque para eles o mais importante é a estabilidade das indústrias e a conservação das fontes de trabalho. Se rotulassem e as pessoas tomassem consciência dos perigos do milho transgénico, as vendas cairiam a pique, muitos empreendimentos quebrariam e muita gente ficaria sem trabalho. Ainda que isso implique o declínio da saúde da sua nação. A prioridade são os números, a “rentabilidade”. Mas tenho-me percebido que no Brasil a rotulação já está nos alimentos que contêm milho. Trata-se de um triângulo com um T no seu interior. É um grande avanço e uma mostra de respeito para com os direitos dos consumidores. Porém, por aqui, nesse sentido, todavia estamos na pré história. Mais tarde ou mais cedo, chegará. Porque nada nem ninguém pode parar MARÉ DAS MUDANÇAS.

Então podemos usar arroz integral como base ou então outros cereais como: millet, quinoa, cevada ou bulgur. Os cereais integrais levam mais tempo a cozinhar que os cereais refinados industrialmente. Há que praticar e praticar para conseguir uma boa cozinha macrobiótica ou saudável.  Empregaremos a expressão “macrobiótica” por convenção, para entender do que estamos a falar. 50-60% de cereais integrais bem preparados com água mineral e sal marinho. Devem ser muito bem mastigados inclusive até 80-100 vezes cada bocado até que o alimento fique com consistência líquida. Só assim nos asseguraremos que temos completado o 1º tempo digestivo, o tempo bocal. A saliva tem potentes acções químicas sobre os hidratos de carbono complexos, que abundam nos cereais. Os cereais têm no estado cru, um Ph levemente ácido. Porém ao cozinhá-los em fogo muito lento com um pouco de sal marinho e ao mastigarmos cuidadosamente, o seu Ph torna-se alcalino, sobretudo pela acção alcalinizante da ptialina. Face a uma gastrite, onde há uma inflamação permanente das paredes internas do estômago, a mastigação deve ser muito mais atenta e cuidadosa. O alimento deve então liquefazer-se completamente antes de ser deglutido. Em casos severos mastigar mais e inclusivamente 200 a 250 vezes cada bocado (para o arroz e cereais integrais). É só uma questão de HÁBITO, tudo se aprende se nos treinarmos. Desta forma o sabor de cada bocado será cada vez mais doce e alcalinizar-se-á tanto que inibirá a acidez gástrica. É interessante que os fármacos que se empregam na gastrite são em muitos casos alcalinos. O alcalino neutraliza e cura a acidez. Mas se em vez de alcalinizar com fármacos que têm custos económicos e vitais (e efeitos secundários) preferimos alcalinizar com uma dieta alcalina e muita mastigação. Também o sal marinho usado com moderação alcaliniza os alimentos e todos os fluídos corporais. Somos 80% de água alcalina, não 80% de água doce engarrafada. E o componente que invariavelmente está em todos os fluídos biológicos é o NaCl (cloreto de sódio). Ou seja, sal natural. Apesar da má propaganda que fizeram ao sal e ao medo pela sua suposta responsabilidade no aparecimento da hipertensão arterial. Não podemos viver sem sal. A hipertensão só ameaça os que se alimentam na base de derivados animais. Os verdadeiros vegetarianos não padecem de hipertensão apesar de usarem sal. Trata-se de outro mito, de outro paradigma errado. E a ponto de se derrubar.

O cereal é o alimento base. É a base da cura. Isto deve ser compreendido claramente. Sem cereal base não há cura. Não se trata de comer saudável ou natural. Trata-se de compreender que assim o estabelece a Ordem. O ser humano pode comer de tudo e assimilar quase tudo. Mas o maior nível de equilíbrio e saúde recebe-os do cereal. Por alguma razão temos 20 molares num total de 32 dentes. Os molares “moem”, como as mós de um moinho. Os moinhos “mastigam” o trigo e o convertem em farinha. Os nossos dentes são os nossos moinhos naturais. Mas não se limitam a triturar, a reduzir tudo a mínimos fragmentos, mas também o misturam com os factores bioquímicos que compõem a saliva, como enzimas, sais minerais e claro água, para que a papila esteja com o nível exacto de hidratação antes de “cair” na mucosa gástrica. Mas como queremos evitar esforços preferimos que o moinho mecânico faça o trabalho. E por isso todos nós gostamos de farinha. Branca, integral ou de mistura. Para evitar o esforço e o trabalho de mastigar inclinamo-nos para usar o cereal mastigado pela máquina. Mas a mastigação mecânica do moinho não chega ao nível óptimo da mastigação bocal fisiológica. Por isso é melhor comer grãos cozidos inteiros e mastigá-los do que comer grãos processados em forma de farinhas.  Podemos comer todo o volume de arroz ou cereais inteiros que desejemos sempre e quando o mastiguemos muito bem, e em caso de problemas digestivos, isto é particularmente importante.  Não há limites nas quantidades de alimento principal. Uma parte deste prato principal pode ser consumida em forma de subprodutos de cereais integrais, como bolos moídos, arepas, tortilhas de milho ou arroz ou pães e bolos. Sempre e quando o estômago o tolere. Em caso de impulso severo de gastrite todos os cereais deveriam ser consumidos em forma de grãos bem cozidos e tenros ou inclusivamente liquidificados em forma de cremes ou sopas. Logo que passe o impulso e melhorem os sintomas podem usar-se formas mais atractivas de consumir os cereais.

