NEUROCIENTISTAS MOSTRAM O QUE O
JEJUM FAZ AO CÉREBRO E POR QUE RAZÃO AS INDÚSTRIAS FARMACÊUTICAS NÃO VÃO
ESTUDAR ESTE FENÓMENO (*)
resumo -
O texto
apresenta o jejum intermitente como uma prática capaz de beneficiar o cérebro e
a saúde em geral, apoiando-se numa palestra do neurocientista Mark Mattson e em
vários estudos.
Segundo o
artigo, o jejum desencadeia respostas de adaptação que aumentam a resistência
dos neurónios, favorecem a produção de fatores neurotróficos e fortalecem as
ligações entre as células nervosas. Estes processos poderão melhorar a
aprendizagem e a memória, reduzir a inflamação e diminuir o risco de doenças
neurodegenerativas, como Alzheimer e Parkinson.
O texto refere
também que a restrição calórica prolonga a vida em diversas espécies e que
ciclos de jejum prolongado poderão estimular a regeneração do sistema
imunitário através da ativação de células estaminais. Aponta ainda possíveis
benefícios na prevenção de doenças cardiovasculares, do cancro e da diabetes.
O autor
questiona o padrão de três refeições diárias acompanhadas de refeições
intermédias e defende que os interesses económicos das indústrias alimentar e
farmacêutica contribuem para a sua manutenção.
Por fim,
descreve duas modalidades: a dieta 5:2, que reduz acentuadamente a ingestão
calórica em dois dias da semana, e a alimentação limitada a um intervalo
diário, como entre as 11h00 e as 19h00. Conclui destacando a importância das
escolhas alimentares para a saúde.
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texto -
Mark Mattson,
apresentado no texto como chefe do Laboratório de Neurociência do Instituto
Nacional do Envelhecimento e professor de Neurociência na Universidade Johns
Hopkins, é um dos mais respeitados investigadores na área dos mecanismos
moleculares e celulares das doenças neurodegenerativas. Proferiu uma palestra
TEDx, em inglês, que merece ser vista.
Existem
inúmeros exemplos de manipulação de estudos publicados pela indústria
farmacêutica nos últimos anos. Foi por isso que Arnold Seymour Relman,
professor de Medicina em Harvard, afirmou que a profissão médica tinha sido
comprada pela indústria farmacêutica.
O Dr. Richard
Horton, diretor da revista The Lancet, afirmou que grande parte da
literatura científica atualmente publicada não corresponde à verdade. Por sua
vez, a Dra. Marcia Angell, antiga diretora do The New England Journal of
Medicine, declarou: «A indústria farmacêutica gosta de se apresentar
como uma indústria baseada na investigação, como a fonte de medicamentos
inovadores. Nada poderia estar mais longe da verdade.»
Foi também
neste contexto que John Ioannidis, epidemiologista da Faculdade de Medicina da
Universidade de Stanford, publicou um artigo intitulado «Porque é que a
maioria dos resultados de investigação publicados são falsos», que viria a
tornar-se o artigo mais consultado da história da PLoS.
No final do
vídeo, o Dr. Mattson comenta: «Porque é que o padrão alimentar habitual
consiste em três refeições diárias, acrescidas de refeições ligeiras? Não é por
ser a forma mais saudável de comer. Esta é a minha opinião, mas penso que
existem muitas provas que a sustentam. Há uma grande pressão para manter este
padrão alimentar, porque envolve muito dinheiro.
A indústria
alimentar vai ganhar dinheiro com pessoas que não tomam o pequeno-almoço, como
eu fiz hoje? Não, vai perder dinheiro. Se as pessoas jejuarem, a indústria
alimentar perde dinheiro. E a indústria farmacêutica?
Se as pessoas
fizerem jejuns curtos, praticarem exercício regularmente e forem muito
saudáveis, a indústria farmacêutica vai ganhar dinheiro com pessoas saudáveis?»
