A ESSÊNCIA
DA MACROBIÓTICA
Clim Yoshimi
RESUMO (IA) —
Segundo Clim
Yoshimi, a macrobiótica é muito mais do que um método alimentar destinado a
prevenir doenças e promover a saúde. É uma filosofia de vida baseada na Ordem
do Universo e no Princípio Único, cujo objetivo fundamental é alcançar a
felicidade e a liberdade infinitas.
O autor
distingue entre conhecer as regras da macrobiótica e compreender
verdadeiramente a sua essência. Esta compreensão não se adquire apenas através
de livros, teorias ou ensinamentos, mas sobretudo pela prática consciente, pela
experiência pessoal e pelo desenvolvimento do discernimento.
Recorrendo a
uma analogia com o Zen, Yoshimi explica que, tal como um discípulo precisa de
sair do templo para compreender plenamente os ensinamentos recebidos, também o
praticante de macrobiótica deve ultrapassar a obediência rígida às regras
alimentares e conquistar a sua autonomia.
O
questionamento e as dúvidas que surgem após anos de prática não representam
necessariamente um afastamento da macrobiótica, mas podem constituir uma etapa
importante do amadurecimento pessoal.
O autor
compara ainda a macrobiótica rigorosa dos primeiros tempos de Georges Ohsawa,
caracterizada por uma alimentação muito Yang, com a prática posterior, mais
flexível e Yin.
Na sua
interpretação, o Yang representa a disciplina, a concentração, o esforço e a
formação, enquanto o Yin simboliza a expansão, a facilidade e a libertação.
Yoshimi considera que as dificuldades e os desafios fortalecem a vontade e desenvolvem
o discernimento, preparando o indivíduo para uma liberdade mais ampla.
Assim, a
expressão «Yin depois do Yang» traduz a ideia de que a verdadeira felicidade e
a liberdade resultam de um processo de aprendizagem, esforço e superação.
Ideia fundamental
A essência da
macrobiótica não reside na aplicação rígida de regras alimentares, mas na
capacidade de compreender os seus princípios e utilizá-los livremente, com
consciência e discernimento.
A verdadeira
macrobiótica começa com a disciplina, amadurece através da experiência e
culmina na liberdade.
O texto
constitui uma reflexão filosófica sobre a evolução do praticante, desde a
obediência aos ensinamentos de um mestre até à autonomia pessoal.
A sua mensagem
mais atual é a necessidade de ultrapassar o dogmatismo alimentar, sem perder os
princípios fundamentais da macrobiótica.
Em síntese: a
macrobiótica, para Yoshimi, não deve transformar-se numa prisão de regras, mas
num caminho de autoconhecimento, discernimento e liberdade.
~~~~~~~~~~~~~~~~
TEXTO (Clim Yoshimi)-
Há já algum
tempo que a palavra «macrobiótica» se tem tornado cada vez mais conhecida do
público em geral, sendo frequentemente utilizada em jornais e revistas de todo
o mundo.
A macrobiótica
encontra-se atualmente muito difundida a nível mundial. Pode dizer-se que este
é um fenómeno natural, pois nunca vivemos uma época como a atual. Nunca houve
tantas interrogações sobre a saúde e a felicidade do ser humano, uma vez que
nem a medicina, nem a educação, nem a política conseguiram apresentar uma
solução clara para esta catástrofe moderna.
A macrobiótica
é um método alimentar que pode ser praticado por qualquer pessoa, em qualquer
momento e em qualquer lugar, permitindo alcançar uma saúde que ultrapassa a
simples ausência de doenças físicas e uma felicidade que transcende a alegria e
a tristeza.
Este método é,
portanto, muito mais do que uma medicina preventiva. É uma chave para a solução
fundamental de todos os problemas humanos.
Por
desconhecerem este segredo, quantos grandes filósofos, homens ilustres e sábios
não conseguiram ultrapassar a última barreira e encontrar a felicidade
absoluta! Podemos encontrar exemplos disso nos escritos de Ohsawa.
Muitos deles
foram criados segundo princípios macrobióticos, sem disso terem consciência,
devido à tradição ou às circunstâncias em que viveram. No entanto, não
conseguiram alcançar a felicidade absoluta porque, infelizmente, desconheciam o
verdadeiro significado — o princípio, o Princípio Único — dessa alimentação.
Nós temos a
sorte de ter conhecido a macrobiótica, seja por acaso, seja em consequência de
uma doença.