O cereal é sagrado para o ser humano. A sua correcta absorção, purifica-o, eleva-o espiritualmente, torna-o formoso e sábio. Dá-lhe um tipo de força vital subtil que outros alimentos não têm. Devemos estar profundamente agradecidos e emocionados cada vez que comamos o nosso arroz integral ou o nosso milho ou a nossa aveia. São os alimentos superiores para o homem e a ferramenta dietética mais poderosa para alcançar a cura da gastrite ou de qualquer outra doença. Compreendendo isto muito claramente, não comeremos nunca “mecanicamente” o nosso arroz, queixando-nos da pouca “variedade” ou da pouco gostosa preparação. Recorde o leitor que a minha sugestão é por uma grande paixão na arte de cozinhar. Se tiver mau sabor é porque não está bem preparada. Se estiver bem preparada com amor, com consciência, com intenção e com o adequado equipamento e experiência, o arroz e suas diferentes variações deverão dar-nos diariamente regalias e sabores requintados. E assim cada dia pode ser uma festa. Pelo menos assim é para mim e para milhões de seres humanos que comem uma dieta à base de cereal integral há dezenas de anos e com maravilhosos resultados. É, portanto, essencial comer e mastigar o arroz ou o millet ou a quinoa com essa consciência e com esse espírito de gratidão, amor e sentir-se um privilegiado por ter tido acesso a este ensino que nos catapulta para a felicidade e a realização do nosso completo potencial. Então a doença é uma chave, para abrir a nossa vida a enormes possibilidades. Por isso devemos estar sempre agradecidos e entusiasmados porque tudo o que venha agora, se continuamos praticando estas disciplinas será cada vez mais e mais poderoso. Despertamos. Somos seres humanos da mais alta categoria biológica e espiritual. Verdadeiramente humanos e, portanto, amantes da felicidade colectiva e de todas as formas de vida. E isto o “sentimos” espontaneamente, sem ter de pertencer a nenhuma fraternidade ou agrupamento filosófico. Simplesmente respeitamos a Ordem e isso de igual forma ao que se passa com os animais selvagens coloca-nos numa situação de privilégio aos olhos do Universo.

O resto dos alimentos que compõem o nosso menu dominam-se alimentos secundários. Incluem uma extensa variedade de vegetais terrestres e marinhos, leguminosas, sementes e frutos secos, frutas de estação, peixe magro e ovos do campo. Também uma variedade de condimentos e o uso de ervas medicinais. Todos estes detalhes deveriam ser recebidos numa consulta pessoal com algum orientador dietético adequadamente classificado e experiente. Porém, alimentando-nos simplesmente segundo estes directizes gerais poderemos curar a gastrite em aproximadamente um mês no máximo dois. Em alguns casos antes, dependendo da nossa vontade e entusiasmo e também do surgimento das emoções que geram a cura sem nos faltar: uma fé esmagadora e uma imensa gratidão.

Resumindo, deveremos alimentar-nos com um prato consistente de 2/3 de arroz integral e 1/3 de alimentos secundários. Dentro dos alimentos secundários, deve haver sempre vegetais cozidos e crus (numa proporção 3/4-1/4), algumas algas marinhas para dar cálcio, ferro, magnésio e outros sais vitais para uma saúde óptima, proteínas vegetais em forma de leguminosas bem cozidas, sementes levemente tostadas (sésamo, girassol, linho, nozes, castanhas, amêndoas, amendoins). Ocasionalmente (uma ou duas vezes por semana) um pouco de peixe branco e um pouco de fruta local fresca ou levemente cozida. Durante os impulsos o prato deve ser muito simples e estricto. Só arroz, sésamo e vegetais no vapor. A seguir aos impulsos, voltar a empregar uma variedade de sabores e texturas. É importante usar produtos fermentados para termos enzimas e bactérias que beneficiem a digestão, como os lacto-bacilos.  O melhor produto que conheço é o miso, uma pasta de soja usada há milhares de anos no Extremo Oriente. Também o molho de soja de boa qualidade e o tempeh. Se não for possível na nossa zona conseguir estes produtos usar pickles de vegetais em salmoura como o chucrute. Tudo deve ser muito bem mastigado e respeitando a proporção entre cereal e complementos. A inversão das proporções conduz a um excesso de yin e assim a inflamação da mucosa que também está muito yin, continuará inflamada apesar de estarmos comendo muito saudavelmente e muito macrobioticamente. A proporção, a mastigação, a qualidade dos alimentos e também as emoções correctas que conduzem à cura. É um pouco difícil ao princípio, mas se formos persistentes e estivermos determinados a curar-nos, em um mês ou no máximo em dois receberemos a grande caixa de primeiros socorros da cura. Melhor dito da auto-cura. E sentiremos a satisfação imensa de o termos feito nós próprios. Sem ajuda técnica. Apenas apelando às forças curativas da natureza. E a sua mais gloriosa síntese para o humano: o cereal, o bendito cereal ao qual não deixo de agradecer todos os dias da minha vida. E se fizerem o mesmo a vossa transformação fisiológica será imparável e poderosa. A cura começa na mente e sustenta-se com a mente. Leiam a vossa folha de propósitos/objectivos para afirmar a vossa determinação e programar o vosso inconsciente. Assim tereis 100% de probabilidades de ter êxito. E devereis escrever-me logo a seguir umas linhas contando-me da vossa nova vida saudável. Não duvidem. Vocês o farão. Repitam em voz alta por favor= Fá-lo-ei. Fá-lo-ei. Tenho o potencial e a vontade infinita. Obrigado. Obrigado. O Universo conspira a meu favor.

Dr. Martín Macedo - médico, Uruguai, 2013

 

 

 

Thursday, December 26, 2024

 


  • PRIMUN NON NOCERE
  • ACIMA DE TUDO NÃO PREJUDICAR

Martín Macedo, Uruguay, 2013

A violência deve ser o último recurso. Quando surge um conflito entre duas pessoas ou entre dois países primeiro tenta-se resolver o mesmo através do diálogo. Depois de terem sido esgotados todos os recursos pacíficos, se o conflito não consegue ser resolvido, serão tomadas eventualmente medidas drásticas. A violência não é desejável e, por isso, é lógico deixá-la para o fim, quando já não se pode fazer outra coisa.

