Tuesday, October 13, 2026

 

A ESSÊNCIA DA MACROBIÓTICA

Clim Yoshimi

 

RESUMO (IA) —

Segundo Clim Yoshimi, a macrobiótica é muito mais do que um método alimentar destinado a prevenir doenças e promover a saúde. É uma filosofia de vida baseada na Ordem do Universo e no Princípio Único, cujo objetivo fundamental é alcançar a felicidade e a liberdade infinitas.

O autor distingue entre conhecer as regras da macrobiótica e compreender verdadeiramente a sua essência. Esta compreensão não se adquire apenas através de livros, teorias ou ensinamentos, mas sobretudo pela prática consciente, pela experiência pessoal e pelo desenvolvimento do discernimento.

Recorrendo a uma analogia com o Zen, Yoshimi explica que, tal como um discípulo precisa de sair do templo para compreender plenamente os ensinamentos recebidos, também o praticante de macrobiótica deve ultrapassar a obediência rígida às regras alimentares e conquistar a sua autonomia.

O questionamento e as dúvidas que surgem após anos de prática não representam necessariamente um afastamento da macrobiótica, mas podem constituir uma etapa importante do amadurecimento pessoal.

O autor compara ainda a macrobiótica rigorosa dos primeiros tempos de Georges Ohsawa, caracterizada por uma alimentação muito Yang, com a prática posterior, mais flexível e Yin.

Na sua interpretação, o Yang representa a disciplina, a concentração, o esforço e a formação, enquanto o Yin simboliza a expansão, a facilidade e a libertação. Yoshimi considera que as dificuldades e os desafios fortalecem a vontade e desenvolvem o discernimento, preparando o indivíduo para uma liberdade mais ampla.

Assim, a expressão «Yin depois do Yang» traduz a ideia de que a verdadeira felicidade e a liberdade resultam de um processo de aprendizagem, esforço e superação.

Ideia fundamental

A essência da macrobiótica não reside na aplicação rígida de regras alimentares, mas na capacidade de compreender os seus princípios e utilizá-los livremente, com consciência e discernimento.

A verdadeira macrobiótica começa com a disciplina, amadurece através da experiência e culmina na liberdade.

O texto constitui uma reflexão filosófica sobre a evolução do praticante, desde a obediência aos ensinamentos de um mestre até à autonomia pessoal.

A sua mensagem mais atual é a necessidade de ultrapassar o dogmatismo alimentar, sem perder os princípios fundamentais da macrobiótica.

Em síntese: a macrobiótica, para Yoshimi, não deve transformar-se numa prisão de regras, mas num caminho de autoconhecimento, discernimento e liberdade.

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TEXTO (Clim Yoshimi)-

Há já algum tempo que a palavra «macrobiótica» se tem tornado cada vez mais conhecida do público em geral, sendo frequentemente utilizada em jornais e revistas de todo o mundo.

A macrobiótica encontra-se atualmente muito difundida a nível mundial. Pode dizer-se que este é um fenómeno natural, pois nunca vivemos uma época como a atual. Nunca houve tantas interrogações sobre a saúde e a felicidade do ser humano, uma vez que nem a medicina, nem a educação, nem a política conseguiram apresentar uma solução clara para esta catástrofe moderna.

A macrobiótica é um método alimentar que pode ser praticado por qualquer pessoa, em qualquer momento e em qualquer lugar, permitindo alcançar uma saúde que ultrapassa a simples ausência de doenças físicas e uma felicidade que transcende a alegria e a tristeza.

Este método é, portanto, muito mais do que uma medicina preventiva. É uma chave para a solução fundamental de todos os problemas humanos.

Por desconhecerem este segredo, quantos grandes filósofos, homens ilustres e sábios não conseguiram ultrapassar a última barreira e encontrar a felicidade absoluta! Podemos encontrar exemplos disso nos escritos de Ohsawa.

Muitos deles foram criados segundo princípios macrobióticos, sem disso terem consciência, devido à tradição ou às circunstâncias em que viveram. No entanto, não conseguiram alcançar a felicidade absoluta porque, infelizmente, desconheciam o verdadeiro significado — o princípio, o Princípio Único — dessa alimentação.

Nós temos a sorte de ter conhecido a macrobiótica, seja por acaso, seja em consequência de uma doença.