O nosso método
não representa simplesmente um regresso à alimentação tradicional do tempo dos
nossos avós. Constitui uma evolução incomparável da alimentação segundo a Ordem
do Universo.
É uma
revolução para a humanidade, através da qual o ser humano passa a ter nas suas
próprias mãos a liberdade total da vida, algo que os nossos antepassados não
puderam alcançar.
É por isso que
precisamos de algum tempo para compreender a essência da macrobiótica.
Toda a gente
consegue compreender facilmente os seus conceitos, mas a compreensão da sua
verdadeira essência exige muito tempo, por vezes mais de dez anos.
A compreensão
através das teorias ou das explicações não é suficiente. Trata-se de um
conhecimento superficial, e não existe outro caminho senão a prática diária,
consciente e atenta, para assimilar a verdadeira essência da macrobiótica.
Não podemos
conhecer verdadeiramente um país estrangeiro sem o visitar e continuaremos a
desconhecer a mentalidade profunda do seu povo se não permanecermos nele
durante um período suficientemente longo, talvez dez anos.
Muitas pessoas
que começam a praticar macrobiótica acabam por sentir dúvidas ao fim de alguns
anos, ou mesmo depois de muitos anos de prática.
Começam então
a pensar: «Afinal, gostaria agora de adotar uma alimentação mais aberta e
diversificada.»
Ou dizem: «A
vida não se resume à alimentação. Existe alguma coisa para além de comer.»
E começam a
procurar esse «algo», dia e noite, nos livros, nas religiões, junto de outros
mestres e professores.
Não será este
um fenómeno que ocorre com muitos praticantes de macrobiótica?
Pensar que
descobrimos a essência da macrobiótica em poucos anos pode constituir uma
ilusão, uma tragédia irreparável.
Por vezes,
ouvimos dizer: «Ele começou, finalmente, a compreender verdadeiramente a
macrobiótica.»
Isto significa
que, até então, apenas a compreendia de forma cega ou superficial.
Se não
abandonar essa antiga maneira de compreender e praticar a macrobiótica, como
quem deixa para trás um livro ultrapassado, não poderá progredir nem adquirir
uma visão mais ampla.
O DESAPEGO E A VERDADEIRA COMPREENSÃO
No Zen,
diz-se: «Entra-se num templo para aprender o Zen. Passam-se anos, anos e anos a
praticar Zazen e a estudar os ensinamentos de Buda, sob a orientação de um
mestre.
Pouco a pouco,
assimilam-se determinados segredos do Zen e alcança-se um certo desenvolvimento
espiritual.
Mas, enquanto
permanecermos fechados dentro do templo Zen, não conseguiremos contemplar a
verdadeira face do Zen.
Só quando
sairmos do templo poderemos descobrir, pela primeira vez, o que é realmente o
Zen.»
Este é o
verdadeiro significado do DESAPEGO no Zen.
A macrobiótica
que muitos de nós praticamos durante anos assemelha-se à vida dentro de um
templo Zen.
De certa
forma, permanecemos todos submetidos aos ensinamentos da macrobiótica, como
crianças que obedecem docilmente aos seus pais, chegando, por vezes, a
tornar-nos fanáticos.
Depois de
alguns anos, começamos a duvidar da própria macrobiótica.
É então que,
pela primeira vez, começamos a observá-la de forma objetiva. E isso não
representa outra coisa senão um progresso.
Ao chegarmos a
este ponto, não devemos limitar-nos a criticar ou acusar a macrobiótica.
Devemos, antes, questionar a nossa própria compreensão limitada e a rigidez ou
falta de habilidade com que a praticámos.
O que devemos
fazer, então, é recomeçar a nossa própria prática macrobiótica, mas com
uma compreensão renovada.
Não podemos
esquecer que a macrobiótica não é, de modo algum, estreita, rígida ou
exclusiva, nem constitui simplesmente uma tradição.
É uma grande
filosofia de vida, cujo objetivo final é a LIBERDADE INFINITA.
Não é
tradicionalista, porque, enquanto método assim concebido, não existia
anteriormente.
DA MACROBIÓTICA RIGOROSA À MACROBIÓTICA MAIS
FLEXÍVEL
Atualmente, a
prática macrobiótica tornou-se muito mais fácil e menos rigorosa do que nos
primeiros tempos, quando Ohsawa a introduziu em França.
Aqueles que
aprenderam diretamente este método com Ohsawa recordam-se de como era difícil e
exigente.