Primun non nocere, significa, antes de mais nada, não causar danos. Constitui a essência do Juramento Hipocrático. O médico recém-formado está determinado a proteger a vida e a saúde do paciente. Deve evitar prejudicar o doente antes de mais nada: primun non nocere. As numerosas avaliações por negligência médica mostram situações danosas por parte do médico ou dos médicos responsáveis. Nesses casos, há uma clara violação do Juramento Hipocrático. Os tratamentos habituais da ciência médica têm, em menor ou maior medida, um certo grau de violência. A cirurgia é um claro exemplo de tratamento agressivo, em que o procedimento é cortar tecidos e abrir vísceras. Todos nós sabemos que qualquer cirurgia, sobretudo as cirurgias maiores acarretam um certo risco e podem surgir complicações. A anestesia geral tem riscos e muitos procedimentos de diagnóstico são também arriscados, como as radiografias. E os fármacos quase sempre têm efeitos secundários. Vemos claramente que os tratamentos das  ciências médicas são agressivos e, por vezes, violentos. Obviamente que estes tratamentos são feitos com a sã intenção de aliviar ou curar, mas nem por isso deixam de ter certa dose de violência. Já que os tratamentos ortodoxos são muitas vezes violentos, é frequente que haja danos para a saúde do paciente e daí a possibilidade bastante alta de má prática. A doença é vista como um inimigo que há que destruir. E destruir requer violência. É óbvio. Não podemos vencer a doença com medidas suaves porque a doença é um inimigo mortal. Tal é a lógica habitual na medicina oficial.

Contudo, continuo a defender que a violência deve ser o último recurso. Deveríamos primeiro tratar a doença com medidas naturais e só no caso de não poderem ser ultrapassadas deveríamos recorrer a tratamentos drásticos. O facto de serem naturais, não significa que não sejam eficazes. Todas as situações de doença implicam um conflito. Este conflito deve ser resolvido pacificamente, através do diálogo, da auto-reflexão e da autocrítica à procura da falha no comportamento quotidiano. Se dois países tiverem um conflito, seria absurdo considerar que o diálogo é inútil porque é "suave" e proceder imediatamente à mobilização de tropas para iniciar uma guerra: "não acreditamos nas medidas brandas, por isso vamos começar uma guerra total o mais depressa possível". Assim procede muitas vezes a ciência médica atacando os sintomas com todas as suas forças por meio de drogas poderosas ou cirurgias. Como em todas as guerras não há tempo a perder, deve-se obter um diagnóstico o mais rapidamente possível a qualquer preço, ainda que alguns procedimentos diagnósticos sejam dolorosas e potencialmente prejudiciais. Uma vez identificado o inimigo (doença) segue o ataque frontal com uma chuva de mísseis para tentar aniquilá-lo o mais rapidamente possível. E a medicina está dotada de um "arsenal terapêutico" muito sofisticado. Arsenal é armamento, a palavra arsenal é usada pelo exército para se referir ao poderio das suas armas. Como em todas as guerras, há um vencedor e um vencido. O médico ataca com as suas armas e o doente recebe o ataque (melhor dito, a doença que está no corpo do paciente). No corpo do paciente coexistem tecidos sãos e tecidos doentes, mas todo o corpo recebe o impacto. Por isso quem perde é o paciente. O guerreiro não está treinado para o diálogo. Está preparado para entrar em combate porque é esse o seu trabalho. Todas as doenças começam no sangue. As toxinas e impurezas são levadas pelo sangue a todo o organismo e quando se acumulam para além de um determinado ponto crítico, começam a aparecer os sintomas. Estas toxinas provêm das ingestões do paciente. Se ele mudar a sua forma habitual de alimentação, o sangue limpar-se-á e, por sua vez, drenará as impurezas e venenos acumulados no tecido ou órgão que está a causar os sintomas. Este seria um procedimento "suave". Resolver o conflito com uma correcção dietética. Apenas em situações de alto risco pela magnitude dos sintomas se deve proceder a medidas drásticas a fim de salvar a vida, mesmo sabendo que a vitalidade geral será enfraquecida. Neste caso, é evidente que a prioridade é salvar uma vida. Quando adoptámos a macrobiótica, começámos imediatamente a produzir um sangue forte e vigoroso. Se se tiver a vontade de continuar por vários dias ou semanas a doença cede sem maior violência. Toda a violência aqui se limita a suprimir hábitos nocivos como fumar, comer em excesso, engolir os alimentos sem os mastigar bem e ingerir alimentos com muito sal, gordura, óleo ou condimentos. Uma violência é menor e a outra violência é maior. Mas algumas pessoas preferem a violência maior, desde que não renunciem aos seus vícios prediletos. O paciente é sempre o responsável, porque é o paciente que escolhe. Ninguém o obriga a adoptar um tratamento drástico ou um tratamento suave. Uma senhora conhecida da minha família, uma grande gourmet, afirmou: "Prefiro morrer a renunciar ao açúcar e ao sal".


