Tuesday, November 3, 2026

 


Nogueira

Por: Miguel Boieiro

O catolicismo consagrou um santo (ou mais) a cada dia dos 365 (ou 366) que integram o calendário anual. Não contente com isso, não vá ainda faltar algum, estabeleceu 1 de novembro como o dia de todos os santos. Em várias situações, a ligação tinha que ver com as práticas agrícolas. Recordemos, por exemplo, o dito de que “em dia de São Lourenço, vai à vinha e enche o lenço”, ou “Chuva de São João tira vinho e não dá pão”. Daí, não nos surpreender o termos encontrado o seguinte provérbio castelhano:

 “Por San Justo y San Pastor entran las nueces em sabor, las mozas em amor y las viejas em dolor”.

Ora, deste enigmático provérbio, devido a especificidade das nossas croniquetas botânicas, só nos interessam as “nozes”. Os amores das donzelas e as dores das velhas, ficam para averiguações de outros especialistas. Então, navegando pelo “doutor Google”, ficámos a saber que o tal santificado dia, parece corresponder ao 6 de setembro. Portanto, a conclusão lógica é de que, a partir da referida data, as nozes ficam disponíveis e mais apaladadas. Esta referência vem no volumoso “Plantas Medicinales: El  Dioscórides Renovado” de Pio Font Quer.

 

Escolhi esta curiosa introdução para caracterizar a nogueira, ou seja, a árvore que dá as nozes e  daí, suscitar o apetite dos leitores.

 

A nogueira, cuja designação científica é Juglans regia, pertence à família botânica das Juglandacae. É árvore milenar, de folha caduca, cultivada na Europa há vários milénios devido à  reputada importância dos seus frutos e à boa qualidade da sua madeira.

Não se sabe bem onde foi a sua origem mas, os entendidos defendem que apareceu  algures no médio oriente donde, por mão humana, se espalhou praticamente por todo o mundo.

Segundo a prestigiada revista francesa Cueillir, a nogueira já seria cultivada pelos persas há, pelo menos, 7 mil anos. Na antiguidade clássica, gregos e romanos  concederam-lhe estatuto divino ligado ao deus Júpiter, sendo as nozes reservadas para os festins e ofertas às personagens ilustres.

De copa larga e ramos tortuosos, cresce rapidamente e, se beneficiar de boas condições, pode atingir 30 metros de altura. Para frutificar, necessita de algum frio durante a época invernal com temperaturas que, nalgum momento,  não  excedam os 7 graus. A espécie é monoica, ou seja, possui na mesma árvore flores masculinas e femininas. As masculinas formam amentilhos amarelados, enquanto as femininas são em menor número e pouco expressivas. O amadurecimento sexual das flores dá-se em tempos diferentes por forma a viabilizar a fecundação cruzada, a qual é efetuada pelo vento.

As folhas são alternas, de forma ovalada e com folíolos. Os frutos aparecem no fim da primavera, formando drupas verdes que escurecem à medida que vão secando, acabando por libertar as nozes no dealbar do outono. Adverte-se, no entanto, que a árvore só frutifica cerca de dez anos após a respetiva plantação.

Tanto a folhagem, como as raízes, contêm uma substância  denominada juglona que produz alelotia, propriedade que inibe o desenvolvimento de outras espécies na proximidade da sua área de implantação.

O miolo da noz possui elevado valor nutricional com vitaminas C, P e do complexo B, caroteno, selénio, magnésio, zinco, cobre,  óleos vegetais, lecitina e ácidos gordos ómega 3. Aponta-se que chega incrivelmente a alcançar 50% do seu peso em gordura. Há contudo, um inconveniente a registar. Se as nozes não forem bem acondicionadas, rançam com facilidade, ficando impróprias para consumo.

Da abundante literatura existente sobre o benefício das nozes, respigámos as seguintes vantagens de se ingerir meia dúzia delas diariamente: menor queda e crescimento  rápido do cabelo, unhas mais fortes, pele radiante e jovem, melhor concentração cerebral, bom humor, desempenho físico mais fácil, perda de peso, aumento da imunidade… E não falamos das milhentas utilizações em receitas culinárias.

A infusão das folhas e da casca verde (pericarpo) do fruto combate diabetes, reumatismo, raquitismo e obesidade, promove a diurese e estimula a função hepática.

A madeira possui um brilho atraente e resiste ao ataque de insetos, tendo valiosa aplicação na confeção de mobiliário de qualidade

As cascas são ricas em tanino e pigmentos naturais as quais serviam outrora para tingir tecidos e mesmo fabricar tintas.

Miguel Boieiro, Novembro de 2026

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