PRINCIPAIS PONTOS DA PALESTRA E RESPETIVA
FUNDAMENTAÇÃO CIENTÍFICA
Mark Mattson e
a sua equipa já publicaram vários artigos que discutem de que forma jejuar duas
vezes por semana poderá diminuir o risco de desenvolver doenças como Parkinson
e Alzheimer.
«É bem
conhecido que as alterações que fazemos na alimentação afetam o cérebro. As
crianças com epilepsia têm menos crises quando seguem dietas de restrição
calórica ou fazem jejum.
Acredita-se
que o jejum ajuda a desencadear mecanismos de proteção que contrabalançam os
sinais de excitação excessiva frequentemente observados nos cérebros de pessoas
com epilepsia. Algumas crianças também beneficiaram de uma dieta muito
específica, rica em gordura e pobre em hidratos de carbono.
Quando
sujeitos a uma alimentação excessiva, os cérebros sem esta doença podem
apresentar outro tipo de excitação descontrolada, que prejudica o funcionamento
cerebral.»
De um modo
geral, muitos estudos sobre restrição calórica mostram um aumento da
longevidade, assim como uma maior capacidade de combater doenças crónicas.
«A restrição
calórica aumenta a longevidade e atrasa o aparecimento de doenças crónicas
associadas à idade em muitas espécies, como ratos, ratinhos, peixes, moscas,
vermes e leveduras. O mecanismo ou os mecanismos pelos quais isto acontece são
desconhecidos.»
A citação
anterior provém de uma revisão da literatura que, à data do texto original,
tinha mais de dez anos. O trabalho aqui apresentado descreve alguns dos
mecanismos anteriormente desconhecidos.
O jejum
beneficia o cérebro, como evidenciam as alterações neuroquímicas favoráveis que
ocorrem durante esse período. Também melhora a função cognitiva, aumenta os
níveis de fatores neurotróficos e a resistência a lesões, e reduz a inflamação.
O jejum
constitui um desafio para o cérebro, que responde adaptando as suas vias de
resposta ao stresse celular. Estas adaptações ajudam-no a lidar com as
agressões e com o risco de doença. As alterações cerebrais que ocorrem durante
o jejum assemelham-se às provocadas pela prática regular de exercício físico.
Ambas aumentam a produção de fatores neurotróficos, que promovem o crescimento
dos neurónios, as ligações entre eles e o fortalecimento das sinapses.
«Os desafios
para o cérebro, quer através do jejum intermitente, quer através de exercício
físico vigoroso… constituem um desafio cognitivo. Quando isso acontece, os
circuitos neuronais são ativados e os níveis de fatores neurotróficos aumentam,
promovendo o crescimento dos neurónios e a formação e o fortalecimento das
sinapses…»
O jejum também
pode estimular a produção de novas células nervosas a partir de células
estaminais no hipocampo. Mattson menciona ainda a produção de corpos cetónicos
e a possibilidade de estes contribuírem para aumentar o número de mitocôndrias
nos neurónios.
O aumento do
número de mitocôndrias nas células nervosas resulta da adaptação dos neurónios
ao stresse provocado pelo jejum.
Com mais
mitocôndrias, aumenta também a capacidade dos neurónios para formar e manter
ligações entre si, melhorando a aprendizagem e a memória.
«O jejum
intermitente aumenta a capacidade das células nervosas para reparar o ADN.»
Mattson aborda
ainda a perspetiva evolutiva desta teoria: a forma como os nossos antepassados
se adaptaram e foram sujeitos à seleção natural para conseguirem passar longos
períodos sem comer.
Um estudo
publicado na revista Cell Stem Cell, realizado por investigadores da
Universidade do Sul da Califórnia, mostrou que ciclos de jejum prolongado
protegem contra danos no sistema imunitário e, além disso, induzem a sua
regeneração.