Sunday, December 22, 2024

 


CATEQUIZAR PELO EXEMPLO

Falar é fácil. Qualquer pessoa pode falar durante horas sobre os benefícios em seguir uma via espiritual, uma disciplina moral ou sobre práticas saudáveis. No entanto, sustentar com factos este discurso é muito difícil. Podemos ter as melhores intenções, fortes desejos de fazer ver aos outros o bem que é fazer o que fazemos, mas isso não é suficiente. O que dá força ao nosso discurso é o que nós fazemos e não tanto o que dizemos. Quase todas as pessoas que começam a experimentar os benefícios de uma mudança de hábitos alimentares, e a compreender como o que comem afecta as suas vidas desejam introduzir as suas famílias e amigos no caminho da macrobiótica. No entanto, estes ainda não estão interessados em realizar nenhum tipo de mudança, o que, por vezes, gera dificuldades nas relações. Quem compreende chega a esta compreensão logo após ter experimentado dificuldades inesperadas ou após uma súbita inspiração. Mas reparei que muitas pessoas em vez de se concentrarem na sua própria experiência e concentrarem os seus esforços no seu progresso pessoal, dedicam-se em tentar convencer os seus familiares e outras pessoas que lhes são próximas. E geralmente isso não funciona. Em vez disso, "o convertido" torna-se um incómodo para todos. Este impulso de querer ajudar, assim que tomamos consciência de novas verdades é muito natural e também me aconteceu a mim. Devemos compreender que, para amadurecer, é preciso passar por certas experiências, por vezes muito difíceis e dolorosas. E nem todos amadurecem ao mesmo tempo. Mas queremos evitar o sofrimento a quem amamos, e daí a insistência. É muito desejável querer ajudar e é uma das consequências de se estar verdadeiramente curado. Mas a melhor ajuda não é tentar convencer, mas calar-se e praticar melhor. Temos de compreender que tudo tem o seu processo. O primeiro passo é conseguir recuperar a nossa saúde e felicidade. Isso não é egoísmo, mas a ordem natural das coisas. Mas queremos fazer tudo ao mesmo tempo e, assim, não chegamos a lado nenhum. O primeiro passo é conseguir a nossa recuperação, vivendo de acordo com o nosso potencial máximo. Uma vez alcançado este objectivo, outras pessoas virão até nós e pedir-nos-ão conselhos. Isto é algo que acontece espontaneamente. Yang atrai yin. Se estivermos verdadeiramente bem, yin será atraído sem qualquer esforço. Se necessitarmos de insistir é porque a nossa referência pessoal é insuficientemente poderosa. Deveremos trabalhar mais e melhor até estarmos verdadeiramente bem.

Recuperar-nos é um grande trabalho que requer muita concentração e um certo tempo. Devemos utilizar todos os nossos recursos interiores e físicos para conseguir este objectivo. Alcançar a verdadeira saúde é um grande trabalho e para isso devemos concentrar todas as nossas energias. Se começarmos a pregar antes do tempo, gastamos tempo e energia num esforço pouco  proveitoso, pois distrair-nos-emos do nosso próprio processo de recuperação e vamo-nos tornar um fastio para os nossos conhecidos. Então sejamos sábios e concentremos todos os nossos recursos na consecução do objectivo de primeira e mais fundamental realização: a nossa própria recuperação. Se fecharmos a boca, teremos mais força para actuar. Vamos então mantê-la fechada. Se quisermos atingir um grande objectivo necessitamos de concentração. Para nos mantermos concentrados, precisamos de um certo isolamento, uma certa tranquilidade e um certo tempo. Concentração significa atenção total ao presente. É no presente e apenas aí que se manifesta o nosso poder pessoal. Mesmo doentes ou severamente limitados fisicamente, a nossa mente, a nossa energia vital continua a ser poderosa. Mas este poder apenas vive no presente. E é aí que o devemos procurar. Para contactar com o presente, devemos meditar. Não é necessário adoptar uma postura especial. Podemos meditar enquanto viajamos no autocarro ou enquanto tomamos um duche. Meditar é tomar contacto com o nosso ser interior, de imenso poder, no momento presente. Fora do agora este poder dispersa-se. O presente é o momento mais yang da eternidade. Todo o nosso passado e todo o nosso futuro se comprimem milagrosamente até à extremidade: o instante presente. Este instante tem uma força absoluta. E precisamos de toda a força do presente para avançar até à verdadeira saúde. O nosso deus interior possuidor de um poder imensurável só aparece em cada presente. E cada presente deve ser aproveitado com sabedoria para atingirmos o nosso objectivo. A primeira coisa a fazer é fixar o objectivo. Desejo alcançar a verdadeira saúde, a verdadeira vitalidade, ser incansável, feliz e ser possuidor de grandes impulsos. Desconhecer o medo. Ter uma fé inabalável e um desejo irresistível de servir a humanidade.

Isso é saúde. Portanto, a primeira coisa a fazer é definir o que eu quero. Devo-o ter claro e, se ajudar, posso escrevê-lo num pequeno pedaço de papel e lê-lo frequentemente. O segundo passo é começar a trabalhar com toda a nossa intensidade para atingir o objectivo que temos em mente, 24 horas por dia. Iremos encontrar todo o tipo de dificuldades, distracções, tentações e lutas interiores. Sempre que tentamos algo aparece uma força contrária tentando impedir o nosso propósito. É o princípio da acção-reacção. Quanto maior for a força do nosso propósito, maior será a intensidade da força de reacção, tentando impedir o avanço. Por isso devemos recorrer à maior das forças espirituais com que podemos contar: A FORÇA DO PRESENTE. Este deus interior que vive em cada presente conscientemente aproveitado possui uma vontade de ferro invencível. Utilizando todos os recursos do nosso poder interior, toda a vontade, toda a perseverança, toda a coragem e toda a determinação, alcançaremos o objectivo da saúde absoluta. É algo formoso e não dura para sempre. Mas enquanto durar, disfrutemo-lo como quem acaba de ganhar a lotaria. Pode ser que mais tarde nos desconcentremos e percamos este estado exuberante. Mas podemos recuperá-lo se voltarmos a recomeçar. Esta tremenda força para alcançar este ou qualquer outro objectivo depende exclusivamente da nossa habilidade para viver no presente. A vontade, a determinação, a perseverança, o desejo apaixonado e a autoconfiança inquebrantável, não devem ser procuradas como coisas separadas ou pensando que algumas pessoas as têm e outras não. Todas elas surgem simultaneamente quando mergulhamos profundamente no presente. E o presente é o mesmo para todos. Porque a nossa essência espiritual é a mesma para todos e essa essência tem as mesmas promessas para todos. Não há pessoas com maior vontade ou coragem. Há pessoas com maior habilidade para mergulhar no presente do que outras. Realmente somos grandes quando nos tornamos presentes. Aí unimo-nos a Deus e, uma vez impulsionados, nada nos deterá. Assim preparados, pratiquemos a macrobiótica a fundo, com toda a sinceridade e empenho. Púnhamos muita atenção à mastigação. Mastiguemos bem agora, cada bocado, cada sorvo de chá, como se fosse a coisa mais importante que fazemos na vida. Tudo o que façamos no presente deve ser feito com toda a força da eternidade, porque o agora é a eternidade. Estudemos conscientemente, leiamos os livros sobre o princípio das mudanças e sobre as leis espirituais. Ponhamos paixão nos nossos estudos.