O nosso método não representa simplesmente um regresso à alimentação tradicional do tempo dos nossos avós. Constitui uma evolução incomparável da alimentação segundo a Ordem do Universo.

É uma revolução para a humanidade, através da qual o ser humano passa a ter nas suas próprias mãos a liberdade total da vida, algo que os nossos antepassados não puderam alcançar.

É por isso que precisamos de algum tempo para compreender a essência da macrobiótica.

Toda a gente consegue compreender facilmente os seus conceitos, mas a compreensão da sua verdadeira essência exige muito tempo, por vezes mais de dez anos.

A compreensão através das teorias ou das explicações não é suficiente. Trata-se de um conhecimento superficial, e não existe outro caminho senão a prática diária, consciente e atenta, para assimilar a verdadeira essência da macrobiótica.

Não podemos conhecer verdadeiramente um país estrangeiro sem o visitar e continuaremos a desconhecer a mentalidade profunda do seu povo se não permanecermos nele durante um período suficientemente longo, talvez dez anos.

Muitas pessoas que começam a praticar macrobiótica acabam por sentir dúvidas ao fim de alguns anos, ou mesmo depois de muitos anos de prática.

Começam então a pensar: «Afinal, gostaria agora de adotar uma alimentação mais aberta e diversificada.»

Ou dizem: «A vida não se resume à alimentação. Existe alguma coisa para além de comer.»

E começam a procurar esse «algo», dia e noite, nos livros, nas religiões, junto de outros mestres e professores.

Não será este um fenómeno que ocorre com muitos praticantes de macrobiótica?

Pensar que descobrimos a essência da macrobiótica em poucos anos pode constituir uma ilusão, uma tragédia irreparável.

Por vezes, ouvimos dizer: «Ele começou, finalmente, a compreender verdadeiramente a macrobiótica.»

Isto significa que, até então, apenas a compreendia de forma cega ou superficial.

Se não abandonar essa antiga maneira de compreender e praticar a macrobiótica, como quem deixa para trás um livro ultrapassado, não poderá progredir nem adquirir uma visão mais ampla.

O DESAPEGO E A VERDADEIRA COMPREENSÃO

No Zen, diz-se: «Entra-se num templo para aprender o Zen. Passam-se anos, anos e anos a praticar Zazen e a estudar os ensinamentos de Buda, sob a orientação de um mestre.

Pouco a pouco, assimilam-se determinados segredos do Zen e alcança-se um certo desenvolvimento espiritual.

Mas, enquanto permanecermos fechados dentro do templo Zen, não conseguiremos contemplar a verdadeira face do Zen.

Só quando sairmos do templo poderemos descobrir, pela primeira vez, o que é realmente o Zen.»

Este é o verdadeiro significado do DESAPEGO no Zen.

A macrobiótica que muitos de nós praticamos durante anos assemelha-se à vida dentro de um templo Zen.

De certa forma, permanecemos todos submetidos aos ensinamentos da macrobiótica, como crianças que obedecem docilmente aos seus pais, chegando, por vezes, a tornar-nos fanáticos.

Depois de alguns anos, começamos a duvidar da própria macrobiótica.

É então que, pela primeira vez, começamos a observá-la de forma objetiva. E isso não representa outra coisa senão um progresso.

Ao chegarmos a este ponto, não devemos limitar-nos a criticar ou acusar a macrobiótica. Devemos, antes, questionar a nossa própria compreensão limitada e a rigidez ou falta de habilidade com que a praticámos.

O que devemos fazer, então, é recomeçar a nossa própria prática macrobiótica, mas com uma compreensão renovada.

Não podemos esquecer que a macrobiótica não é, de modo algum, estreita, rígida ou exclusiva, nem constitui simplesmente uma tradição.

É uma grande filosofia de vida, cujo objetivo final é a LIBERDADE INFINITA.

Não é tradicionalista, porque, enquanto método assim concebido, não existia anteriormente.

DA MACROBIÓTICA RIGOROSA À MACROBIÓTICA MAIS FLEXÍVEL

Atualmente, a prática macrobiótica tornou-se muito mais fácil e menos rigorosa do que nos primeiros tempos, quando Ohsawa a introduziu em França.

Aqueles que aprenderam diretamente este método com Ohsawa recordam-se de como era difícil e exigente.