Os
investigadores concluíram que o jejum faz com que as células estaminais passem
de um estado de dormência para um estado de autorrenovação, ativando a
regeneração de um órgão ou sistema a partir destas células.
Foram
realizados estudos clínicos com pessoas submetidas a quimioterapia. Durante
períodos prolongados, os participantes não comiam, o que reduziu o número de
células de defesa. Nos ratinhos, os ciclos de jejum «ativaram a regeneração,
alterando as vias de sinalização das células estaminais hematopoiéticas,
responsáveis pela formação dos sistemas sanguíneo e imunitário».
Isto significa
que o jejum elimina células imunitárias envelhecidas e danificadas e que,
quando a alimentação é retomada, o organismo utiliza as células estaminais para
produzir novas células saudáveis.
«Não podíamos
prever que o jejum prolongado pudesse ter um efeito tão impressionante na
promoção da regeneração do sistema hematopoiético a partir de células
estaminais…
Quando se
passa fome, o organismo tenta poupar energia. Uma das formas de o fazer é
reciclar muitas células imunitárias que não são necessárias, sobretudo as que
estão danificadas.
Começámos a
observar, em seres humanos e em animais, que o número de células de defesa
diminui durante o jejum prolongado. Quando a alimentação é retomada, essas
células voltam a aumentar.» — Valter Longo
Uma revisão de
vários estudos sobre o jejum foi publicada no The American Journal of
Clinical Nutrition, em 2007. A revisão analisou estudos realizados em seres
humanos e animais e concluiu que o jejum é uma forma eficaz de reduzir o risco
de doenças cardiovasculares e de cancro. Identificou também potencial para o
tratamento da diabetes.
ANTES DE JEJUAR
Antes de
começar a jejuar, certifique-se de que se informou devidamente. Pessoalmente,
faço jejum há vários anos e considero-o fácil de praticar.
Uma das formas
recomendadas — experimentada por Michael Mosley, da BBC, para reverter a sua
diabetes, o colesterol elevado e outros problemas associados à obesidade — é a
chamada «dieta 5:2».
Neste plano,
reduz-se a ingestão alimentar para um quarto das calorias habituais nos dias de
jejum: cerca de 600 quilocalorias para os homens e 500 para as mulheres, por
exemplo, às terças e quintas-feiras, mantendo uma ingestão abundante de água.
Nos restantes
cinco dias da semana, segue-se uma alimentação habitual: no mesmo exemplo, 2400
quilocalorias diárias para os homens e 2000 para as mulheres.
Outra
possibilidade consiste em limitar a alimentação a um intervalo horário
específico, por exemplo, comer apenas entre as 11h00 e as 19h00, sem ingerir
alimentos fora desse período.
Na minha
opinião, a forma como encaramos a alimentação é uma das componentes mais
importantes — se não a mais importante — da manutenção da saúde. Refletir sobre
aquilo que introduzimos no organismo é fundamental. Acredito que esta ideia
acabará por ficar solidamente estabelecida numa literatura médica independente
de influências externas.
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(*) O
autor original é Arjun Walia
- artigo publicado no site Collective
Evolution, em 11 de dezembro de 2015, com o título: “Neuroscientist Shows What Fasting Does to
Your Brain & Why Big Pharma Won’t Study It”. Várias
reproduções identificam expressamente o autor e a publicação original. callingummah.blogspot.com
Pode
ser consultado no endereço original do artigo, embora atualmente devolva um erro de página
não encontrada.
Quanto
à versão em português,
o mesmo texto é reproduzido no blogue Yoga Vivência, em 20 de maio de 2017, que indica como fonte O Espaço do Conhecimento. Não
consegui confirmar quem fez a tradução.
Assim,
para acompanhar o texto, usar esta referência prudente:
Versão portuguesa:
divulgada por O Espaço do
Conhecimento; tradução de autoria não confirmada.
Mark
Mattson é o neurocientista cuja palestra é comentada no artigo; não é o autor
do texto. callingummah.blogspot.com