E, por favor, façamos exercícios diariamente, tranquilamente, mas vivendo intensamente cada movimento. Cada movimento como se fosse a coisa mais importante do universo, cada postura de ioga, como se milhões de pessoas nos estivessem a ver na televisão. É assim que Deus age, dedicando toda a sua atenção a cada pequeno detalhe da vida quotidiana. Depois de algumas horas ou dias, esta prática de estar no agora, com todo o seu esplendor, passará a ser algo habitual, e sentiremos uma alegria indiscritível. Dando toda a nossa vida em cada gesto, obteremos a plenitude do poder. Se praticarmos macrobiótica desta forma, não poderemos falhar. Ao fim de algumas semanas ou meses, sentiremos uma profunda certeza de que atingimos o nosso objetivo. Sentiremos uma felicidade nova, algo que nunca mais vamos querer perder. E por isso a nossa prática continuará. A nossa destreza na cozinha será cada vez maior e todas as nossas habilidades correntes serão incrementadas com uma força imensa e deliciosa. 

Por isso, se quisermos conservar este novo estatuto, devemos continuar e, ainda assim, devemos evitar pregar. Apenas o nosso exemplo, irá atrair as pessoas. Quanto mais elevado for o nosso nível de energia, maior será o número de pessoas que serão atraídas. E então poderemos falar. E as nossas palavras devem surgir das profundezas do universo, inspiradas pelo espírito, e manifestadas no agora. Então poderemos falar e seremos ouvidos. E nos agradecerão. Essa é a verdadeira ajuda aos outros. E as nossas palavras e o nosso exemplo darão vida aos outros. É disso que se trata, o catequizar pelo exemplo. É fácil de fazer se usarmos a força do universo. Muito difícil de fazer se desconhecermos a importância do presente, se vivermos sem foco.

DR. Martín Macedo, Uruguay, 2017.



Saturday, December 14, 2024

 


  • COENTROS
  • Por: Miguel Boieiro

- Conheces o cilantro? Dizem que é uma aromática fantástica!

Estávamos em mais um dos muitos colóquios sobre as PAM (Plantas Aromáticas e Medicinais), para os quais tenho sido assiduamente convidado, e a pergunta, vinda daquele amigo, deixou-me embaraçado.

- Não! Não conheço, mas olha, não tenho a veleidade de conhecer todas as plantas, nossas irmãs, que connosco coabitam. De resto, é incomensuravelmente mais, mesmo muito mais, as que desconheço!

Respondi contrafeito e logo prometi a mim mesmo, procurar o tal cilantro que, segundo o meu amigo, seria profuso nas regiões temperadas. Concluí que afinal, ele se referia simplesmente ao Coriandrum sativum, ou seja, ao vulgar coentro, cuja utilização é quase quotidiana na nossa cozinha. Cilantro é a designação castelhana que, na maior parte dos países hispânicos americanos, passa a culantro e noutras regiões, a salsa chinesa ou salsa árabe. Para evitar confusões quanto às nomenclaturas, nunca deixo de colocar o nome científico nas minhas toscas croniquetas botânicas. Tais confusões surgem amiúde mesmo que se reproduzam imagens. Neste caso, elas seriam totalmente desnecessárias porque toda a gente conhece os coentros e sabe que coentros e rabanetes vão à mesa do rei, como diz a canção.

Quando falo de coentros, vem-me à memória a visita efetuada à aldeia do Coentral. Alguém conhece esta terra perdida nas serranias da Lousã? E vejam, cá estão, mais uma vez, as plantas a influenciar as toponímias. Ora há duas décadas, se tanto, a Sociedade Portuguesa de Naturalogia decidiu realizar o seu acampamento anual nas imediações de Castanheira-de-Pera, bem no sopé da Serra da Lousã. Fizemos então uma caminhada até aos tradicionais neveiros onde se guardava o gelo que, com muito esforço, chegava à corte e à mesa do rei, o qual, segundo parece, adorava gelados. Depois descemos a serra pela parte sul e descansámos na típica povoação do Coentral que, a despeito do seu atraente casario e de outras agradáveis amenidades urbanas, só contava, na altura, com cerca de cem habitantes. Calhando, hoje ainda terá menos, mas basta-lhe a originalidade do nome para lhe conferir vetusta personalidade.

O Coriandrum sativum, uma das cerca de 3700 espécies que integram a família das Apiaceae, é uma erva tenrinha, prima da salsa, mas com folhas menos brilhantes e mais arredondadas. As flores, assimétricas, surgem no cimo dos delicados ramos quando a planta espiga, brancas e rosadas e são muito aromáticas como aliás, toda a planta. A raiz, esbranquiçada, é alongada e pivotante. As folhas superiores, pendentes nos caules eretos que chegam a atingir meio metro de altura, ficam mais pequenas do que as basais. Por sua vez, as sementes são globulosas, tendo de 3 a 6 mm de diâmetro.

