Nogueira
Por: Miguel
Boieiro
O catolicismo consagrou um
santo (ou mais) a cada dia dos 365 (ou 366) que integram o calendário anual.
Não contente com isso, não vá ainda faltar algum, estabeleceu 1 de novembro
como o dia de todos os santos. Em várias situações, a ligação tinha que ver com
as práticas agrícolas. Recordemos, por exemplo, o dito de que “em dia de São
Lourenço, vai à vinha e enche o lenço”, ou “Chuva de São João tira vinho
e não dá pão”. Daí, não nos surpreender o termos encontrado o seguinte
provérbio castelhano:
“Por San Justo y San Pastor entran las
nueces em sabor, las mozas em amor y las viejas em dolor”.
Ora, deste enigmático
provérbio, devido a especificidade das nossas croniquetas botânicas, só nos
interessam as “nozes”. Os amores das donzelas e as dores das velhas, ficam para
averiguações de outros especialistas. Então, navegando pelo “doutor Google”,
ficámos a saber que o tal santificado dia, parece corresponder ao 6 de
setembro. Portanto, a conclusão lógica é de que, a partir da referida data, as
nozes ficam disponíveis e mais apaladadas. Esta referência vem no volumoso
“Plantas Medicinales: El Dioscórides
Renovado” de Pio Font Quer.
Escolhi esta curiosa
introdução para caracterizar a nogueira, ou seja, a árvore que dá as nozes
e daí, suscitar o apetite dos leitores.
A nogueira, cuja
designação científica é Juglans regia, pertence à família
botânica das Juglandacae. É árvore milenar, de folha caduca, cultivada
na Europa há vários milénios devido à
reputada importância dos seus frutos e à boa qualidade da sua madeira.
Não se sabe bem onde foi a
sua origem mas, os entendidos defendem que apareceu algures no médio oriente donde, por mão
humana, se espalhou praticamente por todo o mundo.
Segundo a prestigiada
revista francesa Cueillir, a nogueira já seria cultivada pelos persas
há, pelo menos, 7 mil anos. Na antiguidade clássica, gregos e romanos concederam-lhe estatuto divino ligado ao deus
Júpiter, sendo as nozes reservadas para os festins e ofertas às personagens
ilustres.
De copa larga e ramos
tortuosos, cresce rapidamente e, se beneficiar de boas condições, pode atingir
30 metros de altura. Para frutificar, necessita de algum frio durante a época
invernal com temperaturas que, nalgum momento,
não excedam os 7 graus. A espécie
é monoica, ou seja, possui na mesma árvore flores masculinas e femininas. As
masculinas formam amentilhos amarelados, enquanto as femininas são em menor
número e pouco expressivas. O amadurecimento sexual das flores dá-se em tempos
diferentes por forma a viabilizar a fecundação cruzada, a qual é efetuada pelo
vento.
As folhas são alternas, de
forma ovalada e com folíolos. Os frutos aparecem no fim da primavera, formando
drupas verdes que escurecem à medida que vão secando, acabando por libertar as
nozes no dealbar do outono. Adverte-se, no entanto, que a árvore só frutifica
cerca de dez anos após a respetiva plantação.
Tanto a folhagem, como as
raízes, contêm uma substância denominada
juglona que produz alelotia, propriedade que inibe o
desenvolvimento de outras espécies na proximidade da sua área de implantação.
O miolo da noz possui
elevado valor nutricional com vitaminas C, P e do complexo B, caroteno,
selénio, magnésio, zinco, cobre, óleos
vegetais, lecitina e ácidos gordos ómega 3. Aponta-se que chega incrivelmente a
alcançar 50% do seu peso em gordura. Há contudo, um inconveniente a registar. Se
as nozes não forem bem acondicionadas, rançam com facilidade, ficando
impróprias para consumo.
Da abundante literatura
existente sobre o benefício das nozes, respigámos as seguintes vantagens de se
ingerir meia dúzia delas diariamente: menor queda e crescimento rápido do cabelo, unhas mais fortes, pele
radiante e jovem, melhor concentração cerebral, bom humor, desempenho físico
mais fácil, perda de peso, aumento da imunidade… E não falamos das milhentas
utilizações em receitas culinárias.
A infusão das folhas e da
casca verde (pericarpo) do fruto combate diabetes, reumatismo, raquitismo e
obesidade, promove a diurese e estimula a função hepática.
A madeira possui um brilho
atraente e resiste ao ataque de insetos, tendo valiosa aplicação na confeção de
mobiliário de qualidade
As cascas são ricas em tanino e pigmentos naturais as quais serviam outrora para tingir tecidos e mesmo fabricar tintas.
Miguel Boieiro, Novembro de
2026

No comments:
Post a Comment