Tudo era muito
salgado, bebiam-se pouquíssimos líquidos e comiam-se quantidades muito
reduzidas de alimentos.
Mastigava-se
cada porção de comida cem ou até duzentas vezes.
Na maioria dos
casos, praticava-se a dieta n.º 7.
Hoje, são
poucas as pessoas que iniciam a macrobiótica desta forma.
Pelo
contrário, as críticas a esse tipo de prática foram-se difundindo cada vez mais
por todo o mundo.
Assim, a
macrobiótica tornou-se mais Yin.
DEPOIS DO YANG, VEM SEMPRE O YIN.
Atualmente, a
alimentação já não é tão salgada, bebe-se quando se tem sede, come-se em
maiores quantidades, consomem-se ocasionalmente frutas e saladas, mastiga-se
menos de sessenta vezes cada porção de alimento e a proporção de cereais já não
ultrapassa necessariamente os 50%.
A antiga
prática Yang era dura, rigorosa e, por vezes, até perigosa.
Pelo
contrário, a prática atual, mais Yin, é apresentada como fácil, suave e sem
riscos.
Não é
necessariamente mau adotar esta alimentação mais Yin, considerada menos
perigosa e menos sujeita a erros, pois também através dela se poderá atingir o
objetivo de superar a doença e restabelecer a saúde.
No entanto,
seria útil refletir sobre o seguinte princípio: YIN APÓS YANG — FACILIDADE
APÓS DIFICULDADE
Neste mundo,
todos os desenvolvimentos e movimentos seguem uma espiral que vai do Yang para
o Yin.
Tudo começa
com o Yang e termina com o Yin. É a própria representação da vida.
O processo de
yanguização é muito difícil, enquanto o de yinização é bastante fácil.
A yanguização
corresponde à concretização e à formação, ao passo que a yinização corresponde
à dilatação e à decomposição.
Na prática
macrobiótica, experimentamos o mesmo processo.
A yanguização
é tão dura e difícil que exige uma vontade de ferro. Procura-se alcançá-la
através do sal, da dieta n.º 7, de refeições yangizadas ou do treino físico.
Por outro
lado, a yinização é fácil e agradável.
Todos os
antigos praticantes de macrobiótica sabem como é delicioso beber um copo de
água depois de dez dias de acumulação de sal e como uma taça de champanhe pode
parecer ainda mais saborosa.
Há também
muitas pessoas que passaram pela experiência de quase morrer devido a um
excesso de Yin, por não conseguirem controlar o consumo de água ou de fruta.
Por isso, a
maioria das pessoas concluiu que é necessário seguir uma alimentação que não
seja nem demasiado Yang nem demasiado Yin, de modo a manter um bom equilíbrio.
No entanto,
não podemos esquecer que nos identificamos mais facilmente com os modos de vida
agradáveis e menos exigentes (Yin), uma vez que somos Yang por natureza e, por
isso, nos sentimos atraídos pelo Yin.
O Yang
representa a natureza da vida, enquanto o Yin representa a natureza da morte.
Assim, devemos
procurar a yanguização.
O mestre
Ohsawa procurava a yanguização a todo o custo.
É mais difícil
e severa, mas também mais vital, favorece o nosso desenvolvimento e possui,
segundo esta perspetiva, um extraordinário valor educativo.
É evidente que
podemos restabelecer a saúde através de um método moderadamente Yin.
Contudo, se
começarmos a prática macrobiótica pelo método Yin, a yanguização que se seguirá
será difícil.
Pelo
contrário, se começarmos pela yanguização, a yinização posterior será
facilitada.
Poderemos,
então, desfrutar de uma vida longa, aventureira e divertida, que corresponde ao
verdadeiro significado da macrobiótica: YIN DEPOIS DO YANG.
Por outras
palavras, a felicidade só surge depois de grandes dificuldades e sofrimentos.
Yin depois do
Yang.
É como dizer
que devemos procurar, a todo o custo, as dificuldades e os infortúnios para
descobrirmos a felicidade.
O nosso
discernimento desenvolve-se profundamente quando somos confrontados com
adversidades e obstáculos ao longo da vida.
A macrobiótica
é uma forma prática de nos orientar, fortalecendo a nossa vontade na procura da
Felicidade e da Liberdade absolutas e infinitas.
Ou seja: O
GRANDE YIN DEPOIS DO YANG.
CLIM YOSHIMI
Tradutor das obras de Georges Ohsawa do japonês
para francês, secretário de Ohsawa e autor de numerosos textos sobre
macrobiótica.