Julga-se que os coentros são nativos da Europa meridional, norte de África e Ásia menor. Eles preferem solos leves e permeáveis dos climas temperados, resistem ao frio, mas não suportam ventanias nem encharcamentos.

Têm como principais constituintes, óleo essencial, cálcio, ferro, magnésio, fósforo, potássio, zinco, selénio, betacaroteno, tiamina, niacina e riboflavina. Descobriu-se recentemente que também possuem um álcool com ação antibiótica que atua contra a salmonela, chamado dodecanol.

Eis as suas principais propriedades medicinais: estimulante, antiespasmódica, estomacal, bactericida, carminativa, analgésica e antioxidante. Atenua o risco da diabetes e da obesidade, neutraliza o odor do alho e é útil nas inflamações urinárias. O livro “Guia dos Alimentos Vegetais” de Jean-Claude Rodet, um dos fundadores da Agrobio- Associação Portuguesa de Agricultura Biológica, acrescenta que na Índia os coentros são considerados afrodisíacos e ainda que fazem aumentar as glândulas mamárias, atenuam as enxaquecas e as infeções das mucosas da boca, gengivas e olhos e, em loções e pomadas, reduzem as dores reumáticas.

Na gastronomia, como sabemos é bem grande a sua versatilidade. Para além de servir para guarnecer e alindar os pratos, tornam-se indispensáveis na cozinha indiana (currries, masalas…), na árabe e na etíope, sem esquecer as nossas açordas alentejanas, os pezinhos de coentrada e outros acepipes. Devido ao sabor acre, cítrico e picante das sementes, elas são utilizadas nalguns países para aromatizar o gim, a cerveja e o vinagre. De resto, constituem também um excelente digestivo quando mastigadas após as refeições, aliviando as dores de estômago ocasionadas por comidas pesadas.

No entanto, há pessoas que não gostam de coentros pois acham que têm sabor a sabão (?). Em minha opinião, deveriam provar uma deliciosa sopa confecionada à base de coentros como a que costuma ser servida no Restaurante Alfoz (passe a publicidade). É de comer e chorar por mais!

Miguel Boieiro, Dezembro de 2024.

Sunday, December 1, 2024

 


OSTEOPOROSE

Trata-se de uma desordem óssea caracterizada pela diminuição da densidade óssea. A estrutura do osso está normal, só que a quantidade de tecido diminui e se esta diminuição alcançar um ponto crítico, o osso torna-se tão inconsistente que se fractura facilmente e não desempenha adequadamente a sua função como sustentador mecânico do corpo. O osso é um órgão. E está sujeito a alterações. Em determinados focos do tecido ósseo coexistem dois processos: a reabsorção óssea levada a cabo pelos osteoclastos e a renovação óssea por parte dos osteoblastos. Estes processos de destruição do osso envelhecido e a substituição por osso novo, são levados a cabo em focos chamados unidades de remodelação óssea. Normalmente há um equilíbrio entre a destruição e a renovação, mas na osteoporose, a osteodestruição é acelerada ou a renovação é retardada ou há uma combinação de ambas as alterações. Portanto, existe um desequilíbrio em direcção à diminuição da quantidade de tecido ósseo. O osso torna-se menos denso e frágil e isso favorece as fracturas espontâneas ou os traumatismos mínimos. Investigações médicas sustentam que as mulheres perdem durante a sua vida cerca de 45% da sua massa óssea. Os homens aproximadamente 23%. A osteoporose é responsável por 1.000.000 de fracturas por ano nos EUA, sendo as mais frequentes as fracturas vertebrais, da anca e do pulso. Clinicamente manifesta-se por dor nas costas, cifose (curvatura da coluna vertebral para a frente - a “corcunda”) e por fracturas fáceis. Predomina nas mulheres brancas dos países nórdicos. A maior densidade óssea têm-na os homens de raça negra. Os homens brancos e as mulheres negras têm uma densidade óssea intermédia entre estes dois extremos. Com o andar do tempo a reabsorção óssea predomina sobre a neoformação sobretudo nas mulheres a seguir à menopausa. A diminuição da densidade óssea é normal à medida que envelhecemos, mas acentua-se na mulher quando declinam os estrogénios com a finalização da idade reprodutiva.