Tudo era muito salgado, bebiam-se pouquíssimos líquidos e comiam-se quantidades muito reduzidas de alimentos.

Mastigava-se cada porção de comida cem ou até duzentas vezes.

Na maioria dos casos, praticava-se a dieta n.º 7.

Hoje, são poucas as pessoas que iniciam a macrobiótica desta forma.

Pelo contrário, as críticas a esse tipo de prática foram-se difundindo cada vez mais por todo o mundo.

Assim, a macrobiótica tornou-se mais Yin.

DEPOIS DO YANG, VEM SEMPRE O YIN.

Atualmente, a alimentação já não é tão salgada, bebe-se quando se tem sede, come-se em maiores quantidades, consomem-se ocasionalmente frutas e saladas, mastiga-se menos de sessenta vezes cada porção de alimento e a proporção de cereais já não ultrapassa necessariamente os 50%.

A antiga prática Yang era dura, rigorosa e, por vezes, até perigosa.

Pelo contrário, a prática atual, mais Yin, é apresentada como fácil, suave e sem riscos.

Não é necessariamente mau adotar esta alimentação mais Yin, considerada menos perigosa e menos sujeita a erros, pois também através dela se poderá atingir o objetivo de superar a doença e restabelecer a saúde.

No entanto, seria útil refletir sobre o seguinte princípio: YIN APÓS YANG — FACILIDADE APÓS DIFICULDADE

Neste mundo, todos os desenvolvimentos e movimentos seguem uma espiral que vai do Yang para o Yin.

Tudo começa com o Yang e termina com o Yin. É a própria representação da vida.

O processo de yanguização é muito difícil, enquanto o de yinização é bastante fácil.

A yanguização corresponde à concretização e à formação, ao passo que a yinização corresponde à dilatação e à decomposição.

Na prática macrobiótica, experimentamos o mesmo processo.

A yanguização é tão dura e difícil que exige uma vontade de ferro. Procura-se alcançá-la através do sal, da dieta n.º 7, de refeições yangizadas ou do treino físico.

Por outro lado, a yinização é fácil e agradável.

Todos os antigos praticantes de macrobiótica sabem como é delicioso beber um copo de água depois de dez dias de acumulação de sal e como uma taça de champanhe pode parecer ainda mais saborosa.

Há também muitas pessoas que passaram pela experiência de quase morrer devido a um excesso de Yin, por não conseguirem controlar o consumo de água ou de fruta.

Por isso, a maioria das pessoas concluiu que é necessário seguir uma alimentação que não seja nem demasiado Yang nem demasiado Yin, de modo a manter um bom equilíbrio.

No entanto, não podemos esquecer que nos identificamos mais facilmente com os modos de vida agradáveis e menos exigentes (Yin), uma vez que somos Yang por natureza e, por isso, nos sentimos atraídos pelo Yin.

O Yang representa a natureza da vida, enquanto o Yin representa a natureza da morte.

Assim, devemos procurar a yanguização.

O mestre Ohsawa procurava a yanguização a todo o custo.

É mais difícil e severa, mas também mais vital, favorece o nosso desenvolvimento e possui, segundo esta perspetiva, um extraordinário valor educativo.

É evidente que podemos restabelecer a saúde através de um método moderadamente Yin.

Contudo, se começarmos a prática macrobiótica pelo método Yin, a yanguização que se seguirá será difícil.

Pelo contrário, se começarmos pela yanguização, a yinização posterior será facilitada.

Poderemos, então, desfrutar de uma vida longa, aventureira e divertida, que corresponde ao verdadeiro significado da macrobiótica: YIN DEPOIS DO YANG.

Por outras palavras, a felicidade só surge depois de grandes dificuldades e sofrimentos.

Yin depois do Yang.

É como dizer que devemos procurar, a todo o custo, as dificuldades e os infortúnios para descobrirmos a felicidade.

O nosso discernimento desenvolve-se profundamente quando somos confrontados com adversidades e obstáculos ao longo da vida.

A macrobiótica é uma forma prática de nos orientar, fortalecendo a nossa vontade na procura da Felicidade e da Liberdade absolutas e infinitas.

Ou seja: O GRANDE YIN DEPOIS DO YANG.


CLIM YOSHIMI

Tradutor das obras de Georges Ohsawa do japonês para francês, secretário de Ohsawa e autor de numerosos textos sobre macrobiótica.

 

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