É normal a redução da densidade óssea com a idade, mas na osteoporose esta diminuição é muito acentuada e isso é patológico. Uma em cada três idosas e um em cada seis idosos sofrem fracturas da anca após os 65 anos e este tipo de acidente está associado a uma mortalidade de cerca de 15%. Se encararmos o problema em termos de yin-yang, poderemos constatar que o processo da vida vai de yang extremo ao nascer a yin extremo ao morrer. O processo de envelhecimento é um processo yin de expansão e diminuição da actividade. A vida é yang; a morte é yin. Se consumirmos muito yin em forma de açúcar, álcool, bebidas cola, farinhas refinadas, gelados e outros alimentos acidificantes e desmineralizantes, então iremos precipitadamente para o extremo yin, ou seja, encaminhar-nos-emos ansiosamente para a morte. Não podemos deter o passo do tempo, mas podemos retardar tremendamente o caminho entre os dois extremos, se aplicarmos o princípio de yin-yang. A dieta ocidental, rica em proteínas animais produz um sangue ácido pela degradação de proteínas em ácidos, como o ácido úrico e outros produzidos pela metabolização proteica. O abuso de carnes e alimentos animais ao gerar uma forte e extrema yanguização, cria desejos quase incontroláveis por líquidos e doces (extremo yin). Estes alimentos muito yin geram acidificação sanguínea, obrigando a extrair minerais como o cálcio das reservas corporais para neutralizar o excesso de ácido. A ingestão de quantidades excessivas de líquidos diuréticos (café, bebidas cola, mate, chá comercial, refrigerantes açucarados), promove a frequente e abundante micção e por aí se esvaem grandes quantidades de minerais como o cálcio. E então bebe-se leite para fornecer cálcio, mas a proteína do leite cria ácido que conduz a um roubo de cálcio dos ossos. No final todo o cálcio, o ingerido e o das reservas corporais, escapa-se pela urina. Isto é agravado com a recomendação de tomar abundantes líquidos por parte de alguns sectores da medicina oficial. Se bem que promover a micção abundante ajude a eliminar toxinas, também ajuda a que escapem valiosos nutrientes do corpo. Recentes investigações mostram que as mulheres chinesas têm uma densidade óssea muito maior do que as mulheres europeias. Incrivelmente as chinesas não bebem leite pois consideram isso uma prática absurda e infantil. As mulheres brancas europeias, tradicionalmente consumidoras de grandes quantidades de lácteos e proteínas animais têm os ossos mais frágeis apesar de ingerirem mais cálcio. A ingestão de cálcio das asiáticas, é proveniente de fontes vegetais como a soja, as algas marinhas e as sementes como o sésamo e os vegetais de folha. Consomem 1/3 do cálcio que uma europeia consome, mas a sua qualidade é completamente diferente. Quanto mais ácido mais osteoporose. Quanto maior for o consumo de carnes, ovos, frango, juntamente com açúcar e bebida doces, maior será a perda óssea. É muito simples: é um transtorno causado por ácido e o ácido é yin, neste caso provocado pela combinação de extremos yin e yang. Outro factor que agrava a perda óssea é a falta de exercício físico. As mulheres brancas diminuíram as tarefas manuais nos últimos três séculos devido à prosperidade nórdica. Enquanto as mulheres indígenas e africanas, devido à simplicidade da sua vida no campo, continuaram com o trabalho físico duro. E isso, juntamente com a alimentação tradicional e simples, protegem-nas da osteoporose. Mas, quando as mulheres de raça negra emigram para países ricos e adoptam o estilo de vida refinado, com comidas “ricas” e vida sedentária começam a debilitar gradualmente os seus fortes ossos.

A ciência clássica admite que o açúcar debilita a sólida estrutura dental, agora deveria também admitir que também o faz com todo o sistema ósseo. E, portanto, poderíamos dizer um pouco grosseiramente que a osteoporose é uma espécie de “cárie” dos ossos do esqueleto (mas não há infecção). Yin trata-se com yang. A forma de devolver solidez e densidade aos ossos é solidificando todo o organismo. E para isso a dieta semi vegetariana, alcalinizante e rica em minerais e vitaminas permite o gradual fortalecimento do sangue e de todos os tecidos, incluindo o tecido ósseo. No entanto, o processo de remineralização poderá ser lento e levar algum tempo mais ou menos extenso até corrigir este transtorno, sobretudo se já estiver em estado avançado.

Mas o importante é começar, e o mais depressa possível …

Martín Macedo (2013)

 

FALEMOS DE CÁLCIO VEGETAL

(Esmaca - https://pt.linkedin.com/school/esmaca--escola-macrobi-tica-de-catalunya/)

Talvez já te tenham dito que, para ter ossos fortes, precisas de beber leite. No entanto, não são produtos lácteos que o teu corpo precisa para manter uma boa densidade óssea; o que ele precisa é de CÁLCIO.

E se estás a pensar que esses alimentos são a única fonte de cálcio, nada pode estar mais longe da verdade. De facto, existem alimentos de origem vegetal que têm um teor de cálcio muito mais elevado do que os de origem animal e, além disso, possuem nutrientes que favorecem a absorção e a fixação do cálcio.

Para uma correta assimilação do cálcio, é necessária a presença de outro mineral, o magnésio. Este mineral regula a absorção e a assimilação do cálcio. É por isso que os alimentos ricos em cálcio que também contêm magnésio têm uma melhor absorção.

Por exemplo, um prato de brócolos fornece a mesma quantidade de cálcio que um copo de leite, mas como também contém magnésio e vitamina K, a sua absorção é muito maior, praticamente o dobro. Enquanto o cálcio fornecido pelo leite é assimilado em 32%, o dos brócolos é assimilado em 61%. Outros vegetais crucíferos, como a couve, a Kale, o repolho e a couve-flor, têm também percentagens de absorção superiores às dos produtos lácteos.

Onde encontrar magnésio?

- Experimenta as algas marinhas, que são ricas em minerais e uma das melhores fontes de cálcio e magnésio: wakame, kombu, arame, nori...

- Que não falte o verde nos teus pratos - os alimentos ricos em clorofila são ricos em magnésio. Inclui diariamente: couve verde, couve galega, couve-Kale, couve-de-bruxelas, brócolos, o verde do alho francês (que geralmente se deita para o lixo ...) ...

- Os cereais integrais, especialmente o trigo sarraceno e o amaranto, também contêm quantidades interessantes deste mineral.

- Não te esqueças das leguminosas: azuki, outros feijões, lentilhas, incluindo a soja e os seus derivados.

- As sementes são igualmente ricas em magnésio, as de sésamo, por exemplo, fornecem não só magnésio, mas também até 9 vezes mais cálcio do que o leite.

Por outro lado, a vitamina K2 é também chave para a formação óssea, uma vez que promove a integração do cálcio nos ossos. Além do mais, previne as calcificações vasculares e dos tecidos moles.

Fontes de vitamina K

- O Natto miso é o alimento com maior teor de vitamina K2. Este alimento é obtido a partir do processo de fermentação da soja amarela com esporos de Bacillus subtilis natto. Pode ser encontrado em ervanárias especializadas.

- O chucrute é também fonte de vitamina K2, embora em menor quantidade. Os legumes de folha verde, como a couve Kale e a couve-galega, são muito ricos em vitamina K1, que será transformada em K2 através da ação das bactérias digestivas dos nossos intestinos.

A vitamina D também é necessária para uma correcta absorção do cálcio. 

- A melhor fonte é a exposição adequada ao Sol.

- Se quiseres beneficiar desta vitamina na tua dieta, uma das melhores opções veganas são os cogumelos shiitake secos.

E como fonte de cálcio de origem vegetal, qual escolher?

Felizmente, a lista de alimentos com grandes quantidades de cálcio no mundo vegetal é imensa. E lembra-te que a maioria destas fontes são também ricas em magnésio e vitamina K.

Para que tenhas uma ideia da sua riqueza, toma como referência que 100 g de leite têm cerca de 120 mg de cálcio e dá uma vista de olhos à seguinte lista:

As algas marinhas são os alimentos com maior aporte de cálcio. A alga Hiziki tem 1400 mg, a Wakame 1300 mg, a Kombu 800 mg e a Arame 830 mg. Como podes ver estes valores são muito superiores aos dos produtos lácteos. Pequenas quantidades diárias de algas marinhas irão beneficiar a tua saúde óssea. Lembra-te de utilizar o tamanho de um selo de Kombu nas tuas leguminosas e a mesma quantidade de wakame para preparar as suas sopas miso ou purés de vegetais.

As sementes de sésamo deveriam estar presentes nas nossas refeições diárias. O seu teor de cálcio é de quase 1.000 mg. Polvilha 1 a 2 colheres de sopa de sementes torradas e trituradas no teu pequeno-almoço ou nas tuas refeições diárias.

As amêndoas são igualmente ricas neste mineral. Cerca de 270 mg. Uma mão cheia por dia, previamente demolhada em água e/ou torrada, enriquecerá os teus pequenos-almoços e lanches.

O amaranto e a quinoa (1) são dois cereais com uma quantidade interessante de cálcio. A do amaranto é o dobro da do leite e a da quinoa também é superior. Podes juntar 1 ou 2 colheres de sopa de amaranto à cozedura de qualquer outro cereal. Combina os teus pratos de quinoa com frutos secos como pistáchios, avelãs e nozes para obter mais cálcio. Estes frutos secos têm entre 140 e 200 mg.

Alguma vez pensaste que o feijão preto era uma fonte de cálcio? Contem cerca de 135 mg e o cozinhares com Kombu aumentará não só a quantidade de cálcio, mas também a sua taxa de absorção. O feijão branco tem valores semelhantes.

As folhas verdes e crucíferas, embora com menores quantidades de cálcio, são vegetais muito interessantes pelo seu aporte em magnésio e vitamina K.

Outros alimentos com valores próximos dos 100 mg são algumas proteínas vegetais como o tofu, o tempeh, as lentilhas ou o feijão azuki. A proteína é essencial para a formação da estrutura óssea. Quantidades adequadas deste nutriente assegurarão que temos aminoácidos suficientes para formar as proteínas dos ossos.

As bebidas vegetais enriquecidas com algas lithothamnium calcareum proporcionam 120mg de cálcio por 100g, enquanto algumas marcas de leite gordo de apenas contêm 115mg.  A alga Lithothamnium Calcareum (pesquisar na net) é facilmente assimilada pelo organismo e, quando seca, contém cerca de 30% de cálcio. Além disso, o seu baixo teor em iodo torna-a uma escolha perfeita para enriquecer este tipo de bebidas.

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(1) VER:

https://macrobioticapassadopresentefuturo.blogspot.com/2023_01_07_archive.html

Friday, November 29, 2024

 


SOMOS O QUE COMEMOS …

SOBRE A PAZ E A GUERRA

Drª Elena Corrales

A expressão "somos o que comemos" tem muitos significados. Hoje falamos da influência da alimentação no comportamento.

·      Em diferentes línguas distantes podemos ver os significados de algumas palavras como: guerra e paz.

·      Na China, o termo para paz, Wa, combina os ideogramas "cereal em grão" e "boca".

·      Na Índia, o termo védico para guerra significa "guerra das vacas".

·     Os orientais antigos sabiam intuitivamente que uma alimentação composta por cereais integrais favorecia uma sociedade pacífica e saudável, enquanto que o consumo excessivo de alimentos animais produzia desordens pessoais e sociais.

·  No ocidente, a epopeia "Paraíso Perdido" de John Milton atribuiu um passado feliz e pacífico a um modo de vida sustentado pelos cereais e vegetais.

· Em "A República" de Platão, Sócrates afirmava que uma dieta de qualidade vegetal era a essência da paz.

· É surpreendente que os estudos antropológicos, sociológicos e históricos modernos estejam a confirmar a sabedoria do passado.

Num simpósio sobre antropologia e violência social, a antropóloga Margaret Mead propôs mudanças radicais na dieta para prevenir as guerras actuais. Isso implicaria não utilizar animais como fonte de alimento, de modo a que, respeitando a vida animal, por extrapolação, a vida humana fosse respeitada.

O Professor Quincy Wright, após estudar 600 culturas primitivas, concluiu que a luta armada é mais prevalecente nas sociedades onde os alimentos de origem animal são dominantes na dieta do que em sociedades mais vegetarianas.

Classificou as sociedades modernas de acordo com o número de guerras em que estiveram envolvidas nos últimos cinco séculos, comprovando como os países ocidentais, com a Inglaterra à cabeça, cuja dieta é predominantemente carnívora, estiveram envolvidos em mais guerras do que os países orientais de tradição mais vegetarianos, como a China e o Japão.

·      A lista de estudos é interminável, no Líbano, Alemanha, Rússia, etc.

·   Se estudarmos zoologia podemos observar que os animais carnívoros têm um comportamento agressivo, em comparação com os herbívoros em que predomina um comportamento defensivo.

· Como os seres humanos são omnívoros, ou seja, podemos consumir alimentos tanto de qualidade animal como vegetal, devemos avaliar se a alimentação animal deverá ser a base ou o complemento da dieta.

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